domingo, fevereiro 17, 2008

odor amoroso

É isso aí, querendo ou não, o seu nariz trabalha para você na seleção do seu parceiro. Resumidamente, o estudo procura mostrar que mulheres (mas imagino que o mesmo vale para homens) tendem a preferir o cheiro de homens cujos genes refletem um sistema imunológico bem diverso do seu, o que, em caso de cruzamento, aumenta as chances de uma prole mais resistente a doenças.

É claro que seria completamente sem sentido sair cheirando fundo seus pretendentes para escolher aquele lhe propiciaria filhos mais resistentes. Nos assuntos do amor, ser humano algum tem de se preocupar conscientemente com a preservação da espécie. Seria idiotice fazê-lo, pois seu organismo já se preocupa por você, foi moldado para isso, e secretamente, sem que você o perceba, influi sobre as suas decisões. Mas você enquanto sujeito, enquanto pessoa com experiências, não tem de perder tempo com isso, a você importa apenas a experiência do prazer/desprazer. O que há por trás dela, oxalá, deixe isso para os biólogos e psicólogos. A você, pessoa, cabe amar e sentir.

Mas há uma coisinha interessante nessa história toda para o sujeito. O cheiro, ora essa, o cheiro que o arrebata, que o envolve, que pode ser muito agradável ou exageradamente desagradável, o cheiro que o sujeito inspira fundo na pele do outro não-perfumada para senti-lo dentro de si, em amálgama, em uníssono. Como negar essa intimidade entre cheiro e amor? Meu vão materialismo o impede, estou acoplado a este corpo e me emociono através dele. Comigo não tem essa de amar abstratamente, sem sensações. Há quem diga superar todas essas vicissitudes humano-biológicas e amar num plano completamente ideal, platônico. A isso respondo com relativismo: que bom PARA você. Contudo, não ME serve. Amor tem cheiro e preferencialmente um cheiro bem agradável. Minha dica, ao conhecer alguém que lhe interesse, é procurar abraçá-la bem próximo para sentir o seu cheiro, contando com a sorte de que ela não esteja usando um perfume muito forte que pudesse atrapalhar na percepção da sua essência odora. Sugiro isso não para que mires na prole resistente, mas simplesmente para usufruir de uma experiência amorosa mais envolvente, agradável e olfativamente sublime.

É claro que você não vai amar alguém apenas porque ela cheira bem, tantas outras coisas importam tão ou mais, ou deixar de amá-la porque ela não cheira tão bem, mas um tiquinho de utilitarismo vai bem também: é melhor amar quem te faz bem. Já ouço você retrucando com leve ironia: como se a gente escolhesse quem ama. Correto, não escolhe mesmo não, mas escolhe (ou talvez nem isso?) a quem vai prestar mais ou menos atenção e entre cheirosos e fedorentos, atente-se mais àqueles que, de partida, lhe dá mais prazer. E, na verdade, quem é que já não faz assim?

No fundo era isso, só queria salientar a relação profunda entre a experiência do amor e a experiência do cheiro, a despeito do que haja, biologicamente, por trás. Isso realmente não importa. Eu, de minha parte, não consigo sentir um amor sem cheiro. Dos amores passados, aqueles que lembro com maior vivacidade foram justamente os de cheiro mais penetrante e agradável.

Há quem diga que a percepção agradável do cheiro é influenciada pelo intenso sentimento. Eu não duvido, mas eu acredito no contrário também: a agradabilidade do cheiro favorece a intensificação do sentimento.

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Fragmentos

fragmentos de um boêmio.

Hoje estou com criatividade etílica, com desejo de destilar verdades, torcer o pano para que até a sua última gota verídica se extraia. O bêbado não tem medo de nada. Mas o que é isso? Quem aqui está bêbado? Até parece que dois ou três copinhos de cerveja me alterariam em alguma coisa. Fossem outros os tempos, só a vodka me derrubaria, hoje talvez esses copinhos me entortem. A verdade, a verdade, vamos lá, ela quer sair, quero vomitá-la, afastem-se os mais enjoados, pois o seu cheiro é pútrido. Ontem comi carne de jacaré, então esperem o pior.

O bom dessa cidade é que até os bêbados míopes não têm dificuldade em perceber a mulher comprometida. Basta focar o anular brilhoso e grosseiro, mesmo a uma distância considerável, ele salta às vistas. Mas ela ainda assim correspondeu aos meus olhares impertinentes!

Três casais, seis estudantes, seis imbecis. O estudante sempre me pareceu um ser assim muito idiota, muito senhor de si, cheio de confiança cega, dessas que se vê mesmo nos incapazes. Vale dizer que sou um estudante também.

Fui ao banheiro e em três minutos vomitei toda a filosofia que aprendi em 10 anos. Que alívio!

Arregalei os olhos e concertei os óculos na cara. Morenaça peituda, rabuda e carnuda, jogando sinuca, oh, como isso é fálico. Enquanto o seu parceiro faz o vai-vem com o taco, pensa em penetrá-la; vejam que patético o seu estrabismo forçado, um olho na bola e outro nos seios, chega a babar. Eu não faria/seria diferente.

Agora já não são mais apenas uns copinhos, mas vários, já o perceberam, é claro.

O meu pendor para mentir é tão intenso quanto a minha disposição para a verdade. É isso, o bêbado deixa fluir a sua propensão natural para a contradição.

