sábado, abril 28, 2007

Dualidade

E, no entanto, ela chorava por imaginá-lo sofrendo. Não havia culpa em suas lágrimas. Apenas dor, dor por não conseguir corresponder o amor tão perene que ele lhe tinha; ele, o seu amigo, ele, que desde sempre esteve ao seu lado, ele, que estava diariamente atento ao seu bem-estar, ele, que trazia consigo a compreensão dos seus anseios e medos, enfim, ele que, pela lógica da razão, ela deveria amar. Mas não é assim que raciocina o coração. E ele calado sofria. Para ela, externava sempre o seu resíduo de alegria, sem nunca fraquejar. Seu amor a ela nunca impôs. Mas ela sabia, assim como todos da cidade. Por mais que um sorriso ou um abraço da amada pudesse lhe provocar euforia, não há alegria em amar sozinho. Era a ferida que carregava sempre consigo. Havia nos olhos dela muito cansaço. Por anos tentou se vencer pela vontade. Quis muito amá-lo, mas nunca logrou. Entristecia-se ao sentir tão duramente essa limitação. Ela se questionava: "como pode haver algo em mim que não consigo vencer?". E quanto mais ela se perguntava e se esforçava, mais sólida lhe parecia essa resistência, esse atrevimento de um quinhão do seu Eu, que era, ao mesmo tempo, à luz da razão, o seu não-Eu. Mas pode o coração ser menos Eu que a Razão? Claro que não. E para ela não era menos doloroso que para ele. Então ela chorava, enquanto ele sorria em falso.

Nenhum comentário: