A Caminhante me enviou um même, a idéia é arrolar os 5 personagens mais marcantes da sua experiência literária. Ela fez um ranking na sua apresentação, mas vou colocar os meus aqui sem ordem de prioridade e importância, pois de fato não consigo metrificá-los.
Eis a lista:
Anna Karenina. Já faz tanto tempo que pousei os olhos sobre ela que perdi os detalhes do seu caráter, mas impressionou-me indelevelmente a sua intempestividade sentimental, os seus arroubos caprichosos e, o que nos transparece de maneira mais viva no seu drama, a vivência angustiante do vazio, até que ela encontra alguma esperança ou sentido no amor.
Bentinho. É o exemplo mais do que perfeito do efeito de um caráter cético na vida prática. Como é a vida de alguém que tem a desconfiança incrustada no peito? Eis Bentinho. A mesma narrativa contada por outros olhos provavelmente teria um tom mais conclusivo a respeito da suposta traição de Capitu, mas não pelos olhos céticos de Bentinho.
Príncipe. O que mais me chamou atenção em sua personalidade não foi tanta a sua imensa disposição para a compaixão, mas a consciência sofrida das suas limitações mentais. E acabei me compadecendo por ele ao longo de quase todo o livro.
Andrey Nikolayevich Bolkonsky. O que é a experiência de morte? Como enfrentar o medo da morte? Bolkonsky é ferido gravemente em uma batalha contra os franceses de Napoleão e durante duas semanas, em seu leito de morte, o vemos refletindo sobre essas questões. É a narrativa mais densa que já li sobre a experiência de morte, sobre o enfrentamento da própria morte. Cheguei até a idealizar uma morte igualmente lenta para mim, a fim de que pudesse degustá-la também aos poucos.
Sinclair. É um personagem tão sombrio quando deveria ser para alguém que se coloca desde cedo a árdua e sofrível missão de mergulhar em si mesmo em busca do auto-conhecimento. O enfrentamento das verdades pessoais mais duras é vivenciado com profunda consciência e introspecção. Não há muito espaço para o auto-engano.
segunda-feira, março 17, 2008
domingo, março 16, 2008
nonsense
Eu peguei a conversa no meio, mas pude entender muito bem quando ela disse à amiga que não tinham ficado um segundo sequer em silêncio, que fora um jantar espetacular, que era uma pena não ter batido o físico e tal, que, de outro modo, nas palavras dela, ele seria o seu número certo de sapato. Acho engraçado falar de relacionamentos como se fosse uma questão de encaixar aqui e ali, parece que estão montando um quebra-cabeças, um freudiano diria que no fundo essa metáfora de sapatos, gavetas e sei lá mais o que é apenas uma camuflagem para a penetração. Faz sentido, porque a moça falou do físico e tal. E não sai da minha cabeça o seu critério para a seleção do perfil psicológico perfeito: nenhum segundo em silêncio, nem um, nem meio, nem zero. Eu, eu que sou um autista sem a indiferença do autista, que faço com isso? Eu me pergunto se essas pessoas que falam o tempo todo se lembram depois de tudo o que falaram. É, mas aí também tem um erro meu, por que diabos dar tanta importância assim à memória, à lembrança? As pessoas estão apenas ali falando, falando e falando e a única finalidade mesmo é falar, não é lembrar. Eu não, além de falar, quero lembrar, pois, enquanto falo e ouço, absorvo tudo que estou sentindo ao longo. Se não lembro, se não posso reviver essas sensações, que sentido teve falar tanto? Mas isso também é meio idiota. Para que reviver ali solitariamente impressões passadas se posso simplesmente viver novamente com muito mais vivacidade essas sensações? Daí que falar, falar e falar parece ser até mais coerente. Pode até ser, é que a minha preocupação com o sentido me impede de simplesmente falar, falar e falar sem nunca pensar. No fundo sou apenas o resultado de uma patologia, de uma anormalidade, alguém, como muitos outros por aí, que sofre de uma obsessão relativamente acentuada com o sentido. Tem cura para isso? Não sei. Tem droguinha para isso? Também não sei. Só sei que nada disso faz sentido.
sábado, março 15, 2008
Amor nos tempos do Cólera.
Logo depois de ter entregado à amada a sua primeira carta de amor, Florentino Ariza volta para casa febril, sofrendo todo o desespero da espera de uma possível resposta. Consolado pela mãe, ela lhe diz para aproveitar bem aquela dor, dor de amor, pois ela não iria durar para sempre. É o que penso das minhas dores, todas elas, exceto as dores físicas, é claro, falo aqui das dores da alma; essas eu procuro saborear na mais absoluta sobriedade, sem analgésicos etílicos ou qualquer outro amaciante entorpecente. Quero viver completamente as minhas dores, extrair delas todo o conhecimento possível, pois só assim mitigo o meu medo, e o que é mais importante, só assim me sensibilizo para o outro.
Lembro em especial agora das dores de morte, dores que nascem com términos, abandonos, finais e, claro, com a própria morte. Uma em especial é-me inesquecível, pela forma como me arrebatou, me consumiu e dilacerou ao longo de algumas semanas. Noites em claro, choro compulsivo, e o que era mais aterrador: impossibilidade completa de imaginar o amanhã, como se a mente estivesse amarrada no pé da cama e não conseguisse se projetar no além. E o além tomava a forma do próprio vazio. Chegava a sentir pânico com o embotamento da imaginação, a impossibilidade de sonhar, por mais que tentasse e esforçasse, não conseguia. Era-me mesmo impossível imaginar até as coisas mais banais do dia-a-dia, como tomar café da manhã, ir para a faculdade etc. Eu pedia desesperadamente pelas imagens, mas a mente recusava-se a formá-las. Tal desespero emocional infundia-se pelo corpo na forma de calafrios, náuseas e uma certa queimação da região lombar que até hoje não sei identificar muito bem o que é. Quando a dor psíquica é muito grande, o corpo se ressente também, se enfraquece. Penso nesses dias sem pesar algum, mesmo com um olho atento ao temor que me provocam, pois também me evocam um amor que já senti e desta lembrança eu gosto. É esperançosa.
O filme do título é bom, mesmo para quem já leu o livro, mas desaponta logo na primeira fala com o inglês canhestro saído da boca do Juvenal, ali estirado no chão, morrendo. Espanhol, por favor!
Lembro em especial agora das dores de morte, dores que nascem com términos, abandonos, finais e, claro, com a própria morte. Uma em especial é-me inesquecível, pela forma como me arrebatou, me consumiu e dilacerou ao longo de algumas semanas. Noites em claro, choro compulsivo, e o que era mais aterrador: impossibilidade completa de imaginar o amanhã, como se a mente estivesse amarrada no pé da cama e não conseguisse se projetar no além. E o além tomava a forma do próprio vazio. Chegava a sentir pânico com o embotamento da imaginação, a impossibilidade de sonhar, por mais que tentasse e esforçasse, não conseguia. Era-me mesmo impossível imaginar até as coisas mais banais do dia-a-dia, como tomar café da manhã, ir para a faculdade etc. Eu pedia desesperadamente pelas imagens, mas a mente recusava-se a formá-las. Tal desespero emocional infundia-se pelo corpo na forma de calafrios, náuseas e uma certa queimação da região lombar que até hoje não sei identificar muito bem o que é. Quando a dor psíquica é muito grande, o corpo se ressente também, se enfraquece. Penso nesses dias sem pesar algum, mesmo com um olho atento ao temor que me provocam, pois também me evocam um amor que já senti e desta lembrança eu gosto. É esperançosa.
O filme do título é bom, mesmo para quem já leu o livro, mas desaponta logo na primeira fala com o inglês canhestro saído da boca do Juvenal, ali estirado no chão, morrendo. Espanhol, por favor!
terça-feira, março 11, 2008
Fé em si mesmo
Se eu fosse recomendar um preceito para o bem-viver tal como o fazem religiosos ou membros de uma seita qualquer, ele teria a seguinte forma: tenha fé em si mesmo. Há outros que querem dizer a mesma coisa, mas sob perspectivas diferentes: seja sempre o seu juiz, seja fiel a si mesmo etc. Prefiro, no entanto, o primeiro, o termo "fé" ali é significativo e, ao mesmo tempo, paradoxal. Ele indica uma força irracional, um meio de se sustentar, de manter a confiança em si, mesmo quando todas as razões lhe indicam o contrário. Contudo, é paradoxal que ele apareça em um preceito quando ele é o próprio sustentáculo do ser e não algo que se possa escolher, seguir ou agir em conformidade por livre arbítrio. Ainda assim ele cabe naquela fórmula. Em se tendo essa força, ela se auto-propulsiona, ela leva o sujeito a segui-la.
domingo, março 09, 2008
Ato público
Chega! Hoje vou ter de contar. Guardei essa observação por muito tempo pensando que ela fosse incorreta, afinal, quando mudamos para uma cidade nova, chegamos lá de olhos arregalados, procurando por qualquer diferença comportamental, só que nos esquecemos que não mantínhamos os olhos assim tão abertos na cidade de origem e o que agora nos parece diferente na cidade nova talvez fosse habitual também na de origem. Enfim, julgamentos comparativos que não foram balizados por uma metodologia mais rigorosa são muito provavelmente errôneos. Foi com este medo que protelei o que logo lhes confessarei. Não que eu tenha me munido de uma metodologia muito rigorosa para atestar a verdade do meu juízo, mas considero a evidência reunida bastante razoável.
Na verdade, até hoje eu achava que o meu juízo deveria se limitar ao curitibano do sexo masculino. Mas eis que minha mãe, tendo passado oito meses em Porto Alegre, lança, sem que eu lhe tenha falado absolutamente nada sobre o assunto, o mesmo juízo a respeito dos porto-alegrenses. Fiquei imensamente surpreso na hora. Não que eu pretenda agora alargar o meu juízo e transformá-lo numa sentença regionalista, continuarei me limitando aos curitibanos, foram os que presenciei. No entanto, o fato de a minha mãe ter notado lá em Porto Alegre o mesmo que observo aqui sugere, pela diversidade das fontes de informação, que nossos olhos não estão, neste caso, tão carregados de prejuízo. Até porque a minha mãe não é do tipo antropólogo e se este comportamento lhe saltou às vistas, então é mais provável que de fato haja uma diferença comportamental do que ela tenha simplesmente notado algo que também é habitual na sua cidade apenas por estar com olhos mais abertos.
Tudo começou quando, andando em uma rua bem próxima do centro, de movimento considerável de carros e pessoas, observei um cidadão fazendo X. Achei um pouco estranho, mas na hora nem dei muito assunto, pensei se tratar de coisa de bêbado, apesar da claridade e do horário: meio-dia. Com o tempo, comecei a observar outros cidadãos fazendo o mesmo com relativa freqüência, e o que é pior, não se poderia dizer que estavam bêbados, de modo algum. Vi trabalhadores, jovens, adultos, vi até aluno da UFPR fazendo X ou pelo menos usava a mochila da instituição e se vestia como estudante, enfim, o ato não parece fazer distinção social ou de idade. Vi eles fazendo isso em ruas movimentadas em pela luz do dia. Não é nada recatado, não percebo nenhuma vontade de esconder o ato. Parece que fazem disso um assunto público mesmo. Um dia, para o meu espanto, vejo um moleque de uns 10 anos de idade fazendo X em pleno pátio do centro politécnico. O pai ao lado nada falou. Eu fiquei encafifado, ficava pensando, será que em Belo Horizonte faziam isso e nunca notei? É tão comum e despudorado lá quanto é aqui?
Em meu socorro vieram outros forasteiros, alguns paulistas, outros nortistas, compartilhando o meu espanto. Falando baixinho, quase segregando, relataram-me também as inúmeras vezes que viram curitibanos do sexo masculino fazendo X. Contaram-me a mesma despreocupação com o horário e o lugar que eu já tinha observado. Era o que me faltava para fortalecer a convicção do meu juízo e afastar a idéia de que estava sendo preconceituoso com os curitibanos. Ainda assim faço o juízo com certa timidez, pois é espantoso que um povo tão orgulhoso da sua civilidade, que não joga papel no chão, o que aliás muito me agrada, faça isso assim nas suas ruas de maneira tão despudorada e com tanta freqüência.
O que é X, afinal? Cansei de ver nessa cidade os seus espécimes masculinos abrirem sem vergonha suas barguilhas, retirarem seus equipamentos sexuais para fora a fim de regar a cidade com o seu amor uréico. Sim, já ouço o clamor indignado. Até parece que ninguém mija nas ruas em Belo Horizonte ou São Paulo. Claro que muitos mijam, eu mesmo já mijei. Mas na noite calada, na surdina, completamente bêbado, e ainda assim envergonhado, andando várias quadras até encontrar um beco bem escuro, olhando para todos os lados temendo o flagrante. O que me espanta aqui não é o fato bruto de mijarem, mas o fato de não sentirem vergonha, de não se preocuparem em se esconder, de não selecionar ruas vazias e desertas. Talvez em Belo Horizonte mijem nas ruas com a mesma freqüência que se mija aqui, mas como fazem isso na surdina, ninguém nota, ninguém vê, não é algo que salta às vistas. Aqui não, não há dia que caminhe umas três horas pela cidade sem ver uma instância do ato impudico. E segundo os relatos da minha mãe, acontece o mesmo em Porto Alegre. Vai ver é coisa do sulista fazer da mijada um ato público.
Na verdade, até hoje eu achava que o meu juízo deveria se limitar ao curitibano do sexo masculino. Mas eis que minha mãe, tendo passado oito meses em Porto Alegre, lança, sem que eu lhe tenha falado absolutamente nada sobre o assunto, o mesmo juízo a respeito dos porto-alegrenses. Fiquei imensamente surpreso na hora. Não que eu pretenda agora alargar o meu juízo e transformá-lo numa sentença regionalista, continuarei me limitando aos curitibanos, foram os que presenciei. No entanto, o fato de a minha mãe ter notado lá em Porto Alegre o mesmo que observo aqui sugere, pela diversidade das fontes de informação, que nossos olhos não estão, neste caso, tão carregados de prejuízo. Até porque a minha mãe não é do tipo antropólogo e se este comportamento lhe saltou às vistas, então é mais provável que de fato haja uma diferença comportamental do que ela tenha simplesmente notado algo que também é habitual na sua cidade apenas por estar com olhos mais abertos.
Tudo começou quando, andando em uma rua bem próxima do centro, de movimento considerável de carros e pessoas, observei um cidadão fazendo X. Achei um pouco estranho, mas na hora nem dei muito assunto, pensei se tratar de coisa de bêbado, apesar da claridade e do horário: meio-dia. Com o tempo, comecei a observar outros cidadãos fazendo o mesmo com relativa freqüência, e o que é pior, não se poderia dizer que estavam bêbados, de modo algum. Vi trabalhadores, jovens, adultos, vi até aluno da UFPR fazendo X ou pelo menos usava a mochila da instituição e se vestia como estudante, enfim, o ato não parece fazer distinção social ou de idade. Vi eles fazendo isso em ruas movimentadas em pela luz do dia. Não é nada recatado, não percebo nenhuma vontade de esconder o ato. Parece que fazem disso um assunto público mesmo. Um dia, para o meu espanto, vejo um moleque de uns 10 anos de idade fazendo X em pleno pátio do centro politécnico. O pai ao lado nada falou. Eu fiquei encafifado, ficava pensando, será que em Belo Horizonte faziam isso e nunca notei? É tão comum e despudorado lá quanto é aqui?
Em meu socorro vieram outros forasteiros, alguns paulistas, outros nortistas, compartilhando o meu espanto. Falando baixinho, quase segregando, relataram-me também as inúmeras vezes que viram curitibanos do sexo masculino fazendo X. Contaram-me a mesma despreocupação com o horário e o lugar que eu já tinha observado. Era o que me faltava para fortalecer a convicção do meu juízo e afastar a idéia de que estava sendo preconceituoso com os curitibanos. Ainda assim faço o juízo com certa timidez, pois é espantoso que um povo tão orgulhoso da sua civilidade, que não joga papel no chão, o que aliás muito me agrada, faça isso assim nas suas ruas de maneira tão despudorada e com tanta freqüência.
O que é X, afinal? Cansei de ver nessa cidade os seus espécimes masculinos abrirem sem vergonha suas barguilhas, retirarem seus equipamentos sexuais para fora a fim de regar a cidade com o seu amor uréico. Sim, já ouço o clamor indignado. Até parece que ninguém mija nas ruas em Belo Horizonte ou São Paulo. Claro que muitos mijam, eu mesmo já mijei. Mas na noite calada, na surdina, completamente bêbado, e ainda assim envergonhado, andando várias quadras até encontrar um beco bem escuro, olhando para todos os lados temendo o flagrante. O que me espanta aqui não é o fato bruto de mijarem, mas o fato de não sentirem vergonha, de não se preocuparem em se esconder, de não selecionar ruas vazias e desertas. Talvez em Belo Horizonte mijem nas ruas com a mesma freqüência que se mija aqui, mas como fazem isso na surdina, ninguém nota, ninguém vê, não é algo que salta às vistas. Aqui não, não há dia que caminhe umas três horas pela cidade sem ver uma instância do ato impudico. E segundo os relatos da minha mãe, acontece o mesmo em Porto Alegre. Vai ver é coisa do sulista fazer da mijada um ato público.
sexta-feira, março 07, 2008
Silêncio Introverso
O jeito é tomar o último copo e degustar o meu silêncio com a única pessoa que conheço apreciá-lo: eu. E no fundo, quando fico calado na companhia alheia, nem é por não ter o que falar, ou por não querer falar, é por desejar que a pessoa tenha, assim como eu, a oportunidade de voltar a atenção para as suas sensações e emoções de modo a aproveitar por completo o momento. Isso é coisa de introverso, eu sei. Não deveria tentar impor o meu jeito de ser ao extrovertido, ele não quer saber de silêncio, ele quer falar, quer dispersar, quer se movimentar, agir, não tem dessa de voltar para si para perceber melhor o impacto emocional do objeto/ser/pessoa que ele tem na sua frente.