Estou aqui como se assistisse a um filme. Os indies chegaram, Scorpions de fundo, eu tinha treze anos quando conheci essa banda, mas são uns merdinhas esses indies. Perdem tempo demais pensando no visual e nunca pensam nada, é o que eu acho. O indie gay não pára de me olhar. É nessas horas que sinto toda a ironia divina: por que não causo nas mulheres o mesmo efeito magnético que causo nessas bichas?

O bêbado sempre fala como se fosse genial a mais banal das idéias. Nisso ele não se distingue do filósofo, só que este faz ainda pior, fala com sobriedade e ar de gravidade. Oh céus, tive loucos como tutores! E agora, falo como bêbado ou como filósofo? Que dilema! Ah não, já a vomitei, é verdade, tinha me esquecido.

Cara legal aqui é o Jeferson, acho que é esse o nome dele, se não ouvi errado quando o carinha da sinuca o cumprimentou. Está sempre na dele, em paz, às vezes parece imerso em densos pensamentos, depois dá uma olhadinha para ver se alguém está querendo alguma coisa. A seleção musical é dele, perguntei depois. Dá para vir aqui só para ficar numa boa escutando música. Quinta-feira é dia de poesia, quem quiser pode pegar o microfone e despejar a sua prole verbal. O Jeferson foi lá duas vezes. Não lembro mais o que ele recitou, mas tinha algo de homem nu, homem só, sei que gostei.

Sempre achei a existência inteligente uma coisa tosca. O inteligente vê longe, tem olhos de águia, mas suas pernas são curtas, de anão. Anda, anda, anda, corre esbaforido e nunca chega lá. De tempos em tempos é abatido pela consciência dessa sua infeliz situação. Aí ele pára, senta, descansa um pouco e depois entediado volta a correr, que nem um pateta. E convenhamos, é patético ver um anão correr para um destino que suas diminutas pernas não podem alcançar. O gênio é um gigante cujas passadas atravessam oceanos, simples assim. Já o homem da massa, para não usar um desses adjetivos vulgares, nasceu cego e feliz está com a sua cegueira inconsciente. O gênio e o cego, por motivos bem diversos, compartilham, no entanto, a mesma confiança. Já o inteligente é essa coisa dúbia e titubeante que vemos aí. Não sabe se corre, se fica parado, enfim, é tosco.

Que pouca vergonha, vejam só, o carinha abraçando a namorada todo apaixonado e ela tá olhando para onde? Adivinhem? Não, não é para mim. Para a televisão! Piorou, olha só, ela tá fazendo careta. Xi! Feliz ele que vive transbordado de ignorância.

Chega, chega, mais uns copinhos e decaio ainda mais.

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Limites

Tudo tem limite. E mesmo amizades fortíssimas podem ser rompidas se certos limites forem ultrapassados. Cada pessoa tem lá os seus limites, alguns aleatórios, emocionalmente reativos, outros elaborados, racionalmente justificados, mas, enfim, cada um sabe muito bem a linha para além da qual o retorno fica bloqueado ou pelo menos dificultado, engasgado. O meu limite mais severo, o qual levo a ferro e fogo, é o respeito à minha individualidade e à minha representatividade. Falo em termos mais claros: a não ser que eu tenha lhe dito explicitamente que pode falar em meu nome em determinada questão, digo, em qualquer questão, não o faça, jamais, pois o perdão aqui talvez não seja dado, conforme a intensidade com que me sentir invadido ou desrespeitado. Entendeu? Acho que não, essa idéia geral pode ser instanciada de múltiplas maneira e talvez alguns exemplos sejam elucidativos. Eu convido, você, meu amigo, a vir em minha casa e você, talvez cheio de boas intenções e motivado pela intimidade, convida um outro amigo para vir também, que talvez até seja alguém que eu goste, amigo meu também. Ainda assim, não tem perdão, você deveria ter me consultado antes, ligado, mesmo que pouco antes, para saber se estava tudo bem; não lhe dei o poder de decidir quem eu quero ou não em minha casa. Evidentemente, há ocasiões de exceção, conto com o bom senso dos amigos para percebê-las e não generalizá-las. Mais um exemplo. Eu te empresto um livro. Você leva o livro, o lê, ele fica lá na sua casa, já que não nos encontramos, até que, num belo dia, um amigo teu aparece lá, vê o livro, se interessa e você o empresta numa boa. Poxa, assim tá pedindo a minha desamizade. O maior problema aqui é que as pessoas tendem a pensar que a confiança é uma relação transitiva, que se eu confio em A e A confia em B, então eu confio em B, mas isso é um absurdo! A confiança depende exclusivamente do conhecimento direto que você tem da pessoa, é algo delicado, não dá para transferir assim. Se te emprestei um livro, confiei no cuidado que você iria ter com ele, mas não, jamais no suposto cuidado de terceiros, mesmo que você confie nesses terceiros. E outra, se empresto um livro, empresto com uma finalidade bem específica, para que você o leia. Não lhe dei poder total sobre o livro. Da mesma forma, quando você aluga uma casa, não pode fazer com ela o que lhe aprouver, não pode, por exemplo, vendê-la. Se quer emprestar um livro que te emprestei, por favor, pergunte-me antes, a não ser que não julgue a nossa amizade importante. Pois eu garanto, ela estará sob um fio.

