Em dias normais, quando ele amanhece cinza e chuvoso, eu acordo e levanto com uma alegre disposição. Hoje não. Vi pela janela o cinza que tanto me agrada, escutei os pingos torrenciais da chuva que caia, refrescantes, mas continuei sem forças para levantar. Minhas obrigações vieram à mente e nada. Não imagino que sonho ou pensamento noturno possa ter tido para acordar assim. Sinto o efeito, desconheço a gênese. Minto. Lembrei-me da minha paranóia. Não é isso, não penso que sou perseguido, que há alienígenas tentando me capturar ou que, quando algo dá errado no trabalho ou na faculdade, exista uma confabulação dos meus colegas, superiores e professores para me sacanear. Não tenho esse tipo de paranóia, não acho que sou perseguido, nem que as pessoas vão se esforçar para me prejudicar, não me dou toda essa importância, embora até tenha motivos para pensar que sou perseguido. Uma pessoa disse ter me visto passar várias vezes sem que eu a tenha visto ou notado. Não tenho medo. Sofro do que se pode chamar de "paranóia emocional" ou "paranóia pessimista". Suponho sempre que serei rejeitado e que se a minha presença não causa desgosto, desperta, na melhor das hipóteses, indiferença. Tenho olhos de águia para os sinais da rejeição. Um olhar distante, a falta de um sorriso no momento oportuno, as mil e uma maneiras, talvez muitas inventadas por mim, do enfado se expressar em um rosto, a delonga em responder-me, em qualquer situação, presencial, e-mail, msn, este, então..., tudo isso é filtrado em pilo automático pelos meus olhos como sinais inequívocos da rejeição. Pergunto-me de onde provém essa falsa (?) convicção de que enfado, quais seriam os acontecimentos remotos que a teriam fomentado. Seria o fato de a minha mãe não ter me dado uma gota sequer do seu leite materno, ou seriam os abraços que minha tia me negava sem qualquer motivo que eu pudesse entender, tão pequeno para compreender, mas tão atento para sentir, enquanto agarrava todos os seus outros sobrinhos diante dos meus olhos com efusiva alegria, ou o fato de ser sempre, sempre, o último a ser escolhido nos esportes coletivos, mesmo odiando-os, vendo-me, então, forçado a encarar olhares de ódio no time que me recebia ou, na melhor das hipóteses, de pena resignada, ou ainda o ser jogado no sofá do meio enquanto meu pai se derretia, na esquerda, justo ele canhoto, em carícias com a minha irmã e a minha mãe se comprazia, no sofá da direita, atenta e indiferente a mim o programa televisivo? Poderia continuar a lista e talvez me faltassem dedos para ela. Nasci com essa tendência pessimista e cada um desses itens a reforçou e comprovou, destacando a rejeição diante dos meus olhos e ofuscando todas as outras manifestações de apreço e carinho por mim, ou a soma delas incrustou em meu peito a convicção que me sentencia? Quem veio primeiro, o ovo ou a galinha? Mesmo quando estou consciente de todos esses fatos, mesmo quando em um ato fervoroso de esperança imagino infundadas todas as rejeições lembradas, ainda assim não consigo evitar as interpretações pessimistas. Elas invadem a minha mente, aparecem como um rio caudaloso transbordando; nessas horas, sinto que não sei nadar, afogo-me. Tantas vozes me acuando. Veja, nem respondem o que diz, não é interessante, olha só, agora estão monossilábicos, pare, não cause tanto enfado, afaste-se, afaste-se. Então recolho-me na quietude. A voz continua. Não percebe que preferem beltrano, ciclano e fulano a você? Por que insiste? Por que se humilha tanto se percebe o desprezo? E sinto-me humilhado e desprezado. Piora ainda quando aparece a culpa. Sim, culpa. Antes de aceitar completamente resignado o corpo que se afunda no rio, lanço-me em desesperadas batidas, buscando um último engolfo de ar, a última respiração. Pinto-me melancólico. Espero a compaixão. Que sensação de miséria me gera a consciência desse ato! E culpa, culpa mortal por ter exercido sobre o outro uma influência tão vil, mesmo que sem intenção, mesmo que levado pelo desespero do afogamento. Então paro de me agitar. Vejo-me afundando aos poucos. O frio da água me adormece.
E, no entanto, seria capaz de me lançar ferino a quem me acusasse de falta de amor próprio. Vivo essa contradição. Eu simplesmente não consigo imaginar razões sensatas para que me rejeitem, para que me pretiram tanto, tenho ampla convicção e consciência de inúmeras qualidades minhas, e, no entanto, não só sinto a rejeição como a interpreto e vejo em tudo quanto é canto. Daí nasce mais uma situação, entre tantas outras, para a sensação de completa solidão.
terça-feira, abril 29, 2008
quarta-feira, abril 23, 2008
Ela, o vermelho e a confissão.
Ela chegou de mansinho, com dúvidas, reticente, como era de se esperar com a dor tão recente. Se eu confessar a ela, não vai acreditar, mas a verdade é essa: quando seus olhos pequenos e doces me encontraram pela primeira vez, tremi todo; o vermelho dos seus cabelos dilatou agradavelmente a minha atenção. Eu estava com o meu livro azul do Nietzsche nas mãos, abaixei a cabeça e fingi que lia compenetrado um último pensamento, enquanto ela se aproximava; estava nervoso, não conseguia ter nenhuma idéia para a primeira fala, embora milhares de pensamentos passassem cortantes pela minha mente. Eu com essa minha mania de me achegar nas pessoas pelas suas palavras, já tinha apreciado as dela, estive com seus pensamentos sem estar com ela e agora ela me aparecia bem diante de mim, provocando-me a tremura de um admirador. Segurei firme o meu livro, esperado dele talvez algum apoio, e senti aumentar a cada passo que ela dava, na boca do estômago, o receio da rejeição. Foi ela quem perguntou do livro azul. Eu lhe respondi gestualmente, mostrando a capa. Não fez nem que sim, nem que não, eu desconhecia, então, o seu desgosto pelo autor. Arrogância desmedida, confessou-me depois. Concordo, ainda assim aprecio a sua iluminação, nada que umas boas reprimendas e correções não resolvam. E que importa isso agora na minha lembrança? Nada. Enrolo para postergar a confissão do meu desejo súbito, ao sentir irrefutável a sua presença, de enfiar-me na mochila junto com o livro ou de sair correndo dali desesperado. Esconda-se, esconda-se rapaz..., agora é tarde, ela está ao lado te olhando e espera alguma reação. Nessa idade e com essa vergonha. Que vergonha! O calor era imenso e ela deu a agradável sugestão de caminharmos pela rua. Eu suava muito, calorento que sou, e ainda mais pelo nervosismo. E a consciência desse fato só me fazia suar ainda mais. Lastimável. Queria sumir, definitivamente. Mas aceitei a sua sugestão, controlando as minhas pernas fugidias, e assim fomos peripatéticos. Feitos baratas tontas, cruzamos as mesmas quadras e ruas dezenas de vezes. A tontura, eu assumo, era toda minha. Quase tive uma síncope na primeira curva quando ela soltou: "acho que a conversa ainda não engatou". O sinal da rejeição apitou forte, respirei fundo e chamei em meu socorro a tranqüilidade do introverso, só ela poderia salvar-me do pânico do tímido. E ela veio. Mais alguns passos e pude voltar a respirar normalmente. Conversamos bem, muito bem mesmo e fiquei ainda mais admirado do que já estava. Não vivo só de pensamentos e também gosto de ver as pessoas no mundo. Adorei vê-la assim. Adoro vê-la assim.
Sei que nesse primeiro encontro não causei nela o mesmo impacto que ela me causou. Só no segundo, talvez. Paciência. Culpa minha de ter falado menos para observar mais? Não sei. Quando nos despedimos, ela me deu um abraço e um sorriso, guardei-os comigo a noite toda; na verdade, até hoje os tenho bem vivos e coloridos. Fui embora para casa sonhando alto, só fui dormir quando a madrugada perdia a sua mocidade.