E eu ali ao lado absorvendo e apreciando maravilhado a empatia que me infundia, mas é certo que ela não sentiu nenhuma e exasperava-se com o meu mutismo. Nessas horas penso em falar aleatoriamente qualquer coisa só para deixar o outro menos incomodado, mas acabo resistindo a essa idéia de não ser eu mesmo. Talvez esteja sendo um pouco egoísta ao agir assim, ao não tentar resistir ao magnetismo das minhas emoções internas, no entanto, o que a outra pessoa ganharia, além de uma falsa sensação de entrosamento, ao me perceber forçando uma fala que não saiu de mim naturalmente? Opto pela sinceridade silenciosa, mesmo que isto me custe a dolorosa percepção do enfado nos olhos alheios. Eu compreendo tudo isso muito bem, o que não me impede de sentir na pele o estranhamento que provoco.
E eu ali ao lado absorvendo e apreciando maravilhado a empatia que me infundia, mas é certo que ela não sentiu nenhuma e exasperava-se com o meu mutismo. Nessas horas penso em falar aleatoriamente qualquer coisa só para deixar o outro menos incomodado, mas acabo resistindo a essa idéia de não ser eu mesmo. Talvez esteja sendo um pouco egoísta ao agir assim, ao não tentar resistir ao magnetismo das minhas emoções internas, no entanto, o que a outra pessoa ganharia, além de uma falsa sensação de entrosamento, ao me perceber forçando uma fala que não saiu de mim naturalmente? Opto pela sinceridade silenciosa, mesmo que isto me custe a dolorosa percepção do enfado nos olhos alheios. Eu compreendo tudo isso muito bem, o que não me impede de sentir na pele o estranhamento que provoco.
quinta-feira, março 06, 2008
Homem vai na barbearia. Ponto.
Desde que cheguei nessa cidade meu hábito de cortar o cabelo ficou embotado. Aqui na minha quadra, há três salões, um deles supostamente unissex, pelo menos tem uma placa lá que o intitula assim. Por uma questão de comodidade, passei a freqüentá-lo, porém apenas de quatro em quatro meses. Nada contra o corte, que é bem feito até. O que me desmotiva a ir lá é o seu público majoritariamente feminino. Do sexo masculino, além de mim, só vi lá uma vez um menininho de uns 6 anos. Antes mesmo de chegar na porta fico envergonhado, a cara se avermelha ainda mais quando entro e todas aquelas mulheres me encaram interrogativas, como se eu fosse um criminoso por estar ali. "O que você deseja?". Fazer a unha do pé é que não, né minha cara?
Então que essa semana eu precisava cortar o cabelo, com esse calor, não o suporto muito grande. Acordei bem cedo para ver se encontrava o salão ainda vazio, só que exagerei na antecipação, estava fechado. Resolvi dar uma volta no quarteirão, passei ali no Mercado Municipal e lá dentro deparei com uma barbearia. Opa, vamos tentar, logo pensei. Entrei e sentei na poltrona de espera. Um sujeito nos seus 40 anos estava já na cadeira sendo servido pelos cortes do babeiro e um velhinho esperava também a vez. Ambiente silencioso, sem tagarelice e ao meu lado a gazeta do povo que, se não é um bom jornal, pelo menos é um jornal, pois lá no salão tinha só Caras, Gente e sei lá mais o que fofoqueiro que não me dizem respeito.
As conversas não foram ininterruptas, ao contrário, eram agradavelmente permeadas por silêncio, falou-se do caso da Colômbia, do governo, de carros e um pouco de futebol também, é claro, difícil faltar, o velhinho, quando me viu lendo a seção de economia, chegou mais perto para perguntar o preço da soja e me falou um pouco sobre o mercado da commoditie, mas sabe, tudo assim bem leve, agradável, pausado, nada histérico, nada muito pessoal, como aconteceu uma vez lá no salão, chegou-me uma patricinha, não, não sou eu que estou lhe dando esse rótulo, ela mesma se descreveu assim, estava cheia de trejeitos, chamando a atenção, e logo se pôs a narrar em alto bom tom e com detalhes sórdidos a briga que teve com a sua mãe na noite anterior; eu quase desesperado olhava para as outras mulheres esperando alguma cara de indignação ou mesmo de enfado, mas todas estavam muito bem sintonizadas e interessadas no relato, como se a novela da noite anterior continuasse ali. Nesse dia eu até queria um corte mais curto, mas quando a cabeleireira me perguntou pela primeira vez se estava bom, não pensei duas vezes, já fui me levantando, falando que estava ótimo e fugi dali o mais rápido possível.
Enfim, pela metade do preço tive um corte tão bom quanto o do salão e a minha espera foi adornada pela mais perfeita paz. Saí dali convicto de que lugar de homem é na barbearia.
Então que essa semana eu precisava cortar o cabelo, com esse calor, não o suporto muito grande. Acordei bem cedo para ver se encontrava o salão ainda vazio, só que exagerei na antecipação, estava fechado. Resolvi dar uma volta no quarteirão, passei ali no Mercado Municipal e lá dentro deparei com uma barbearia. Opa, vamos tentar, logo pensei. Entrei e sentei na poltrona de espera. Um sujeito nos seus 40 anos estava já na cadeira sendo servido pelos cortes do babeiro e um velhinho esperava também a vez. Ambiente silencioso, sem tagarelice e ao meu lado a gazeta do povo que, se não é um bom jornal, pelo menos é um jornal, pois lá no salão tinha só Caras, Gente e sei lá mais o que fofoqueiro que não me dizem respeito.
As conversas não foram ininterruptas, ao contrário, eram agradavelmente permeadas por silêncio, falou-se do caso da Colômbia, do governo, de carros e um pouco de futebol também, é claro, difícil faltar, o velhinho, quando me viu lendo a seção de economia, chegou mais perto para perguntar o preço da soja e me falou um pouco sobre o mercado da commoditie, mas sabe, tudo assim bem leve, agradável, pausado, nada histérico, nada muito pessoal, como aconteceu uma vez lá no salão, chegou-me uma patricinha, não, não sou eu que estou lhe dando esse rótulo, ela mesma se descreveu assim, estava cheia de trejeitos, chamando a atenção, e logo se pôs a narrar em alto bom tom e com detalhes sórdidos a briga que teve com a sua mãe na noite anterior; eu quase desesperado olhava para as outras mulheres esperando alguma cara de indignação ou mesmo de enfado, mas todas estavam muito bem sintonizadas e interessadas no relato, como se a novela da noite anterior continuasse ali. Nesse dia eu até queria um corte mais curto, mas quando a cabeleireira me perguntou pela primeira vez se estava bom, não pensei duas vezes, já fui me levantando, falando que estava ótimo e fugi dali o mais rápido possível.
Enfim, pela metade do preço tive um corte tão bom quanto o do salão e a minha espera foi adornada pela mais perfeita paz. Saí dali convicto de que lugar de homem é na barbearia.
segunda-feira, março 03, 2008
Fé
Algumas pessoas têm fé. Outras não a têm e invejam aqueles que a possuem. Por fim, há ainda aqueles que ignoram a fé por completo, seguem em frente sem se importar com a questão. Pascal chamou os primeiros de "felizes", os segundos, de "infelizes" e os últimos, de "loucos". Fui feliz até mais ou menos os treze anos de idade. Desde então venho oscilando entre a infelicidade e a loucura. Segundo Pascal, é claro. Confesso que a loucura tende a tornar a vida um pouco mais leve, sem o peso amargo do infeliz; contudo, desprovido da âncora dos felizes, você precisa ser um exímio equilibrista para andar sobre a corda bamba sem cair.
sábado, março 01, 2008
In-verdades à trois
- Hoje em dia todo mundo acha que pode dar palpite sobre qualquer coisa, todo mundo tem a sua opinião sobre qualquer assunto.
- É verdade...
- Você começa a discutir um assunto com uma pessoa e ela já vem logo te calando: "você tem a sua opinião, e eu tenho a minha". E o que é pior, ela acha que tanto você quanto ela estão corretos.
- E num é? (concordando em tom irônico com a indignação).
- É um absurdo. Se eu digo uma coisa, e a outra pessoa diz o contrário, ou eu, ou ela está correto.
- Evidentemente...(que tolinho, pensa secretamente)
- Assim fica tudo muito fácil e todo mundo vai para casa com ares de sabichão.
Sim, sim, a senhorita Verdade é uma mocinha muito da metida e vaidosa, difícil de ser conquistada, os mais céticos diriam impossível obter o seu coração, quanto muito a sua atenção; já os relativistas, gozadores da vida, chamam de "Verdade" a rapariga mais barata da esquina, e enfiando a mão no bolso, saem de mãos dadas cada qual com a sua. Desfilam esnobes pelas ruas.
Há verdades psicológicas por trás disso tudo. Como vamos chamar esse senhor que anda atrás de uma moça que nunca viu e que acredita piamente ser capaz de reconhecê-la quando lhe pousar as vistas? Que sabe ele dela? Na verdade, nada, nem mesmo se ela existe, embora já tenha se convencido da sua existência e delire com a sua virgindade. Parece que nasceu com essa convicção inscrita no peito. Na sua alma, notamos o carimbo da sua verdade psicológica: sonhador frustrado. Refugiando-se em seus sonhos e delírios, ele vive até com uma certa animação a sua frustração diária do desencontro.
Esse senhor tem um amigo, um falso amigo, para dizer a verdade, que anda em sua companhia para tudo quanto é lado: o cético. Este aí não passa de um fingidor, minha gente. No fundo, bem secretamente, ele não acredita que a moça perseguida pelo seu amigo exista. Mas ele jamais lhe confessa tal coisa. Faz justamente o contrário. Ele pega na mão do amigo, meio assim viadinho mesmo, e sai com ele pelas ruas fingindo que a procura também, mas sua intenção secreta é destilar o sadismo e rir-se por dentro com a frustração do amigo. Sempre que o vê arregalando os olhos cheios de esperança diante de uma moça, ele chega bem pertinho do seu ouvido com uma dúvida penetrante. Que prazer sente em vê-lo chorar! Tanto ódio só por invejar a esperança do amigo e apenas nesse ódio encontra o sentido da sua existência parasitária.
Que sujeirada! O relativista é um piolho de puteiro, o sonhador, um lunático frustrado e o cético, um infiel invejoso! Que balbúrdia! Você me coloca o relativista para falar do cético, o cético, do sonhador e o sonhador, do relativista. Opa, e agora, quem está falando? Isso não é justo, quem ficará com a palavra final? Ora, pouco importa. Na memória da platéia, vence quem gozou mais.
- É verdade...
- Você começa a discutir um assunto com uma pessoa e ela já vem logo te calando: "você tem a sua opinião, e eu tenho a minha". E o que é pior, ela acha que tanto você quanto ela estão corretos.
- E num é? (concordando em tom irônico com a indignação).
- É um absurdo. Se eu digo uma coisa, e a outra pessoa diz o contrário, ou eu, ou ela está correto.
- Evidentemente...(que tolinho, pensa secretamente)
- Assim fica tudo muito fácil e todo mundo vai para casa com ares de sabichão.
Sim, sim, a senhorita Verdade é uma mocinha muito da metida e vaidosa, difícil de ser conquistada, os mais céticos diriam impossível obter o seu coração, quanto muito a sua atenção; já os relativistas, gozadores da vida, chamam de "Verdade" a rapariga mais barata da esquina, e enfiando a mão no bolso, saem de mãos dadas cada qual com a sua. Desfilam esnobes pelas ruas.
Há verdades psicológicas por trás disso tudo. Como vamos chamar esse senhor que anda atrás de uma moça que nunca viu e que acredita piamente ser capaz de reconhecê-la quando lhe pousar as vistas? Que sabe ele dela? Na verdade, nada, nem mesmo se ela existe, embora já tenha se convencido da sua existência e delire com a sua virgindade. Parece que nasceu com essa convicção inscrita no peito. Na sua alma, notamos o carimbo da sua verdade psicológica: sonhador frustrado. Refugiando-se em seus sonhos e delírios, ele vive até com uma certa animação a sua frustração diária do desencontro.
Esse senhor tem um amigo, um falso amigo, para dizer a verdade, que anda em sua companhia para tudo quanto é lado: o cético. Este aí não passa de um fingidor, minha gente. No fundo, bem secretamente, ele não acredita que a moça perseguida pelo seu amigo exista. Mas ele jamais lhe confessa tal coisa. Faz justamente o contrário. Ele pega na mão do amigo, meio assim viadinho mesmo, e sai com ele pelas ruas fingindo que a procura também, mas sua intenção secreta é destilar o sadismo e rir-se por dentro com a frustração do amigo. Sempre que o vê arregalando os olhos cheios de esperança diante de uma moça, ele chega bem pertinho do seu ouvido com uma dúvida penetrante. Que prazer sente em vê-lo chorar! Tanto ódio só por invejar a esperança do amigo e apenas nesse ódio encontra o sentido da sua existência parasitária.
Que sujeirada! O relativista é um piolho de puteiro, o sonhador, um lunático frustrado e o cético, um infiel invejoso! Que balbúrdia! Você me coloca o relativista para falar do cético, o cético, do sonhador e o sonhador, do relativista. Opa, e agora, quem está falando? Isso não é justo, quem ficará com a palavra final? Ora, pouco importa. Na memória da platéia, vence quem gozou mais.
sábado, fevereiro 23, 2008
Filósofo
Eu estava sentado sozinho tentando pensar em algo que pudesse despejar no papel quando vejo na porta de entrada um rosto meio conhecido. Ele olhou para mim com a mesma cara de indagação, tentando buscar na memória alguma imagem para o reconhecimento. Não sei quem fez primeiro a cara de agora eu sei quem você é, mas passados dez segundos, ele já estava sentado na minha mesa, seu copo estava cheio e bebíamos ao reencontro. É o único aluno de filosofia que conheço nessa cidade, mas de um contato mínguo, é verdade, majoritariamente cibernético. Ele gosta de Hegel e eu sinceramente nunca tive paciência para esse hermético de escrita embromada e obscura. Mas eu o deixei falar apaixonadamente sobre o seu filósofo predileto e, ao mesmo tempo, fui lembrando de mim mesmo, anos atrás, quando ainda estava na graduação de filosofia e demonstrava uma paixão parecida, embora por outro filósofo: Wittgenstein.
Eu já tinha quase me esquecido dessa época áurea e encantada dos primeiros anos de encontro com a filosofia em uma graduação regular. Tudo é muito intenso e apaixonado, a ingenuidade e a esperança são elevadas, o vírus cético ainda não se infiltrou na carne, a mente vive imersa em sonhos longínquos, densos e coloridos, cada rosa que se vê na rua parece lhe dizer algo profundo, cada mente humana, um universo sem fronteiras, até que, ao final do curso, você começa a entrar em um contato mais íntimo com a sua dimensão institucional e burocrática. Em um dia terrível, que te marcará para sempre, você pergunta ao seu provável futuro orientador se seria possível escrever a dissertação de mestrado na forma de um diálogo, e ele, com olhos de reprovação e quase indignação - afinal, como, a essa altura, você aparece com um absurdo desses na boca? -, lhe dirá que absolutamente não, que um diálogo não é científico, não tem a estrutura de um texto acadêmico, apesar de ter sido cultivado
amplamente na antiguidade e ter sido resgatado na modernidade por uns e outros. Claro, filosofia agora é ciência e o seu gênero literário, o paper. Seja coerente com o seu tempo, meu filho.
Você avança nos degraus da academia e se vê cada vez mais cercado de pressões que não lhe parecem ter absolutamente nada a ver com aquela paisagem livresca e sublime que lhe infundia os sentidos nos primeiros anos. A liberdade que você supunha ter para pensar é cada vez mais restringida até o dia que você chega mesmo a sentir vergonha por pensar. Filósofo não pensa, ou melhor, como ousa, como ousa pensar que é um filósofo? De onde veio toda essa arrogância? Quando muito, você é um estudante de filosofia. E do pior tipo: um estudante que não busca nada além de uma compreensão fingida. Vamos, meu filho, venha comigo, vou lhe ensinar a repetir bem, temos muitos mantras aqui, há de gostar de algum.
Um dia você é apresentado ao paper, esse modelo primoroso e consagrado da literatura científica. Essencial para o adestramento do seu pensar, para lhe dar, assim, uma certa linearidade e objetividade e, eu acrescentaria também, monotonia. Vamos lá, é fácil, fácil até demais. Introdução, revisão bibliográfica, paráfase, paráfase e mais
paráfases, desenvolvimento, isto é, comentário, comentário e mais alguns comentários, por fim, a sua tênue e ligeira conclusão onde você finge ter pensado alguma coisa. Os mais covardes até lhe segregam nos ouvidos conselhos valiosíssimos: nunca diga nada a não ser que esteja apoiado em um gigante, e se lhe apontarem os erros, balance os ombros, como quem diz: ora, é o gigante ali quem errou, ele é o culpado, estou isento. A filosofia que antes era sentida como um oceano de possibilidades, paraíso livre para a imaginação, lhe aparece agora como um deserto árido sob o cárcere do paper, onde só se pode andar de quatro. Nem preciso dizer o porquê. E o que é pior: tornou-se uma atividade tão fácil quanto entediante. Filosofia mecanizada, afiliada
à indústria científica, fábrica de papers.
A vivência entre os pares que antes era harmoniosa, fraterna e repleta de partilha torna-se cada vez mais violenta a medida que vamos sendo envenenados pela vaidade e o orgulho. Entramos no curso com ingênua franqueza, argumentos focados no assunto, e saímos de lá peritos nos golpes ad hominem. Se é para bater, bata forte. Na pessoa, claro, idéias aqui pouco nos importa. Fomos expulsos do paraíso idílico, estimulados a falar línguas diferentes, a nos odiar, a encarar o diferente como oponente, a maltratá-lo, a olhá-lo de cima para baixo, arrogantemente. Cada vez mais vaidosos e cada vez mais solitários. A experiência filosófica se confunde, neste estágio, com a experiência de extrema solidão. Alguns levam tão a sério o mantra do repeteco, aprendem a copiar tão bem que cresce neles a convicção de que conhecem até melhor a obra do autor que o próprio autor, se bobear alguns até pensam ser a reencarnação espiritual do autor; babam raivosos quando você menciona os filósofos que eles tomaram por prediletos. É uma coisa meio louca e doentia mesmo. Cada qual achando que tem monopólio sobre a boca do filósofo adotado, como se já não bastasse o ridículo de adotar um.
Por fim, você tem o azar de cair nas mãos de um orientador que além de não ler o que você escreve, te faz passar de duas a quatro horas numa sala para ouvi-lo palestrar sobre os assuntos que interessam a ele, não sobre os que te interessam e que estão ali escritos no texto que ele deveria criticar. Mas ele critica, mesmo sem ler, ele critica. Ele aponta erros. Veja, esse argumento está fraco, não responde a essa possibilidade. Não? Respondo sim, veja aqui na página N. Ah, é verdade, devo ter passado rápido por ela. Se isso acontecesse vez ou outra, mas não, é a própria constante.
Então fiquei ali com ares de nostálgica melancolia contemplando todo aquele frescor filosófico juvenil ainda incólume das perversidades que a instituição acadêmica há de lhe inocular mais cedo ou mais tarde. Já notei, aliás, os primeiros indícios de vaidade crescente.
Eu já tinha quase me esquecido dessa época áurea e encantada dos primeiros anos de encontro com a filosofia em uma graduação regular. Tudo é muito intenso e apaixonado, a ingenuidade e a esperança são elevadas, o vírus cético ainda não se infiltrou na carne, a mente vive imersa em sonhos longínquos, densos e coloridos, cada rosa que se vê na rua parece lhe dizer algo profundo, cada mente humana, um universo sem fronteiras, até que, ao final do curso, você começa a entrar em um contato mais íntimo com a sua dimensão institucional e burocrática. Em um dia terrível, que te marcará para sempre, você pergunta ao seu provável futuro orientador se seria possível escrever a dissertação de mestrado na forma de um diálogo, e ele, com olhos de reprovação e quase indignação - afinal, como, a essa altura, você aparece com um absurdo desses na boca? -, lhe dirá que absolutamente não, que um diálogo não é científico, não tem a estrutura de um texto acadêmico, apesar de ter sido cultivado
amplamente na antiguidade e ter sido resgatado na modernidade por uns e outros. Claro, filosofia agora é ciência e o seu gênero literário, o paper. Seja coerente com o seu tempo, meu filho.
Você avança nos degraus da academia e se vê cada vez mais cercado de pressões que não lhe parecem ter absolutamente nada a ver com aquela paisagem livresca e sublime que lhe infundia os sentidos nos primeiros anos. A liberdade que você supunha ter para pensar é cada vez mais restringida até o dia que você chega mesmo a sentir vergonha por pensar. Filósofo não pensa, ou melhor, como ousa, como ousa pensar que é um filósofo? De onde veio toda essa arrogância? Quando muito, você é um estudante de filosofia. E do pior tipo: um estudante que não busca nada além de uma compreensão fingida. Vamos, meu filho, venha comigo, vou lhe ensinar a repetir bem, temos muitos mantras aqui, há de gostar de algum.
Um dia você é apresentado ao paper, esse modelo primoroso e consagrado da literatura científica. Essencial para o adestramento do seu pensar, para lhe dar, assim, uma certa linearidade e objetividade e, eu acrescentaria também, monotonia. Vamos lá, é fácil, fácil até demais. Introdução, revisão bibliográfica, paráfase, paráfase e mais
paráfases, desenvolvimento, isto é, comentário, comentário e mais alguns comentários, por fim, a sua tênue e ligeira conclusão onde você finge ter pensado alguma coisa. Os mais covardes até lhe segregam nos ouvidos conselhos valiosíssimos: nunca diga nada a não ser que esteja apoiado em um gigante, e se lhe apontarem os erros, balance os ombros, como quem diz: ora, é o gigante ali quem errou, ele é o culpado, estou isento. A filosofia que antes era sentida como um oceano de possibilidades, paraíso livre para a imaginação, lhe aparece agora como um deserto árido sob o cárcere do paper, onde só se pode andar de quatro. Nem preciso dizer o porquê. E o que é pior: tornou-se uma atividade tão fácil quanto entediante. Filosofia mecanizada, afiliada
à indústria científica, fábrica de papers.
A vivência entre os pares que antes era harmoniosa, fraterna e repleta de partilha torna-se cada vez mais violenta a medida que vamos sendo envenenados pela vaidade e o orgulho. Entramos no curso com ingênua franqueza, argumentos focados no assunto, e saímos de lá peritos nos golpes ad hominem. Se é para bater, bata forte. Na pessoa, claro, idéias aqui pouco nos importa. Fomos expulsos do paraíso idílico, estimulados a falar línguas diferentes, a nos odiar, a encarar o diferente como oponente, a maltratá-lo, a olhá-lo de cima para baixo, arrogantemente. Cada vez mais vaidosos e cada vez mais solitários. A experiência filosófica se confunde, neste estágio, com a experiência de extrema solidão. Alguns levam tão a sério o mantra do repeteco, aprendem a copiar tão bem que cresce neles a convicção de que conhecem até melhor a obra do autor que o próprio autor, se bobear alguns até pensam ser a reencarnação espiritual do autor; babam raivosos quando você menciona os filósofos que eles tomaram por prediletos. É uma coisa meio louca e doentia mesmo. Cada qual achando que tem monopólio sobre a boca do filósofo adotado, como se já não bastasse o ridículo de adotar um.
Por fim, você tem o azar de cair nas mãos de um orientador que além de não ler o que você escreve, te faz passar de duas a quatro horas numa sala para ouvi-lo palestrar sobre os assuntos que interessam a ele, não sobre os que te interessam e que estão ali escritos no texto que ele deveria criticar. Mas ele critica, mesmo sem ler, ele critica. Ele aponta erros. Veja, esse argumento está fraco, não responde a essa possibilidade. Não? Respondo sim, veja aqui na página N. Ah, é verdade, devo ter passado rápido por ela. Se isso acontecesse vez ou outra, mas não, é a própria constante.
Então fiquei ali com ares de nostálgica melancolia contemplando todo aquele frescor filosófico juvenil ainda incólume das perversidades que a instituição acadêmica há de lhe inocular mais cedo ou mais tarde. Já notei, aliás, os primeiros indícios de vaidade crescente.
quarta-feira, fevereiro 20, 2008
Relações
Outra regra de ouro para minha existência salubre e pacífica: afastar-me de pessoas interesseiras e rancorosas. O interesseiro é alguém que te usa, que tê vê como instrumento, potencial fonte de ilusões e frustrações se você não mantém com ele sempre muito bem consciente o mesmo tipo de relação. Como só gosto de instrumentos inanimados, prefiro deixar os interesseiros de lado. O rancoroso é alguém que, diante de alguma negativa sua, de qualquer tipo que seja, lhe retorna algum tipo de ódio. Ele se sente ferido pela sua negativa e quer te ferir também. Como não sou masoquista, não vou embranquecer os meus fios de cabelo com pessoas cuja obsessão é me maltratar. Engraçado que o rancoroso só depõe contra si mesmo. A pessoa que antes te fazia vários elogios sobre um determinado aspecto, agora o execra sob esse mesmo aspecto. Ou seja, os elogios de antes têm o mesmo valor que as ofensas de agora: nenhum. E a pessoa rancorosa assim demonstra ser incapaz de emitir um juízo minimamente desnudado da sua emoção, seja ela favorável ou não. Longe de mim querer defender imparcialidade absoluta, mas, enfim, um mínimo de objetividade é possível e desejável. Concluindo: xô xô interesseiros e rancorosos!
terça-feira, fevereiro 19, 2008
Tchau Aflredo
Alfredo morreu. E você diz isso assim, a seco e sem a menor demonstração de dor ou pesar? Sim, e só me abalei até aqui para lhes contar, porque me lembro de pelo menos uma pessoa que tinha um certo apreço por ele e me senti na obrigação de informá-la. Nem adianta arregalar os olhos e me interpelar pelos pormenores. Sei sobre a causa da morte tanto quanto quem me trouxe a notícia: nada. E confesso não ter sentido a menor vontade de correr atrás do causo. Foi-se, é tudo o que me basta saber.
Hoje estou assim mesmo, recheado de plena indiferença. O que posso fazer se a minha sensação está aparedada por todos os lados? Deixem-na em paz, não me incomoda o seu jeito insonso. Não, não é que eu seja frio, vou até lhes confessar uma coisinha: há dias em que perco uma noite inteira me debulhando em lágrimas em razão de uma ofensa imaginada, irreal, diria até que impossível, mas só de pô-la a trabalhar na minha imaginação, pintando-a com traços bem fortes e marcantes, e eu me derreto todo. E não há enganação alguma, eu sei que tudo não passa de uma ilusão. Mesmo assim, as lágrimas escorrem. No entanto, vocês não sabem do pior. Escutem. Quando o meu primo suicida morreu, amigão do peito, parceiro diário, confidente, eu não soltei uma lágrima sequer, nenhuma mesmo, diria que nem meia. Vi seu corpo estendido no chão, ainda com a corda no pescoço, e passei a noite inteira com os olhos mais secos que os do próprio defunto. Nem me venham com a desculpa de que meus canais emotivos estavam tão obstruídos com o excesso de dor que não conseguiram se expressar. Nada disso, eles expressaram muito bem o que eu estava sentindo: nada. Lembro-me perfeitamente desse dia. Na verdade, eu só tive uma preocupação. Vendo todo aquele vai-vem de pessoas, cada uma chorando mais alto que a outra, temi que olhassem para mim e me acusassem de insensível e hipócrita, de ter fingindo até então uma amizade que não sentia na pele. Se tive alguma sensação, foi a de medo. Esgueirei-me na parede, no canto mais distante da confusão e ali fiquei parado como uma cobra a noite inteira, só pedindo cá comigo para que não me notassem. Sujo e egoísta, devem estar pensando, até eu pensei isso depois uma ou duas vezes, mas o que podia eu fazer se estava nesse mesmo estado em que me encontro hoje, vivenciando dentro de mim a mais absoluta indiferença?
Depois eu pensei que por uma questão de decoro, diria até que de estética também, a morte deveria se preocupar mais com a hora em que vem buscar as suas ovelhas. Ora essa, quem passou o vexame fui eu! O morto já estava morto, a morte só aparece para o morto e eu lá naquela situação. Aposto que não lhe custaria nada adivinhar-me assim insensível e esperar um pouco mais, por um momento mais propício, quando então a minha receptividade estivesse mais disposta. É, não lhe custaria.
Hoje estou assim mesmo, recheado de plena indiferença. O que posso fazer se a minha sensação está aparedada por todos os lados? Deixem-na em paz, não me incomoda o seu jeito insonso. Não, não é que eu seja frio, vou até lhes confessar uma coisinha: há dias em que perco uma noite inteira me debulhando em lágrimas em razão de uma ofensa imaginada, irreal, diria até que impossível, mas só de pô-la a trabalhar na minha imaginação, pintando-a com traços bem fortes e marcantes, e eu me derreto todo. E não há enganação alguma, eu sei que tudo não passa de uma ilusão. Mesmo assim, as lágrimas escorrem. No entanto, vocês não sabem do pior. Escutem. Quando o meu primo suicida morreu, amigão do peito, parceiro diário, confidente, eu não soltei uma lágrima sequer, nenhuma mesmo, diria que nem meia. Vi seu corpo estendido no chão, ainda com a corda no pescoço, e passei a noite inteira com os olhos mais secos que os do próprio defunto. Nem me venham com a desculpa de que meus canais emotivos estavam tão obstruídos com o excesso de dor que não conseguiram se expressar. Nada disso, eles expressaram muito bem o que eu estava sentindo: nada. Lembro-me perfeitamente desse dia. Na verdade, eu só tive uma preocupação. Vendo todo aquele vai-vem de pessoas, cada uma chorando mais alto que a outra, temi que olhassem para mim e me acusassem de insensível e hipócrita, de ter fingindo até então uma amizade que não sentia na pele. Se tive alguma sensação, foi a de medo. Esgueirei-me na parede, no canto mais distante da confusão e ali fiquei parado como uma cobra a noite inteira, só pedindo cá comigo para que não me notassem. Sujo e egoísta, devem estar pensando, até eu pensei isso depois uma ou duas vezes, mas o que podia eu fazer se estava nesse mesmo estado em que me encontro hoje, vivenciando dentro de mim a mais absoluta indiferença?
Depois eu pensei que por uma questão de decoro, diria até que de estética também, a morte deveria se preocupar mais com a hora em que vem buscar as suas ovelhas. Ora essa, quem passou o vexame fui eu! O morto já estava morto, a morte só aparece para o morto e eu lá naquela situação. Aposto que não lhe custaria nada adivinhar-me assim insensível e esperar um pouco mais, por um momento mais propício, quando então a minha receptividade estivesse mais disposta. É, não lhe custaria.
Fora do ar

Não assistir televisão, e eu realmente muito, muito raramente assisto, em um país onde as pessoas assistem em média entre 4 a 6 horas por dia, diminui consideravelmente a sua taxa de sucesso em atividades de socialização. Falou agora o marqueteiro das social networks. As pessoas falam, falam, falam e eu me sinto assim, completamente fora do ar, com o mute acionado.
domingo, fevereiro 17, 2008
Vozes

Acho que preciso de uma mudança literária, ao menos temporariamente. Sinto-me como uma tábula rasa tomando a forma dos personagens que vou encontrando na leitura. E não dá para fazer isso de uma maneira salutar, pelo menos não prolongadamente, com os personagens do Dostoievski. Acho que se lesse agora Crime e Castigo é bem capaz que ficasse tentado a matar alguém. O pior de tudo é que deve ter quem leia essas palavras e as tome ao pé da letra. Isso me põe a pensar. Eu não tenho pretensões literárias, mas será que isso me impede de escrever vozes que nem sempre são minhas? Quando for o caso, devo deixar isso explícito? Hoje fui até a minha estante, peguei o "How to do things with words" do Austin, dei uma folheada, abri, quase sem querer, na página em que ele discorria sobre as várias coisas que se faz implicitamente com as palavras ao usá-las e fiquei pensando nas implicações morais das palavrinhas que solto aqui e tudo ficou meio pesado, turvo. No meio do que eu digo há coisas em que acredito, outras não, e há variações de intensidade também, e há ainda mudanças de opinião, quem é que não muda? Senti uma certa opressão moral ao pensar que não poderia infiltrar outras vozes sem destacá-las explicitamente da minha própria. Por que não posso colocar aqui, sem causar espanto, um bêbado lançando arroubos que ora são meus e ora não são? Olho para todas essas palavras e começo a ver nelas armas letais, mortais. Talvez alguém já esteja se perguntando com quem me preocupo ou a quem desejo me justificar, mas não há, nem houve alguém que tenha se levantado contra o meu bêbado. Mas essas idéias e questões começaram a fervilhar na minha cabeça quando pensei que alguém pudesse vir aqui para me encontrar, mesmo alguém que me desconhecesse por completo, mesmo um anônimo. Vai encontrar muito de mim sim, acho que tudo aqui, de certa forma, começa comigo, mas nem tudo termina comigo. Para falar a verdade, desconfio que sempre que tento me descrever, acabo me desfigurando. Pensando bem, deve haver um quê de vaidade nessa preocupação, afinal, por que diabos iria me preocupar se me vêm desfocado ou não? Azar de quem me vê. Aliás, não pedi para que ficassem me olhando, nem gosto mesmo que me encarem assim muito de perto. Eu tenho mais é de continuar me divertindo aqui, verdadeira e mentirosamente, se é o cético, o relativista, o romântico ou o imoralista quem toma a vez, pouco importa, são todos amigos meus, amigos íntimos. Ainda que eu não seja nenhum deles por completo, todos me habitam.
odor amoroso
É isso aí, querendo ou não, o seu nariz trabalha para você na seleção do seu parceiro. Resumidamente, o estudo procura mostrar que mulheres (mas imagino que o mesmo vale para homens) tendem a preferir o cheiro de homens cujos genes refletem um sistema imunológico bem diverso do seu, o que, em caso de cruzamento, aumenta as chances de uma prole mais resistente a doenças.