Não sei bem de onde veio esse meu limite, nem importa tanto saber, talvez, em parte, ele tomou forma com as minhas leituras anarco-liberais, lá na juventude, ainda meio adolescente, quando tomei consciência de que ninguém jamais estaria em melhores condições do que eu para decidir o que é melhor para mim, estando eu em pleno gozo das minhas capacidades intelectuais, também quando tomei consciência de que as decisões pessoais são atos particularíssimos, e intransferíveis; ou talvez, em parte, esse limite tenha muito a ver, pelo menos emocionalmente, com a minha natureza introspectiva, que faz de mim uma pessoa mais ciosa de si e reativa a intervenções alheias e não autorizadas ou mesmo apenas inesperadas. Como disse, isso pouco importa, apenas se lembre, você, meu amigo ou amiga: não use o meu nome em vão, não interceda por mim, nem com a melhor das intenções; se deseja muito fazê-lo, comunique-me antes.

Se eu lhe dei intimidade, isso não significa que agora você sabe o que eu quero. Só eu sei, às vezes, nem isso!

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Um filme, por favor!

- Talvez você queira ficar um tempo sem me ver.
- Por que?
- Você sabe. O tempo e a distância podem ajudar...
- Pensa mesmo que faria alguma diferença? Não é a minha memória que gosta de você, sou eu, entende? Posso me esquecer de você e ainda continuar te amando. Lembra daquele filme, Brilho eterno de uma mente sem lembranças? Assistimos juntos. Então...
- Se eu pudesse...
- Mas você não pode. Chega a ser irônico, o amor é algo tão nosso e, ao mesmo tempo, nos escapa por completo. Ele simplesmente cresceu de repente. Um dia, quando te encontrei, o percebi dentro de mim.
- Por que não sai com a K, ela parece gostar de você. Talvez se olhasse mais para ela, o seu sentimento por mim abrandaria.
- Eu só vou conseguir olhar realmente para ela depois que o meu sentimento por ti abrandar.
- Você é teimoso e birrento e isso me parece excesso de masoquismo da sua parte.
- Masoquismo seria eu ser infiel a mim mesmo. Sabe qual é o problema? Você imagina que sofro mais do que me alegro ao seu lado e acaba se preocupando demais. Eu sei até aonde eu posso ir. Sabe, essa conversa não faz muito sentido, ela será sempre circular. Você quer me convencer a não gostar de você, só que se esquece que razões são completamente impotentes a esse respeito. Todas essas suas tentativas, eu até entendo, mas elas me parecem completamente sem sentido diante do que sinto por você. Pare de se preocupar!
...
- Vamos ao cinema?
- Vamos!

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Richard Wagner


Eu recomendo Richard Wagner para quatro moléstias hodiernas da alma: tédio, angústia, depressão e falta de amor próprio. Simplesmente não há como não se exaltar, não elevar o ânimo com as trombetas wagnerianas. Tannhäuser para os deprimidos e sem amor próprio. Acompanhem o nosso herói medieval, sintam sua fúria, sua persistência, sua resistência, sua invejável vontade de poder, de viver, de sobreviver. Deixem-se contaminar por ele, por essa força sobre-humana. Sigam-no. Aos entediados e angustiados, recomendo Das Rheingold; sintam a exuberância do eterno fluxo do Reno, as águas não param, o movimento não cessa, o devir é estrondoso, acordem, acordem, naveguem, mirem a frente, sonhem, vejam, ninfas, gigantes, há de tudo nesse Reno, como podem ficar aí parados? Mexam-se, sigam o ouro do Reno, permitam que sua luz afastem vossas trevas.

Não a toa Nietzsche era fã de Wagner, embora tenha rompido com ele em sua fase ultra-romântica; até a mais insignificante das moscas sente-se imponente ao escutá-lo, permitindo-se, inclusive, o luxo da arrogância. Não lhes exorto a tanto, mas é inegável o tremor que começa no tímpano e penetra na alma o mais fundo possível, vibrando-a por inteiro.

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Angústia

A angústia, como a entendo e sinto, é um processo de ajuste interno entre desejos, esperanças e sonhos, de um lado, e o seu conhecimento a respeito da realidade do outro. O processo é lento e tenso, nem sempre doloroso, triste ou lúgubre, mas certamente causa um incômodo, uma inquietação dúbia por não saber o que fazer, e a sensação de vazio é simplesmente a perda de sentido dos seus sonhos, os quais, até então, o norteavam. O conhecimento da realidade esmaga e tritura esse sentido. Quanto mais emocionalmente densos eram esses sonhos, tanto mais tensa e demorada será a vivência da angústia. Você sente que perde algo e sim, claro que perde, perde esses sonhos que lhe são tirados do rol das suas possibilidades de vivências.

Veja, você tinha sonhos e desejos bem arraigados no seu dia-a-dia, acordava pensando neles e tomava cursos de ações imaginando que elas lhe ajudariam a levá-lo até eles. Eram sonhos também cuja realização você imaginava lhe causando um profundo bem-estar, uma presença esmagadora de sentido. Enfim, sonhos tão presentes, tão obsecados em seus pensamentos, que tinha com eles uma verdadeira relação emocional. Eram, por assim dizer, sonhos-desejos-emocionados. Não seria de todo errôneo dizer também que você vivia por esses sonhos, que eles o animavam e lhe davam entusiasmo. E você os via como possíveis, alguns mais prováveis que outros, alguns mais tangíveis que outros, alguns mais próximos que outros, mas todos, de alguma forma, realizáveis, possíveis.

E talvez alguns deles nem fosse possíveis. Você apenas imaginava que eram, tinha idéias vagas de como chegaria a realização deles e se enganava com as ações que tomava achando que elas o levariam até eles. Que importa? Tudo vai bem enquanto você pensa que os seus sonhos são possíveis, mesmo que já não sejam mais ou nunca tivessem sido. A ignorância é uma benção para os sonhadores, pois lhes mantém a esperança.

