segunda-feira, janeiro 28, 2008

Elas

Alfredo teve um sono agitado nesta madrugada, dois amores passados lhe visitaram em sonho, primeiro um mais recente, fresco não só na memória, como na sensibilidade, em seguida, um bem mais antigo, do qual ele se lembrava muito esporadicamente e com boa vagueza. Ela(1) lhe convidou para um jantar em sua casa, comemorava o namoro, que logo se transformaria em casamento. Ela(1) queria apresentá-lo, carregava na consciência uma finalidade ilustrativa: Alfredo precisava aperceber-se do que ele não tinha, como se fosse culpado pelos seus genes. Seu futuro marido é atlético, alto e forte. Em todo o resto Alfredo é mais e mesmo assim ela(1) preferiu ter o que mostrar às amigas do que se sentir acompanhada apenas no refúgio do lar. Durante o jantar, Alfredo viu nos seus(1) olhos infelizes a resignação e o rancor dirigidos respectivamente ao namorado e a ele. Ela(1) desejava o impossível, queria extrair o melhor de cada e cozinhá-los numa única forma. O futuro-tolo-marido foi o único a não perceber o clima angustiante na mesa, os olhares engasgados, dali saiu para o sofá com a felicidade própria de um glutão e o sono da digestão.

Ela(2) apareceu sem cenário, em um sonho de fundo branco, nos braços, carregava uma criança, fruto do casamento recente. Enquanto brincava e sorria com o seu filho, ela(2) queria apenas mostrar o que Alfredo havia perdido, ao não ter ousado roubá-la de seu namorado, pois naquela época já quase esquecida por Alfredo, ela(2) o amava e ele a ela. Alfredo era escrupuloso demais, não se atreveria, achando que o amor dos outros era mais puro e merecedor que o seu e ela(2) temia a solidão, como a maioria das mulheres. Nos olhos dela(2) não havia rancor, apenas uma suave melancolia, que agora se apagava com a presença alegre da criança. Alfredo não soube ao certo a que ela(2) veio em seu sonho, ela(2) tinha em seu semblante uma mensagem pessimista e outra otimista, como se lhe dissesse: "por tuas escolhas, perdeste algo para sempre, mas por elas poderás ganhar o teu futuro, aprendas a domar este medo que nos afastou". Mesmo que não as tenha dito, foi com essas palavras que acordou no peito; ao se levantar, sentiu-se um pouco melhor, diferente, pois hoje, lembrou-se, já é capaz de rasgar cartas de rivais.

domingo, janeiro 27, 2008

Promessa

Há quem se ache virtuoso por cumprir uma promessa. Olha-se no espelho com ar de dignidade por ter mantido a palavra que dera um ano atrás ou até mais. O prazer consigo mesmo dispara quanto mais espinhoso e sangrento for o caminho. "Lutei, resisti e venci!", dirá. Lembrará desses dias de sofrimento com sabor de heroísmo. Sim, lutou, massacrou e eliminou cada uma de suas vontades desvirtuantes. Este homem ou mulher agora se sente limpo, mas trata-se de uma limpeza cadavérica; lipoaspirou toda a sua carne, pois lhe soava pútrida e ignóbil. Contudo, era a própria carne que cortava, era a sua própria vida que matava e suprimia. E para que? Para aplacar a sua consciência débil, incapaz de conviver com a própria imundice, com as contradições que habitam o peito de cada um. Também o amor, mantido pelas juras, se transforma na mais monstruosa pulsão de morte quando a sua brasa já não é mais alimentada pela vontade íntima, mas sim pela obrigação, pela consciência. O pseudo-amante assim embriagado pelo odor límpido da sua obrigação, arrotará com satisfação todo o martírio que se impõe pelo outro, contará aos quatro cantos tudo que deixou de lado pelo outro, tudo que fez para estar do lado outro, como se o amor tivesse mesmo algo de heróico. Ele diz que se sacrifica com prazer pelo outro, pois o ama. Mentira! Não é ao outro que ele ama, mas a sua obrigação de amar, a sua necessidade de amar, a sua vontade de estar limpo e cheirar à pureza. O amor por um outro, na sua manifestação pura, simplesmente não contradiz o seu objeto e, o que é mais importante, muito menos contradiz com sacrifícios aquele de quem emana, pois nasce uníssono numa pulsão de vida orientada pelo outro. O amor genuíno é vida plena, sempre e talvez por isso ele não seja tão constante quanto gostaríamos em nossa oscilante existência.