É claro que seria completamente sem sentido sair cheirando fundo seus pretendentes para escolher aquele lhe propiciaria filhos mais resistentes. Nos assuntos do amor, ser humano algum tem de se preocupar conscientemente com a preservação da espécie. Seria idiotice fazê-lo, pois seu organismo já se preocupa por você, foi moldado para isso, e secretamente, sem que você o perceba, influi sobre as suas decisões. Mas você enquanto sujeito, enquanto pessoa com experiências, não tem de perder tempo com isso, a você importa apenas a experiência do prazer/desprazer. O que há por trás dela, oxalá, deixe isso para os biólogos e psicólogos. A você, pessoa, cabe amar e sentir.
Mas há uma coisinha interessante nessa história toda para o sujeito. O cheiro, ora essa, o cheiro que o arrebata, que o envolve, que pode ser muito agradável ou exageradamente desagradável, o cheiro que o sujeito inspira fundo na pele do outro não-perfumada para senti-lo dentro de si, em amálgama, em uníssono. Como negar essa intimidade entre cheiro e amor? Meu vão materialismo o impede, estou acoplado a este corpo e me emociono através dele. Comigo não tem essa de amar abstratamente, sem sensações. Há quem diga superar todas essas vicissitudes humano-biológicas e amar num plano completamente ideal, platônico. A isso respondo com relativismo: que bom PARA você. Contudo, não ME serve. Amor tem cheiro e preferencialmente um cheiro bem agradável. Minha dica, ao conhecer alguém que lhe interesse, é procurar abraçá-la bem próximo para sentir o seu cheiro, contando com a sorte de que ela não esteja usando um perfume muito forte que pudesse atrapalhar na percepção da sua essência odora. Sugiro isso não para que mires na prole resistente, mas simplesmente para usufruir de uma experiência amorosa mais envolvente, agradável e olfativamente sublime.
É claro que você não vai amar alguém apenas porque ela cheira bem, tantas outras coisas importam tão ou mais, ou deixar de amá-la porque ela não cheira tão bem, mas um tiquinho de utilitarismo vai bem também: é melhor amar quem te faz bem. Já ouço você retrucando com leve ironia: como se a gente escolhesse quem ama. Correto, não escolhe mesmo não, mas escolhe (ou talvez nem isso?) a quem vai prestar mais ou menos atenção e entre cheirosos e fedorentos, atente-se mais àqueles que, de partida, lhe dá mais prazer. E, na verdade, quem é que já não faz assim?
No fundo era isso, só queria salientar a relação profunda entre a experiência do amor e a experiência do cheiro, a despeito do que haja, biologicamente, por trás. Isso realmente não importa. Eu, de minha parte, não consigo sentir um amor sem cheiro. Dos amores passados, aqueles que lembro com maior vivacidade foram justamente os de cheiro mais penetrante e agradável.
Há quem diga que a percepção agradável do cheiro é influenciada pelo intenso sentimento. Eu não duvido, mas eu acredito no contrário também: a agradabilidade do cheiro favorece a intensificação do sentimento.
É claro que seria completamente sem sentido sair cheirando fundo seus pretendentes para escolher aquele lhe propiciaria filhos mais resistentes. Nos assuntos do amor, ser humano algum tem de se preocupar conscientemente com a preservação da espécie. Seria idiotice fazê-lo, pois seu organismo já se preocupa por você, foi moldado para isso, e secretamente, sem que você o perceba, influi sobre as suas decisões. Mas você enquanto sujeito, enquanto pessoa com experiências, não tem de perder tempo com isso, a você importa apenas a experiência do prazer/desprazer. O que há por trás dela, oxalá, deixe isso para os biólogos e psicólogos. A você, pessoa, cabe amar e sentir.
Mas há uma coisinha interessante nessa história toda para o sujeito. O cheiro, ora essa, o cheiro que o arrebata, que o envolve, que pode ser muito agradável ou exageradamente desagradável, o cheiro que o sujeito inspira fundo na pele do outro não-perfumada para senti-lo dentro de si, em amálgama, em uníssono. Como negar essa intimidade entre cheiro e amor? Meu vão materialismo o impede, estou acoplado a este corpo e me emociono através dele. Comigo não tem essa de amar abstratamente, sem sensações. Há quem diga superar todas essas vicissitudes humano-biológicas e amar num plano completamente ideal, platônico. A isso respondo com relativismo: que bom PARA você. Contudo, não ME serve. Amor tem cheiro e preferencialmente um cheiro bem agradável. Minha dica, ao conhecer alguém que lhe interesse, é procurar abraçá-la bem próximo para sentir o seu cheiro, contando com a sorte de que ela não esteja usando um perfume muito forte que pudesse atrapalhar na percepção da sua essência odora. Sugiro isso não para que mires na prole resistente, mas simplesmente para usufruir de uma experiência amorosa mais envolvente, agradável e olfativamente sublime.
É claro que você não vai amar alguém apenas porque ela cheira bem, tantas outras coisas importam tão ou mais, ou deixar de amá-la porque ela não cheira tão bem, mas um tiquinho de utilitarismo vai bem também: é melhor amar quem te faz bem. Já ouço você retrucando com leve ironia: como se a gente escolhesse quem ama. Correto, não escolhe mesmo não, mas escolhe (ou talvez nem isso?) a quem vai prestar mais ou menos atenção e entre cheirosos e fedorentos, atente-se mais àqueles que, de partida, lhe dá mais prazer. E, na verdade, quem é que já não faz assim?
No fundo era isso, só queria salientar a relação profunda entre a experiência do amor e a experiência do cheiro, a despeito do que haja, biologicamente, por trás. Isso realmente não importa. Eu, de minha parte, não consigo sentir um amor sem cheiro. Dos amores passados, aqueles que lembro com maior vivacidade foram justamente os de cheiro mais penetrante e agradável.
Há quem diga que a percepção agradável do cheiro é influenciada pelo intenso sentimento. Eu não duvido, mas eu acredito no contrário também: a agradabilidade do cheiro favorece a intensificação do sentimento.
quinta-feira, fevereiro 14, 2008
Fragmentos
fragmentos de um boêmio.
Hoje estou com criatividade etílica, com desejo de destilar verdades, torcer o pano para que até a sua última gota verídica se extraia. O bêbado não tem medo de nada. Mas o que é isso? Quem aqui está bêbado? Até parece que dois ou três copinhos de cerveja me alterariam em alguma coisa. Fossem outros os tempos, só a vodka me derrubaria, hoje talvez esses copinhos me entortem. A verdade, a verdade, vamos lá, ela quer sair, quero vomitá-la, afastem-se os mais enjoados, pois o seu cheiro é pútrido. Ontem comi carne de jacaré, então esperem o pior.
O bom dessa cidade é que até os bêbados míopes não têm dificuldade em perceber a mulher comprometida. Basta focar o anular brilhoso e grosseiro, mesmo a uma distância considerável, ele salta às vistas. Mas ela ainda assim correspondeu aos meus olhares impertinentes!
Três casais, seis estudantes, seis imbecis. O estudante sempre me pareceu um ser assim muito idiota, muito senhor de si, cheio de confiança cega, dessas que se vê mesmo nos incapazes. Vale dizer que sou um estudante também.
Fui ao banheiro e em três minutos vomitei toda a filosofia que aprendi em 10 anos. Que alívio!
Arregalei os olhos e concertei os óculos na cara. Morenaça peituda, rabuda e carnuda, jogando sinuca, oh, como isso é fálico. Enquanto o seu parceiro faz o vai-vem com o taco, pensa em penetrá-la; vejam que patético o seu estrabismo forçado, um olho na bola e outro nos seios, chega a babar. Eu não faria/seria diferente.
Agora já não são mais apenas uns copinhos, mas vários, já o perceberam, é claro.
O meu pendor para mentir é tão intenso quanto a minha disposição para a verdade. É isso, o bêbado deixa fluir a sua propensão natural para a contradição.
Estou aqui como se assistisse a um filme. Os indies chegaram, Scorpions de fundo, eu tinha treze anos quando conheci essa banda, mas são uns merdinhas esses indies. Perdem tempo demais pensando no visual e nunca pensam nada, é o que eu acho. O indie gay não pára de me olhar. É nessas horas que sinto toda a ironia divina: por que não causo nas mulheres o mesmo efeito magnético que causo nessas bichas?
O bêbado sempre fala como se fosse genial a mais banal das idéias. Nisso ele não se distingue do filósofo, só que este faz ainda pior, fala com sobriedade e ar de gravidade. Oh céus, tive loucos como tutores! E agora, falo como bêbado ou como filósofo? Que dilema! Ah não, já a vomitei, é verdade, tinha me esquecido.
Cara legal aqui é o Jeferson, acho que é esse o nome dele, se não ouvi errado quando o carinha da sinuca o cumprimentou. Está sempre na dele, em paz, às vezes parece imerso em densos pensamentos, depois dá uma olhadinha para ver se alguém está querendo alguma coisa. A seleção musical é dele, perguntei depois. Dá para vir aqui só para ficar numa boa escutando música. Quinta-feira é dia de poesia, quem quiser pode pegar o microfone e despejar a sua prole verbal. O Jeferson foi lá duas vezes. Não lembro mais o que ele recitou, mas tinha algo de homem nu, homem só, sei que gostei.
Sempre achei a existência inteligente uma coisa tosca. O inteligente vê longe, tem olhos de águia, mas suas pernas são curtas, de anão. Anda, anda, anda, corre esbaforido e nunca chega lá. De tempos em tempos é abatido pela consciência dessa sua infeliz situação. Aí ele pára, senta, descansa um pouco e depois entediado volta a correr, que nem um pateta. E convenhamos, é patético ver um anão correr para um destino que suas diminutas pernas não podem alcançar. O gênio é um gigante cujas passadas atravessam oceanos, simples assim. Já o homem da massa, para não usar um desses adjetivos vulgares, nasceu cego e feliz está com a sua cegueira inconsciente. O gênio e o cego, por motivos bem diversos, compartilham, no entanto, a mesma confiança. Já o inteligente é essa coisa dúbia e titubeante que vemos aí. Não sabe se corre, se fica parado, enfim, é tosco.
Que pouca vergonha, vejam só, o carinha abraçando a namorada todo apaixonado e ela tá olhando para onde? Adivinhem? Não, não é para mim. Para a televisão! Piorou, olha só, ela tá fazendo careta. Xi! Feliz ele que vive transbordado de ignorância.
Chega, chega, mais uns copinhos e decaio ainda mais.
Hoje estou com criatividade etílica, com desejo de destilar verdades, torcer o pano para que até a sua última gota verídica se extraia. O bêbado não tem medo de nada. Mas o que é isso? Quem aqui está bêbado? Até parece que dois ou três copinhos de cerveja me alterariam em alguma coisa. Fossem outros os tempos, só a vodka me derrubaria, hoje talvez esses copinhos me entortem. A verdade, a verdade, vamos lá, ela quer sair, quero vomitá-la, afastem-se os mais enjoados, pois o seu cheiro é pútrido. Ontem comi carne de jacaré, então esperem o pior.
O bom dessa cidade é que até os bêbados míopes não têm dificuldade em perceber a mulher comprometida. Basta focar o anular brilhoso e grosseiro, mesmo a uma distância considerável, ele salta às vistas. Mas ela ainda assim correspondeu aos meus olhares impertinentes!
Três casais, seis estudantes, seis imbecis. O estudante sempre me pareceu um ser assim muito idiota, muito senhor de si, cheio de confiança cega, dessas que se vê mesmo nos incapazes. Vale dizer que sou um estudante também.
Fui ao banheiro e em três minutos vomitei toda a filosofia que aprendi em 10 anos. Que alívio!
Arregalei os olhos e concertei os óculos na cara. Morenaça peituda, rabuda e carnuda, jogando sinuca, oh, como isso é fálico. Enquanto o seu parceiro faz o vai-vem com o taco, pensa em penetrá-la; vejam que patético o seu estrabismo forçado, um olho na bola e outro nos seios, chega a babar. Eu não faria/seria diferente.
Agora já não são mais apenas uns copinhos, mas vários, já o perceberam, é claro.
O meu pendor para mentir é tão intenso quanto a minha disposição para a verdade. É isso, o bêbado deixa fluir a sua propensão natural para a contradição.
Estou aqui como se assistisse a um filme. Os indies chegaram, Scorpions de fundo, eu tinha treze anos quando conheci essa banda, mas são uns merdinhas esses indies. Perdem tempo demais pensando no visual e nunca pensam nada, é o que eu acho. O indie gay não pára de me olhar. É nessas horas que sinto toda a ironia divina: por que não causo nas mulheres o mesmo efeito magnético que causo nessas bichas?
O bêbado sempre fala como se fosse genial a mais banal das idéias. Nisso ele não se distingue do filósofo, só que este faz ainda pior, fala com sobriedade e ar de gravidade. Oh céus, tive loucos como tutores! E agora, falo como bêbado ou como filósofo? Que dilema! Ah não, já a vomitei, é verdade, tinha me esquecido.
Cara legal aqui é o Jeferson, acho que é esse o nome dele, se não ouvi errado quando o carinha da sinuca o cumprimentou. Está sempre na dele, em paz, às vezes parece imerso em densos pensamentos, depois dá uma olhadinha para ver se alguém está querendo alguma coisa. A seleção musical é dele, perguntei depois. Dá para vir aqui só para ficar numa boa escutando música. Quinta-feira é dia de poesia, quem quiser pode pegar o microfone e despejar a sua prole verbal. O Jeferson foi lá duas vezes. Não lembro mais o que ele recitou, mas tinha algo de homem nu, homem só, sei que gostei.
Sempre achei a existência inteligente uma coisa tosca. O inteligente vê longe, tem olhos de águia, mas suas pernas são curtas, de anão. Anda, anda, anda, corre esbaforido e nunca chega lá. De tempos em tempos é abatido pela consciência dessa sua infeliz situação. Aí ele pára, senta, descansa um pouco e depois entediado volta a correr, que nem um pateta. E convenhamos, é patético ver um anão correr para um destino que suas diminutas pernas não podem alcançar. O gênio é um gigante cujas passadas atravessam oceanos, simples assim. Já o homem da massa, para não usar um desses adjetivos vulgares, nasceu cego e feliz está com a sua cegueira inconsciente. O gênio e o cego, por motivos bem diversos, compartilham, no entanto, a mesma confiança. Já o inteligente é essa coisa dúbia e titubeante que vemos aí. Não sabe se corre, se fica parado, enfim, é tosco.
Que pouca vergonha, vejam só, o carinha abraçando a namorada todo apaixonado e ela tá olhando para onde? Adivinhem? Não, não é para mim. Para a televisão! Piorou, olha só, ela tá fazendo careta. Xi! Feliz ele que vive transbordado de ignorância.
Chega, chega, mais uns copinhos e decaio ainda mais.
terça-feira, fevereiro 12, 2008
Limites
Tudo tem limite. E mesmo amizades fortíssimas podem ser rompidas se certos limites forem ultrapassados. Cada pessoa tem lá os seus limites, alguns aleatórios, emocionalmente reativos, outros elaborados, racionalmente justificados, mas, enfim, cada um sabe muito bem a linha para além da qual o retorno fica bloqueado ou pelo menos dificultado, engasgado. O meu limite mais severo, o qual levo a ferro e fogo, é o respeito à minha individualidade e à minha representatividade. Falo em termos mais claros: a não ser que eu tenha lhe dito explicitamente que pode falar em meu nome em determinada questão, digo, em qualquer questão, não o faça, jamais, pois o perdão aqui talvez não seja dado, conforme a intensidade com que me sentir invadido ou desrespeitado. Entendeu? Acho que não, essa idéia geral pode ser instanciada de múltiplas maneira e talvez alguns exemplos sejam elucidativos. Eu convido, você, meu amigo, a vir em minha casa e você, talvez cheio de boas intenções e motivado pela intimidade, convida um outro amigo para vir também, que talvez até seja alguém que eu goste, amigo meu também. Ainda assim, não tem perdão, você deveria ter me consultado antes, ligado, mesmo que pouco antes, para saber se estava tudo bem; não lhe dei o poder de decidir quem eu quero ou não em minha casa. Evidentemente, há ocasiões de exceção, conto com o bom senso dos amigos para percebê-las e não generalizá-las. Mais um exemplo. Eu te empresto um livro. Você leva o livro, o lê, ele fica lá na sua casa, já que não nos encontramos, até que, num belo dia, um amigo teu aparece lá, vê o livro, se interessa e você o empresta numa boa. Poxa, assim tá pedindo a minha desamizade. O maior problema aqui é que as pessoas tendem a pensar que a confiança é uma relação transitiva, que se eu confio em A e A confia em B, então eu confio em B, mas isso é um absurdo! A confiança depende exclusivamente do conhecimento direto que você tem da pessoa, é algo delicado, não dá para transferir assim. Se te emprestei um livro, confiei no cuidado que você iria ter com ele, mas não, jamais no suposto cuidado de terceiros, mesmo que você confie nesses terceiros. E outra, se empresto um livro, empresto com uma finalidade bem específica, para que você o leia. Não lhe dei poder total sobre o livro. Da mesma forma, quando você aluga uma casa, não pode fazer com ela o que lhe aprouver, não pode, por exemplo, vendê-la. Se quer emprestar um livro que te emprestei, por favor, pergunte-me antes, a não ser que não julgue a nossa amizade importante. Pois eu garanto, ela estará sob um fio.