Um dia a realidade bate na porta da sua casa na forma de saber. Você abre a porta e a realidade lhe diz: "veja, esses sonhos são impossíveis, não há absolutamente nada que você possa fazer para alcança-los". É neste exato momento que você começa a viver a angústia, quando compreende que vários cenários imaginados por você jamais poderão se apresentar ao vivo e a cores em sua experiência. É-lhe penoso pensar que a existência desses cenários ficará limitada à sua imaginação, que eles não existirão jamais nos seus sentidos, onde teriam uma existência muito mais viva, colorida, intensa e penetrante.

Leva um tempo até que o seu respeito e desejo pela verdade vença o seu desejo pelos sonhos. Eram sonhos tão emocionados que você não quer abrir mão deles, alguns tão centrais para o seu existir, que se sente perdido imaginar-se sem eles. A tensão está aí, em que você terá de viver o choque entre o que sabe e o que deseja, é uma experiência desconfortante, enfim, angustiante. Reside aqui o perigo de algumas patologias, se o seu desejo pela verdade é esmagado pelo seus sonhos desejados, levando-o a bater a porta na cara da realidade. Em outras palavras: psicose. A intensidade emocional dos sonhos, entre outros fatores, mas sobretudo ela, é quem decidirá a questão.

Eu diria até que o ceticismo é uma patologia também, o homem-cético não negará a realidade, não dará com a porta na sua cara, mas usará de todo o seu engenho e qualquer estratagema ludibrioso para retardar a sua entrada, para convencê-la a ficar ali, no limiar da entrada, dando, assim, uma sobrevida aos seus sonhos. Mas isso tem um custo. Diferentemente do psicótico que, ao fechar a porta, pode voltar-se tranqüilo para os seus sonhos, o homem-cético terá de persegui-los angustiado, temendo o avançado da realidade sobre si a qualquer momento. Já os Homens-de-ação sofrem bem menos de angústia, pois convidam a realidade para um chá assim que ela lhes bate à porta.

Quando eu a vi pela primeira vez, desejei, sonhei segurar-lhe as mãos, mesmo sem ter ainda qualquer sentimento por ela. São mãos tão belas e encantadoras que queria conhecê-las também ao modo de um cego, pelo tato. Esse mesmo sonho se avolumou e se preencheu de simbologias diversas quando nasceu o meu sentimento por ela. Mãos nas mãos sempre tiveram um significado especial para mim de tranqüilidade e compreensão. Dentre todos os sonhos que tive com ela, pelo menos desses que a gente desenha e colore na imaginação, este é o mais difícil de largar, agora que a realidade me bate à porta. Há dois dias o meu fundo musical é "your hand in mine", do Explosions in the Sky. Ainda sonho, um pouco angustiado, sabendo que será sempre apenas um sonho.

domingo, fevereiro 03, 2008

Inferno

Se me chamasses para ir ao inferno contigo, ao inferno eu iria. Eu vou, eu fui. E, no entanto, eu sei que estavas apenas a me usar, tinhas medo de ir lá sozinha.

Verme

Hoje sou um miserável, um verme, um pedaço de culpa ambulante, uma culpa prevista, antevista, e ainda assim, nada fiz, deixei-a me atropelar, estava fraco para levantar o braço, ou ainda pior, talvez essa seja a desculpa que me conte para aliviá-la, no fundo, talvez buscasse o prazer mórbido da auto-aniquilação, sabia que iria me remoer depois e nada fiz, nada fiz, depois de um dia tão agradável, usufruindo de louváveis sensações, puni-me, sem o saber, mas sabendo, pois nada disso mereço, não mesmo, um verme só merce ser pisoteado, ser comida de peixe, e um verme consciente é simplesmente uma ignomínia, uma infâmia, nunca tive inimigos, nem preciso ter, todo o mal de que preciso e mereço encontra-se em mim, na consciência que carrego, me aprisiona e me esmaga; aí se vão as pinceladas acinzentadas, mas não me olhem com compaixão, eu os odiaria por isso, eu mesmo, agora, não me vejo assim, sofredor, digo até que sinto um prazer nisso tudo, o prazer de Tânatos. Minha infâmia é tão grande que é bem provável que amanhã, ao acordar, não mais reconheça essa cara desfigurada que vejo no espelho, estarei leve como uma pena.

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Subsolo

Estou lendo Memórias do Subsolo e nem vou dizer que recomendo, pois tudo que vem da Rússia ou dos povos eslavos, exceto o comunismo, e meu exceto aqui é vibrante e enérgico, eu recomendo em princípio. Enfatizo, em princípio. Então que no livro o personagem principal desenvolve uma tese bem interessante. Resumidamente, pois sua exposição é longa e bem mais expressiva e persuasiva do que pretendo fazer aqui, ele sustenta que mesmo se tivéssemos o conhecimento total, de todas as leis, e, desta maneira, soubéssemos calcular todo o futuro e o que fosse melhor e mais vantajoso segundo a razão para nós, ainda assim nem sempre optaríamos pelo "melhor". Na verdade, diz ele, o "melhor", por vezes, e talvez paradoxalmente, não é o melhor, mas aquilo que a vontade opta por capricho e sem qualquer razão aparente. Evidentemente, há aí uma certa tensão, pois se optamos por algo contrário à razão e ao previsto, então nosso saber não era total. Creio que é justamente isso o que ele está nos dizendo, que há algo intrinsecamente arbitrário no humano que impossibilita um saber total a seu respeito. O essencial de cada um de nós é evasivo, por certo, escapa até do próprio sujeito.