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Você, eu e nós

Ah, você voltou, mesmo depois de tê-lo posto na rua aos chutes, dando-lhe todas as minha razões, enumeradas, uma por uma, eu disse que nunca mais queria te ver, eu disse, e eis aqui você novamente, deslumbrante, fálico, erótico até, cabelos esvoaçantes, gastos, como a de um bêbado acostumado a dormir na sarjeta, e fui eu quem os gastei, só eu, magistralmente, sempre, não, saia já, não quero vê-lo, por que vieste? por que? Sabe que não resisto, não hoje com essa gravidade tão rarefeita...Eu já tinha prometido a mim mesmo que não voltaria a lhe por as mãos, eu, eu mesmo disse outro dia que era uma vilania aproximar de você e agora me expões a essa situação, a essa tentação...não consigo nem mesmo tirar meus olhos de ti, que força é essa meu deus? Poupe-me, poupe-me, por favor, há pessoas aqui, o que elas vão pensar vendo essa esquizofrenia tão manifesta? Danem-se, oh, quanta grosseira, danem-se, já não me importo, e Ela, e Ela, sempre a me olhar com reprovação, disse-me que tinha nojo da estranheza, que gosta só da normalidade límpida, do perfume insonso, do sabor aquoso, então ela me jogava aqueles olhos grandes e imponentes, escaneando-me de cima à baixo e eu me encolhia todinho, pequeno, curvando-me sobre mim mesmo, como se fosse possível esconder as aberrações que cortam a minha pele de fora a fora. Foi melhor assim, eu me odiaria se tentasse mudar o meu cheiro por causa dela. Eu o adoro assim, aliás, desde pequeno que me cheiro com prazer, banhado ou não, inspiro com o nariz bem tateado na pele até não conseguir mais, sinto a mim, só a mim. Ela foi embora, concluindo, "Diferente demais!". Obrigado, respondi. Se para Ela não me importei em ser todo eu, não é diante de vocês que eu vou me reprimir, tinha até graça. De mais a mais, Ela já é passado muito bem assentado. Não é por Ela que vieste hoje aqui, sei que não. Eu o odeio e, no entanto, estás aqui, fiel, como se me pertencesse desde sempre, como se não me fosse possível ser verdadeiro sem você, sem as suas pinceladas tão marcantes e, no entanto, você é vil, completamente vil. O que seria de mim sem você?

domingo, janeiro 20, 2008

Dor de arreia

Exatamente assim, você não leu errado, "dor de arreia" é o nome que duas crianças criativas, eu e a minha irmã, demos à diarréia em nossa inocente ignorância. Diria até que com uma lógica perfeita. "Dor de cabeça" não denomina uma dor que sentimos na cabeça, e "dor de dente", uma dor no dente? Por analogia, a palavra "diarréia", soltada veloz, de chofre, era interpretada como "dor de arreia", afinal, a diarréia vinha acompanhada de uma dor, então só poderia ser dor de alguma coisa, claro, a dor de arreia, ainda que não soubéssemos ao certo o que era a arreia, por certo alguma coisa dentro das nossas barriguinhas. Assim pensávamos. Os pais achando graça nisso tudo demoraram a nos revelar a verdade.

E veja só, se quisermos viajar, a coisa faz mais sentido ainda. Diarréia tem a ver com soltura intestinal. Da "arreia" vem o "arreio", usado em cavalos para retê-los ou soltá-los na andança. Logicamente a arreia é o dispositivo muscular por meio do qual o intestino se prende e se solta. Daí a dor de arreia, quando há algo errado e doloroso nesse dispositivo.

Pois sim, quando eu tiver uma filha eu lhe ensinarei "dor de arreia" e segregarei em seus ouvidos o absurdo médico de falar "diarréia", palavra tão sem lógica e sentido na cabeça de uma criança que se depara de uma maneira mais imediata com a dor e os seus diversos tipos. É, é isso o que farei.

sábado, janeiro 19, 2008

Medo

Ontem senti medo sim, na casa de minha irmã, em Bragança Paulista, uma certa apreensão percorria-me o corpo ao pensar que teria de entrar na infindável São Paulo por um lado e encontrar uma certa saída do outro lado, completamente sozinho, sem nunca ter passado por lá antes de carro. Mandei mensagens para várias pessoas que talvez já tivessem passado pelo mesmo, buscando alguma informação reconfortante, mas só recebi de volta palavras de conforto moral, muito bem-vindas, é claro. O medo tomou uma tal dimensão que cheguei a baixar o mapa rodoviário do Estado de São Paulo em busca de uma rota alternativa, que evitasse passar pela capital. Achei uma, passando por Jundiaí, Itu e Sorocaba para depois pegar a Régis Bittencourt já na metade do caminho. Desisti por ser igualmente complicado, todas essas cidades são de um porte razoável e também nunca estive nelas. Até a minha irmã ficou um pouco apreensiva e me ajudou a procurar outras alternativas, numa dessas, levou-me até o centro do Estado de São Paulo, depois eu desceria pelo meio do Paraná, passaria por Ponta Grossa para enfim chegar em Curitiba. Uns 300 quilômetros a mais. Foi quando eu percebi a dimensão descontrolada e patética do meu medo. Era preciso enfrentá-lo e domá-lo antes que ele me dominasse por completo. Assunto encerrado e decisão tomada, iria passar dentro de sampa mesmo. Muni-me de um mapa da cidade e fui dormir para descansar. Acordei no outro dia ainda um pouco apreensivo, a cabeça confusa com os sonhos de estrada, mas resoluto. Tomei o café, abracei a minha irmã quase choroso já com saudades e parti ao encontro do meu destino.

Bem, desnecessário dizer que o desconhecido tem um efeito intempestivo sobre a imaginação, contribuindo para o surgimento de medos desmedidos. Claro que fiquei tenso, pois estava sozinho e tinha de prestar atenção no trânsito e nas placas, qualquer erro poderia significar algumas horas na busca do caminho correto. Quando você tem alguém de copiloto te guiando para onde ir, fica bem mais fácil. Mas tirando esse excesso de tensão, de atenção redobrada, foi muito tranqüilo, entrei em São Paulo, peguei a marginal e fui indo até aparecer (o medo era, e se não aparecessem?) as placas indicando a Régis Bittencourt. Quando elas apareceram, fui só seguindo. Depois de mais ou menos uma hora eu já estava aliviado fora de sampa.