Sei que nesse primeiro encontro não causei nela o mesmo impacto que ela me causou. Só no segundo, talvez. Paciência. Culpa minha de ter falado menos para observar mais? Não sei. Quando nos despedimos, ela me deu um abraço e um sorriso, guardei-os comigo a noite toda; na verdade, até hoje os tenho bem vivos e coloridos. Fui embora para casa sonhando alto, só fui dormir quando a madrugada perdia a sua mocidade.
terça-feira, abril 15, 2008
Babaquice
Algo que me choca e desencadeia a minha revolta é a babaquice humana. Então tinha esse carinha que, enquanto terminava o seu doutorado, passeava lá pelo departamento todo sorridente, cheio de amizade, enturmado, só na humildade. Não muita, é claro, mas também não se notava lá nenhuma intenção de se distinguir, pelo menos nada muito consciente. Pintou um concurso no departamento, ele apressou sua defesa, estudou lá um monte e passou. Mérito dele, claro. Vieram as férias. No início do semestre tava ele lá pronto para assumir o cargo e junto com ele a sua mudança de personalidade. Agora anda de olhar grave, sem muito sorriso, já não cumprimenta a todos, só os de interesse, os professores mais velhos, olha meio de desdém para os alunos etc. Enfim, faz questão de afirmar a sua distinção professoral. Dava para fazer melhor, um carimbo assim com letras bem garrafais "PROFESSOR", tinta nova e fresca, e pimba, bem forte na testa. Tudo bem, pra quem usa franja não dá, mas entre uma rajada e outra de vento todo mundo também ficaria sabendo. Sério, eu sinceramente não entendo porque a obtenção de um título ou a lotação de um cargo tenha de mudar radicalmente a percepção que a pessoa tem de si. Eu chamo isso de babaquice. Eu tento me imaginar no lugar dele, passando por uma situação semelhante e espero mesmo não ser afetado dessa maneira por uma mudança desse tipo.
segunda-feira, abril 14, 2008
A Lágrima lúgubre-feliz
meu tom brega-romântico pincela a lágrima lúgubre-feliz: ali durante o abraço que completa, quando os olhos se fecham para o melhor sentir e o bem-estar se infunde por todo o corpo, nos levando àquela sensação remota e primeva de unidade total, eis que um pensamento atrevido emerge na penumbra, vagueando nas bordas da mente, cutucando pontiagudo o conforto arredondado, dura pouco, é verdade, nem um piscar de olhos, mas traz consigo o medo remoto, a possibilidade da negação do abraço presente, o vislumbre da ausência do bem envolvente, tudo muito vago, um mero ponto no oceano do conforto presente, mas suficiente para desencadear algumas sinapses; e o corpo reage pelo arco-reflexo, o abraço se retese, de olhos ainda fechados, desce vagarosa a lágrima lúgubre-feliz, evidencia insofismável do pensamento relâmpago e cuja existência é dada a apreciar somente pelos extasiados, só aí ela ganha o seu sentido; vai-se embora rolando, esvaindo-se sobre a pele, valorando o próprio êxtase que buscou negar na possibilidade lúgubre, deixando-o, porém, incólume na efetividade.
terça-feira, abril 08, 2008
Somente um pesar...
Eles falam risonhos, parecem se divertir, a gesticulação é enérgica e os movimentos bruscos do corpo expelem viva sinceridade, mas sinto-me apático, a maior parte do tempo é assim, confesso com certo pesar; eu começo prestando atenção no que estão dizendo, até me esforço para achar graça também e raramente consigo. Quando sim, brinco e me envolvo com a mesma patetice. Mas dura pouco. A consciência da minha tolice emerge e me retenho ou então sinto que o meu tom abobado não encontra respaldo. Aí me retenho mais ainda, envergonhado. Um deles me falava qualquer coisa e eu já não sabia mais o que era, ele sorria e eu respondi com lábios fingidos sem saber o porquê da graça. Não faço isso em completo piloto automático, às vezes é semi-consciente, nem é por querer parecer sociável, é por não querer que se sintam sem atenção. É horrível sentir-se desatendido. Eu dou muita atenção, muita mesmo e, às vezes, a dou até sem estar atento. Não acho que isso seja de todo falso, é um caso em que o efeito benéfico desculpa a ausência da intenção. Mas só faço assim com os de pouco ou médio apreço. Os de muito apreço têm sempre a minha atenção real, completa, nem tinha como ser diferente, estou ligado a eles por um vivo interesse, digo, interesse neles. É o que me alimenta de verdade, me tira da apatia, os seres humanos, raríssimos, que se me permitem o mergulho. Não só isso, que também me despertam, por razões que desconheço, a vontade de lhes conhecer a essência. A eles me dôo integralmente. Mas com os outros ali, os de médio, pouco ou nenhum apreço, ah, confesso, às vezes eles me estimulam o vazio total, não um vazio de sentido, angustiante ou entediante, vazio de pensar mesmo. Fico diante deles completamente absorto no nada. Nunca meditei, mas pelo que falam da experiência, é o que penso ter nessas situações, um certo não-pensar. Depois essa tranqüilidade vazia dá lugar ao pesar por não ter participado da interação, por ter vivido toda a situação não como se estivesse nela, de dentro, mas um passo atrás, de fora, só olhando. Pior de tudo é saber que isso é tolo. De fora, percebemos o sentido para terceiros, como fica facilmente visível nos filmes, o sentido da existência de uma pessoa parece saltar às vistas. Só que para o Eu, o sentido está sempre dentro e não há como percebê-lo de fora, o sentido é o tipo de coisa que o Eu só pode viver imerso sem nunca tocar. Eu mesmo cavo a minha tragédia querendo viver com dupla cidadania. Ou lá ou cá, meu caro. E quem disse que me controlo? A todo instante quero capturar o sentido das minhas vivências, por ciúmes de mim, por curiosidade, por não querer perdê-las, por esmerar pela intensidade máxima da vivência, por ser assim doentio na vontade de transcender, e, claro, quando tento fazê-lo, o sentido que havia se subtrai magicamente da vivência, ou, em outras palavras, a vivência se des-vivencia. Aí aparece aquela consciência tão bem conhecida do vazio de sentido, da angústia e do tédio, cada qual com um sabor doloroso diferente. Eu só não me considero um caso perdido porque pelo menos o amor eu vivencio completamente de dentro, não coloco nem um dedinho pra fora, pelo menos nessa dimensão meu instinto se mantém sábio e imune à estultice da razão. É o que me enraiza na vida.
sexta-feira, abril 04, 2008
Carência ética
E se deus fosse o diabo? Nada mudaria. Assim como nada mudaria se deus existisse. Dostoievsky se questionava, "se deus não existe, então tudo é permitido"? Eis o problema do homem que se deixa corroer completamente pela incerteza e procura fora de si o fundamento para os seus valores. E tem algum fundamento? Valores não são todos iguais, alguns lhe são mais caros que outros. Podemos fundamentar alguns valores em outros mais preciosos. Mas lá no fundo, o que sustenta o seu valor mais querido? Nada. Ele carece tanto de fundamento quanto a sua certeza de que tem uma mão ao olhar para ela. São absolutos? De forma alguma. Rocha dura que nunca fura? Também não. Mas são vigas assim assentadas que só com muita mina para implodir. Ah, mas se é possível implodi-las, eliminá-las, estou no vazio, no escuro. Que me serve de guia? Eis o problema daquele homem novamente: sua carência de certeza é proporcional à incerteza que vivencia. Não é a ausência do absoluto que o faz carente da certeza, é a carência do certo que o faz sentir a ausência do absoluto. O não-carente está relativamente satisfeito com as vigas que tem, até que lhe apareça uma forte, mas bem forte razão para pensar em contrário. Para o carente, até a razão chinfrim lhe deixa insatisfeito com o que tem. O carente quer o absoluto e sente mais do que tudo a sua falta justamente por estar carente, amedrontado, inseguro quanto ao que fazer. Não tem em si a força necessária para andar, por isso a busca fora, no imutável. E, pelo mesmo motivo, ele é o tipo que, se não se engana achando que encontrou o absoluto, conclui que tudo é permitido e arruína a sua vida em um caos completo. Tudo e qualquer coisa lhe é e não é guia ao mesmo tempo. Claro, se não há um absoluto, ou não o encontro, ou, ainda pior, perco a esperança de encontrá-lo quando sinto a sua falta mais do que tudo, vivo por completo o desespero. Desesperado aceito qualquer coisa. O carente que não encontra o absoluto se fere mortalmente a cada instante. Pior ainda é o carente que se engana achando ter encontrado o absoluto. Para ele o sancionado e permitido é muito bem definido. Ele abraça esse absoluto com toda a intensidade da sua carência. A força com que agora o defende é proporcional à carência que sentia. Ele range os dentes a quem se lhe opõe. Ele mata se for preciso, se suspeitar que querem lhe tirar o aconchego do absoluto. No fundo, ele teme o retorno da carência. Esse carente acaba ferindo mais aos outros que a si mesmo. Sua ação é definida e precisa, violentamente precisa, ele jamais se realinha.
E o não-carente? Ah, ele vai seguindo a vida com o bom-senso e a prudência aristotélicas. Ele anda, para e escuta as vozes alheias. Pensa, realinha-se caso ache necessário e continua o ciclo. E para ele, tudo é permitido? Não, mas a sua linha do que é e o que não é permitido também não está traçada para todo o sempre. Ele se permite o retraçado, movido pela sua força interna, não pelo oba-oba do carente que concluiu que tudo é permitido. Para este, não há retraçado, só rabiscos.