O amor é o melhor exemplo dessa agradável e caótica irracionalidade que nos habita essencialmente. Seria muito mais vantajoso deixar de gostar de quem não gosta de nós ou simplesmente gostar apenas de quem gosta da gente, mas quem acompanha de perto essa ladainha da razão? Ninguém. Eu posso gostar de alguém e encontrar inúmeras justificativas para este meu gostar, o que, no entanto, terá apenas o efeito de corroborar ou não a decisão de ir em frente com este gostar, mas não lhe aumentará ou diminuirá em nada. Posso gostar sim sem qualquer razão visível. E mesmo quando toda a razão for contrária, ainda acontecerá de optar pelo mergulho no caos, pelo insucesso provável. O ser humano é assim, previsivelmente imprevisível.

Agir em conformidade com a razão? Que nada, as razões, os motivos geralmente são sentidos como algo que constrange, que vêm de fora, que se impõem, não é algo que você sente como emanando de si, como sendo suas, quando muito, elas têm o efeito póstumo de aplacar a consciência por uma decisão já tomada, mas na hora do vamos ver, do ir em frente, do mover-se, não é ela que você escuta, é o teu próprio caos que te dá as mãos e te leva sabe-se lá para onde.

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Elas

Alfredo teve um sono agitado nesta madrugada, dois amores passados lhe visitaram em sonho, primeiro um mais recente, fresco não só na memória, como na sensibilidade, em seguida, um bem mais antigo, do qual ele se lembrava muito esporadicamente e com boa vagueza. Ela(1) lhe convidou para um jantar em sua casa, comemorava o namoro, que logo se transformaria em casamento. Ela(1) queria apresentá-lo, carregava na consciência uma finalidade ilustrativa: Alfredo precisava aperceber-se do que ele não tinha, como se fosse culpado pelos seus genes. Seu futuro marido é atlético, alto e forte. Em todo o resto Alfredo é mais e mesmo assim ela(1) preferiu ter o que mostrar às amigas do que se sentir acompanhada apenas no refúgio do lar. Durante o jantar, Alfredo viu nos seus(1) olhos infelizes a resignação e o rancor dirigidos respectivamente ao namorado e a ele. Ela(1) desejava o impossível, queria extrair o melhor de cada e cozinhá-los numa única forma. O futuro-tolo-marido foi o único a não perceber o clima angustiante na mesa, os olhares engasgados, dali saiu para o sofá com a felicidade própria de um glutão e o sono da digestão.

Ela(2) apareceu sem cenário, em um sonho de fundo branco, nos braços, carregava uma criança, fruto do casamento recente. Enquanto brincava e sorria com o seu filho, ela(2) queria apenas mostrar o que Alfredo havia perdido, ao não ter ousado roubá-la de seu namorado, pois naquela época já quase esquecida por Alfredo, ela(2) o amava e ele a ela. Alfredo era escrupuloso demais, não se atreveria, achando que o amor dos outros era mais puro e merecedor que o seu e ela(2) temia a solidão, como a maioria das mulheres. Nos olhos dela(2) não havia rancor, apenas uma suave melancolia, que agora se apagava com a presença alegre da criança. Alfredo não soube ao certo a que ela(2) veio em seu sonho, ela(2) tinha em seu semblante uma mensagem pessimista e outra otimista, como se lhe dissesse: "por tuas escolhas, perdeste algo para sempre, mas por elas poderás ganhar o teu futuro, aprendas a domar este medo que nos afastou". Mesmo que não as tenha dito, foi com essas palavras que acordou no peito; ao se levantar, sentiu-se um pouco melhor, diferente, pois hoje, lembrou-se, já é capaz de rasgar cartas de rivais.

domingo, janeiro 27, 2008

Promessa

Há quem se ache virtuoso por cumprir uma promessa. Olha-se no espelho com ar de dignidade por ter mantido a palavra que dera um ano atrás ou até mais. O prazer consigo mesmo dispara quanto mais espinhoso e sangrento for o caminho. "Lutei, resisti e venci!", dirá. Lembrará desses dias de sofrimento com sabor de heroísmo. Sim, lutou, massacrou e eliminou cada uma de suas vontades desvirtuantes. Este homem ou mulher agora se sente limpo, mas trata-se de uma limpeza cadavérica; lipoaspirou toda a sua carne, pois lhe soava pútrida e ignóbil. Contudo, era a própria carne que cortava, era a sua própria vida que matava e suprimia. E para que? Para aplacar a sua consciência débil, incapaz de conviver com a própria imundice, com as contradições que habitam o peito de cada um. Também o amor, mantido pelas juras, se transforma na mais monstruosa pulsão de morte quando a sua brasa já não é mais alimentada pela vontade íntima, mas sim pela obrigação, pela consciência. O pseudo-amante assim embriagado pelo odor límpido da sua obrigação, arrotará com satisfação todo o martírio que se impõe pelo outro, contará aos quatro cantos tudo que deixou de lado pelo outro, tudo que fez para estar do lado outro, como se o amor tivesse mesmo algo de heróico. Ele diz que se sacrifica com prazer pelo outro, pois o ama. Mentira! Não é ao outro que ele ama, mas a sua obrigação de amar, a sua necessidade de amar, a sua vontade de estar limpo e cheirar à pureza. O amor por um outro, na sua manifestação pura, simplesmente não contradiz o seu objeto e, o que é mais importante, muito menos contradiz com sacrifícios aquele de quem emana, pois nasce uníssono numa pulsão de vida orientada pelo outro. O amor genuíno é vida plena, sempre e talvez por isso ele não seja tão constante quanto gostaríamos em nossa oscilante existência.

