sexta-feira, agosto 10, 2007

Magia

Estava andando pela rua, quando vi o menino do balão azul, ele tinha a pele manchada de sol, seca, cabelos loiros e escurecidos, caminhava olhando reto, sem expressão, como uma criança que quase nunca pôde se deixar levar pelo brincar, parecia carregar o balão por obrigação e não por diversão. Quando nos cruzamos, seu balão começou a subir e ele também, segurando sem esforço na corda, leve, planando. Foi quando o vi gargalhar e eu sorri, admirado com aquela mágica gravitacional. E ele foi subindo, subindo, suas gargalhadas cada vez mais inaudíveis, até que ele sumiu por trás de uma nuvem rosada em forma de elefante. Continuei andando com aquela imaginem na mente por alguns minutos, fazendo o meu caminho costumeiro. Observava as mesmas árvores e as mesmas casas amarelas de sempre, pois sim, em uma mesma quadra, os moradores engendraram uma admiração conjunta e pintaram suas moradas com o ouro da bandeira nacional. Passei por ali pensando nos ipês amarelos. Lembrei que na escola eu pintava os olhos humanos de amarelo, eu sempre quis ter olhos em um tom amarelo esbranquiçado, olhos que refletissem quase por completo, para servir melhor de espelho ao outro. Então cheguei em uma esquina e havia um sinal para pedestre, vermelho. Coloquei as mãos no bolsos e girei o corpo, olhando inclinado para cima, procurando o menino do balão azul. Vi dois falcões cruzando o céu e um deles segurava uma corda no bico. Ao olhar novamente para frente, franzi o rosto, tentando compreender o que se apresentava a minha frente. Parecia ser o Alfredo. Mas era o Alfredo! Mas como poderia ser ele? Ele estava no meio de duas mulheres ruivas e de mãos dadas a ambas. Pasmem. Ele me viu, mas era como se não tivesse me visto. Viu um rosto apenas, não o seu amigo de infância. O sinal abriu e ele começou a caminhar com as sua ruivas. Ele apertava a mão de uma, depois a de outra, cheirava o cabelo de uma, inclinava o rosto para se apoiar no ombro da outra e assim vinha, faceiro. Dei meus passos também, em sua direção, sempre tentando encontrar seus olhos, sua alma. Mas ele estava sintonizado em outra estação, estação do fogo. Passou por mim e foi-se. Quando terminei de atravessar a rua, voltei-me para trás para observá-los. Uma das ruivas era magrela, esquia, bem mais alta que Alfredo, mesmo se estivesse sem o salto alto, que usava com classe. A outra tinha ares de adolescente, mais carnuda, coxas bem brancas, exibidas pela sua saia rodada curta, quadril largo, andava rebolando, esbarrando em Alfredo e chamando a atenção dos homens que lhe cruzavam o caminho. Segui em frente, andei por mais quinze minutos até chegar em meu destino, o parque da grama estrelada. Sim, a grama do parque possui desenhos de estrelas em relevo. Eles deixam a grama crescer em alguns pontos e depois podam no formato estrelar. Gosto de uma em especial. Ela fica quase no topo de uma pequena elevação e suas pontas são levemente avermelhadas. Não sei se plantaram ali um tipo especial de grama ou se o sol que bate forte naquele ponto a queimou e deu aquele aspecto à estrela. Mas é ali que me sento, ao lado da minha Estrela da Tarde, onde posso ver o sol se pôr entre os prédios da cidade. Vi mais nuvens rosadas de elefante. Hoje seria mais belo que o habitual, pensei. Ainda faltava uma hora para o sol cruzar a linha do horizonte. Resolvi me deitar um pouco para descansar, usei a ponta da estrela como travesseiro. Estava gostoso assim, os fios de grama se moviam em um vai-vem carinhoso, alisando a minha nuca. Fechei os meus olhos, sentindo o calor do sol queimando meu rosto rosado por completo. Algo começou a tocar a mina mão, senti uma pressão leve seguindo suavemente as minhas linhas da vida. A textura era um pouco diferente da pele humana, mais macia e aveludada. Morno. Abri os olhos e não vi nada, embora continuasse sentindo o contato. Logo percebi que era a Venusiana que estava ali do meu lado, invisível na sua presença. Viera assistir o pôr do sol comigo. Voltei à escuridão para melhor conversar com ela, usando a linguagem das mãos, do toque. A Venusiana sempre entendeu a minha necessidade, e acredito que ela também a tenha, de conversar através do silêncio, de recusar o imperativo da palavra, de explorar a linguagem do corpo, do contexto, da situação; há muito o que falar pela alteridade. Uma vez ela me disse que as palavras são como caixas onde guardamos as coisas para esquecê-las. E é verdade. O substantivo concreto se desmancha na mente sob a forma de conceito. Chega um momento em que você fala "cadeira" e já não tem mais nenhuma cadeira particular em mente. Esqueceu-se dela ou delas. Triste. Então, pelas mãos, abrimos os nossos corpos e a intimidade pôde se compreender pelo toque irregular e ilógico, toque que ia fundo sem a casca da forma. Assim ligados e conectados presenciamos o pôr do sol mais sublime de nossas vidas. A bola celeste e todo o universo se transformando diante de mim pela magia humana da significação.

5 comentários:

Anônimo disse...

"Vênus luzia sobre nós tão grande
Tão intensa, tão bela, que chegava
A parecer escandalosa, e dava
Vontade de morrer."

Sempre a violência da palavra, castrando o não-dito.

Anônimo disse...

E ela te resgatou dessa vez?

Eros disse...

Ela sempre evade.

Anônimo disse...

E você acabou se rendendo a habitantes de outros planetas ou à outras Venusianas?

Eros disse...

ah, sei lá, aqui na Terra tá tudo muito fragmentado com o pós-pós-modernismo.