sexta-feira, agosto 03, 2007

Locomotiva

Enquanto dormia, foi lançado na locomotiva do tempo. Ela foi levando-o velozmente para bem longe do que ele era. Via, pela janela, se afastar o cenário do seu presente, as paisagens onde ele tinha se acostumado a andar, a deitar à noite sobre a relva para ver as estrelas. Já não sentia mais as cócegas das formigas que subiam em suas pernas e se entrelaçavam em seus pelos. Olhou para elas e viu-as límpidas, brancas, sem marcas de picadas, como se algo as tivesse apagado. Olhou fixo, pela última vez, enquanto ainda era possível, para a casa onde, até então, havia morado. Lembrou-se do seu primeiro tombo de bicicleta e sentiu leve, já bem fraca, a ardência do joelho ralado. Tudo ia se apagando enquanto a locomotiva seguida o seu caminho, indiferente a ele, sem lhe dar qualquer chance de reação. Na verdade, não havia um caminho, ela apenas ia, se afastava, sem prestar contas, sem anunciar destinos, sem padecer pelo que causava aos outros, fosse alegria ou tristeza. A locomotiva do tempo é completamente impessoal. E ele estava ali sentado no banco tentando segurar, com todas as suas forças, tudo o que ele era, tudo o que ele foi. Quando mais se esforçava para continuar sendo, menos ele era, mais deixava de ser, mais se perdia em lembranças que se apagavam, em imagens que criava como se algum dia elas tivessem lhe pertencido. Via, aos poucos, meio confuso, partes de si ficando para trás e começou a sentir um medo queimando a boca do estômago, uma angústia que lhe dava um nó na garganta. Pensou na sua extinção, na sua ausência completa e isso lhe pareceu aterrador. Mas depois percebeu que, por mais que se mutilasse, por mais que seus fragmentos se dispersassem pelo cosmos, ele ainda estava ali, assistindo e padecendo o horror deste acontecimento. Ele estaria consigo ainda que não houvesse mais nada com que estar. O medo passou, mas no lugar ficou a tristeza, ficou a nostalgia do belo que ele havia perdido, que ele deixara escapar quando a locomotiva começou a andar. Embora ele não se lembrasse de mais nada concretamente, havia em si a semente mnemônica, o pensamento de algo perdido, a presença da ausência, a vivência do vazio. Ele sabia que algo lhe faltava, mas não tinha idéia do que poderia ser e de como poderia resgatá-lo. A locomotiva parou e a porta se abriu. Uma luz se irradiou para dentro da cabine, era muito forte. Ele não pôde ver o que havia lá fora. Resolveu ficar. Fechou os olhos e se encolheu. A locomotiva partiu novamente e ele com a esperança de que ela agora lhe levasse também a sua tristeza. Escolhas, sempre elas...

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