Não sei bem de onde veio esse meu limite, nem importa tanto saber, talvez, em parte, ele tomou forma com as minhas leituras anarco-liberais, lá na juventude, ainda meio adolescente, quando tomei consciência de que ninguém jamais estaria em melhores condições do que eu para decidir o que é melhor para mim, estando eu em pleno gozo das minhas capacidades intelectuais, também quando tomei consciência de que as decisões pessoais são atos particularíssimos, e intransferíveis; ou talvez, em parte, esse limite tenha muito a ver, pelo menos emocionalmente, com a minha natureza introspectiva, que faz de mim uma pessoa mais ciosa de si e reativa a intervenções alheias e não autorizadas ou mesmo apenas inesperadas. Como disse, isso pouco importa, apenas se lembre, você, meu amigo ou amiga: não use o meu nome em vão, não interceda por mim, nem com a melhor das intenções; se deseja muito fazê-lo, comunique-me antes.
Se eu lhe dei intimidade, isso não significa que agora você sabe o que eu quero. Só eu sei, às vezes, nem isso!
Não sei bem de onde veio esse meu limite, nem importa tanto saber, talvez, em parte, ele tomou forma com as minhas leituras anarco-liberais, lá na juventude, ainda meio adolescente, quando tomei consciência de que ninguém jamais estaria em melhores condições do que eu para decidir o que é melhor para mim, estando eu em pleno gozo das minhas capacidades intelectuais, também quando tomei consciência de que as decisões pessoais são atos particularíssimos, e intransferíveis; ou talvez, em parte, esse limite tenha muito a ver, pelo menos emocionalmente, com a minha natureza introspectiva, que faz de mim uma pessoa mais ciosa de si e reativa a intervenções alheias e não autorizadas ou mesmo apenas inesperadas. Como disse, isso pouco importa, apenas se lembre, você, meu amigo ou amiga: não use o meu nome em vão, não interceda por mim, nem com a melhor das intenções; se deseja muito fazê-lo, comunique-me antes.
Se eu lhe dei intimidade, isso não significa que agora você sabe o que eu quero. Só eu sei, às vezes, nem isso!
segunda-feira, fevereiro 11, 2008
Um filme, por favor!
- Talvez você queira ficar um tempo sem me ver.
- Por que?
- Você sabe. O tempo e a distância podem ajudar...
- Pensa mesmo que faria alguma diferença? Não é a minha memória que gosta de você, sou eu, entende? Posso me esquecer de você e ainda continuar te amando. Lembra daquele filme, Brilho eterno de uma mente sem lembranças? Assistimos juntos. Então...
- Se eu pudesse...
- Mas você não pode. Chega a ser irônico, o amor é algo tão nosso e, ao mesmo tempo, nos escapa por completo. Ele simplesmente cresceu de repente. Um dia, quando te encontrei, o percebi dentro de mim.
- Por que não sai com a K, ela parece gostar de você. Talvez se olhasse mais para ela, o seu sentimento por mim abrandaria.
- Eu só vou conseguir olhar realmente para ela depois que o meu sentimento por ti abrandar.
- Você é teimoso e birrento e isso me parece excesso de masoquismo da sua parte.
- Masoquismo seria eu ser infiel a mim mesmo. Sabe qual é o problema? Você imagina que sofro mais do que me alegro ao seu lado e acaba se preocupando demais. Eu sei até aonde eu posso ir. Sabe, essa conversa não faz muito sentido, ela será sempre circular. Você quer me convencer a não gostar de você, só que se esquece que razões são completamente impotentes a esse respeito. Todas essas suas tentativas, eu até entendo, mas elas me parecem completamente sem sentido diante do que sinto por você. Pare de se preocupar!
...
- Vamos ao cinema?
- Vamos!
- Por que?
- Você sabe. O tempo e a distância podem ajudar...
- Pensa mesmo que faria alguma diferença? Não é a minha memória que gosta de você, sou eu, entende? Posso me esquecer de você e ainda continuar te amando. Lembra daquele filme, Brilho eterno de uma mente sem lembranças? Assistimos juntos. Então...
- Se eu pudesse...
- Mas você não pode. Chega a ser irônico, o amor é algo tão nosso e, ao mesmo tempo, nos escapa por completo. Ele simplesmente cresceu de repente. Um dia, quando te encontrei, o percebi dentro de mim.
- Por que não sai com a K, ela parece gostar de você. Talvez se olhasse mais para ela, o seu sentimento por mim abrandaria.
- Eu só vou conseguir olhar realmente para ela depois que o meu sentimento por ti abrandar.
- Você é teimoso e birrento e isso me parece excesso de masoquismo da sua parte.
- Masoquismo seria eu ser infiel a mim mesmo. Sabe qual é o problema? Você imagina que sofro mais do que me alegro ao seu lado e acaba se preocupando demais. Eu sei até aonde eu posso ir. Sabe, essa conversa não faz muito sentido, ela será sempre circular. Você quer me convencer a não gostar de você, só que se esquece que razões são completamente impotentes a esse respeito. Todas essas suas tentativas, eu até entendo, mas elas me parecem completamente sem sentido diante do que sinto por você. Pare de se preocupar!
...
- Vamos ao cinema?
- Vamos!
sexta-feira, fevereiro 08, 2008
Richard Wagner

Eu recomendo Richard Wagner para quatro moléstias hodiernas da alma: tédio, angústia, depressão e falta de amor próprio. Simplesmente não há como não se exaltar, não elevar o ânimo com as trombetas wagnerianas. Tannhäuser para os deprimidos e sem amor próprio. Acompanhem o nosso herói medieval, sintam sua fúria, sua persistência, sua resistência, sua invejável vontade de poder, de viver, de sobreviver. Deixem-se contaminar por ele, por essa força sobre-humana. Sigam-no. Aos entediados e angustiados, recomendo Das Rheingold; sintam a exuberância do eterno fluxo do Reno, as águas não param, o movimento não cessa, o devir é estrondoso, acordem, acordem, naveguem, mirem a frente, sonhem, vejam, ninfas, gigantes, há de tudo nesse Reno, como podem ficar aí parados? Mexam-se, sigam o ouro do Reno, permitam que sua luz afastem vossas trevas.
Não a toa Nietzsche era fã de Wagner, embora tenha rompido com ele em sua fase ultra-romântica; até a mais insignificante das moscas sente-se imponente ao escutá-lo, permitindo-se, inclusive, o luxo da arrogância. Não lhes exorto a tanto, mas é inegável o tremor que começa no tímpano e penetra na alma o mais fundo possível, vibrando-a por inteiro.
quinta-feira, fevereiro 07, 2008
Angústia
A angústia, como a entendo e sinto, é um processo de ajuste interno entre desejos, esperanças e sonhos, de um lado, e o seu conhecimento a respeito da realidade do outro. O processo é lento e tenso, nem sempre doloroso, triste ou lúgubre, mas certamente causa um incômodo, uma inquietação dúbia por não saber o que fazer, e a sensação de vazio é simplesmente a perda de sentido dos seus sonhos, os quais, até então, o norteavam. O conhecimento da realidade esmaga e tritura esse sentido. Quanto mais emocionalmente densos eram esses sonhos, tanto mais tensa e demorada será a vivência da angústia. Você sente que perde algo e sim, claro que perde, perde esses sonhos que lhe são tirados do rol das suas possibilidades de vivências.
Veja, você tinha sonhos e desejos bem arraigados no seu dia-a-dia, acordava pensando neles e tomava cursos de ações imaginando que elas lhe ajudariam a levá-lo até eles. Eram sonhos também cuja realização você imaginava lhe causando um profundo bem-estar, uma presença esmagadora de sentido. Enfim, sonhos tão presentes, tão obsecados em seus pensamentos, que tinha com eles uma verdadeira relação emocional. Eram, por assim dizer, sonhos-desejos-emocionados. Não seria de todo errôneo dizer também que você vivia por esses sonhos, que eles o animavam e lhe davam entusiasmo. E você os via como possíveis, alguns mais prováveis que outros, alguns mais tangíveis que outros, alguns mais próximos que outros, mas todos, de alguma forma, realizáveis, possíveis.
E talvez alguns deles nem fosse possíveis. Você apenas imaginava que eram, tinha idéias vagas de como chegaria a realização deles e se enganava com as ações que tomava achando que elas o levariam até eles. Que importa? Tudo vai bem enquanto você pensa que os seus sonhos são possíveis, mesmo que já não sejam mais ou nunca tivessem sido. A ignorância é uma benção para os sonhadores, pois lhes mantém a esperança.
Um dia a realidade bate na porta da sua casa na forma de saber. Você abre a porta e a realidade lhe diz: "veja, esses sonhos são impossíveis, não há absolutamente nada que você possa fazer para alcança-los". É neste exato momento que você começa a viver a angústia, quando compreende que vários cenários imaginados por você jamais poderão se apresentar ao vivo e a cores em sua experiência. É-lhe penoso pensar que a existência desses cenários ficará limitada à sua imaginação, que eles não existirão jamais nos seus sentidos, onde teriam uma existência muito mais viva, colorida, intensa e penetrante.
Leva um tempo até que o seu respeito e desejo pela verdade vença o seu desejo pelos sonhos. Eram sonhos tão emocionados que você não quer abrir mão deles, alguns tão centrais para o seu existir, que se sente perdido imaginar-se sem eles. A tensão está aí, em que você terá de viver o choque entre o que sabe e o que deseja, é uma experiência desconfortante, enfim, angustiante. Reside aqui o perigo de algumas patologias, se o seu desejo pela verdade é esmagado pelo seus sonhos desejados, levando-o a bater a porta na cara da realidade. Em outras palavras: psicose. A intensidade emocional dos sonhos, entre outros fatores, mas sobretudo ela, é quem decidirá a questão.
Eu diria até que o ceticismo é uma patologia também, o homem-cético não negará a realidade, não dará com a porta na sua cara, mas usará de todo o seu engenho e qualquer estratagema ludibrioso para retardar a sua entrada, para convencê-la a ficar ali, no limiar da entrada, dando, assim, uma sobrevida aos seus sonhos. Mas isso tem um custo. Diferentemente do psicótico que, ao fechar a porta, pode voltar-se tranqüilo para os seus sonhos, o homem-cético terá de persegui-los angustiado, temendo o avançado da realidade sobre si a qualquer momento. Já os Homens-de-ação sofrem bem menos de angústia, pois convidam a realidade para um chá assim que ela lhes bate à porta.
Quando eu a vi pela primeira vez, desejei, sonhei segurar-lhe as mãos, mesmo sem ter ainda qualquer sentimento por ela. São mãos tão belas e encantadoras que queria conhecê-las também ao modo de um cego, pelo tato. Esse mesmo sonho se avolumou e se preencheu de simbologias diversas quando nasceu o meu sentimento por ela. Mãos nas mãos sempre tiveram um significado especial para mim de tranqüilidade e compreensão. Dentre todos os sonhos que tive com ela, pelo menos desses que a gente desenha e colore na imaginação, este é o mais difícil de largar, agora que a realidade me bate à porta. Há dois dias o meu fundo musical é "your hand in mine", do Explosions in the Sky. Ainda sonho, um pouco angustiado, sabendo que será sempre apenas um sonho.
Veja, você tinha sonhos e desejos bem arraigados no seu dia-a-dia, acordava pensando neles e tomava cursos de ações imaginando que elas lhe ajudariam a levá-lo até eles. Eram sonhos também cuja realização você imaginava lhe causando um profundo bem-estar, uma presença esmagadora de sentido. Enfim, sonhos tão presentes, tão obsecados em seus pensamentos, que tinha com eles uma verdadeira relação emocional. Eram, por assim dizer, sonhos-desejos-emocionados. Não seria de todo errôneo dizer também que você vivia por esses sonhos, que eles o animavam e lhe davam entusiasmo. E você os via como possíveis, alguns mais prováveis que outros, alguns mais tangíveis que outros, alguns mais próximos que outros, mas todos, de alguma forma, realizáveis, possíveis.
E talvez alguns deles nem fosse possíveis. Você apenas imaginava que eram, tinha idéias vagas de como chegaria a realização deles e se enganava com as ações que tomava achando que elas o levariam até eles. Que importa? Tudo vai bem enquanto você pensa que os seus sonhos são possíveis, mesmo que já não sejam mais ou nunca tivessem sido. A ignorância é uma benção para os sonhadores, pois lhes mantém a esperança.
Um dia a realidade bate na porta da sua casa na forma de saber. Você abre a porta e a realidade lhe diz: "veja, esses sonhos são impossíveis, não há absolutamente nada que você possa fazer para alcança-los". É neste exato momento que você começa a viver a angústia, quando compreende que vários cenários imaginados por você jamais poderão se apresentar ao vivo e a cores em sua experiência. É-lhe penoso pensar que a existência desses cenários ficará limitada à sua imaginação, que eles não existirão jamais nos seus sentidos, onde teriam uma existência muito mais viva, colorida, intensa e penetrante.
Leva um tempo até que o seu respeito e desejo pela verdade vença o seu desejo pelos sonhos. Eram sonhos tão emocionados que você não quer abrir mão deles, alguns tão centrais para o seu existir, que se sente perdido imaginar-se sem eles. A tensão está aí, em que você terá de viver o choque entre o que sabe e o que deseja, é uma experiência desconfortante, enfim, angustiante. Reside aqui o perigo de algumas patologias, se o seu desejo pela verdade é esmagado pelo seus sonhos desejados, levando-o a bater a porta na cara da realidade. Em outras palavras: psicose. A intensidade emocional dos sonhos, entre outros fatores, mas sobretudo ela, é quem decidirá a questão.
Eu diria até que o ceticismo é uma patologia também, o homem-cético não negará a realidade, não dará com a porta na sua cara, mas usará de todo o seu engenho e qualquer estratagema ludibrioso para retardar a sua entrada, para convencê-la a ficar ali, no limiar da entrada, dando, assim, uma sobrevida aos seus sonhos. Mas isso tem um custo. Diferentemente do psicótico que, ao fechar a porta, pode voltar-se tranqüilo para os seus sonhos, o homem-cético terá de persegui-los angustiado, temendo o avançado da realidade sobre si a qualquer momento. Já os Homens-de-ação sofrem bem menos de angústia, pois convidam a realidade para um chá assim que ela lhes bate à porta.
Quando eu a vi pela primeira vez, desejei, sonhei segurar-lhe as mãos, mesmo sem ter ainda qualquer sentimento por ela. São mãos tão belas e encantadoras que queria conhecê-las também ao modo de um cego, pelo tato. Esse mesmo sonho se avolumou e se preencheu de simbologias diversas quando nasceu o meu sentimento por ela. Mãos nas mãos sempre tiveram um significado especial para mim de tranqüilidade e compreensão. Dentre todos os sonhos que tive com ela, pelo menos desses que a gente desenha e colore na imaginação, este é o mais difícil de largar, agora que a realidade me bate à porta. Há dois dias o meu fundo musical é "your hand in mine", do Explosions in the Sky. Ainda sonho, um pouco angustiado, sabendo que será sempre apenas um sonho.
domingo, fevereiro 03, 2008
Inferno
Se me chamasses para ir ao inferno contigo, ao inferno eu iria. Eu vou, eu fui. E, no entanto, eu sei que estavas apenas a me usar, tinhas medo de ir lá sozinha.
Verme
Hoje sou um miserável, um verme, um pedaço de culpa ambulante, uma culpa prevista, antevista, e ainda assim, nada fiz, deixei-a me atropelar, estava fraco para levantar o braço, ou ainda pior, talvez essa seja a desculpa que me conte para aliviá-la, no fundo, talvez buscasse o prazer mórbido da auto-aniquilação, sabia que iria me remoer depois e nada fiz, nada fiz, depois de um dia tão agradável, usufruindo de louváveis sensações, puni-me, sem o saber, mas sabendo, pois nada disso mereço, não mesmo, um verme só merce ser pisoteado, ser comida de peixe, e um verme consciente é simplesmente uma ignomínia, uma infâmia, nunca tive inimigos, nem preciso ter, todo o mal de que preciso e mereço encontra-se em mim, na consciência que carrego, me aprisiona e me esmaga; aí se vão as pinceladas acinzentadas, mas não me olhem com compaixão, eu os odiaria por isso, eu mesmo, agora, não me vejo assim, sofredor, digo até que sinto um prazer nisso tudo, o prazer de Tânatos. Minha infâmia é tão grande que é bem provável que amanhã, ao acordar, não mais reconheça essa cara desfigurada que vejo no espelho, estarei leve como uma pena.
sexta-feira, fevereiro 01, 2008
Subsolo
Estou lendo Memórias do Subsolo e nem vou dizer que recomendo, pois tudo que vem da Rússia ou dos povos eslavos, exceto o comunismo, e meu exceto aqui é vibrante e enérgico, eu recomendo em princípio. Enfatizo, em princípio. Então que no livro o personagem principal desenvolve uma tese bem interessante. Resumidamente, pois sua exposição é longa e bem mais expressiva e persuasiva do que pretendo fazer aqui, ele sustenta que mesmo se tivéssemos o conhecimento total, de todas as leis, e, desta maneira, soubéssemos calcular todo o futuro e o que fosse melhor e mais vantajoso segundo a razão para nós, ainda assim nem sempre optaríamos pelo "melhor". Na verdade, diz ele, o "melhor", por vezes, e talvez paradoxalmente, não é o melhor, mas aquilo que a vontade opta por capricho e sem qualquer razão aparente. Evidentemente, há aí uma certa tensão, pois se optamos por algo contrário à razão e ao previsto, então nosso saber não era total. Creio que é justamente isso o que ele está nos dizendo, que há algo intrinsecamente arbitrário no humano que impossibilita um saber total a seu respeito. O essencial de cada um de nós é evasivo, por certo, escapa até do próprio sujeito.