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Você, eu e nós

Ah, você voltou, mesmo depois de tê-lo posto na rua aos chutes, dando-lhe todas as minha razões, enumeradas, uma por uma, eu disse que nunca mais queria te ver, eu disse, e eis aqui você novamente, deslumbrante, fálico, erótico até, cabelos esvoaçantes, gastos, como a de um bêbado acostumado a dormir na sarjeta, e fui eu quem os gastei, só eu, magistralmente, sempre, não, saia já, não quero vê-lo, por que vieste? por que? Sabe que não resisto, não hoje com essa gravidade tão rarefeita...Eu já tinha prometido a mim mesmo que não voltaria a lhe por as mãos, eu, eu mesmo disse outro dia que era uma vilania aproximar de você e agora me expões a essa situação, a essa tentação...não consigo nem mesmo tirar meus olhos de ti, que força é essa meu deus? Poupe-me, poupe-me, por favor, há pessoas aqui, o que elas vão pensar vendo essa esquizofrenia tão manifesta? Danem-se, oh, quanta grosseira, danem-se, já não me importo, e Ela, e Ela, sempre a me olhar com reprovação, disse-me que tinha nojo da estranheza, que gosta só da normalidade límpida, do perfume insonso, do sabor aquoso, então ela me jogava aqueles olhos grandes e imponentes, escaneando-me de cima à baixo e eu me encolhia todinho, pequeno, curvando-me sobre mim mesmo, como se fosse possível esconder as aberrações que cortam a minha pele de fora a fora. Foi melhor assim, eu me odiaria se tentasse mudar o meu cheiro por causa dela. Eu o adoro assim, aliás, desde pequeno que me cheiro com prazer, banhado ou não, inspiro com o nariz bem tateado na pele até não conseguir mais, sinto a mim, só a mim. Ela foi embora, concluindo, "Diferente demais!". Obrigado, respondi. Se para Ela não me importei em ser todo eu, não é diante de vocês que eu vou me reprimir, tinha até graça. De mais a mais, Ela já é passado muito bem assentado. Não é por Ela que vieste hoje aqui, sei que não. Eu o odeio e, no entanto, estás aqui, fiel, como se me pertencesse desde sempre, como se não me fosse possível ser verdadeiro sem você, sem as suas pinceladas tão marcantes e, no entanto, você é vil, completamente vil. O que seria de mim sem você?

domingo, janeiro 20, 2008

Dor de arreia

Exatamente assim, você não leu errado, "dor de arreia" é o nome que duas crianças criativas, eu e a minha irmã, demos à diarréia em nossa inocente ignorância. Diria até que com uma lógica perfeita. "Dor de cabeça" não denomina uma dor que sentimos na cabeça, e "dor de dente", uma dor no dente? Por analogia, a palavra "diarréia", soltada veloz, de chofre, era interpretada como "dor de arreia", afinal, a diarréia vinha acompanhada de uma dor, então só poderia ser dor de alguma coisa, claro, a dor de arreia, ainda que não soubéssemos ao certo o que era a arreia, por certo alguma coisa dentro das nossas barriguinhas. Assim pensávamos. Os pais achando graça nisso tudo demoraram a nos revelar a verdade.

E veja só, se quisermos viajar, a coisa faz mais sentido ainda. Diarréia tem a ver com soltura intestinal. Da "arreia" vem o "arreio", usado em cavalos para retê-los ou soltá-los na andança. Logicamente a arreia é o dispositivo muscular por meio do qual o intestino se prende e se solta. Daí a dor de arreia, quando há algo errado e doloroso nesse dispositivo.

Pois sim, quando eu tiver uma filha eu lhe ensinarei "dor de arreia" e segregarei em seus ouvidos o absurdo médico de falar "diarréia", palavra tão sem lógica e sentido na cabeça de uma criança que se depara de uma maneira mais imediata com a dor e os seus diversos tipos. É, é isso o que farei.

sábado, janeiro 19, 2008

Medo

Ontem senti medo sim, na casa de minha irmã, em Bragança Paulista, uma certa apreensão percorria-me o corpo ao pensar que teria de entrar na infindável São Paulo por um lado e encontrar uma certa saída do outro lado, completamente sozinho, sem nunca ter passado por lá antes de carro. Mandei mensagens para várias pessoas que talvez já tivessem passado pelo mesmo, buscando alguma informação reconfortante, mas só recebi de volta palavras de conforto moral, muito bem-vindas, é claro. O medo tomou uma tal dimensão que cheguei a baixar o mapa rodoviário do Estado de São Paulo em busca de uma rota alternativa, que evitasse passar pela capital. Achei uma, passando por Jundiaí, Itu e Sorocaba para depois pegar a Régis Bittencourt já na metade do caminho. Desisti por ser igualmente complicado, todas essas cidades são de um porte razoável e também nunca estive nelas. Até a minha irmã ficou um pouco apreensiva e me ajudou a procurar outras alternativas, numa dessas, levou-me até o centro do Estado de São Paulo, depois eu desceria pelo meio do Paraná, passaria por Ponta Grossa para enfim chegar em Curitiba. Uns 300 quilômetros a mais. Foi quando eu percebi a dimensão descontrolada e patética do meu medo. Era preciso enfrentá-lo e domá-lo antes que ele me dominasse por completo. Assunto encerrado e decisão tomada, iria passar dentro de sampa mesmo. Muni-me de um mapa da cidade e fui dormir para descansar. Acordei no outro dia ainda um pouco apreensivo, a cabeça confusa com os sonhos de estrada, mas resoluto. Tomei o café, abracei a minha irmã quase choroso já com saudades e parti ao encontro do meu destino.