Por que estou narrando tudo isso aqui para mim? É que eu fiquei pensando em como é ruim ter de enfrentar absolutamente tudo sozinho, ainda que isso me ajude a ficar mais forte de alguma maneira. Confesso que senti um certo quê de tristeza com este pensamento.

terça-feira, janeiro 15, 2008

Amor

Ele amava tanto, mas tanto que chegava a lhe doer a razão, saia louco a cata de cada palavra dela que fosse, até em papel rasgado, costurava-os depois interpretativo, sorria imaginando-a pensando, como se a sentisse por dentro. Diante dela, emudecia por completo, queria ouvir-lhe tudo, tudo, tudo. Mas ela era muito arredia, tinha um coração por demais sangrado, passou a querer a amar pela razão. Então fugiu assustada, enxergou o amor dele como loucura.

Casa

Esta casa, onde já não tenho mais um quarto, sempre me assombrou pela sua fauna diversificada. Agora não, nas suas paredes velhas e descascadas, restam apenas as lagartixas, bem gordinhas, é verdade, pois no verão são abençoadas pelo excesso de pernilongos. Desde que fiquem ali na sala, não me incomodo. Não sei se iria querer dormir com uma no quarto onde 30 anos atrás fui feito. Não combina.

Nos meus primeiros anos de vida, a selvageria por aqui era mais intensa. Nos dias de chuva, bastava ir até a garagem para observar as rãs que buscavam refúgio no interior de casa, depois vinhamos com a vassoura devolvê-las à sarjeta. À noite, ao menos enquanto o terreno ao lado permaneceu baldio, era a vez dos ratos invadirem a cozinha em busca literalmente do queijo mineiro que aqui nunca faltou. Bem planejada para essa terra infernal, ela tem uma claraboia em uma de suas extremidades, permitindo uma agradável ventilação; em contrapartida, uma passagem desimpedida para os ratos da vizinhança. Lembro de armar as ratoeiras com a Dona Maria e lembro também de ver pela manhã bem cedo, com um certo nojo e terror, o rato ensangüentado, quase partido ao meio.

O banheiro que ficava imediatamente ao lado do quarto onde dormíamos eu e a minha irmã era literalmente sombrio. Suas pequenas basculantes eram insuficientes para que o sol lhe desse um tom agradável e aceitável. Mas o motivo principal para este cômodo até hoje me causar uma impressão desagradável, diria até um certo medo angustiado, é outro: foi lá que me deparei umas três ou quatro vezes com aranhas caranguejeiras. Numa destas, eu já estava sentado no vaso fazendo as minha necessidades, quando eu a vi saindo debaixo do cesto de roupas, enorme e imponente, dirigiu-se para a frente da porta, que estava fechada, e ali ficou, impedindo-me a retirada. Então com seis anos fui apresentado ao pânico. Ele foi-me tão monstruoso que já não lembro mais o que se sucedeu dali em diante. Gritei e muito.

Depois adolescente, morando em Minas, notei novidades quando certa vez vim passar aqui as minhas férias. A noite veio caindo e logo percebi uma movimentação para fechar as janelas. Bati de peito, isso não, com esse calor? Nem pensar! Logo me explicaram que, com a "urbanização" do lote vizinho baldio, a derrubada das mangueiras que ali habitavam e tornavam o meu dezembro suculento, os ratos evoluídos, vulgo morcegos, arranjaram novo pouso e morada no telhado de nossa casa. Nessas férias mesmo tive que lutar com um que se perdeu aqui dentro.

O episódio mais bizarro aconteceu ainda na infância. Estávamos todos na sala assistindo ao Fantástico, que, na década de 80, era certamente dirigido por um sádico, com seus fundos musicais assustadores e a voz grave do Cid Moreira pedindo aos pais que retirassem as crianças da sala em virtude das fortes cenas que viriam a seguir...eu e minha irmã ficávamos atrás da parede escutando os gritos e imaginando o terror. Se tivéssemos visto as cenas, possivelmente o medo seria menor. Mas como vinha dizendo, estávamos na sala, meu pai deitado no sofá e eu e minha irmã empoleirados nele. Foi quando eu apontei para o rodapé da parede e disse quase rindo com os meus inocentes sete anos, "Pai, olhe, é um cobra". Acostumado com a nossa fauna diversificada, ele retrucou sem olhar. "É só uma minhoca, filho". Eu já tinha visto minhocas e a achei muito grande para ser uma, resolvi insistir. "Não é não, é um cobra e ela está indo para o meu quarto!". Meu pai olhou então, e só me lembro dos seus olhos ficando esbugalhados de terror ao notar viva e colorida a jararaca venenosa se rastejando pela sala. Depois disso foi um deus nos acuda, eu, minha irmã, minha mãe pulando para cima do sofá e o meu pai e a Dona Maria correndo atrás da cobra com vassouras. Lá se foram mais quinze minutos de pânico até darem um fim à pobre coitada que provavelmente havia se perdido do leito do Rio das Graças.

domingo, janeiro 13, 2008

Cherie

Ela tem o hábito higiênico de apagar meticulosamente todos os seus rastros, nenhuma pegada é deixada para trás, como se fosse possível trespassar uma pessoa sem lhe alterar um fio de cabelo, um átomo. Ela gostaria de ser de um outro mundo, como quem interagisse com os homens incausadamente, sem deixar efeitos. É aí que você se engana, cherie, a impressão na alma é indelével, só a morte apaga. Depois que se deste a mim, por qualquer perspectiva ou ângulo que seja, não podes mais tirar-se de mim. Não mesmo.

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Cancelamento

Preciso de um único funcionário ou qualquer outra coisa violentável e representativa da Caixa Econômica Federal sobre a qual eu possa despejar de maneira concentrada, focada e com extrema violência e sadismo, sem o menor sentimento de culpa ou remorso, toda a minha ira acumulada ao longo de duas horas estiolantes e irrecuperáveis na tentativa de cancelar um mísero cartão de crédito.