O amor é o melhor exemplo dessa agradável e caótica irracionalidade que nos habita essencialmente. Seria muito mais vantajoso deixar de gostar de quem não gosta de nós ou simplesmente gostar apenas de quem gosta da gente, mas quem acompanha de perto essa ladainha da razão? Ninguém. Eu posso gostar de alguém e encontrar inúmeras justificativas para este meu gostar, o que, no entanto, terá apenas o efeito de corroborar ou não a decisão de ir em frente com este gostar, mas não lhe aumentará ou diminuirá em nada. Posso gostar sim sem qualquer razão visível. E mesmo quando toda a razão for contrária, ainda acontecerá de optar pelo mergulho no caos, pelo insucesso provável. O ser humano é assim, previsivelmente imprevisível.
Agir em conformidade com a razão? Que nada, as razões, os motivos geralmente são sentidos como algo que constrange, que vêm de fora, que se impõem, não é algo que você sente como emanando de si, como sendo suas, quando muito, elas têm o efeito póstumo de aplacar a consciência por uma decisão já tomada, mas na hora do vamos ver, do ir em frente, do mover-se, não é ela que você escuta, é o teu próprio caos que te dá as mãos e te leva sabe-se lá para onde.
O amor é o melhor exemplo dessa agradável e caótica irracionalidade que nos habita essencialmente. Seria muito mais vantajoso deixar de gostar de quem não gosta de nós ou simplesmente gostar apenas de quem gosta da gente, mas quem acompanha de perto essa ladainha da razão? Ninguém. Eu posso gostar de alguém e encontrar inúmeras justificativas para este meu gostar, o que, no entanto, terá apenas o efeito de corroborar ou não a decisão de ir em frente com este gostar, mas não lhe aumentará ou diminuirá em nada. Posso gostar sim sem qualquer razão visível. E mesmo quando toda a razão for contrária, ainda acontecerá de optar pelo mergulho no caos, pelo insucesso provável. O ser humano é assim, previsivelmente imprevisível.
Agir em conformidade com a razão? Que nada, as razões, os motivos geralmente são sentidos como algo que constrange, que vêm de fora, que se impõem, não é algo que você sente como emanando de si, como sendo suas, quando muito, elas têm o efeito póstumo de aplacar a consciência por uma decisão já tomada, mas na hora do vamos ver, do ir em frente, do mover-se, não é ela que você escuta, é o teu próprio caos que te dá as mãos e te leva sabe-se lá para onde.
segunda-feira, janeiro 28, 2008
Elas
Alfredo teve um sono agitado nesta madrugada, dois amores passados lhe visitaram em sonho, primeiro um mais recente, fresco não só na memória, como na sensibilidade, em seguida, um bem mais antigo, do qual ele se lembrava muito esporadicamente e com boa vagueza. Ela(1) lhe convidou para um jantar em sua casa, comemorava o namoro, que logo se transformaria em casamento. Ela(1) queria apresentá-lo, carregava na consciência uma finalidade ilustrativa: Alfredo precisava aperceber-se do que ele não tinha, como se fosse culpado pelos seus genes. Seu futuro marido é atlético, alto e forte. Em todo o resto Alfredo é mais e mesmo assim ela(1) preferiu ter o que mostrar às amigas do que se sentir acompanhada apenas no refúgio do lar. Durante o jantar, Alfredo viu nos seus(1) olhos infelizes a resignação e o rancor dirigidos respectivamente ao namorado e a ele. Ela(1) desejava o impossível, queria extrair o melhor de cada e cozinhá-los numa única forma. O futuro-tolo-marido foi o único a não perceber o clima angustiante na mesa, os olhares engasgados, dali saiu para o sofá com a felicidade própria de um glutão e o sono da digestão.
Ela(2) apareceu sem cenário, em um sonho de fundo branco, nos braços, carregava uma criança, fruto do casamento recente. Enquanto brincava e sorria com o seu filho, ela(2) queria apenas mostrar o que Alfredo havia perdido, ao não ter ousado roubá-la de seu namorado, pois naquela época já quase esquecida por Alfredo, ela(2) o amava e ele a ela. Alfredo era escrupuloso demais, não se atreveria, achando que o amor dos outros era mais puro e merecedor que o seu e ela(2) temia a solidão, como a maioria das mulheres. Nos olhos dela(2) não havia rancor, apenas uma suave melancolia, que agora se apagava com a presença alegre da criança. Alfredo não soube ao certo a que ela(2) veio em seu sonho, ela(2) tinha em seu semblante uma mensagem pessimista e outra otimista, como se lhe dissesse: "por tuas escolhas, perdeste algo para sempre, mas por elas poderás ganhar o teu futuro, aprendas a domar este medo que nos afastou". Mesmo que não as tenha dito, foi com essas palavras que acordou no peito; ao se levantar, sentiu-se um pouco melhor, diferente, pois hoje, lembrou-se, já é capaz de rasgar cartas de rivais.
Ela(2) apareceu sem cenário, em um sonho de fundo branco, nos braços, carregava uma criança, fruto do casamento recente. Enquanto brincava e sorria com o seu filho, ela(2) queria apenas mostrar o que Alfredo havia perdido, ao não ter ousado roubá-la de seu namorado, pois naquela época já quase esquecida por Alfredo, ela(2) o amava e ele a ela. Alfredo era escrupuloso demais, não se atreveria, achando que o amor dos outros era mais puro e merecedor que o seu e ela(2) temia a solidão, como a maioria das mulheres. Nos olhos dela(2) não havia rancor, apenas uma suave melancolia, que agora se apagava com a presença alegre da criança. Alfredo não soube ao certo a que ela(2) veio em seu sonho, ela(2) tinha em seu semblante uma mensagem pessimista e outra otimista, como se lhe dissesse: "por tuas escolhas, perdeste algo para sempre, mas por elas poderás ganhar o teu futuro, aprendas a domar este medo que nos afastou". Mesmo que não as tenha dito, foi com essas palavras que acordou no peito; ao se levantar, sentiu-se um pouco melhor, diferente, pois hoje, lembrou-se, já é capaz de rasgar cartas de rivais.
domingo, janeiro 27, 2008
Promessa
Há quem se ache virtuoso por cumprir uma promessa. Olha-se no espelho com ar de dignidade por ter mantido a palavra que dera um ano atrás ou até mais. O prazer consigo mesmo dispara quanto mais espinhoso e sangrento for o caminho. "Lutei, resisti e venci!", dirá. Lembrará desses dias de sofrimento com sabor de heroísmo. Sim, lutou, massacrou e eliminou cada uma de suas vontades desvirtuantes. Este homem ou mulher agora se sente limpo, mas trata-se de uma limpeza cadavérica; lipoaspirou toda a sua carne, pois lhe soava pútrida e ignóbil. Contudo, era a própria carne que cortava, era a sua própria vida que matava e suprimia. E para que? Para aplacar a sua consciência débil, incapaz de conviver com a própria imundice, com as contradições que habitam o peito de cada um. Também o amor, mantido pelas juras, se transforma na mais monstruosa pulsão de morte quando a sua brasa já não é mais alimentada pela vontade íntima, mas sim pela obrigação, pela consciência. O pseudo-amante assim embriagado pelo odor límpido da sua obrigação, arrotará com satisfação todo o martírio que se impõe pelo outro, contará aos quatro cantos tudo que deixou de lado pelo outro, tudo que fez para estar do lado outro, como se o amor tivesse mesmo algo de heróico. Ele diz que se sacrifica com prazer pelo outro, pois o ama. Mentira! Não é ao outro que ele ama, mas a sua obrigação de amar, a sua necessidade de amar, a sua vontade de estar limpo e cheirar à pureza. O amor por um outro, na sua manifestação pura, simplesmente não contradiz o seu objeto e, o que é mais importante, muito menos contradiz com sacrifícios aquele de quem emana, pois nasce uníssono numa pulsão de vida orientada pelo outro. O amor genuíno é vida plena, sempre e talvez por isso ele não seja tão constante quanto gostaríamos em nossa oscilante existência.
quarta-feira, janeiro 23, 2008
Você, eu e nós
Ah, você voltou, mesmo depois de tê-lo posto na rua aos chutes, dando-lhe todas as minha razões, enumeradas, uma por uma, eu disse que nunca mais queria te ver, eu disse, e eis aqui você novamente, deslumbrante, fálico, erótico até, cabelos esvoaçantes, gastos, como a de um bêbado acostumado a dormir na sarjeta, e fui eu quem os gastei, só eu, magistralmente, sempre, não, saia já, não quero vê-lo, por que vieste? por que? Sabe que não resisto, não hoje com essa gravidade tão rarefeita...Eu já tinha prometido a mim mesmo que não voltaria a lhe por as mãos, eu, eu mesmo disse outro dia que era uma vilania aproximar de você e agora me expões a essa situação, a essa tentação...não consigo nem mesmo tirar meus olhos de ti, que força é essa meu deus? Poupe-me, poupe-me, por favor, há pessoas aqui, o que elas vão pensar vendo essa esquizofrenia tão manifesta? Danem-se, oh, quanta grosseira, danem-se, já não me importo, e Ela, e Ela, sempre a me olhar com reprovação, disse-me que tinha nojo da estranheza, que gosta só da normalidade límpida, do perfume insonso, do sabor aquoso, então ela me jogava aqueles olhos grandes e imponentes, escaneando-me de cima à baixo e eu me encolhia todinho, pequeno, curvando-me sobre mim mesmo, como se fosse possível esconder as aberrações que cortam a minha pele de fora a fora. Foi melhor assim, eu me odiaria se tentasse mudar o meu cheiro por causa dela. Eu o adoro assim, aliás, desde pequeno que me cheiro com prazer, banhado ou não, inspiro com o nariz bem tateado na pele até não conseguir mais, sinto a mim, só a mim. Ela foi embora, concluindo, "Diferente demais!". Obrigado, respondi. Se para Ela não me importei em ser todo eu, não é diante de vocês que eu vou me reprimir, tinha até graça. De mais a mais, Ela já é passado muito bem assentado. Não é por Ela que vieste hoje aqui, sei que não. Eu o odeio e, no entanto, estás aqui, fiel, como se me pertencesse desde sempre, como se não me fosse possível ser verdadeiro sem você, sem as suas pinceladas tão marcantes e, no entanto, você é vil, completamente vil. O que seria de mim sem você?
domingo, janeiro 20, 2008
Dor de arreia
Exatamente assim, você não leu errado, "dor de arreia" é o nome que duas crianças criativas, eu e a minha irmã, demos à diarréia em nossa inocente ignorância. Diria até que com uma lógica perfeita. "Dor de cabeça" não denomina uma dor que sentimos na cabeça, e "dor de dente", uma dor no dente? Por analogia, a palavra "diarréia", soltada veloz, de chofre, era interpretada como "dor de arreia", afinal, a diarréia vinha acompanhada de uma dor, então só poderia ser dor de alguma coisa, claro, a dor de arreia, ainda que não soubéssemos ao certo o que era a arreia, por certo alguma coisa dentro das nossas barriguinhas. Assim pensávamos. Os pais achando graça nisso tudo demoraram a nos revelar a verdade.
E veja só, se quisermos viajar, a coisa faz mais sentido ainda. Diarréia tem a ver com soltura intestinal. Da "arreia" vem o "arreio", usado em cavalos para retê-los ou soltá-los na andança. Logicamente a arreia é o dispositivo muscular por meio do qual o intestino se prende e se solta. Daí a dor de arreia, quando há algo errado e doloroso nesse dispositivo.
Pois sim, quando eu tiver uma filha eu lhe ensinarei "dor de arreia" e segregarei em seus ouvidos o absurdo médico de falar "diarréia", palavra tão sem lógica e sentido na cabeça de uma criança que se depara de uma maneira mais imediata com a dor e os seus diversos tipos. É, é isso o que farei.
E veja só, se quisermos viajar, a coisa faz mais sentido ainda. Diarréia tem a ver com soltura intestinal. Da "arreia" vem o "arreio", usado em cavalos para retê-los ou soltá-los na andança. Logicamente a arreia é o dispositivo muscular por meio do qual o intestino se prende e se solta. Daí a dor de arreia, quando há algo errado e doloroso nesse dispositivo.
Pois sim, quando eu tiver uma filha eu lhe ensinarei "dor de arreia" e segregarei em seus ouvidos o absurdo médico de falar "diarréia", palavra tão sem lógica e sentido na cabeça de uma criança que se depara de uma maneira mais imediata com a dor e os seus diversos tipos. É, é isso o que farei.
sábado, janeiro 19, 2008
Medo
Ontem senti medo sim, na casa de minha irmã, em Bragança Paulista, uma certa apreensão percorria-me o corpo ao pensar que teria de entrar na infindável São Paulo por um lado e encontrar uma certa saída do outro lado, completamente sozinho, sem nunca ter passado por lá antes de carro. Mandei mensagens para várias pessoas que talvez já tivessem passado pelo mesmo, buscando alguma informação reconfortante, mas só recebi de volta palavras de conforto moral, muito bem-vindas, é claro. O medo tomou uma tal dimensão que cheguei a baixar o mapa rodoviário do Estado de São Paulo em busca de uma rota alternativa, que evitasse passar pela capital. Achei uma, passando por Jundiaí, Itu e Sorocaba para depois pegar a Régis Bittencourt já na metade do caminho. Desisti por ser igualmente complicado, todas essas cidades são de um porte razoável e também nunca estive nelas. Até a minha irmã ficou um pouco apreensiva e me ajudou a procurar outras alternativas, numa dessas, levou-me até o centro do Estado de São Paulo, depois eu desceria pelo meio do Paraná, passaria por Ponta Grossa para enfim chegar em Curitiba. Uns 300 quilômetros a mais. Foi quando eu percebi a dimensão descontrolada e patética do meu medo. Era preciso enfrentá-lo e domá-lo antes que ele me dominasse por completo. Assunto encerrado e decisão tomada, iria passar dentro de sampa mesmo. Muni-me de um mapa da cidade e fui dormir para descansar. Acordei no outro dia ainda um pouco apreensivo, a cabeça confusa com os sonhos de estrada, mas resoluto. Tomei o café, abracei a minha irmã quase choroso já com saudades e parti ao encontro do meu destino.
Bem, desnecessário dizer que o desconhecido tem um efeito intempestivo sobre a imaginação, contribuindo para o surgimento de medos desmedidos. Claro que fiquei tenso, pois estava sozinho e tinha de prestar atenção no trânsito e nas placas, qualquer erro poderia significar algumas horas na busca do caminho correto. Quando você tem alguém de copiloto te guiando para onde ir, fica bem mais fácil. Mas tirando esse excesso de tensão, de atenção redobrada, foi muito tranqüilo, entrei em São Paulo, peguei a marginal e fui indo até aparecer (o medo era, e se não aparecessem?) as placas indicando a Régis Bittencourt. Quando elas apareceram, fui só seguindo. Depois de mais ou menos uma hora eu já estava aliviado fora de sampa.
Por que estou narrando tudo isso aqui para mim? É que eu fiquei pensando em como é ruim ter de enfrentar absolutamente tudo sozinho, ainda que isso me ajude a ficar mais forte de alguma maneira. Confesso que senti um certo quê de tristeza com este pensamento.
Bem, desnecessário dizer que o desconhecido tem um efeito intempestivo sobre a imaginação, contribuindo para o surgimento de medos desmedidos. Claro que fiquei tenso, pois estava sozinho e tinha de prestar atenção no trânsito e nas placas, qualquer erro poderia significar algumas horas na busca do caminho correto. Quando você tem alguém de copiloto te guiando para onde ir, fica bem mais fácil. Mas tirando esse excesso de tensão, de atenção redobrada, foi muito tranqüilo, entrei em São Paulo, peguei a marginal e fui indo até aparecer (o medo era, e se não aparecessem?) as placas indicando a Régis Bittencourt. Quando elas apareceram, fui só seguindo. Depois de mais ou menos uma hora eu já estava aliviado fora de sampa.