Bem, desnecessário dizer que o desconhecido tem um efeito intempestivo sobre a imaginação, contribuindo para o surgimento de medos desmedidos. Claro que fiquei tenso, pois estava sozinho e tinha de prestar atenção no trânsito e nas placas, qualquer erro poderia significar algumas horas na busca do caminho correto. Quando você tem alguém de copiloto te guiando para onde ir, fica bem mais fácil. Mas tirando esse excesso de tensão, de atenção redobrada, foi muito tranqüilo, entrei em São Paulo, peguei a marginal e fui indo até aparecer (o medo era, e se não aparecessem?) as placas indicando a Régis Bittencourt. Quando elas apareceram, fui só seguindo. Depois de mais ou menos uma hora eu já estava aliviado fora de sampa.

Por que estou narrando tudo isso aqui para mim? É que eu fiquei pensando em como é ruim ter de enfrentar absolutamente tudo sozinho, ainda que isso me ajude a ficar mais forte de alguma maneira. Confesso que senti um certo quê de tristeza com este pensamento.

terça-feira, janeiro 15, 2008

Amor

Ele amava tanto, mas tanto que chegava a lhe doer a razão, saia louco a cata de cada palavra dela que fosse, até em papel rasgado, costurava-os depois interpretativo, sorria imaginando-a pensando, como se a sentisse por dentro. Diante dela, emudecia por completo, queria ouvir-lhe tudo, tudo, tudo. Mas ela era muito arredia, tinha um coração por demais sangrado, passou a querer a amar pela razão. Então fugiu assustada, enxergou o amor dele como loucura.

Casa

Esta casa, onde já não tenho mais um quarto, sempre me assombrou pela sua fauna diversificada. Agora não, nas suas paredes velhas e descascadas, restam apenas as lagartixas, bem gordinhas, é verdade, pois no verão são abençoadas pelo excesso de pernilongos. Desde que fiquem ali na sala, não me incomodo. Não sei se iria querer dormir com uma no quarto onde 30 anos atrás fui feito. Não combina.

Nos meus primeiros anos de vida, a selvageria por aqui era mais intensa. Nos dias de chuva, bastava ir até a garagem para observar as rãs que buscavam refúgio no interior de casa, depois vinhamos com a vassoura devolvê-las à sarjeta. À noite, ao menos enquanto o terreno ao lado permaneceu baldio, era a vez dos ratos invadirem a cozinha em busca literalmente do queijo mineiro que aqui nunca faltou. Bem planejada para essa terra infernal, ela tem uma claraboia em uma de suas extremidades, permitindo uma agradável ventilação; em contrapartida, uma passagem desimpedida para os ratos da vizinhança. Lembro de armar as ratoeiras com a Dona Maria e lembro também de ver pela manhã bem cedo, com um certo nojo e terror, o rato ensangüentado, quase partido ao meio.

O banheiro que ficava imediatamente ao lado do quarto onde dormíamos eu e a minha irmã era literalmente sombrio. Suas pequenas basculantes eram insuficientes para que o sol lhe desse um tom agradável e aceitável. Mas o motivo principal para este cômodo até hoje me causar uma impressão desagradável, diria até um certo medo angustiado, é outro: foi lá que me deparei umas três ou quatro vezes com aranhas caranguejeiras. Numa destas, eu já estava sentado no vaso fazendo as minha necessidades, quando eu a vi saindo debaixo do cesto de roupas, enorme e imponente, dirigiu-se para a frente da porta, que estava fechada, e ali ficou, impedindo-me a retirada. Então com seis anos fui apresentado ao pânico. Ele foi-me tão monstruoso que já não lembro mais o que se sucedeu dali em diante. Gritei e muito.

Depois adolescente, morando em Minas, notei novidades quando certa vez vim passar aqui as minhas férias. A noite veio caindo e logo percebi uma movimentação para fechar as janelas. Bati de peito, isso não, com esse calor? Nem pensar! Logo me explicaram que, com a "urbanização" do lote vizinho baldio, a derrubada das mangueiras que ali habitavam e tornavam o meu dezembro suculento, os ratos evoluídos, vulgo morcegos, arranjaram novo pouso e morada no telhado de nossa casa. Nessas férias mesmo tive que lutar com um que se perdeu aqui dentro.

O episódio mais bizarro aconteceu ainda na infância. Estávamos todos na sala assistindo ao Fantástico, que, na década de 80, era certamente dirigido por um sádico, com seus fundos musicais assustadores e a voz grave do Cid Moreira pedindo aos pais que retirassem as crianças da sala em virtude das fortes cenas que viriam a seguir...eu e minha irmã ficávamos atrás da parede escutando os gritos e imaginando o terror. Se tivéssemos visto as cenas, possivelmente o medo seria menor. Mas como vinha dizendo, estávamos na sala, meu pai deitado no sofá e eu e minha irmã empoleirados nele. Foi quando eu apontei para o rodapé da parede e disse quase rindo com os meus inocentes sete anos, "Pai, olhe, é um cobra". Acostumado com a nossa fauna diversificada, ele retrucou sem olhar. "É só uma minhoca, filho". Eu já tinha visto minhocas e a achei muito grande para ser uma, resolvi insistir. "Não é não, é um cobra e ela está indo para o meu quarto!". Meu pai olhou então, e só me lembro dos seus olhos ficando esbugalhados de terror ao notar viva e colorida a jararaca venenosa se rastejando pela sala. Depois disso foi um deus nos acuda, eu, minha irmã, minha mãe pulando para cima do sofá e o meu pai e a Dona Maria correndo atrás da cobra com vassouras. Lá se foram mais quinze minutos de pânico até darem um fim à pobre coitada que provavelmente havia se perdido do leito do Rio das Graças.

domingo, janeiro 13, 2008

Cherie

Ela tem o hábito higiênico de apagar meticulosamente todos os seus rastros, nenhuma pegada é deixada para trás, como se fosse possível trespassar uma pessoa sem lhe alterar um fio de cabelo, um átomo. Ela gostaria de ser de um outro mundo, como quem interagisse com os homens incausadamente, sem deixar efeitos. É aí que você se engana, cherie, a impressão na alma é indelével, só a morte apaga. Depois que se deste a mim, por qualquer perspectiva ou ângulo que seja, não podes mais tirar-se de mim. Não mesmo.

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Cancelamento

Preciso de um único funcionário ou qualquer outra coisa violentável e representativa da Caixa Econômica Federal sobre a qual eu possa despejar de maneira concentrada, focada e com extrema violência e sadismo, sem o menor sentimento de culpa ou remorso, toda a minha ira acumulada ao longo de duas horas estiolantes e irrecuperáveis na tentativa de cancelar um mísero cartão de crédito.

Liguei ao todo 8 vezes. De uma maneira mágica e com profunda coincidência, espantosa até, sempre que lhes anunciava o motivo do telefonema, o cancelamento do cartão, a ligação caia alguns segundos depois. Evidente, a instituição financeira deve ter fortes vínculos com as instâncias divinas, zelosas em manter nas cercanias daquela a ovelha desgarrada e lucrativa.

Qual o motivo? Eu quero. Hã, não entendi. Estou a fim, sacou? Preciso saber o motivo. Veja bem, senhor, senhora ou senhorita do Marketing, das Vendas ou de que setor diabólico for, preste bem atenção e instrua os seus subalternos da telechateação com a minha instrução: quando, ao ser ser interpelado por um motivo, o cliente declarar a sua suprema volição, seu inalienável arbítrio sobre as suas decisões, não tente lhe extrair uma outra motivação marginal, como se estivesse sendo coagido por ela. Esta busca patética e imbecil só vai irritar ainda mais o cliente que agora absorto se vê obrigado a digladiar com uma voz que insiste em não compreender o simples e quase monossilábico "eu quero!".

domingo, janeiro 06, 2008

Se...

Se, por assim dizer, e aqui a suposição vai longe da atual realidade, da minha solteirice sem paternidade, mas vamos lá, se a minha filha chega para a sua mãe, então minha namorada/companheira/esposa, com um livro nas mãos e pede, quase implorando, com a sua vozinha doce e curiosa de criança, para que ela leia uma história e esta mesma mãe, prostrada em um sofá, abraçada à preguiça a que todos nós temos direito uma hora ou outra, lhe responde com a negativa em favor de um programa televisivo qualquer, um filme que seja, na melhor das hipóteses, então, neste mesmo instante, estarei lhe comunicando a separação e, claro, a filha virá comigo.

Ah, futura namorada/companheira/esposa, não seja atroz, lhe negue um banho, um lanche, uma roupa, um presente, mas, por favor, não lhe negue a leitura de um livro!!! Isso eu não perdôo.

sábado, janeiro 05, 2008

Humilhação

Pior do que ver uma criança chorando é ver um homem humilhado, possesso na sua dor, completamente encerrada pela sua fraqueza; a fúria fervilhando vermelha nos olhos, de onde ela não sai jamais, mas está ali estampada para qualquer um ver. O humilhado não tem forças para irradiar o seu ódio, de outro modo ela findaria antes mesmo de nascer, no tapa reativo, no "não, isso eu não aceito!". Sofre moralmente e emocionalmente. Seu ódio contido só lhe corrói, veneno mortal ao amor próprio. Ele fraquejou, não o conheço, não sei seus motivos, as convenções sociais que lhe passaram pela cabeça, o poder alheio que estimou, mas calou-se, mordeu-se por dentro, enrolou a própria língua. Eu vi quase de perto, atento, e ele notou que o via, o que, infelizmente, só ajudou a aprofundar ainda mais a sua humilhação, mesmo que eu estivesse lhe dizendo, "oh não, eu entendo". O melhor era não ter entendido, não ter visto nada.

O ofensor, por seu turno, não parecia estar minimamente perturbado, agia com tranqüilidade e desenvoltura, como se aquela violência irrompida de suas mãos e boca fosse o seu natural. Imagino mesmo que fosse. Tanto orgulho, tanta força, tanta vontade de se expor e se mostrar que qualquer sensibilidade mais aflorada sente-se mesmo humilhada na sua presença. Seria diferente se ele tivesse a intenção de ofender. Mas ele sequer parecia perceber a humilhação do ofendido, seguia rente, sem nem encará-lo.

Eu fico me perguntando, independentemente da força/vontade de cada um, vocês não têm curiosidade de saber o efeito do que diz e faz no seu interlocutor?