Liguei ao todo 8 vezes. De uma maneira mágica e com profunda coincidência, espantosa até, sempre que lhes anunciava o motivo do telefonema, o cancelamento do cartão, a ligação caia alguns segundos depois. Evidente, a instituição financeira deve ter fortes vínculos com as instâncias divinas, zelosas em manter nas cercanias daquela a ovelha desgarrada e lucrativa.

Qual o motivo? Eu quero. Hã, não entendi. Estou a fim, sacou? Preciso saber o motivo. Veja bem, senhor, senhora ou senhorita do Marketing, das Vendas ou de que setor diabólico for, preste bem atenção e instrua os seus subalternos da telechateação com a minha instrução: quando, ao ser ser interpelado por um motivo, o cliente declarar a sua suprema volição, seu inalienável arbítrio sobre as suas decisões, não tente lhe extrair uma outra motivação marginal, como se estivesse sendo coagido por ela. Esta busca patética e imbecil só vai irritar ainda mais o cliente que agora absorto se vê obrigado a digladiar com uma voz que insiste em não compreender o simples e quase monossilábico "eu quero!".

domingo, janeiro 06, 2008

Se...

Se, por assim dizer, e aqui a suposição vai longe da atual realidade, da minha solteirice sem paternidade, mas vamos lá, se a minha filha chega para a sua mãe, então minha namorada/companheira/esposa, com um livro nas mãos e pede, quase implorando, com a sua vozinha doce e curiosa de criança, para que ela leia uma história e esta mesma mãe, prostrada em um sofá, abraçada à preguiça a que todos nós temos direito uma hora ou outra, lhe responde com a negativa em favor de um programa televisivo qualquer, um filme que seja, na melhor das hipóteses, então, neste mesmo instante, estarei lhe comunicando a separação e, claro, a filha virá comigo.

Ah, futura namorada/companheira/esposa, não seja atroz, lhe negue um banho, um lanche, uma roupa, um presente, mas, por favor, não lhe negue a leitura de um livro!!! Isso eu não perdôo.

sábado, janeiro 05, 2008

Humilhação

Pior do que ver uma criança chorando é ver um homem humilhado, possesso na sua dor, completamente encerrada pela sua fraqueza; a fúria fervilhando vermelha nos olhos, de onde ela não sai jamais, mas está ali estampada para qualquer um ver. O humilhado não tem forças para irradiar o seu ódio, de outro modo ela findaria antes mesmo de nascer, no tapa reativo, no "não, isso eu não aceito!". Sofre moralmente e emocionalmente. Seu ódio contido só lhe corrói, veneno mortal ao amor próprio. Ele fraquejou, não o conheço, não sei seus motivos, as convenções sociais que lhe passaram pela cabeça, o poder alheio que estimou, mas calou-se, mordeu-se por dentro, enrolou a própria língua. Eu vi quase de perto, atento, e ele notou que o via, o que, infelizmente, só ajudou a aprofundar ainda mais a sua humilhação, mesmo que eu estivesse lhe dizendo, "oh não, eu entendo". O melhor era não ter entendido, não ter visto nada.

O ofensor, por seu turno, não parecia estar minimamente perturbado, agia com tranqüilidade e desenvoltura, como se aquela violência irrompida de suas mãos e boca fosse o seu natural. Imagino mesmo que fosse. Tanto orgulho, tanta força, tanta vontade de se expor e se mostrar que qualquer sensibilidade mais aflorada sente-se mesmo humilhada na sua presença. Seria diferente se ele tivesse a intenção de ofender. Mas ele sequer parecia perceber a humilhação do ofendido, seguia rente, sem nem encará-lo.

Eu fico me perguntando, independentemente da força/vontade de cada um, vocês não têm curiosidade de saber o efeito do que diz e faz no seu interlocutor?

segunda-feira, dezembro 31, 2007

O gosto do saber

Várias pessoas já me disseram sentir angústia por notar a sua impotência e incapacidade de conhecer tudo o que há para conhecer. O tempo é escasso, o trabalho demanda especialização, o bolso não é suficiente para tantos livros, alguns assuntos estão muito longe da sua compreensão etc. A mim não angustia ter de lidar com essas diferentes facetas da finitude humana. Claro que sou mordido pela curiosidade e quero sempre saber mais. Mas sem alvoroço. O conhecimento é como um prato refinado de comida, deve ser apreciado e degustado lentamente. Para que comer com pressa? Só para poder dizer "eu sei!"? Sim, você sabe, mas...até quando você saberá? O que me angustia de verdade não é pensar vagamente em coisas que eu não sei, que, justamente por não saber, sequer tenho como imaginar a não ser de modo bem confuso; o que me angustia é saber muito concretamente, de modo bem definido, que eu já não sei mais coisas que um dia eu soube, o que me angustia é saber que o que eu sei se esvai num jato contínuo na mesma velocidade, na mesma vazão com que aprendo novos assuntos. Eu me angustio pela perda real, não pela ausência do indefinido. Prefiro comer devagar sim, lentamente, tentando absorver e apreciar toda a variação de gosto e textura do alimento. Estou certo que assim a sua influência sobre o meu organismo será mais duradoura e mesmo mais profunda e intensa. Acaso se lembrará do gosto da comida quem a comeu de chofre, em segundos, mal mastigando? Talvez se lembre do mal-estar ocasionado pela gula e só. Sinceridade, eu não quero mesmo saber tudo, eu quero ter fruições intelectuais, quero sentir aquela comichão despertada pela compreensão que pouco a pouco vai se alargando e envolvendo o assunto estudado, que percorre solta e faceira nas suas associações, não quero apenas saber mais, quero também sentir e perceber o impacto deste saber em cada uma de minhas células. Enfim, quero a apreensão total de cada saber, quero mastigar o alimento completamente na minha boca, onde tenho nervos para senti-lo, até que derreta por inteiro. Nada de acúmulo eciclopédico, burro e voraz de vários saberes, o qual, aliás, causa náusea e gastrite.