Por que estou narrando tudo isso aqui para mim? É que eu fiquei pensando em como é ruim ter de enfrentar absolutamente tudo sozinho, ainda que isso me ajude a ficar mais forte de alguma maneira. Confesso que senti um certo quê de tristeza com este pensamento.
terça-feira, janeiro 15, 2008
Amor
Ele amava tanto, mas tanto que chegava a lhe doer a razão, saia louco a cata de cada palavra dela que fosse, até em papel rasgado, costurava-os depois interpretativo, sorria imaginando-a pensando, como se a sentisse por dentro. Diante dela, emudecia por completo, queria ouvir-lhe tudo, tudo, tudo. Mas ela era muito arredia, tinha um coração por demais sangrado, passou a querer a amar pela razão. Então fugiu assustada, enxergou o amor dele como loucura.
Casa
Esta casa, onde já não tenho mais um quarto, sempre me assombrou pela sua fauna diversificada. Agora não, nas suas paredes velhas e descascadas, restam apenas as lagartixas, bem gordinhas, é verdade, pois no verão são abençoadas pelo excesso de pernilongos. Desde que fiquem ali na sala, não me incomodo. Não sei se iria querer dormir com uma no quarto onde 30 anos atrás fui feito. Não combina.
Nos meus primeiros anos de vida, a selvageria por aqui era mais intensa. Nos dias de chuva, bastava ir até a garagem para observar as rãs que buscavam refúgio no interior de casa, depois vinhamos com a vassoura devolvê-las à sarjeta. À noite, ao menos enquanto o terreno ao lado permaneceu baldio, era a vez dos ratos invadirem a cozinha em busca literalmente do queijo mineiro que aqui nunca faltou. Bem planejada para essa terra infernal, ela tem uma claraboia em uma de suas extremidades, permitindo uma agradável ventilação; em contrapartida, uma passagem desimpedida para os ratos da vizinhança. Lembro de armar as ratoeiras com a Dona Maria e lembro também de ver pela manhã bem cedo, com um certo nojo e terror, o rato ensangüentado, quase partido ao meio.
O banheiro que ficava imediatamente ao lado do quarto onde dormíamos eu e a minha irmã era literalmente sombrio. Suas pequenas basculantes eram insuficientes para que o sol lhe desse um tom agradável e aceitável. Mas o motivo principal para este cômodo até hoje me causar uma impressão desagradável, diria até um certo medo angustiado, é outro: foi lá que me deparei umas três ou quatro vezes com aranhas caranguejeiras. Numa destas, eu já estava sentado no vaso fazendo as minha necessidades, quando eu a vi saindo debaixo do cesto de roupas, enorme e imponente, dirigiu-se para a frente da porta, que estava fechada, e ali ficou, impedindo-me a retirada. Então com seis anos fui apresentado ao pânico. Ele foi-me tão monstruoso que já não lembro mais o que se sucedeu dali em diante. Gritei e muito.
Depois adolescente, morando em Minas, notei novidades quando certa vez vim passar aqui as minhas férias. A noite veio caindo e logo percebi uma movimentação para fechar as janelas. Bati de peito, isso não, com esse calor? Nem pensar! Logo me explicaram que, com a "urbanização" do lote vizinho baldio, a derrubada das mangueiras que ali habitavam e tornavam o meu dezembro suculento, os ratos evoluídos, vulgo morcegos, arranjaram novo pouso e morada no telhado de nossa casa. Nessas férias mesmo tive que lutar com um que se perdeu aqui dentro.
O episódio mais bizarro aconteceu ainda na infância. Estávamos todos na sala assistindo ao Fantástico, que, na década de 80, era certamente dirigido por um sádico, com seus fundos musicais assustadores e a voz grave do Cid Moreira pedindo aos pais que retirassem as crianças da sala em virtude das fortes cenas que viriam a seguir...eu e minha irmã ficávamos atrás da parede escutando os gritos e imaginando o terror. Se tivéssemos visto as cenas, possivelmente o medo seria menor. Mas como vinha dizendo, estávamos na sala, meu pai deitado no sofá e eu e minha irmã empoleirados nele. Foi quando eu apontei para o rodapé da parede e disse quase rindo com os meus inocentes sete anos, "Pai, olhe, é um cobra". Acostumado com a nossa fauna diversificada, ele retrucou sem olhar. "É só uma minhoca, filho". Eu já tinha visto minhocas e a achei muito grande para ser uma, resolvi insistir. "Não é não, é um cobra e ela está indo para o meu quarto!". Meu pai olhou então, e só me lembro dos seus olhos ficando esbugalhados de terror ao notar viva e colorida a jararaca venenosa se rastejando pela sala. Depois disso foi um deus nos acuda, eu, minha irmã, minha mãe pulando para cima do sofá e o meu pai e a Dona Maria correndo atrás da cobra com vassouras. Lá se foram mais quinze minutos de pânico até darem um fim à pobre coitada que provavelmente havia se perdido do leito do Rio das Graças.
Nos meus primeiros anos de vida, a selvageria por aqui era mais intensa. Nos dias de chuva, bastava ir até a garagem para observar as rãs que buscavam refúgio no interior de casa, depois vinhamos com a vassoura devolvê-las à sarjeta. À noite, ao menos enquanto o terreno ao lado permaneceu baldio, era a vez dos ratos invadirem a cozinha em busca literalmente do queijo mineiro que aqui nunca faltou. Bem planejada para essa terra infernal, ela tem uma claraboia em uma de suas extremidades, permitindo uma agradável ventilação; em contrapartida, uma passagem desimpedida para os ratos da vizinhança. Lembro de armar as ratoeiras com a Dona Maria e lembro também de ver pela manhã bem cedo, com um certo nojo e terror, o rato ensangüentado, quase partido ao meio.
O banheiro que ficava imediatamente ao lado do quarto onde dormíamos eu e a minha irmã era literalmente sombrio. Suas pequenas basculantes eram insuficientes para que o sol lhe desse um tom agradável e aceitável. Mas o motivo principal para este cômodo até hoje me causar uma impressão desagradável, diria até um certo medo angustiado, é outro: foi lá que me deparei umas três ou quatro vezes com aranhas caranguejeiras. Numa destas, eu já estava sentado no vaso fazendo as minha necessidades, quando eu a vi saindo debaixo do cesto de roupas, enorme e imponente, dirigiu-se para a frente da porta, que estava fechada, e ali ficou, impedindo-me a retirada. Então com seis anos fui apresentado ao pânico. Ele foi-me tão monstruoso que já não lembro mais o que se sucedeu dali em diante. Gritei e muito.
Depois adolescente, morando em Minas, notei novidades quando certa vez vim passar aqui as minhas férias. A noite veio caindo e logo percebi uma movimentação para fechar as janelas. Bati de peito, isso não, com esse calor? Nem pensar! Logo me explicaram que, com a "urbanização" do lote vizinho baldio, a derrubada das mangueiras que ali habitavam e tornavam o meu dezembro suculento, os ratos evoluídos, vulgo morcegos, arranjaram novo pouso e morada no telhado de nossa casa. Nessas férias mesmo tive que lutar com um que se perdeu aqui dentro.
O episódio mais bizarro aconteceu ainda na infância. Estávamos todos na sala assistindo ao Fantástico, que, na década de 80, era certamente dirigido por um sádico, com seus fundos musicais assustadores e a voz grave do Cid Moreira pedindo aos pais que retirassem as crianças da sala em virtude das fortes cenas que viriam a seguir...eu e minha irmã ficávamos atrás da parede escutando os gritos e imaginando o terror. Se tivéssemos visto as cenas, possivelmente o medo seria menor. Mas como vinha dizendo, estávamos na sala, meu pai deitado no sofá e eu e minha irmã empoleirados nele. Foi quando eu apontei para o rodapé da parede e disse quase rindo com os meus inocentes sete anos, "Pai, olhe, é um cobra". Acostumado com a nossa fauna diversificada, ele retrucou sem olhar. "É só uma minhoca, filho". Eu já tinha visto minhocas e a achei muito grande para ser uma, resolvi insistir. "Não é não, é um cobra e ela está indo para o meu quarto!". Meu pai olhou então, e só me lembro dos seus olhos ficando esbugalhados de terror ao notar viva e colorida a jararaca venenosa se rastejando pela sala. Depois disso foi um deus nos acuda, eu, minha irmã, minha mãe pulando para cima do sofá e o meu pai e a Dona Maria correndo atrás da cobra com vassouras. Lá se foram mais quinze minutos de pânico até darem um fim à pobre coitada que provavelmente havia se perdido do leito do Rio das Graças.
domingo, janeiro 13, 2008
Cherie
Ela tem o hábito higiênico de apagar meticulosamente todos os seus rastros, nenhuma pegada é deixada para trás, como se fosse possível trespassar uma pessoa sem lhe alterar um fio de cabelo, um átomo. Ela gostaria de ser de um outro mundo, como quem interagisse com os homens incausadamente, sem deixar efeitos. É aí que você se engana, cherie, a impressão na alma é indelével, só a morte apaga. Depois que se deste a mim, por qualquer perspectiva ou ângulo que seja, não podes mais tirar-se de mim. Não mesmo.
sexta-feira, janeiro 11, 2008
Cancelamento
Preciso de um único funcionário ou qualquer outra coisa violentável e representativa da Caixa Econômica Federal sobre a qual eu possa despejar de maneira concentrada, focada e com extrema violência e sadismo, sem o menor sentimento de culpa ou remorso, toda a minha ira acumulada ao longo de duas horas estiolantes e irrecuperáveis na tentativa de cancelar um mísero cartão de crédito.
Liguei ao todo 8 vezes. De uma maneira mágica e com profunda coincidência, espantosa até, sempre que lhes anunciava o motivo do telefonema, o cancelamento do cartão, a ligação caia alguns segundos depois. Evidente, a instituição financeira deve ter fortes vínculos com as instâncias divinas, zelosas em manter nas cercanias daquela a ovelha desgarrada e lucrativa.
Qual o motivo? Eu quero. Hã, não entendi. Estou a fim, sacou? Preciso saber o motivo. Veja bem, senhor, senhora ou senhorita do Marketing, das Vendas ou de que setor diabólico for, preste bem atenção e instrua os seus subalternos da telechateação com a minha instrução: quando, ao ser ser interpelado por um motivo, o cliente declarar a sua suprema volição, seu inalienável arbítrio sobre as suas decisões, não tente lhe extrair uma outra motivação marginal, como se estivesse sendo coagido por ela. Esta busca patética e imbecil só vai irritar ainda mais o cliente que agora absorto se vê obrigado a digladiar com uma voz que insiste em não compreender o simples e quase monossilábico "eu quero!".
Liguei ao todo 8 vezes. De uma maneira mágica e com profunda coincidência, espantosa até, sempre que lhes anunciava o motivo do telefonema, o cancelamento do cartão, a ligação caia alguns segundos depois. Evidente, a instituição financeira deve ter fortes vínculos com as instâncias divinas, zelosas em manter nas cercanias daquela a ovelha desgarrada e lucrativa.
Qual o motivo? Eu quero. Hã, não entendi. Estou a fim, sacou? Preciso saber o motivo. Veja bem, senhor, senhora ou senhorita do Marketing, das Vendas ou de que setor diabólico for, preste bem atenção e instrua os seus subalternos da telechateação com a minha instrução: quando, ao ser ser interpelado por um motivo, o cliente declarar a sua suprema volição, seu inalienável arbítrio sobre as suas decisões, não tente lhe extrair uma outra motivação marginal, como se estivesse sendo coagido por ela. Esta busca patética e imbecil só vai irritar ainda mais o cliente que agora absorto se vê obrigado a digladiar com uma voz que insiste em não compreender o simples e quase monossilábico "eu quero!".
domingo, janeiro 06, 2008
Se...
Se, por assim dizer, e aqui a suposição vai longe da atual realidade, da minha solteirice sem paternidade, mas vamos lá, se a minha filha chega para a sua mãe, então minha namorada/companheira/esposa, com um livro nas mãos e pede, quase implorando, com a sua vozinha doce e curiosa de criança, para que ela leia uma história e esta mesma mãe, prostrada em um sofá, abraçada à preguiça a que todos nós temos direito uma hora ou outra, lhe responde com a negativa em favor de um programa televisivo qualquer, um filme que seja, na melhor das hipóteses, então, neste mesmo instante, estarei lhe comunicando a separação e, claro, a filha virá comigo.
Ah, futura namorada/companheira/esposa, não seja atroz, lhe negue um banho, um lanche, uma roupa, um presente, mas, por favor, não lhe negue a leitura de um livro!!! Isso eu não perdôo.
Ah, futura namorada/companheira/esposa, não seja atroz, lhe negue um banho, um lanche, uma roupa, um presente, mas, por favor, não lhe negue a leitura de um livro!!! Isso eu não perdôo.
sábado, janeiro 05, 2008
Humilhação
Pior do que ver uma criança chorando é ver um homem humilhado, possesso na sua dor, completamente encerrada pela sua fraqueza; a fúria fervilhando vermelha nos olhos, de onde ela não sai jamais, mas está ali estampada para qualquer um ver. O humilhado não tem forças para irradiar o seu ódio, de outro modo ela findaria antes mesmo de nascer, no tapa reativo, no "não, isso eu não aceito!". Sofre moralmente e emocionalmente. Seu ódio contido só lhe corrói, veneno mortal ao amor próprio. Ele fraquejou, não o conheço, não sei seus motivos, as convenções sociais que lhe passaram pela cabeça, o poder alheio que estimou, mas calou-se, mordeu-se por dentro, enrolou a própria língua. Eu vi quase de perto, atento, e ele notou que o via, o que, infelizmente, só ajudou a aprofundar ainda mais a sua humilhação, mesmo que eu estivesse lhe dizendo, "oh não, eu entendo". O melhor era não ter entendido, não ter visto nada.
O ofensor, por seu turno, não parecia estar minimamente perturbado, agia com tranqüilidade e desenvoltura, como se aquela violência irrompida de suas mãos e boca fosse o seu natural. Imagino mesmo que fosse. Tanto orgulho, tanta força, tanta vontade de se expor e se mostrar que qualquer sensibilidade mais aflorada sente-se mesmo humilhada na sua presença. Seria diferente se ele tivesse a intenção de ofender. Mas ele sequer parecia perceber a humilhação do ofendido, seguia rente, sem nem encará-lo.
Eu fico me perguntando, independentemente da força/vontade de cada um, vocês não têm curiosidade de saber o efeito do que diz e faz no seu interlocutor?
O ofensor, por seu turno, não parecia estar minimamente perturbado, agia com tranqüilidade e desenvoltura, como se aquela violência irrompida de suas mãos e boca fosse o seu natural. Imagino mesmo que fosse. Tanto orgulho, tanta força, tanta vontade de se expor e se mostrar que qualquer sensibilidade mais aflorada sente-se mesmo humilhada na sua presença. Seria diferente se ele tivesse a intenção de ofender. Mas ele sequer parecia perceber a humilhação do ofendido, seguia rente, sem nem encará-lo.
Eu fico me perguntando, independentemente da força/vontade de cada um, vocês não têm curiosidade de saber o efeito do que diz e faz no seu interlocutor?
segunda-feira, dezembro 31, 2007
O gosto do saber
Várias pessoas já me disseram sentir angústia por notar a sua impotência e incapacidade de conhecer tudo o que há para conhecer. O tempo é escasso, o trabalho demanda especialização, o bolso não é suficiente para tantos livros, alguns assuntos estão muito longe da sua compreensão etc. A mim não angustia ter de lidar com essas diferentes facetas da finitude humana. Claro que sou mordido pela curiosidade e quero sempre saber mais. Mas sem alvoroço. O conhecimento é como um prato refinado de comida, deve ser apreciado e degustado lentamente. Para que comer com pressa? Só para poder dizer "eu sei!"? Sim, você sabe, mas...até quando você saberá? O que me angustia de verdade não é pensar vagamente em coisas que eu não sei, que, justamente por não saber, sequer tenho como imaginar a não ser de modo bem confuso; o que me angustia é saber muito concretamente, de modo bem definido, que eu já não sei mais coisas que um dia eu soube, o que me angustia é saber que o que eu sei se esvai num jato contínuo na mesma velocidade, na mesma vazão com que aprendo novos assuntos. Eu me angustio pela perda real, não pela ausência do indefinido. Prefiro comer devagar sim, lentamente, tentando absorver e apreciar toda a variação de gosto e textura do alimento. Estou certo que assim a sua influência sobre o meu organismo será mais duradoura e mesmo mais profunda e intensa. Acaso se lembrará do gosto da comida quem a comeu de chofre, em segundos, mal mastigando? Talvez se lembre do mal-estar ocasionado pela gula e só. Sinceridade, eu não quero mesmo saber tudo, eu quero ter fruições intelectuais, quero sentir aquela comichão despertada pela compreensão que pouco a pouco vai se alargando e envolvendo o assunto estudado, que percorre solta e faceira nas suas associações, não quero apenas saber mais, quero também sentir e perceber o impacto deste saber em cada uma de minhas células. Enfim, quero a apreensão total de cada saber, quero mastigar o alimento completamente na minha boca, onde tenho nervos para senti-lo, até que derreta por inteiro. Nada de acúmulo eciclopédico, burro e voraz de vários saberes, o qual, aliás, causa náusea e gastrite.
domingo, dezembro 30, 2007
Milyang
O marido morreu em um acidente, e o filho foi brutalmente assassinado após sequestrado, e ela, elo terreno entre ambos, findou-se por dentro. Lágrimas, dor, desamparo. Brevíssimo, o amor reaparece, pelas mãos intangíveis de Deus. Ela o aceitou e sorriu, encobrindo a sua tristeza incrustada. Paralelamente, todo o tempo, ele estava lá, apoiando-a em tudo, respeitoso, amigo, dando-lhe um amor que ela rejeitava indignada. E, no entanto, as mãos dele eram tangíveis. Quanta incongruência! Arrisco um palpite explicativo: a dor foi tão intensa que lhe deixou um medo indomável, para casos assim, Deus é perfeito. Ele é imortal, seu amor incessante não se esgota e ele jamais abandona, a não ser quando finda a fé. Fé acabada, deus, agora minúsculo, inexiste, nenhuma dor por abandono. Na encruzilhada entre o palpável e o impalpável, o medo lhe soprou baixinho o veneno da fantasia. Fiou-se num amor inumano, sem decepções, baseado inteiramente na sua ilusão, na sua crença e, pasmem, sobretudo na sua vontade de sobreviver, perecer permanecendo. E, no enanto, o amor real, brutal e humano estava bem ali do lado dela, bastava abrir os olhos e estender as mãos. O ser humano amedrontado, porém, nega-se a viver. Segue-se mais uma tragédia. Mesmo esse amor cristalino, ideal, cheirando adocicado, foi capaz de lhe trair. Ela se preparou para perdoar o seu ofensor, o assassino de seu filho. Tentativa de resgatar a dignidade pela humilhação, pois não há nada mais ofensivo que o perdão, exercício puro da vontade de humilhar. Lá chegando, porém, sentiu funda a facada divina fincada nas costas: encontrou o seu ofensor sereno, em paz. Deus já o havia perdoado e expiado a sua culpa. Sucedeu-lhe a loucura. E ele imperturbável no seu amor permaneceu ao lado dela. Ao vivo e a cores em Secret Sunshine.
sábado, dezembro 29, 2007
Calor
A umidade brota da pele impiedosa, rompe poros, escorre incomodamente pelo corpo e deixa a sua marca salgada. Olho para a cama, os livros que lá estão, a vontade de ler, de apropriar-me de algum pensamento, mas sinto um cansaço só de me imaginar lendo suando, as palavras se arrastando, a concentração embotada. Realmente não dá. Realmente eu não poderia. Não aquentaria. Aquela oferta de fazer pós-doutorado em João Pessoa foi bem recusada. Eu não suportaria por muito tempo. O ser humano se adapta, mas bem, uns se adaptam mais facilmente que outros, há toda uma fisiologia particular, particularíssima a se considerar, eu sou calorento, é fato. Aos 15 graus ainda estou só de camiseta. E de mais a mais, chega dessa vida de cigano. E que família a nossa, ein, estava comentando mesmo esses dias com a minha irmã. Migrante desde os antepassados. Conosco não foi diferente. Eu aqui, ela em São Paulo, o pai no Espírito Santo, o irmão em Porto Alegre, a mãe em Minas. O mesmo destino para a família do irmão da minha mãe, que, durante toda a minha infância, foi muito próxima da gente. A prima querida no Rio, a irmã dela em Natal, o irmão em Tocantins, a mãe nos confins do Pará, o pai no Espírito Santo. Poxa, só está faltando alguém no centro-oeste. Alguém tem de ir para lá! Nem olhem para mim. Cuiabá, imagine, uma cidade que fica num fosso, abaixo do nível do mar, onde 30 graus é fresco, brandura e suavidade. Família de curiosos, isso sim. E agora volto ao Espírito Santo, passar uns dias, rever o pai, a dona Maria, minha segunda mãe, a sua comida boa, o seu colo gostoso, mas sinto um peso aqui sobre a minha pele, uma ardência queimada, só de imaginar o calor natural do vale do rio doce com o seu por do sol tão lindo quanto quente, incandescente. Pequeno, nos dias de mais violento calor, eu pegava gelo para chupá-lo ou passá-lo pelo corpo, depois ia me deitar no piso de ardósia, lá na varanda, esperando pelas esporádicas correntes de vento e ria de prazer quando elas vinham. Ficava ali horas, às vezes com um livro, outras com algum brinquedo ou apenas olhando as formigas que traçavam o seu caminho entre os vãos das pedras. Só tem uma coisa boa nessa história de calor, minha carência baixa para zero, sai de perto, não tem abraço, nem beijo, nem nada. É, paz de espírito no meio de um inferno corporal.
quarta-feira, dezembro 26, 2007
Serra Verde Express

Depois que ela nos entregou as latas de refrigerante, explicou: "abre de baixo para cima, puxando o pino, está bem?". Eu e minha irmã nos olhamos com ares de incompreensão. Procurei pelas minhas fraldas, meus pais ou qualquer pessoa mais velha que pudesse ser legalmente responsável por mim e pela minha irmã. Ninguém, estávamos sós, a mercê da própria sorte e, para falar a verdade, adultos. A frase foi lançada de chofre sem pensar, só pode. A despeito dessa bola fora, a guia foi super simpática, loquaz e cativou-me com o seu sorriso largo e amistoso. Pensei até em fazer o passeio novamente só para vê-la outra vez. Para falar a verdade, eu sempre caio de admiração por essas pessoas que lidam com o público com desenvoltura, seja a simpatia fingida ou não. Elas têm um talento que eu definitivamente não tenho. Admiro mesmo, fico olhando embasbacado.

Mas vamos ao que interessa: são três horas e meia de puro verde, serra, pontes, túneis, corredeiras e represas. Valeu à pena sim. E preste muita atenção nessa dica: opte pelo lado esquerdo do trem. Ao comprar a passagem, vão lhe dizer que a venda é seqüencial. Se der azar e a próxima for do lado direito, espere aparecer alguém para comprá-la e compre logo em seguida a do lado esquerdo. A melhor vista da serra, panorâmica, que se estende até o mar, está desse lado. Não sabia disso e me senti prejudicado.

A segunda dica é que não tem muita coisa para fazer em Morretes além de comer o tal do barreado, prato típico do litoral do Paraná e que, diga-se de passagem, ainda não me convenceu. Assim, não façam a burrice de comprar a passagem de volta, no caso de preferir o retorno de ônibus, depois do almoço. Não pensamos nisso e ficamos presos na cidade até às 16:00, num calor infernal. Pelo menos conseguimos um banco debaixo de umas árvores na beira de um rio e ali ficamos lendo por umas duas horas.

E se você, como eu, for muito calorento, considere fazer esse passeio em outra época, no outono ou inverno. Estava insuportavelmente quente.
Vergonha!
Vergonha, vergonha! Sim, é uma verdadeira baixeza lançar mão da compaixão para sensibilizar o outro quando o seu poder de sedução é nulo. E por toda a parte vemos essa vilania. Quando o seu brilho natural não apetece aos olhos do almejado, quando, ao contrário, ele lhe vê fosco, você começa então a pintar e desenhar o seu sofrimento, a sua dor. Que vulgar! Você pensa, se não sou admirado, que ao menos me distancie da indiferença pela compaixão. E assim começa a se dedicar à pintura dos sentimentos, aperfeiçoando-se no uso dos tons de cinza e do negro na arte do auto-retrato, tornando-se mestre na retórica do sofrimento, amplificando, exagerando e inventando detalhes inauditos da sua dor. Quer assim ver o outro chorando por ti, dispondo-se a seu favor, com ar protetor e consolador diante da sua fraqueza vilmente manifesta. Não, nem sempre isso é consciente, mas pouco importa, é baixo. E talvez pior ainda do que este, e repare que falo aqui de um tipo ao qual, em um momento ou outro, todos nós nos aproximamos, sim, eu também confesso a minha vilania, pior ainda é aquele que se deixa seduzir pela compaixão, oh, e também aqui sou um pecador, talvez até mais aqui. Fracos, são todos fracos, somos todos fracos. Lembremos, por exemplo, do Princípie, personagem principal de O Idiota; quando mais a sua firmeza foi necessária e demandada, quando não só o seu futuro próximo e longíngüo estavam em jogo, mas também o da sua amada Aglaia, ele fraqueja e sucumbe por completo diante da compaixão, diante da pintura mais sombria e lúgubre que Nastassia já havia feito de si mesma. Naquele segundo abissal, colossal, de um peso incomensurável, ele se atordoa, se indigna até mortalmente com Aglaia, pois sim, naquele seu instante de completa indecisão ele fere irreparavelmente o amor que ela lhe tinha, seu poder, enfim, é mais fraco que o da Nastassia, e ele se curva diante dela, a compaixão sai vitoriosa, vence até o seu amor. Aonde chegamos, meus amigos, o amor sendo vencido pela compaixão! Lutemos, lutemos contra essa vilania, essa fraqueza dupla que tenta a todo instante nos infectar e corroer.
segunda-feira, dezembro 24, 2007
Irritação
O que mais lhe dói não é nem tanto a rejeição, ele a entende e a assimila com uma paz quase estóica, o que mais lhe rasga por dentro é perceber a irritação que a presença do seu afeto ou carinho gera nela. Isso desce engasgando, cortando. O seu curso de raciocínio para a rejeição é o seguinte: "da mesma forma que não me cabe pedir razões para o sentimento que aflora, e muitos vezes elas lhe seriam até contrárias, também não há qualquer motivo para que o sentimento correspondente não tenha surgido nela. Em mim surge e pronto, nela não surge e pronto. Eis o fundo do poço, não há mais onde escavar, razões a encontrar". Esse pensamento amansa a sua alma e mitiga a dor da rejeição. No entanto, ele não consegue produzir o mesmo pensamento para a irritação, repulsa e, quem sabe, nojo gerados pela percepção do seu afeto. Ele se pergunta, "por que o afeto de uma pessoa por mim e pela qual eu não tenho nenhum sentimento forte me irritaria? Não acho uma resposta, não entendo, a empatia não rola. Faço uma pergunta indevida?" Talvez. A irritação também não poderia ser uma paixão bruta, desmotivada? Por que não? Ela não acontecer nele é uma contingência, mas em outros corpos, com outras fisiologias, ela pode ser nata, instintiva, uma opção natural do organismo para repelir o que não lhe agrada, mesmo que não lhe seja nocivo. Sim, pode ser que seja assim. Mas pensando bem, há uma outra explicação melhor: a irritação não emana da mera percepção do afeto não correspondido, mas sim da imaginação do que ele pode fomentar, pois sabemos como é comum alguém se arrebatar, exagerar, dramatizar pelos seus sentimentos a ponto de manifestar-se àquele que não o corresponde de maneira insistentemente irritante. Assim, mesmo que algo acalorado e vibrante não tenha emergido na pele do apaixonado, a imaginação antecipa para o presente a irritação futura. Sim, isso parece bem mais razoável. Ele acaba de ter essa mesma compreensão e ela adocica um pouco a sua experiência, mesmo que não elimine todo o azedume.
Resta ainda a maior de todas as suas aflições presentes. Uma vez percebida a irritação que produz, independente da sua causa, se é que tem uma, o que fazer, que curso de ação tomar? Pois sim, sua consciência se aflige, "como posso conviver com o fato de que irrito, desagrado e assim faço mal àquela que justamente só quero bem?" Ele vê dois caminhos, ou melhor, duas possibilidades, pois falar em 'caminhos' parece pressupor que está em condições de escolher um deles, e não é certo que seja este o caso. Por um lado, ele poderia seguir como um espírito forte, centrado em si mesmo, lançando fora qualquer culpa, libertaria sua pulsão de vida por completo, seu afeto floresceria incandescente, mesmo que viesse a ter por conseqüência provocar uma irritação ainda maior nela, mas ele estaria vivo e estaria sendo fiel a si mesmo. Por outro lado, ele poderia reunir todas as suas forças destrutivas, evocar seu Tanatus, e dirigi-lo impiedosamente se não tanto para o seu afeto, que, eu creio, ser indestrutível por volição, ao menos para a sua manifestação, ceifando assim parte de si. Ele se espancaria dia após dia até que o afeto se tornasse comprimido e fraco a ponto de se perder e se afogar no mar confuso das paixões. Uma extinção por repressão.
Poupa a ela ou a si, a sua consciência ou o seu sentimento? Essa pergunta faz sentido, há escolha possível aqui? Ele se sente cindido, esquizofrênico com este dilema em mãos.
Resta ainda a maior de todas as suas aflições presentes. Uma vez percebida a irritação que produz, independente da sua causa, se é que tem uma, o que fazer, que curso de ação tomar? Pois sim, sua consciência se aflige, "como posso conviver com o fato de que irrito, desagrado e assim faço mal àquela que justamente só quero bem?" Ele vê dois caminhos, ou melhor, duas possibilidades, pois falar em 'caminhos' parece pressupor que está em condições de escolher um deles, e não é certo que seja este o caso. Por um lado, ele poderia seguir como um espírito forte, centrado em si mesmo, lançando fora qualquer culpa, libertaria sua pulsão de vida por completo, seu afeto floresceria incandescente, mesmo que viesse a ter por conseqüência provocar uma irritação ainda maior nela, mas ele estaria vivo e estaria sendo fiel a si mesmo. Por outro lado, ele poderia reunir todas as suas forças destrutivas, evocar seu Tanatus, e dirigi-lo impiedosamente se não tanto para o seu afeto, que, eu creio, ser indestrutível por volição, ao menos para a sua manifestação, ceifando assim parte de si. Ele se espancaria dia após dia até que o afeto se tornasse comprimido e fraco a ponto de se perder e se afogar no mar confuso das paixões. Uma extinção por repressão.
Poupa a ela ou a si, a sua consciência ou o seu sentimento? Essa pergunta faz sentido, há escolha possível aqui? Ele se sente cindido, esquizofrênico com este dilema em mãos.
domingo, dezembro 23, 2007
Elizabeth McGovern

Ela debuta em Ordinary People (1980). O filme é muito ruim, eu particularmente não gostei. Um garoto nos seus 16 ou 17 anos entra em crise existencial, apresentando tendências suicidas, após perder o irmão em um acidente de barco. Sente-se culpado por não ter conseguido ajudá-lo. O tempo inteiro tive vontade de entrar no filme com uma corda para finalizar com o choramingo do menino: tome, enforque-se logo! Mas não é do chato que eu quero falar. É dela, é só por ela que eu assisti até o final, mesmo sendo uma personagem secundária. Vocês sabem o que é se apaixonar literalmente pela imagem, pela visão, pelo que a pessoa tem de mais externo? Pois é, confesso, vulgarizei-me diante dela, caí de quatro. Não resisti aos seus olhos de lince, aos cabelos curtos, à voz meiga, às roupas escolares, oh sim, quase um ataque pedófilo, fui completamente abatido pelo desejo de olhar. E por favor, não me venham com links de fotos atuais dela, eu não me apaixonei por ela, nem por ela com os seus 20 anos, antes ou depois do filme, mas exatamente por ela assim, neste filme, nessa personagem, nesta cena, com esse olhar, apaixonei-me por uma aparição única e instantânea sua que a fotografia e o cinema congelaram para mim no eterno. Claro que uma paixão assim, sensual, visual, perceptiva, só é saudável se completamente fugaz. Oh sim, já passou, mas fica aí o tributo à beleza da moça.

Alfredo me acotovelando aqui: "que beleza de mãos!". Certo...certo.
sábado, dezembro 22, 2007
Control

Completamente em preto e branco, em sintonia com a existência poética e depressiva de Ian Curtis, Control (2007) nos exibe com primor os cinco últimos anos da vida deste músico, vocalista da banda Joy Division. O roteiro é baseado em texto da sua própria esposa, Deborah Curtis. Quem, como eu, curte a banda ficará satisfeito com a seleção das músicas que compõem a trilha sonora do filme. Cobrem bem a obra e caem perfeitamente para o momento vivido por Ian. Transmission, Isolation, Disorder, She's Lost Control, Love Will Tear Us Apart, para citar algumas. Independente de gostar ou não da banda, o drama de Ian, sua vida dividida entre dois amores e a banda, suas crises epilépticas e suas próprias angústias existenciais, são suficientes para envolver o público. Ao ver a performace do Ian nos shows, seus movimentos desarticulados dos braços, finalmente entendi a maneira esquisita de dançar dos seus fãs que eu via nas boates góticas em meados dos anos 90. Ah, não falei ainda de Atmosphere, não é mesmo? Esperei por ela todo o filme, angustiando-me a cada minuto com a sua ausência imperdoável. Ela foi deixada para o final, servindo de fundo para o suicídio de Ian. Decisão corretíssima do diretor, pois não consigo lembrar de outra composição que melhor o resuma e o expresse. É uma letra rarefeita, confusa, taciturna, fazendo bolhas de sentido que logo se arrebentam, ao passo que a melodia é de uma calma e paz penetrantes.
Atmosphere
Walk in silence,
Dont walk away, in silence.
See the danger,
Always danger,
Endless talking,
Life rebuilding,
Dont walk away.
Walk in silence,
Dont turn away, in silence.
Your confusion,
My illusion,
Worn like a mask of self-hate,
Confronts and then dies.
Dont walk away.
People like you find it easy,
Naked to see,
Walking on air.
Hunting by the rivers,
Through the streets,
Every corner abandoned too soon,
Set down with due care.
Dont walk away in silence,
Dont walk away.
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