Assim, a questão de se tudo é ou não permitido, caso não haja um absoluto, não se conclui por uma martelada demonstrativa, ela se fecha pela psicologia. É preciso se conhecer, perceber as suas necessidades e carências. E eu, o que eu sou, um carente ou um não-carente? Ora, eu sou um ser humano, imerso no tempo, impossível ser apenas uma coisa ou outra o tempo inteiro, a vida toda. É o que eu acho. Esmero pela sobriedade prudente. Sinto-a presente. Tenho por ideal: a não-carência e o relativismo nada oba-oba que se lhe segue.
E o não-carente? Ah, ele vai seguindo a vida com o bom-senso e a prudência aristotélicas. Ele anda, para e escuta as vozes alheias. Pensa, realinha-se caso ache necessário e continua o ciclo. E para ele, tudo é permitido? Não, mas a sua linha do que é e o que não é permitido também não está traçada para todo o sempre. Ele se permite o retraçado, movido pela sua força interna, não pelo oba-oba do carente que concluiu que tudo é permitido. Para este, não há retraçado, só rabiscos.
Assim, a questão de se tudo é ou não permitido, caso não haja um absoluto, não se conclui por uma martelada demonstrativa, ela se fecha pela psicologia. É preciso se conhecer, perceber as suas necessidades e carências. E eu, o que eu sou, um carente ou um não-carente? Ora, eu sou um ser humano, imerso no tempo, impossível ser apenas uma coisa ou outra o tempo inteiro, a vida toda. É o que eu acho. Esmero pela sobriedade prudente. Sinto-a presente. Tenho por ideal: a não-carência e o relativismo nada oba-oba que se lhe segue.
quinta-feira, abril 03, 2008
Temor
Temo: ter uma emoção que vibra pelo corpo, chega aos olhos, onde brilha seu existir e perceber que ela aí morre sem ser captada por quem está na sua origem.
terça-feira, abril 01, 2008
1 de abril.
Como hoje é um dia para se contar mentiras, eu vou me contar uma que tenha cara de verdade. Ninguém saberá, nem eu mesmo, quando comecei a mentir, se já não o fiz, nem quando pararei. Essa dúvida dará à verdade o sabor da mentira e à mentira a cara de verdade. No fundo, meus amigos, são uma e mesma coisa, faces da mesma moeda. Eu minto descaradamente, sempre menti, essa confissão vos faço com a mais límpida sinceridade e cara lavada. Minto pelo prazer da verdade. Pouco me importa se o que digo é verdade ou mentira, nunca saberei mesmo, mas que tenha a cara e o efeito da verdade, ah, para isso não poupo esforços! Não é pela diversão, eu juro, não há mentira que eu pregue sem me sentir culpado, quando abro a boca e vejo a credulidade no meu interlocutor, sinto um nojo profundo de mim mesmo, ou ódio até, apesar do meu fingimento perfeito, repito a mim mesmo o tempo todo: "vil, vil!". E não paro, sigo em frente mirabolante. Quanto mais mentirosa a mentira, mais prazer me dá ao notar que lhe conferi um ar verossímil. Prazer de vaidoso, pela astúcia engendrada? Nada disso. Sou humilde até na mentira. No fundo a obsessão que me persegue é simplesmente essa: estética. Talvez muitos não saibam, mas eu sou libriano e eis aí a chave explicativa que lhes dou. Minto porque a verdade é bela, porque tenho horror à feiúra da inverdade, da mentira. Não, eu sei que não são a mesma coisa, eu sei que a mentira é uma coisa humana e a inverdade é uma coisa lá da semântica. Mas percebam que é preciso mentir vigorosamente para encobrir esse caráter humano da mentira, para que ela resplandeça como verdade; sem mentir bem, a mentira fica assim feia com o seu aspecto mentiroso. Por isso eu minto e muito, apenas em nome do meu amor pela verdade.
segunda-feira, março 31, 2008
Rafael
Quanto de incerteza Rafael pode suportar? Ele se pergunta. Ele sente a corrosão da sua alma com cada uma das questões que se coloca. Chega a arder, é como se a cada dia cortassem um pedaço de si. E para cada certeza que perde, aparece um medo. Sua alma é assim cheia de hematomas emocionais, ultra-sensível ao toque. Hoje sentiu que todos o desacreditavam, que não havia ouvido que lhe desse mais confiança e assim começou a duvidar dos próprios relatos que fazia de si mesmo. Seria ele mesmo confiável? Seus próprios olhos não poderiam estar sempre a enganá-lo? Rafael se amedronta ao pensar que talvez ele não saiba quem é. O que afinal ele teme? E se não sabemos quem somos, o que se seque daí? O que há para temer? Seria talvez o fato de não poder olhar para si e encontrar um terreno sólido onde pisar e, assim, ter onde fincar a convicção de suas decisões? "Fiz assim, pois sou assado". Não, não é isso. Rafael sabe que a diferença entre agir com maior ou menor convicção tem mais um efeito externo, persuasivo, do que interno, acalentador. Pouco lhe importa se a sua decisão é mais ou menos convicta. Com efeito, ele sabe ainda mais, ele sabe que a sua convicção pouco tem a ver com o seu conhecer-se. Suas decisões o definem, no clichê existencialista. O grau da convicção exibida na decisão não emana de coisa alguma que ele conheça, ela é também definida e formada no próprio ato de decidir. Ainda assim, Rafael teme não se conhecer. O que há de tão ruim em não saber quais predicados aplicar a si?
Rafael conclui: a dificuldade toda está em viver a tensão de se conhecer sem se conhecer. Nem é tão paradoxal o que ele pensou quanto parece à primeira vista. Rafael não se deixa enganar, duvida tanto, levanta tantas possibilidades, que afasta de si qualquer predicado, qualquer assertiva, não assume nenhuma, não se deixa apanhar, nem se apreender pela linguagem, pelos conceitos. Ele se vê, assim, um nada, um vazio. Ele não se conhece. Contudo, há um quê de si com o qual ele se encontra e se confronta no seu viver pela emoção e o sentir. O fato de a decisão não estar assentada num solo duro do conhecer-se afirmativo não faz do sujeito uma marionete, um projeto para qualquer coisa, um nada que pode ser tudo. Não, definitivamente, não. No ato da decisão, Rafael encontra-se consigo mesmo da maneira mais intensa e intuitiva possível, ele se sente por completo durante e pela decisão. Esse sentir que lhe dá o conhecimento de si jamais é verbalizado, mas é automaticamente transferido, na verdade, já está imerso nela, na convicção da decisão. Quando Rafael decide contra o que ele é, a própria decisão já vai se tornando branda em seu ato. Ele já decide enfraquecido, desgostoso de si, às vezes, até arrependido. Quando, ao contrário, ele se encontra na decisão, o ato é pleno de vida, Rafael se vê todo comprometido no ato, até suas últimas células. Não, esse contato emocional que Rafael tem consigo ao decidir não é sensualista, não é efêmero, nem arbitrário, é de fato sua apreensão mais absoluta de si, ainda que ele não possa lhes dar qualquer razão a favor. Tampouco pode duvidar que assim seja. Ele se conhece sem se conhecer. Então, o que há de ruim em não se conhecer a priori é a espera angustiante de só se conhecer a posteriori, pois Rafael tem muita necessidade de si e sabe que nem toda vivência é um encontro consigo. E ele teme os desencontros.
Rafael conclui: a dificuldade toda está em viver a tensão de se conhecer sem se conhecer. Nem é tão paradoxal o que ele pensou quanto parece à primeira vista. Rafael não se deixa enganar, duvida tanto, levanta tantas possibilidades, que afasta de si qualquer predicado, qualquer assertiva, não assume nenhuma, não se deixa apanhar, nem se apreender pela linguagem, pelos conceitos. Ele se vê, assim, um nada, um vazio. Ele não se conhece. Contudo, há um quê de si com o qual ele se encontra e se confronta no seu viver pela emoção e o sentir. O fato de a decisão não estar assentada num solo duro do conhecer-se afirmativo não faz do sujeito uma marionete, um projeto para qualquer coisa, um nada que pode ser tudo. Não, definitivamente, não. No ato da decisão, Rafael encontra-se consigo mesmo da maneira mais intensa e intuitiva possível, ele se sente por completo durante e pela decisão. Esse sentir que lhe dá o conhecimento de si jamais é verbalizado, mas é automaticamente transferido, na verdade, já está imerso nela, na convicção da decisão. Quando Rafael decide contra o que ele é, a própria decisão já vai se tornando branda em seu ato. Ele já decide enfraquecido, desgostoso de si, às vezes, até arrependido. Quando, ao contrário, ele se encontra na decisão, o ato é pleno de vida, Rafael se vê todo comprometido no ato, até suas últimas células. Não, esse contato emocional que Rafael tem consigo ao decidir não é sensualista, não é efêmero, nem arbitrário, é de fato sua apreensão mais absoluta de si, ainda que ele não possa lhes dar qualquer razão a favor. Tampouco pode duvidar que assim seja. Ele se conhece sem se conhecer. Então, o que há de ruim em não se conhecer a priori é a espera angustiante de só se conhecer a posteriori, pois Rafael tem muita necessidade de si e sabe que nem toda vivência é um encontro consigo. E ele teme os desencontros.
sábado, março 29, 2008
Duração
Tanto cansaço da noite que se transformou em dia, e ao mesmo tempo tanta vontade de que esse dia se estenda até a noite sem que nenhum segundo se perca na inconsciência do sono. Não sinto o tempo, não vivo o tempo, ele transcorre, ele me perpassa e eu vivo nEla, com Ela e através dEla, a duração eterna de um instante.
sexta-feira, março 28, 2008
Arrependimento e Burrice
Sempre digo que nunca me arrependo das minhas escolhas e decisões. A frase é um pouco exagerada. É raro realmente eu me arrepender, mas é possível. Quando? Nas situações em que pratico a burrice. E agora preciso lhes explicar o que entendo por tal coisa. Antes, a frase de efeito que gosto de propalar: a burrice sempre tem um preço, e é muito alto.
"burro", "burrice", "estultice" geralmente são palavras usadas em contextos em que queremos falar ou da falta de uma capacidade, ou da negligência de uma responsabilidade. Quando alguém diz "fulano é burro", e atenção aqui para o "é", está querendo dizer que falta a este sujeito alguma capacidade. Talvez ele não seja bom em uma matéria qualquer e alguém já lhe lança a ofensa, "seu burro". Penso que este não seja um bom uso da palavra, embora seja corriqueiro e eu esteja muito longe de querer legislar sobre a linguagem, o que realmente seria uma estultice. Contudo, imagine uma pessoa disléxica cuja capacidade de leitura é, então, deficitária. Embora alguns possam jocosamente se referir à leitura dessa pessoa como burra, há uma certa incongruência em fazê-lo. O disléxico não tem culpa pela sua deficiência. Ele simplesmente a tem. E "burro" é uma palavra de carga negativa, ela segrega, ela estigmatiza, ela contém um tom de reprovação moral. E não parece fazer muito sentido reprovar alguém por ter uma deficiência pela qual ela não é, nem foi responsável. Em todo caso, algumas capacidades podem ser adquiridas e mesmo desenvolvidas e, nesses casos, quando há uma falta e chamamos a pessoa de burra, não estamos tanto nos referindo a sua falta, mas a sua irresponsabilidade ou desleixo em não desenvolvê-la. Se eu digo que quero aprender a jogar bem xadrez, mas não treino muito e, a o me verem jogar mal, alguém diz "o cara ali está sendo burro", o que ele está dizendo é que estou sendo desleixado e negligente ao não tentar desenvolver a minha capacidade de jogar xadrez.
Então chegamos nessa segunda acepção da burrice, que não tem nada a ver com faltas cognitivas, mas sim com desleixo, negligência e irresponsabilidade. Este tipo de burrice está mais para um acontecimento, ela ocorre quando você sabe que seria melhor fazer X, mas acaba fazendo não-X. Daí até dizermos, nesses casos, que "fulano foi burro", não que ele seja. Por exemplo, fulano, universitário instruído, sabe tudo sobre a transmissão de DSTs, saí numa baladinha, conhece uma gostosinha, e acaba transando com ela sem camisinha, no furor lá do seu tesão. Ele sabe que não estava fazendo o melhor para si, mas fez mesmo assim. Foi burro. E a sua burrice pode vir a lhe custar muito cara, como disse. Ela sempre tem um preço elevado. Se vai ser cobrado ou não é, em parte, uma questão de sorte ou azar. Mas se for cobrado, não tem para onde chorar. Enfim, sempre que tenho um conhecimento e o negligencio nas minhas ações, fazendo o contrário do esperado, estou sendo burro e legitimo que outros apontam para mim e digam "ele foi burro!".
Este tipo de burrice não ocorre apenas quando você negligencia um conhecimento, ocorre também quando você ignora um valor que lhe é fundamental. O preço a pagar, nesse caso, será a auto-flagelação da sua própria consciência. Nada mais burro do que ser infiel a si mesmo e amargar depois a dor de enojar-se de si.
Assim todos os arrependimentos que tive em minha vida se resumem em todas as vezes em que fui burro, pois todas as minhas burrices me custaram muito e nem sempre pude contar com a sorte de uma dívida não cobrada. De outro modo, jamais me arrependo, mesmo que, mais tarde, adquirindo NOVAS informações e conhecimentos, eu perceba que decisões passadas não foram as melhores. Mas, se, no passado, foram as melhores, então não tenho porque me arrepender. Fiz o melhor de mim e, principalmente, fui fiel a mim mesmo. Jamais me arrependo por ser fiel a mim mesmo, ainda que mais tarde eu perceba, guiado por novos conhecimentos, que não tomei o melhor caminho. E julgar o meu eu passado pelo meu eu presente seria, aí sim, uma grande estultice, uma irresponsabilidade sem tamanha comigo mesmo e a minha auto-estima.
"burro", "burrice", "estultice" geralmente são palavras usadas em contextos em que queremos falar ou da falta de uma capacidade, ou da negligência de uma responsabilidade. Quando alguém diz "fulano é burro", e atenção aqui para o "é", está querendo dizer que falta a este sujeito alguma capacidade. Talvez ele não seja bom em uma matéria qualquer e alguém já lhe lança a ofensa, "seu burro". Penso que este não seja um bom uso da palavra, embora seja corriqueiro e eu esteja muito longe de querer legislar sobre a linguagem, o que realmente seria uma estultice. Contudo, imagine uma pessoa disléxica cuja capacidade de leitura é, então, deficitária. Embora alguns possam jocosamente se referir à leitura dessa pessoa como burra, há uma certa incongruência em fazê-lo. O disléxico não tem culpa pela sua deficiência. Ele simplesmente a tem. E "burro" é uma palavra de carga negativa, ela segrega, ela estigmatiza, ela contém um tom de reprovação moral. E não parece fazer muito sentido reprovar alguém por ter uma deficiência pela qual ela não é, nem foi responsável. Em todo caso, algumas capacidades podem ser adquiridas e mesmo desenvolvidas e, nesses casos, quando há uma falta e chamamos a pessoa de burra, não estamos tanto nos referindo a sua falta, mas a sua irresponsabilidade ou desleixo em não desenvolvê-la. Se eu digo que quero aprender a jogar bem xadrez, mas não treino muito e, a o me verem jogar mal, alguém diz "o cara ali está sendo burro", o que ele está dizendo é que estou sendo desleixado e negligente ao não tentar desenvolver a minha capacidade de jogar xadrez.
Então chegamos nessa segunda acepção da burrice, que não tem nada a ver com faltas cognitivas, mas sim com desleixo, negligência e irresponsabilidade. Este tipo de burrice está mais para um acontecimento, ela ocorre quando você sabe que seria melhor fazer X, mas acaba fazendo não-X. Daí até dizermos, nesses casos, que "fulano foi burro", não que ele seja. Por exemplo, fulano, universitário instruído, sabe tudo sobre a transmissão de DSTs, saí numa baladinha, conhece uma gostosinha, e acaba transando com ela sem camisinha, no furor lá do seu tesão. Ele sabe que não estava fazendo o melhor para si, mas fez mesmo assim. Foi burro. E a sua burrice pode vir a lhe custar muito cara, como disse. Ela sempre tem um preço elevado. Se vai ser cobrado ou não é, em parte, uma questão de sorte ou azar. Mas se for cobrado, não tem para onde chorar. Enfim, sempre que tenho um conhecimento e o negligencio nas minhas ações, fazendo o contrário do esperado, estou sendo burro e legitimo que outros apontam para mim e digam "ele foi burro!".
Este tipo de burrice não ocorre apenas quando você negligencia um conhecimento, ocorre também quando você ignora um valor que lhe é fundamental. O preço a pagar, nesse caso, será a auto-flagelação da sua própria consciência. Nada mais burro do que ser infiel a si mesmo e amargar depois a dor de enojar-se de si.
Assim todos os arrependimentos que tive em minha vida se resumem em todas as vezes em que fui burro, pois todas as minhas burrices me custaram muito e nem sempre pude contar com a sorte de uma dívida não cobrada. De outro modo, jamais me arrependo, mesmo que, mais tarde, adquirindo NOVAS informações e conhecimentos, eu perceba que decisões passadas não foram as melhores. Mas, se, no passado, foram as melhores, então não tenho porque me arrepender. Fiz o melhor de mim e, principalmente, fui fiel a mim mesmo. Jamais me arrependo por ser fiel a mim mesmo, ainda que mais tarde eu perceba, guiado por novos conhecimentos, que não tomei o melhor caminho. E julgar o meu eu passado pelo meu eu presente seria, aí sim, uma grande estultice, uma irresponsabilidade sem tamanha comigo mesmo e a minha auto-estima.
domingo, março 23, 2008
Achocalhado
Achocalhado, todo eu. Alma, vida, emoção, corpo achocalhados. Pela espinha percorre um intenso tremor, concluindo lá em cima, na consciência, a sensação de plenitude de sentido, vejo sem olhar. Ela me envenenou com o sabor doce e amargurado da sua existência. Nunca apeteceu-me vidas amenas, ou fingidamente amenas. Infiltro em sua alma contemplando cada cicatriz, aberta ou fechada, e apalpo suave imaginando a sua etiologia. Quanta doçura, fineza e inteligência na forma que elas acabaram infringindo à sua alma. Na superfície, nos encontramos com névoas de lúdica suavidade. Transbordo em bobeiras pueris. Ela também. Na profundidade, nossos dedos vão se entrelaçando num íntimo e compreensivo dar as mãos. Ela envenenou-me sim, sabe, atacando a minha mortífera apatia; vejo-me, então, vivendo plenamente, sem utopia, sem perder a consciência áspera da realidade com a qual nasci. Agradeço a ela por esse mergulho em seu existir, agora que começo a relembrar como é nadar.
sexta-feira, março 21, 2008
Egolatria.
De uma forma ou de outra todos nós somos egoístas. Uma tentativa de separar egoístas de não-egoístas seria dizer que os primeiros agem tendo em vista apenas os seus desejos e vontades, enquanto os segundos levam em consideração também os desejos e vontades de terceiros. Mas não é difícil perceber que se alguém leva em consideração o desejo de um terceiro, então ela teve desejo ou vontade de fazê-lo e, assim, ela é tão egoísta quanto os primeiros ali, conceitualmente não há diferença. Não vislumbro fuga possível da caverninha subjetiva. No máximo, concedo como altruístas atitudes irrefletidas e instintivas selecionados pela natureza para a proliferação e perpetuação da espécie, como a atitude de um pai ou mãe que se lança à morte para salvar a prole de um perigo ou ameaça iminente. E só, nada mais.
Embora sejamos todos essencialmente egoístas, há diversos sabores de egoísmo, conforme os desejos e as vontades eleitos como centrais em cada sujeito. Há aqueles que têm o desejo e a vontade de se sacrificar para atender os desejos e as vontades de terceiros. No fundo, é possível que estejam sendo movidos por algum medo, medo de magoar, de frustrar, de decepcionar. Então essas pessoas sacrificam muitos dos seus desejos para atender um desejo seu, o de não desapontar o outro. O outro nem precisa saber, e frequentemente não sabe, se essa pessoa atende as suas vontades por medo ou por querer, para ele, o efeito é o mesmo. E há aqueles que não se sentem muito inclinados para atender os desejos alheios a não ser quando assim estão com vontade, mas não por medo. Claro que entre um e outro há uma infinita gradação. Desconheço quem não tenha sentido medo de magoar alguma vez, que não tenha se sacrificado uma vez que fosse, da mesma maneira, mesmo os mais temerosos em magoar solapam em algum momento os seus medos para escutar outros desejos seus. E também é evidente que, em cada situação, cada qual ponderará a dimensão do seu sacrifício e a intensidade da mágoa alheia para a tomada de decisão. Não tudo é assim só branco ou preto, no meio há espaço para muita arte equilibrista.
Eu tenho como ideal o segundo sabor de egoísmo, embora esteja muito longe dele e me veja agindo por medo de magoar freqüentemente. Por que o prefiro? Por conta de outras crenças que eu tenho sobre autenticidade e sentido das minhas vivências. Quando alguém atende um desejo meu por medo, embora ela, de certa forma, não tenha se traído, pois atendeu o seu próprio medo, ela vive uma tensão, vive uma morte, a morte do desejo que ela teve de solapar para dar vida ao seu medo. Ela vive e morre ao mesmo tempo. E eu estaria vivendo uma ilusão, a ilusão de que a pessoa estaria, naquela minha vivência de prazer, pulsando, como eu, apenas vida. E nem eu, de fato, estaria pulsando vida completamente, quando muito, uma ilusória. Quando, ao contrário, os desejos e vontades de ambas as partes se conformam, a experiência de ambos é autêntica, genuína, repleta de vida, sem morte, sem cisão do ser, ambos estão plenos ali naquela vivência. Não tenho uma razão para lhes dar, mas essa é uma vivência que aos meus olhos está repleta de sentido.
Não espero dela certezas eternas, assim em um plano mais elevado do pensamento, embora em um momento ou outro, a insegurança emocional possa fazer esse clamor, mas isso é efêmero, não devo permitir que me domine. Como não desejar que ela dê vazão a toda a sua necessária solidão, que lhe é tão afeita e produtiva, que lhe rende o bem-estar de estar consigo mesma e as palavras de quem se entende ou busca se compreender? Como poderia gostar, ter por ela um sentimento e lhe desejar uma vida cindida, tensa e regida pelo medo? Não, não posso fazer isso sem deixar de ser fiel às minhas demandas mais profundas de sentido. Quando estivermos juntos será pela sinceridade das suas vontades, e das minhas, e isso é sublime, é vida pura, é belo. Eis um dos meus tons esperançosos diante da vida. Dela espero a mais admirável das sinceridades consigo mesma. E tentarei retribuir em igualdade. Tudo isso é muito ideal, é verdade, mas nossas ações são pautadas em ideais.
Embora sejamos todos essencialmente egoístas, há diversos sabores de egoísmo, conforme os desejos e as vontades eleitos como centrais em cada sujeito. Há aqueles que têm o desejo e a vontade de se sacrificar para atender os desejos e as vontades de terceiros. No fundo, é possível que estejam sendo movidos por algum medo, medo de magoar, de frustrar, de decepcionar. Então essas pessoas sacrificam muitos dos seus desejos para atender um desejo seu, o de não desapontar o outro. O outro nem precisa saber, e frequentemente não sabe, se essa pessoa atende as suas vontades por medo ou por querer, para ele, o efeito é o mesmo. E há aqueles que não se sentem muito inclinados para atender os desejos alheios a não ser quando assim estão com vontade, mas não por medo. Claro que entre um e outro há uma infinita gradação. Desconheço quem não tenha sentido medo de magoar alguma vez, que não tenha se sacrificado uma vez que fosse, da mesma maneira, mesmo os mais temerosos em magoar solapam em algum momento os seus medos para escutar outros desejos seus. E também é evidente que, em cada situação, cada qual ponderará a dimensão do seu sacrifício e a intensidade da mágoa alheia para a tomada de decisão. Não tudo é assim só branco ou preto, no meio há espaço para muita arte equilibrista.
Eu tenho como ideal o segundo sabor de egoísmo, embora esteja muito longe dele e me veja agindo por medo de magoar freqüentemente. Por que o prefiro? Por conta de outras crenças que eu tenho sobre autenticidade e sentido das minhas vivências. Quando alguém atende um desejo meu por medo, embora ela, de certa forma, não tenha se traído, pois atendeu o seu próprio medo, ela vive uma tensão, vive uma morte, a morte do desejo que ela teve de solapar para dar vida ao seu medo. Ela vive e morre ao mesmo tempo. E eu estaria vivendo uma ilusão, a ilusão de que a pessoa estaria, naquela minha vivência de prazer, pulsando, como eu, apenas vida. E nem eu, de fato, estaria pulsando vida completamente, quando muito, uma ilusória. Quando, ao contrário, os desejos e vontades de ambas as partes se conformam, a experiência de ambos é autêntica, genuína, repleta de vida, sem morte, sem cisão do ser, ambos estão plenos ali naquela vivência. Não tenho uma razão para lhes dar, mas essa é uma vivência que aos meus olhos está repleta de sentido.
Não espero dela certezas eternas, assim em um plano mais elevado do pensamento, embora em um momento ou outro, a insegurança emocional possa fazer esse clamor, mas isso é efêmero, não devo permitir que me domine. Como não desejar que ela dê vazão a toda a sua necessária solidão, que lhe é tão afeita e produtiva, que lhe rende o bem-estar de estar consigo mesma e as palavras de quem se entende ou busca se compreender? Como poderia gostar, ter por ela um sentimento e lhe desejar uma vida cindida, tensa e regida pelo medo? Não, não posso fazer isso sem deixar de ser fiel às minhas demandas mais profundas de sentido. Quando estivermos juntos será pela sinceridade das suas vontades, e das minhas, e isso é sublime, é vida pura, é belo. Eis um dos meus tons esperançosos diante da vida. Dela espero a mais admirável das sinceridades consigo mesma. E tentarei retribuir em igualdade. Tudo isso é muito ideal, é verdade, mas nossas ações são pautadas em ideais.
segunda-feira, março 17, 2008
5 personagens
A Caminhante me enviou um même, a idéia é arrolar os 5 personagens mais marcantes da sua experiência literária. Ela fez um ranking na sua apresentação, mas vou colocar os meus aqui sem ordem de prioridade e importância, pois de fato não consigo metrificá-los.
Eis a lista:
Anna Karenina. Já faz tanto tempo que pousei os olhos sobre ela que perdi os detalhes do seu caráter, mas impressionou-me indelevelmente a sua intempestividade sentimental, os seus arroubos caprichosos e, o que nos transparece de maneira mais viva no seu drama, a vivência angustiante do vazio, até que ela encontra alguma esperança ou sentido no amor.
Bentinho. É o exemplo mais do que perfeito do efeito de um caráter cético na vida prática. Como é a vida de alguém que tem a desconfiança incrustada no peito? Eis Bentinho. A mesma narrativa contada por outros olhos provavelmente teria um tom mais conclusivo a respeito da suposta traição de Capitu, mas não pelos olhos céticos de Bentinho.
Príncipe. O que mais me chamou atenção em sua personalidade não foi tanta a sua imensa disposição para a compaixão, mas a consciência sofrida das suas limitações mentais. E acabei me compadecendo por ele ao longo de quase todo o livro.
Andrey Nikolayevich Bolkonsky. O que é a experiência de morte? Como enfrentar o medo da morte? Bolkonsky é ferido gravemente em uma batalha contra os franceses de Napoleão e durante duas semanas, em seu leito de morte, o vemos refletindo sobre essas questões. É a narrativa mais densa que já li sobre a experiência de morte, sobre o enfrentamento da própria morte. Cheguei até a idealizar uma morte igualmente lenta para mim, a fim de que pudesse degustá-la também aos poucos.
Sinclair. É um personagem tão sombrio quando deveria ser para alguém que se coloca desde cedo a árdua e sofrível missão de mergulhar em si mesmo em busca do auto-conhecimento. O enfrentamento das verdades pessoais mais duras é vivenciado com profunda consciência e introspecção. Não há muito espaço para o auto-engano.
Eis a lista:
Anna Karenina. Já faz tanto tempo que pousei os olhos sobre ela que perdi os detalhes do seu caráter, mas impressionou-me indelevelmente a sua intempestividade sentimental, os seus arroubos caprichosos e, o que nos transparece de maneira mais viva no seu drama, a vivência angustiante do vazio, até que ela encontra alguma esperança ou sentido no amor.
Bentinho. É o exemplo mais do que perfeito do efeito de um caráter cético na vida prática. Como é a vida de alguém que tem a desconfiança incrustada no peito? Eis Bentinho. A mesma narrativa contada por outros olhos provavelmente teria um tom mais conclusivo a respeito da suposta traição de Capitu, mas não pelos olhos céticos de Bentinho.
Príncipe. O que mais me chamou atenção em sua personalidade não foi tanta a sua imensa disposição para a compaixão, mas a consciência sofrida das suas limitações mentais. E acabei me compadecendo por ele ao longo de quase todo o livro.
Andrey Nikolayevich Bolkonsky. O que é a experiência de morte? Como enfrentar o medo da morte? Bolkonsky é ferido gravemente em uma batalha contra os franceses de Napoleão e durante duas semanas, em seu leito de morte, o vemos refletindo sobre essas questões. É a narrativa mais densa que já li sobre a experiência de morte, sobre o enfrentamento da própria morte. Cheguei até a idealizar uma morte igualmente lenta para mim, a fim de que pudesse degustá-la também aos poucos.
Sinclair. É um personagem tão sombrio quando deveria ser para alguém que se coloca desde cedo a árdua e sofrível missão de mergulhar em si mesmo em busca do auto-conhecimento. O enfrentamento das verdades pessoais mais duras é vivenciado com profunda consciência e introspecção. Não há muito espaço para o auto-engano.
domingo, março 16, 2008
nonsense
Eu peguei a conversa no meio, mas pude entender muito bem quando ela disse à amiga que não tinham ficado um segundo sequer em silêncio, que fora um jantar espetacular, que era uma pena não ter batido o físico e tal, que, de outro modo, nas palavras dela, ele seria o seu número certo de sapato. Acho engraçado falar de relacionamentos como se fosse uma questão de encaixar aqui e ali, parece que estão montando um quebra-cabeças, um freudiano diria que no fundo essa metáfora de sapatos, gavetas e sei lá mais o que é apenas uma camuflagem para a penetração. Faz sentido, porque a moça falou do físico e tal. E não sai da minha cabeça o seu critério para a seleção do perfil psicológico perfeito: nenhum segundo em silêncio, nem um, nem meio, nem zero. Eu, eu que sou um autista sem a indiferença do autista, que faço com isso? Eu me pergunto se essas pessoas que falam o tempo todo se lembram depois de tudo o que falaram. É, mas aí também tem um erro meu, por que diabos dar tanta importância assim à memória, à lembrança? As pessoas estão apenas ali falando, falando e falando e a única finalidade mesmo é falar, não é lembrar. Eu não, além de falar, quero lembrar, pois, enquanto falo e ouço, absorvo tudo que estou sentindo ao longo. Se não lembro, se não posso reviver essas sensações, que sentido teve falar tanto? Mas isso também é meio idiota. Para que reviver ali solitariamente impressões passadas se posso simplesmente viver novamente com muito mais vivacidade essas sensações? Daí que falar, falar e falar parece ser até mais coerente. Pode até ser, é que a minha preocupação com o sentido me impede de simplesmente falar, falar e falar sem nunca pensar. No fundo sou apenas o resultado de uma patologia, de uma anormalidade, alguém, como muitos outros por aí, que sofre de uma obsessão relativamente acentuada com o sentido. Tem cura para isso? Não sei. Tem droguinha para isso? Também não sei. Só sei que nada disso faz sentido.
sábado, março 15, 2008
Amor nos tempos do Cólera.
Logo depois de ter entregado à amada a sua primeira carta de amor, Florentino Ariza volta para casa febril, sofrendo todo o desespero da espera de uma possível resposta. Consolado pela mãe, ela lhe diz para aproveitar bem aquela dor, dor de amor, pois ela não iria durar para sempre. É o que penso das minhas dores, todas elas, exceto as dores físicas, é claro, falo aqui das dores da alma; essas eu procuro saborear na mais absoluta sobriedade, sem analgésicos etílicos ou qualquer outro amaciante entorpecente. Quero viver completamente as minhas dores, extrair delas todo o conhecimento possível, pois só assim mitigo o meu medo, e o que é mais importante, só assim me sensibilizo para o outro.
Lembro em especial agora das dores de morte, dores que nascem com términos, abandonos, finais e, claro, com a própria morte. Uma em especial é-me inesquecível, pela forma como me arrebatou, me consumiu e dilacerou ao longo de algumas semanas. Noites em claro, choro compulsivo, e o que era mais aterrador: impossibilidade completa de imaginar o amanhã, como se a mente estivesse amarrada no pé da cama e não conseguisse se projetar no além. E o além tomava a forma do próprio vazio. Chegava a sentir pânico com o embotamento da imaginação, a impossibilidade de sonhar, por mais que tentasse e esforçasse, não conseguia. Era-me mesmo impossível imaginar até as coisas mais banais do dia-a-dia, como tomar café da manhã, ir para a faculdade etc. Eu pedia desesperadamente pelas imagens, mas a mente recusava-se a formá-las. Tal desespero emocional infundia-se pelo corpo na forma de calafrios, náuseas e uma certa queimação da região lombar que até hoje não sei identificar muito bem o que é. Quando a dor psíquica é muito grande, o corpo se ressente também, se enfraquece. Penso nesses dias sem pesar algum, mesmo com um olho atento ao temor que me provocam, pois também me evocam um amor que já senti e desta lembrança eu gosto. É esperançosa.
O filme do título é bom, mesmo para quem já leu o livro, mas desaponta logo na primeira fala com o inglês canhestro saído da boca do Juvenal, ali estirado no chão, morrendo. Espanhol, por favor!
Lembro em especial agora das dores de morte, dores que nascem com términos, abandonos, finais e, claro, com a própria morte. Uma em especial é-me inesquecível, pela forma como me arrebatou, me consumiu e dilacerou ao longo de algumas semanas. Noites em claro, choro compulsivo, e o que era mais aterrador: impossibilidade completa de imaginar o amanhã, como se a mente estivesse amarrada no pé da cama e não conseguisse se projetar no além. E o além tomava a forma do próprio vazio. Chegava a sentir pânico com o embotamento da imaginação, a impossibilidade de sonhar, por mais que tentasse e esforçasse, não conseguia. Era-me mesmo impossível imaginar até as coisas mais banais do dia-a-dia, como tomar café da manhã, ir para a faculdade etc. Eu pedia desesperadamente pelas imagens, mas a mente recusava-se a formá-las. Tal desespero emocional infundia-se pelo corpo na forma de calafrios, náuseas e uma certa queimação da região lombar que até hoje não sei identificar muito bem o que é. Quando a dor psíquica é muito grande, o corpo se ressente também, se enfraquece. Penso nesses dias sem pesar algum, mesmo com um olho atento ao temor que me provocam, pois também me evocam um amor que já senti e desta lembrança eu gosto. É esperançosa.
O filme do título é bom, mesmo para quem já leu o livro, mas desaponta logo na primeira fala com o inglês canhestro saído da boca do Juvenal, ali estirado no chão, morrendo. Espanhol, por favor!
terça-feira, março 11, 2008
Fé em si mesmo
Se eu fosse recomendar um preceito para o bem-viver tal como o fazem religiosos ou membros de uma seita qualquer, ele teria a seguinte forma: tenha fé em si mesmo. Há outros que querem dizer a mesma coisa, mas sob perspectivas diferentes: seja sempre o seu juiz, seja fiel a si mesmo etc. Prefiro, no entanto, o primeiro, o termo "fé" ali é significativo e, ao mesmo tempo, paradoxal. Ele indica uma força irracional, um meio de se sustentar, de manter a confiança em si, mesmo quando todas as razões lhe indicam o contrário. Contudo, é paradoxal que ele apareça em um preceito quando ele é o próprio sustentáculo do ser e não algo que se possa escolher, seguir ou agir em conformidade por livre arbítrio. Ainda assim ele cabe naquela fórmula. Em se tendo essa força, ela se auto-propulsiona, ela leva o sujeito a segui-la.
domingo, março 09, 2008
Ato público
Chega! Hoje vou ter de contar. Guardei essa observação por muito tempo pensando que ela fosse incorreta, afinal, quando mudamos para uma cidade nova, chegamos lá de olhos arregalados, procurando por qualquer diferença comportamental, só que nos esquecemos que não mantínhamos os olhos assim tão abertos na cidade de origem e o que agora nos parece diferente na cidade nova talvez fosse habitual também na de origem. Enfim, julgamentos comparativos que não foram balizados por uma metodologia mais rigorosa são muito provavelmente errôneos. Foi com este medo que protelei o que logo lhes confessarei. Não que eu tenha me munido de uma metodologia muito rigorosa para atestar a verdade do meu juízo, mas considero a evidência reunida bastante razoável.
Na verdade, até hoje eu achava que o meu juízo deveria se limitar ao curitibano do sexo masculino. Mas eis que minha mãe, tendo passado oito meses em Porto Alegre, lança, sem que eu lhe tenha falado absolutamente nada sobre o assunto, o mesmo juízo a respeito dos porto-alegrenses. Fiquei imensamente surpreso na hora. Não que eu pretenda agora alargar o meu juízo e transformá-lo numa sentença regionalista, continuarei me limitando aos curitibanos, foram os que presenciei. No entanto, o fato de a minha mãe ter notado lá em Porto Alegre o mesmo que observo aqui sugere, pela diversidade das fontes de informação, que nossos olhos não estão, neste caso, tão carregados de prejuízo. Até porque a minha mãe não é do tipo antropólogo e se este comportamento lhe saltou às vistas, então é mais provável que de fato haja uma diferença comportamental do que ela tenha simplesmente notado algo que também é habitual na sua cidade apenas por estar com olhos mais abertos.
Tudo começou quando, andando em uma rua bem próxima do centro, de movimento considerável de carros e pessoas, observei um cidadão fazendo X. Achei um pouco estranho, mas na hora nem dei muito assunto, pensei se tratar de coisa de bêbado, apesar da claridade e do horário: meio-dia. Com o tempo, comecei a observar outros cidadãos fazendo o mesmo com relativa freqüência, e o que é pior, não se poderia dizer que estavam bêbados, de modo algum. Vi trabalhadores, jovens, adultos, vi até aluno da UFPR fazendo X ou pelo menos usava a mochila da instituição e se vestia como estudante, enfim, o ato não parece fazer distinção social ou de idade. Vi eles fazendo isso em ruas movimentadas em pela luz do dia. Não é nada recatado, não percebo nenhuma vontade de esconder o ato. Parece que fazem disso um assunto público mesmo. Um dia, para o meu espanto, vejo um moleque de uns 10 anos de idade fazendo X em pleno pátio do centro politécnico. O pai ao lado nada falou. Eu fiquei encafifado, ficava pensando, será que em Belo Horizonte faziam isso e nunca notei? É tão comum e despudorado lá quanto é aqui?
Em meu socorro vieram outros forasteiros, alguns paulistas, outros nortistas, compartilhando o meu espanto. Falando baixinho, quase segregando, relataram-me também as inúmeras vezes que viram curitibanos do sexo masculino fazendo X. Contaram-me a mesma despreocupação com o horário e o lugar que eu já tinha observado. Era o que me faltava para fortalecer a convicção do meu juízo e afastar a idéia de que estava sendo preconceituoso com os curitibanos. Ainda assim faço o juízo com certa timidez, pois é espantoso que um povo tão orgulhoso da sua civilidade, que não joga papel no chão, o que aliás muito me agrada, faça isso assim nas suas ruas de maneira tão despudorada e com tanta freqüência.
O que é X, afinal? Cansei de ver nessa cidade os seus espécimes masculinos abrirem sem vergonha suas barguilhas, retirarem seus equipamentos sexuais para fora a fim de regar a cidade com o seu amor uréico. Sim, já ouço o clamor indignado. Até parece que ninguém mija nas ruas em Belo Horizonte ou São Paulo. Claro que muitos mijam, eu mesmo já mijei. Mas na noite calada, na surdina, completamente bêbado, e ainda assim envergonhado, andando várias quadras até encontrar um beco bem escuro, olhando para todos os lados temendo o flagrante. O que me espanta aqui não é o fato bruto de mijarem, mas o fato de não sentirem vergonha, de não se preocuparem em se esconder, de não selecionar ruas vazias e desertas. Talvez em Belo Horizonte mijem nas ruas com a mesma freqüência que se mija aqui, mas como fazem isso na surdina, ninguém nota, ninguém vê, não é algo que salta às vistas. Aqui não, não há dia que caminhe umas três horas pela cidade sem ver uma instância do ato impudico. E segundo os relatos da minha mãe, acontece o mesmo em Porto Alegre. Vai ver é coisa do sulista fazer da mijada um ato público.
Na verdade, até hoje eu achava que o meu juízo deveria se limitar ao curitibano do sexo masculino. Mas eis que minha mãe, tendo passado oito meses em Porto Alegre, lança, sem que eu lhe tenha falado absolutamente nada sobre o assunto, o mesmo juízo a respeito dos porto-alegrenses. Fiquei imensamente surpreso na hora. Não que eu pretenda agora alargar o meu juízo e transformá-lo numa sentença regionalista, continuarei me limitando aos curitibanos, foram os que presenciei. No entanto, o fato de a minha mãe ter notado lá em Porto Alegre o mesmo que observo aqui sugere, pela diversidade das fontes de informação, que nossos olhos não estão, neste caso, tão carregados de prejuízo. Até porque a minha mãe não é do tipo antropólogo e se este comportamento lhe saltou às vistas, então é mais provável que de fato haja uma diferença comportamental do que ela tenha simplesmente notado algo que também é habitual na sua cidade apenas por estar com olhos mais abertos.
Tudo começou quando, andando em uma rua bem próxima do centro, de movimento considerável de carros e pessoas, observei um cidadão fazendo X. Achei um pouco estranho, mas na hora nem dei muito assunto, pensei se tratar de coisa de bêbado, apesar da claridade e do horário: meio-dia. Com o tempo, comecei a observar outros cidadãos fazendo o mesmo com relativa freqüência, e o que é pior, não se poderia dizer que estavam bêbados, de modo algum. Vi trabalhadores, jovens, adultos, vi até aluno da UFPR fazendo X ou pelo menos usava a mochila da instituição e se vestia como estudante, enfim, o ato não parece fazer distinção social ou de idade. Vi eles fazendo isso em ruas movimentadas em pela luz do dia. Não é nada recatado, não percebo nenhuma vontade de esconder o ato. Parece que fazem disso um assunto público mesmo. Um dia, para o meu espanto, vejo um moleque de uns 10 anos de idade fazendo X em pleno pátio do centro politécnico. O pai ao lado nada falou. Eu fiquei encafifado, ficava pensando, será que em Belo Horizonte faziam isso e nunca notei? É tão comum e despudorado lá quanto é aqui?
Em meu socorro vieram outros forasteiros, alguns paulistas, outros nortistas, compartilhando o meu espanto. Falando baixinho, quase segregando, relataram-me também as inúmeras vezes que viram curitibanos do sexo masculino fazendo X. Contaram-me a mesma despreocupação com o horário e o lugar que eu já tinha observado. Era o que me faltava para fortalecer a convicção do meu juízo e afastar a idéia de que estava sendo preconceituoso com os curitibanos. Ainda assim faço o juízo com certa timidez, pois é espantoso que um povo tão orgulhoso da sua civilidade, que não joga papel no chão, o que aliás muito me agrada, faça isso assim nas suas ruas de maneira tão despudorada e com tanta freqüência.
O que é X, afinal? Cansei de ver nessa cidade os seus espécimes masculinos abrirem sem vergonha suas barguilhas, retirarem seus equipamentos sexuais para fora a fim de regar a cidade com o seu amor uréico. Sim, já ouço o clamor indignado. Até parece que ninguém mija nas ruas em Belo Horizonte ou São Paulo. Claro que muitos mijam, eu mesmo já mijei. Mas na noite calada, na surdina, completamente bêbado, e ainda assim envergonhado, andando várias quadras até encontrar um beco bem escuro, olhando para todos os lados temendo o flagrante. O que me espanta aqui não é o fato bruto de mijarem, mas o fato de não sentirem vergonha, de não se preocuparem em se esconder, de não selecionar ruas vazias e desertas. Talvez em Belo Horizonte mijem nas ruas com a mesma freqüência que se mija aqui, mas como fazem isso na surdina, ninguém nota, ninguém vê, não é algo que salta às vistas. Aqui não, não há dia que caminhe umas três horas pela cidade sem ver uma instância do ato impudico. E segundo os relatos da minha mãe, acontece o mesmo em Porto Alegre. Vai ver é coisa do sulista fazer da mijada um ato público.
sexta-feira, março 07, 2008
Silêncio Introverso
O jeito é tomar o último copo e degustar o meu silêncio com a única pessoa que conheço apreciá-lo: eu. E no fundo, quando fico calado na companhia alheia, nem é por não ter o que falar, ou por não querer falar, é por desejar que a pessoa tenha, assim como eu, a oportunidade de voltar a atenção para as suas sensações e emoções de modo a aproveitar por completo o momento. Isso é coisa de introverso, eu sei. Não deveria tentar impor o meu jeito de ser ao extrovertido, ele não quer saber de silêncio, ele quer falar, quer dispersar, quer se movimentar, agir, não tem dessa de voltar para si para perceber melhor o impacto emocional do objeto/ser/pessoa que ele tem na sua frente.
E eu ali ao lado absorvendo e apreciando maravilhado a empatia que me infundia, mas é certo que ela não sentiu nenhuma e exasperava-se com o meu mutismo. Nessas horas penso em falar aleatoriamente qualquer coisa só para deixar o outro menos incomodado, mas acabo resistindo a essa idéia de não ser eu mesmo. Talvez esteja sendo um pouco egoísta ao agir assim, ao não tentar resistir ao magnetismo das minhas emoções internas, no entanto, o que a outra pessoa ganharia, além de uma falsa sensação de entrosamento, ao me perceber forçando uma fala que não saiu de mim naturalmente? Opto pela sinceridade silenciosa, mesmo que isto me custe a dolorosa percepção do enfado nos olhos alheios. Eu compreendo tudo isso muito bem, o que não me impede de sentir na pele o estranhamento que provoco.
E eu ali ao lado absorvendo e apreciando maravilhado a empatia que me infundia, mas é certo que ela não sentiu nenhuma e exasperava-se com o meu mutismo. Nessas horas penso em falar aleatoriamente qualquer coisa só para deixar o outro menos incomodado, mas acabo resistindo a essa idéia de não ser eu mesmo. Talvez esteja sendo um pouco egoísta ao agir assim, ao não tentar resistir ao magnetismo das minhas emoções internas, no entanto, o que a outra pessoa ganharia, além de uma falsa sensação de entrosamento, ao me perceber forçando uma fala que não saiu de mim naturalmente? Opto pela sinceridade silenciosa, mesmo que isto me custe a dolorosa percepção do enfado nos olhos alheios. Eu compreendo tudo isso muito bem, o que não me impede de sentir na pele o estranhamento que provoco.
quinta-feira, março 06, 2008
Homem vai na barbearia. Ponto.
Desde que cheguei nessa cidade meu hábito de cortar o cabelo ficou embotado. Aqui na minha quadra, há três salões, um deles supostamente unissex, pelo menos tem uma placa lá que o intitula assim. Por uma questão de comodidade, passei a freqüentá-lo, porém apenas de quatro em quatro meses. Nada contra o corte, que é bem feito até. O que me desmotiva a ir lá é o seu público majoritariamente feminino. Do sexo masculino, além de mim, só vi lá uma vez um menininho de uns 6 anos. Antes mesmo de chegar na porta fico envergonhado, a cara se avermelha ainda mais quando entro e todas aquelas mulheres me encaram interrogativas, como se eu fosse um criminoso por estar ali. "O que você deseja?". Fazer a unha do pé é que não, né minha cara?
Então que essa semana eu precisava cortar o cabelo, com esse calor, não o suporto muito grande. Acordei bem cedo para ver se encontrava o salão ainda vazio, só que exagerei na antecipação, estava fechado. Resolvi dar uma volta no quarteirão, passei ali no Mercado Municipal e lá dentro deparei com uma barbearia. Opa, vamos tentar, logo pensei. Entrei e sentei na poltrona de espera. Um sujeito nos seus 40 anos estava já na cadeira sendo servido pelos cortes do babeiro e um velhinho esperava também a vez. Ambiente silencioso, sem tagarelice e ao meu lado a gazeta do povo que, se não é um bom jornal, pelo menos é um jornal, pois lá no salão tinha só Caras, Gente e sei lá mais o que fofoqueiro que não me dizem respeito.
As conversas não foram ininterruptas, ao contrário, eram agradavelmente permeadas por silêncio, falou-se do caso da Colômbia, do governo, de carros e um pouco de futebol também, é claro, difícil faltar, o velhinho, quando me viu lendo a seção de economia, chegou mais perto para perguntar o preço da soja e me falou um pouco sobre o mercado da commoditie, mas sabe, tudo assim bem leve, agradável, pausado, nada histérico, nada muito pessoal, como aconteceu uma vez lá no salão, chegou-me uma patricinha, não, não sou eu que estou lhe dando esse rótulo, ela mesma se descreveu assim, estava cheia de trejeitos, chamando a atenção, e logo se pôs a narrar em alto bom tom e com detalhes sórdidos a briga que teve com a sua mãe na noite anterior; eu quase desesperado olhava para as outras mulheres esperando alguma cara de indignação ou mesmo de enfado, mas todas estavam muito bem sintonizadas e interessadas no relato, como se a novela da noite anterior continuasse ali. Nesse dia eu até queria um corte mais curto, mas quando a cabeleireira me perguntou pela primeira vez se estava bom, não pensei duas vezes, já fui me levantando, falando que estava ótimo e fugi dali o mais rápido possível.
Enfim, pela metade do preço tive um corte tão bom quanto o do salão e a minha espera foi adornada pela mais perfeita paz. Saí dali convicto de que lugar de homem é na barbearia.
Então que essa semana eu precisava cortar o cabelo, com esse calor, não o suporto muito grande. Acordei bem cedo para ver se encontrava o salão ainda vazio, só que exagerei na antecipação, estava fechado. Resolvi dar uma volta no quarteirão, passei ali no Mercado Municipal e lá dentro deparei com uma barbearia. Opa, vamos tentar, logo pensei. Entrei e sentei na poltrona de espera. Um sujeito nos seus 40 anos estava já na cadeira sendo servido pelos cortes do babeiro e um velhinho esperava também a vez. Ambiente silencioso, sem tagarelice e ao meu lado a gazeta do povo que, se não é um bom jornal, pelo menos é um jornal, pois lá no salão tinha só Caras, Gente e sei lá mais o que fofoqueiro que não me dizem respeito.
As conversas não foram ininterruptas, ao contrário, eram agradavelmente permeadas por silêncio, falou-se do caso da Colômbia, do governo, de carros e um pouco de futebol também, é claro, difícil faltar, o velhinho, quando me viu lendo a seção de economia, chegou mais perto para perguntar o preço da soja e me falou um pouco sobre o mercado da commoditie, mas sabe, tudo assim bem leve, agradável, pausado, nada histérico, nada muito pessoal, como aconteceu uma vez lá no salão, chegou-me uma patricinha, não, não sou eu que estou lhe dando esse rótulo, ela mesma se descreveu assim, estava cheia de trejeitos, chamando a atenção, e logo se pôs a narrar em alto bom tom e com detalhes sórdidos a briga que teve com a sua mãe na noite anterior; eu quase desesperado olhava para as outras mulheres esperando alguma cara de indignação ou mesmo de enfado, mas todas estavam muito bem sintonizadas e interessadas no relato, como se a novela da noite anterior continuasse ali. Nesse dia eu até queria um corte mais curto, mas quando a cabeleireira me perguntou pela primeira vez se estava bom, não pensei duas vezes, já fui me levantando, falando que estava ótimo e fugi dali o mais rápido possível.
Enfim, pela metade do preço tive um corte tão bom quanto o do salão e a minha espera foi adornada pela mais perfeita paz. Saí dali convicto de que lugar de homem é na barbearia.
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