domingo, dezembro 30, 2007

Milyang

O marido morreu em um acidente, e o filho foi brutalmente assassinado após sequestrado, e ela, elo terreno entre ambos, findou-se por dentro. Lágrimas, dor, desamparo. Brevíssimo, o amor reaparece, pelas mãos intangíveis de Deus. Ela o aceitou e sorriu, encobrindo a sua tristeza incrustada. Paralelamente, todo o tempo, ele estava lá, apoiando-a em tudo, respeitoso, amigo, dando-lhe um amor que ela rejeitava indignada. E, no entanto, as mãos dele eram tangíveis. Quanta incongruência! Arrisco um palpite explicativo: a dor foi tão intensa que lhe deixou um medo indomável, para casos assim, Deus é perfeito. Ele é imortal, seu amor incessante não se esgota e ele jamais abandona, a não ser quando finda a fé. Fé acabada, deus, agora minúsculo, inexiste, nenhuma dor por abandono. Na encruzilhada entre o palpável e o impalpável, o medo lhe soprou baixinho o veneno da fantasia. Fiou-se num amor inumano, sem decepções, baseado inteiramente na sua ilusão, na sua crença e, pasmem, sobretudo na sua vontade de sobreviver, perecer permanecendo. E, no enanto, o amor real, brutal e humano estava bem ali do lado dela, bastava abrir os olhos e estender as mãos. O ser humano amedrontado, porém, nega-se a viver. Segue-se mais uma tragédia. Mesmo esse amor cristalino, ideal, cheirando adocicado, foi capaz de lhe trair. Ela se preparou para perdoar o seu ofensor, o assassino de seu filho. Tentativa de resgatar a dignidade pela humilhação, pois não há nada mais ofensivo que o perdão, exercício puro da vontade de humilhar. Lá chegando, porém, sentiu funda a facada divina fincada nas costas: encontrou o seu ofensor sereno, em paz. Deus já o havia perdoado e expiado a sua culpa. Sucedeu-lhe a loucura. E ele imperturbável no seu amor permaneceu ao lado dela. Ao vivo e a cores em Secret Sunshine.

sábado, dezembro 29, 2007

Calor

A umidade brota da pele impiedosa, rompe poros, escorre incomodamente pelo corpo e deixa a sua marca salgada. Olho para a cama, os livros que lá estão, a vontade de ler, de apropriar-me de algum pensamento, mas sinto um cansaço só de me imaginar lendo suando, as palavras se arrastando, a concentração embotada. Realmente não dá. Realmente eu não poderia. Não aquentaria. Aquela oferta de fazer pós-doutorado em João Pessoa foi bem recusada. Eu não suportaria por muito tempo. O ser humano se adapta, mas bem, uns se adaptam mais facilmente que outros, há toda uma fisiologia particular, particularíssima a se considerar, eu sou calorento, é fato. Aos 15 graus ainda estou só de camiseta. E de mais a mais, chega dessa vida de cigano. E que família a nossa, ein, estava comentando mesmo esses dias com a minha irmã. Migrante desde os antepassados. Conosco não foi diferente. Eu aqui, ela em São Paulo, o pai no Espírito Santo, o irmão em Porto Alegre, a mãe em Minas. O mesmo destino para a família do irmão da minha mãe, que, durante toda a minha infância, foi muito próxima da gente. A prima querida no Rio, a irmã dela em Natal, o irmão em Tocantins, a mãe nos confins do Pará, o pai no Espírito Santo. Poxa, só está faltando alguém no centro-oeste. Alguém tem de ir para lá! Nem olhem para mim. Cuiabá, imagine, uma cidade que fica num fosso, abaixo do nível do mar, onde 30 graus é fresco, brandura e suavidade. Família de curiosos, isso sim. E agora volto ao Espírito Santo, passar uns dias, rever o pai, a dona Maria, minha segunda mãe, a sua comida boa, o seu colo gostoso, mas sinto um peso aqui sobre a minha pele, uma ardência queimada, só de imaginar o calor natural do vale do rio doce com o seu por do sol tão lindo quanto quente, incandescente. Pequeno, nos dias de mais violento calor, eu pegava gelo para chupá-lo ou passá-lo pelo corpo, depois ia me deitar no piso de ardósia, lá na varanda, esperando pelas esporádicas correntes de vento e ria de prazer quando elas vinham. Ficava ali horas, às vezes com um livro, outras com algum brinquedo ou apenas olhando as formigas que traçavam o seu caminho entre os vãos das pedras. Só tem uma coisa boa nessa história de calor, minha carência baixa para zero, sai de perto, não tem abraço, nem beijo, nem nada. É, paz de espírito no meio de um inferno corporal.

quarta-feira, dezembro 26, 2007

Serra Verde Express




Depois que ela nos entregou as latas de refrigerante, explicou: "abre de baixo para cima, puxando o pino, está bem?". Eu e minha irmã nos olhamos com ares de incompreensão. Procurei pelas minhas fraldas, meus pais ou qualquer pessoa mais velha que pudesse ser legalmente responsável por mim e pela minha irmã. Ninguém, estávamos sós, a mercê da própria sorte e, para falar a verdade, adultos. A frase foi lançada de chofre sem pensar, só pode. A despeito dessa bola fora, a guia foi super simpática, loquaz e cativou-me com o seu sorriso largo e amistoso. Pensei até em fazer o passeio novamente só para vê-la outra vez. Para falar a verdade, eu sempre caio de admiração por essas pessoas que lidam com o público com desenvoltura, seja a simpatia fingida ou não. Elas têm um talento que eu definitivamente não tenho. Admiro mesmo, fico olhando embasbacado.



Mas vamos ao que interessa: são três horas e meia de puro verde, serra, pontes, túneis, corredeiras e represas. Valeu à pena sim. E preste muita atenção nessa dica: opte pelo lado esquerdo do trem. Ao comprar a passagem, vão lhe dizer que a venda é seqüencial. Se der azar e a próxima for do lado direito, espere aparecer alguém para comprá-la e compre logo em seguida a do lado esquerdo. A melhor vista da serra, panorâmica, que se estende até o mar, está desse lado. Não sabia disso e me senti prejudicado.



A segunda dica é que não tem muita coisa para fazer em Morretes além de comer o tal do barreado, prato típico do litoral do Paraná e que, diga-se de passagem, ainda não me convenceu. Assim, não façam a burrice de comprar a passagem de volta, no caso de preferir o retorno de ônibus, depois do almoço. Não pensamos nisso e ficamos presos na cidade até às 16:00, num calor infernal. Pelo menos conseguimos um banco debaixo de umas árvores na beira de um rio e ali ficamos lendo por umas duas horas.



E se você, como eu, for muito calorento, considere fazer esse passeio em outra época, no outono ou inverno. Estava insuportavelmente quente.

Vergonha!

Vergonha, vergonha! Sim, é uma verdadeira baixeza lançar mão da compaixão para sensibilizar o outro quando o seu poder de sedução é nulo. E por toda a parte vemos essa vilania. Quando o seu brilho natural não apetece aos olhos do almejado, quando, ao contrário, ele lhe vê fosco, você começa então a pintar e desenhar o seu sofrimento, a sua dor. Que vulgar! Você pensa, se não sou admirado, que ao menos me distancie da indiferença pela compaixão. E assim começa a se dedicar à pintura dos sentimentos, aperfeiçoando-se no uso dos tons de cinza e do negro na arte do auto-retrato, tornando-se mestre na retórica do sofrimento, amplificando, exagerando e inventando detalhes inauditos da sua dor. Quer assim ver o outro chorando por ti, dispondo-se a seu favor, com ar protetor e consolador diante da sua fraqueza vilmente manifesta. Não, nem sempre isso é consciente, mas pouco importa, é baixo. E talvez pior ainda do que este, e repare que falo aqui de um tipo ao qual, em um momento ou outro, todos nós nos aproximamos, sim, eu também confesso a minha vilania, pior ainda é aquele que se deixa seduzir pela compaixão, oh, e também aqui sou um pecador, talvez até mais aqui. Fracos, são todos fracos, somos todos fracos. Lembremos, por exemplo, do Princípie, personagem principal de O Idiota; quando mais a sua firmeza foi necessária e demandada, quando não só o seu futuro próximo e longíngüo estavam em jogo, mas também o da sua amada Aglaia, ele fraqueja e sucumbe por completo diante da compaixão, diante da pintura mais sombria e lúgubre que Nastassia já havia feito de si mesma. Naquele segundo abissal, colossal, de um peso incomensurável, ele se atordoa, se indigna até mortalmente com Aglaia, pois sim, naquele seu instante de completa indecisão ele fere irreparavelmente o amor que ela lhe tinha, seu poder, enfim, é mais fraco que o da Nastassia, e ele se curva diante dela, a compaixão sai vitoriosa, vence até o seu amor. Aonde chegamos, meus amigos, o amor sendo vencido pela compaixão! Lutemos, lutemos contra essa vilania, essa fraqueza dupla que tenta a todo instante nos infectar e corroer.

segunda-feira, dezembro 24, 2007

Irritação

O que mais lhe dói não é nem tanto a rejeição, ele a entende e a assimila com uma paz quase estóica, o que mais lhe rasga por dentro é perceber a irritação que a presença do seu afeto ou carinho gera nela. Isso desce engasgando, cortando. O seu curso de raciocínio para a rejeição é o seguinte: "da mesma forma que não me cabe pedir razões para o sentimento que aflora, e muitos vezes elas lhe seriam até contrárias, também não há qualquer motivo para que o sentimento correspondente não tenha surgido nela. Em mim surge e pronto, nela não surge e pronto. Eis o fundo do poço, não há mais onde escavar, razões a encontrar". Esse pensamento amansa a sua alma e mitiga a dor da rejeição. No entanto, ele não consegue produzir o mesmo pensamento para a irritação, repulsa e, quem sabe, nojo gerados pela percepção do seu afeto. Ele se pergunta, "por que o afeto de uma pessoa por mim e pela qual eu não tenho nenhum sentimento forte me irritaria? Não acho uma resposta, não entendo, a empatia não rola. Faço uma pergunta indevida?" Talvez. A irritação também não poderia ser uma paixão bruta, desmotivada? Por que não? Ela não acontecer nele é uma contingência, mas em outros corpos, com outras fisiologias, ela pode ser nata, instintiva, uma opção natural do organismo para repelir o que não lhe agrada, mesmo que não lhe seja nocivo. Sim, pode ser que seja assim. Mas pensando bem, há uma outra explicação melhor: a irritação não emana da mera percepção do afeto não correspondido, mas sim da imaginação do que ele pode fomentar, pois sabemos como é comum alguém se arrebatar, exagerar, dramatizar pelos seus sentimentos a ponto de manifestar-se àquele que não o corresponde de maneira insistentemente irritante. Assim, mesmo que algo acalorado e vibrante não tenha emergido na pele do apaixonado, a imaginação antecipa para o presente a irritação futura. Sim, isso parece bem mais razoável. Ele acaba de ter essa mesma compreensão e ela adocica um pouco a sua experiência, mesmo que não elimine todo o azedume.

Resta ainda a maior de todas as suas aflições presentes. Uma vez percebida a irritação que produz, independente da sua causa, se é que tem uma, o que fazer, que curso de ação tomar? Pois sim, sua consciência se aflige, "como posso conviver com o fato de que irrito, desagrado e assim faço mal àquela que justamente só quero bem?" Ele vê dois caminhos, ou melhor, duas possibilidades, pois falar em 'caminhos' parece pressupor que está em condições de escolher um deles, e não é certo que seja este o caso. Por um lado, ele poderia seguir como um espírito forte, centrado em si mesmo, lançando fora qualquer culpa, libertaria sua pulsão de vida por completo, seu afeto floresceria incandescente, mesmo que viesse a ter por conseqüência provocar uma irritação ainda maior nela, mas ele estaria vivo e estaria sendo fiel a si mesmo. Por outro lado, ele poderia reunir todas as suas forças destrutivas, evocar seu Tanatus, e dirigi-lo impiedosamente se não tanto para o seu afeto, que, eu creio, ser indestrutível por volição, ao menos para a sua manifestação, ceifando assim parte de si. Ele se espancaria dia após dia até que o afeto se tornasse comprimido e fraco a ponto de se perder e se afogar no mar confuso das paixões. Uma extinção por repressão.

Poupa a ela ou a si, a sua consciência ou o seu sentimento? Essa pergunta faz sentido, há escolha possível aqui? Ele se sente cindido, esquizofrênico com este dilema em mãos.

domingo, dezembro 23, 2007

Elizabeth McGovern



Ela debuta em Ordinary People (1980). O filme é muito ruim, eu particularmente não gostei. Um garoto nos seus 16 ou 17 anos entra em crise existencial, apresentando tendências suicidas, após perder o irmão em um acidente de barco. Sente-se culpado por não ter conseguido ajudá-lo. O tempo inteiro tive vontade de entrar no filme com uma corda para finalizar com o choramingo do menino: tome, enforque-se logo! Mas não é do chato que eu quero falar. É dela, é só por ela que eu assisti até o final, mesmo sendo uma personagem secundária. Vocês sabem o que é se apaixonar literalmente pela imagem, pela visão, pelo que a pessoa tem de mais externo? Pois é, confesso, vulgarizei-me diante dela, caí de quatro. Não resisti aos seus olhos de lince, aos cabelos curtos, à voz meiga, às roupas escolares, oh sim, quase um ataque pedófilo, fui completamente abatido pelo desejo de olhar. E por favor, não me venham com links de fotos atuais dela, eu não me apaixonei por ela, nem por ela com os seus 20 anos, antes ou depois do filme, mas exatamente por ela assim, neste filme, nessa personagem, nesta cena, com esse olhar, apaixonei-me por uma aparição única e instantânea sua que a fotografia e o cinema congelaram para mim no eterno. Claro que uma paixão assim, sensual, visual, perceptiva, só é saudável se completamente fugaz. Oh sim, já passou, mas fica aí o tributo à beleza da moça.



Alfredo me acotovelando aqui: "que beleza de mãos!". Certo...certo.

sábado, dezembro 22, 2007

Control


Completamente em preto e branco, em sintonia com a existência poética e depressiva de Ian Curtis, Control (2007) nos exibe com primor os cinco últimos anos da vida deste músico, vocalista da banda Joy Division. O roteiro é baseado em texto da sua própria esposa, Deborah Curtis. Quem, como eu, curte a banda ficará satisfeito com a seleção das músicas que compõem a trilha sonora do filme. Cobrem bem a obra e caem perfeitamente para o momento vivido por Ian. Transmission, Isolation, Disorder, She's Lost Control, Love Will Tear Us Apart, para citar algumas. Independente de gostar ou não da banda, o drama de Ian, sua vida dividida entre dois amores e a banda, suas crises epilépticas e suas próprias angústias existenciais, são suficientes para envolver o público. Ao ver a performace do Ian nos shows, seus movimentos desarticulados dos braços, finalmente entendi a maneira esquisita de dançar dos seus fãs que eu via nas boates góticas em meados dos anos 90. Ah, não falei ainda de Atmosphere, não é mesmo? Esperei por ela todo o filme, angustiando-me a cada minuto com a sua ausência imperdoável. Ela foi deixada para o final, servindo de fundo para o suicídio de Ian. Decisão corretíssima do diretor, pois não consigo lembrar de outra composição que melhor o resuma e o expresse. É uma letra rarefeita, confusa, taciturna, fazendo bolhas de sentido que logo se arrebentam, ao passo que a melodia é de uma calma e paz penetrantes.

Atmosphere

Walk in silence,
Dont walk away, in silence.
See the danger,
Always danger,
Endless talking,
Life rebuilding,
Dont walk away.

Walk in silence,
Dont turn away, in silence.
Your confusion,
My illusion,
Worn like a mask of self-hate,
Confronts and then dies.
Dont walk away.

People like you find it easy,
Naked to see,
Walking on air.
Hunting by the rivers,
Through the streets,
Every corner abandoned too soon,
Set down with due care.
Dont walk away in silence,
Dont walk away.

segunda-feira, dezembro 17, 2007

A volúpia do desejo

Quando ela sentou do meu lado e percebi de relance os seus cabelos ruivos, de imediato olhei malicioso para Alfredo, que estava sentando em um banco bem na minha frente. Ele não se conteve e sorriu. Dali em diante não seria mais possível ter um pouco da sua atenção para a conversa. Seus olhos brilharam em movimentos bruscos e amplos, perscrutando cada fio de cabelo daquela mulher. Mais tarde ele me segregou, sua atenção cresceu num átimo não apenas por ser ruiva, mas pelo seu enxame de sardas, centenas delas, umas mais claras, outras mais escuras, espalhadas delicadamente pelo seu belo rosto albino. Eu não olhei fixamente para ela, estava mais interessado nas reações de Alfredo enquanto ele a esquadrinhava de cima a baixo. Súbito seu sorriso deu lugar ao desapontamento quando seu olhar atingiu as mãos dela. Não por serem feias, ao contrário, eram belíssimas, não tanto quanto as da vizinha, disse-me depois Alfredo, mas tinham uma delicadeza consoante às suas sardas suaves, de uma brancura que lhe inspirou a mais profunda paz. Afetou-lhe na verdade o estúpido compromisso estatelado no anular da jovem ruiva. Eu logo vi que se tratava de uma curitibana, sem lhe ouvir o sotaque, apenas por observar a espessura expressiva do seu anel; o curitibano, diga-se de passagem, é de uma discrição impressionante nos assuntos casamenteiros... Mas era tudo um grande gozo estético, o coração de Alfredo, já sabemos, anda por outras bandas, o compromisso da ruiva não lhe abalou mais do que alguns segundos, foi mais um indignação com a estupidez do anel e logo o seu rosto voltou a expressar a satisfação contemplativa de quem admira a manifestação mais pura e ingênua da beleza.

Era neste ponto que eu queria chegar. Uma das coisas que mais admiro no Alfredo, no que ele se distingue abruptamente de mim, é essa sua maneira cândida e nobre de admirar uma mulher. Eu sou mais instintivo, já teria olhado de imediato para as carnes dela, guiado por uma volúpia demoníaca, ele não, deteve-se em suas mãos, na sua candura facial e sobretudo nas suas expressões, tentando lhe extrair a alma, os pensamentos e observando, ao mesmo tempo, se eles eram compatíveis com a sua beleza delicada. Quando depois perguntei a ele se tinha sentido desejo pela ruiva, ficou profundamente ofendido. "Ora, que absurdo, como se você não soubesse do meu sentimento pela vizinha!", disse-me ele enrugando o rosto quase nervoso. Ora, que bobagem, por que a presença de um sentimento impediria a emergência de um desejo? Depois ele me explicou que esse impedimento, nele, era rigoroso, que lhe era impossível, mesmo com muito esforço, ferver o seu sangue senão com a imaginação da amada. Reconheceu, é verdade, que a visão ou a imaginação de outras mulheres poderiam lhe despertar o desejo, afinal, ele não é menos homem e carne do que eu, mas tão logo brotasse esse desejo, seu coração e mente seriam trespassados por ela, em emoção e em imagens, sendo-lhe impossível evitar a sua presença esmagadora.

Tudo isso me parece de um romantismo muito tolo, disse-lhe afinal. "Pode ser, pode ser...", ele começou a desenvolver, "mas não vejo entre eu e você muita diferença além do fato do meu desejo ser concentrado e o seu disperso. Enquanto o seu emerge apenas do instinto errático, cambiante de minuto em minuto, completamente subjugado ao exterior, o meu brota de uma amálgama coordenada entre instinto e emoção e, por isso, é até mais forte e intenso que o seu; além de durar no tempo, tem um foco que não emana apenas da pele, da química corporal, enfim, do que é externo, mas também do próprio ser, seja lá o que isso for, é um desejo que brota de uma semente que sou eu mesmo, não é algo que apenas me acontece. Na forma não diferem. Meu desejo não é menos violento e obsceno que o seu, quando ela me trespassa, estou liberto de qualquer pudor, meus olhos flamejam, deliro com ela sob todas as formas de união carnal, mas, e aqui nos distanciamos, enquanto a violência do seu desejo violenta, reduzindo a pessoa ao corpo, sugando-lhe a química apenas para a satisfação do desejo, a do meu penetra na alma, eleva o corpo à categoria de pessoa, cada gota de suor toma a dimensão de um orvalho que o corpo dela esponjal absorve, pois todo esse desejo voluptuoso, e não menos demoníaco, vem aveludado por uma capa emotiva, que, quando toca, não só absorve, mas doa também, cede, sou animal sem ser animalesco. No fundo, o romântico aqui é você, olhando para a dimensão mais idealista do termo, pois acredita numa natureza dicotômica e cindida muito pouco humana. Assim, para concluir e calar a leviandade que me sugeriu há pouco, meu desejo dual, que vem de fora e de dentro, embora possa ser desperto por aquela ruiva, e sim, eu a admirei, não poderia tê-la por objeto, pois na sua própria dinâmica, intangível pela minha vontade, as mãos alvas da ruiva seriam magicamente substituídas pelas mãos arredondadas da vizinha, e assim com todo o resto, de modo que, quando me desse conta, estaria entrelaçado não com a ruiva, mas com aquela que só de ver ou pensar me emociona.".