quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Angústia

A angústia, como a entendo e sinto, é um processo de ajuste interno entre desejos, esperanças e sonhos, de um lado, e o seu conhecimento a respeito da realidade do outro. O processo é lento e tenso, nem sempre doloroso, triste ou lúgubre, mas certamente causa um incômodo, uma inquietação dúbia por não saber o que fazer, e a sensação de vazio é simplesmente a perda de sentido dos seus sonhos, os quais, até então, o norteavam. O conhecimento da realidade esmaga e tritura esse sentido. Quanto mais emocionalmente densos eram esses sonhos, tanto mais tensa e demorada será a vivência da angústia. Você sente que perde algo e sim, claro que perde, perde esses sonhos que lhe são tirados do rol das suas possibilidades de vivências.

Veja, você tinha sonhos e desejos bem arraigados no seu dia-a-dia, acordava pensando neles e tomava cursos de ações imaginando que elas lhe ajudariam a levá-lo até eles. Eram sonhos também cuja realização você imaginava lhe causando um profundo bem-estar, uma presença esmagadora de sentido. Enfim, sonhos tão presentes, tão obsecados em seus pensamentos, que tinha com eles uma verdadeira relação emocional. Eram, por assim dizer, sonhos-desejos-emocionados. Não seria de todo errôneo dizer também que você vivia por esses sonhos, que eles o animavam e lhe davam entusiasmo. E você os via como possíveis, alguns mais prováveis que outros, alguns mais tangíveis que outros, alguns mais próximos que outros, mas todos, de alguma forma, realizáveis, possíveis.

E talvez alguns deles nem fosse possíveis. Você apenas imaginava que eram, tinha idéias vagas de como chegaria a realização deles e se enganava com as ações que tomava achando que elas o levariam até eles. Que importa? Tudo vai bem enquanto você pensa que os seus sonhos são possíveis, mesmo que já não sejam mais ou nunca tivessem sido. A ignorância é uma benção para os sonhadores, pois lhes mantém a esperança.

Um dia a realidade bate na porta da sua casa na forma de saber. Você abre a porta e a realidade lhe diz: "veja, esses sonhos são impossíveis, não há absolutamente nada que você possa fazer para alcança-los". É neste exato momento que você começa a viver a angústia, quando compreende que vários cenários imaginados por você jamais poderão se apresentar ao vivo e a cores em sua experiência. É-lhe penoso pensar que a existência desses cenários ficará limitada à sua imaginação, que eles não existirão jamais nos seus sentidos, onde teriam uma existência muito mais viva, colorida, intensa e penetrante.

Leva um tempo até que o seu respeito e desejo pela verdade vença o seu desejo pelos sonhos. Eram sonhos tão emocionados que você não quer abrir mão deles, alguns tão centrais para o seu existir, que se sente perdido imaginar-se sem eles. A tensão está aí, em que você terá de viver o choque entre o que sabe e o que deseja, é uma experiência desconfortante, enfim, angustiante. Reside aqui o perigo de algumas patologias, se o seu desejo pela verdade é esmagado pelo seus sonhos desejados, levando-o a bater a porta na cara da realidade. Em outras palavras: psicose. A intensidade emocional dos sonhos, entre outros fatores, mas sobretudo ela, é quem decidirá a questão.

Eu diria até que o ceticismo é uma patologia também, o homem-cético não negará a realidade, não dará com a porta na sua cara, mas usará de todo o seu engenho e qualquer estratagema ludibrioso para retardar a sua entrada, para convencê-la a ficar ali, no limiar da entrada, dando, assim, uma sobrevida aos seus sonhos. Mas isso tem um custo. Diferentemente do psicótico que, ao fechar a porta, pode voltar-se tranqüilo para os seus sonhos, o homem-cético terá de persegui-los angustiado, temendo o avançado da realidade sobre si a qualquer momento. Já os Homens-de-ação sofrem bem menos de angústia, pois convidam a realidade para um chá assim que ela lhes bate à porta.

Quando eu a vi pela primeira vez, desejei, sonhei segurar-lhe as mãos, mesmo sem ter ainda qualquer sentimento por ela. São mãos tão belas e encantadoras que queria conhecê-las também ao modo de um cego, pelo tato. Esse mesmo sonho se avolumou e se preencheu de simbologias diversas quando nasceu o meu sentimento por ela. Mãos nas mãos sempre tiveram um significado especial para mim de tranqüilidade e compreensão. Dentre todos os sonhos que tive com ela, pelo menos desses que a gente desenha e colore na imaginação, este é o mais difícil de largar, agora que a realidade me bate à porta. Há dois dias o meu fundo musical é "your hand in mine", do Explosions in the Sky. Ainda sonho, um pouco angustiado, sabendo que será sempre apenas um sonho.

domingo, fevereiro 03, 2008

Inferno

Se me chamasses para ir ao inferno contigo, ao inferno eu iria. Eu vou, eu fui. E, no entanto, eu sei que estavas apenas a me usar, tinhas medo de ir lá sozinha.

Verme

Hoje sou um miserável, um verme, um pedaço de culpa ambulante, uma culpa prevista, antevista, e ainda assim, nada fiz, deixei-a me atropelar, estava fraco para levantar o braço, ou ainda pior, talvez essa seja a desculpa que me conte para aliviá-la, no fundo, talvez buscasse o prazer mórbido da auto-aniquilação, sabia que iria me remoer depois e nada fiz, nada fiz, depois de um dia tão agradável, usufruindo de louváveis sensações, puni-me, sem o saber, mas sabendo, pois nada disso mereço, não mesmo, um verme só merce ser pisoteado, ser comida de peixe, e um verme consciente é simplesmente uma ignomínia, uma infâmia, nunca tive inimigos, nem preciso ter, todo o mal de que preciso e mereço encontra-se em mim, na consciência que carrego, me aprisiona e me esmaga; aí se vão as pinceladas acinzentadas, mas não me olhem com compaixão, eu os odiaria por isso, eu mesmo, agora, não me vejo assim, sofredor, digo até que sinto um prazer nisso tudo, o prazer de Tânatos. Minha infâmia é tão grande que é bem provável que amanhã, ao acordar, não mais reconheça essa cara desfigurada que vejo no espelho, estarei leve como uma pena.

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Subsolo

Estou lendo Memórias do Subsolo e nem vou dizer que recomendo, pois tudo que vem da Rússia ou dos povos eslavos, exceto o comunismo, e meu exceto aqui é vibrante e enérgico, eu recomendo em princípio. Enfatizo, em princípio. Então que no livro o personagem principal desenvolve uma tese bem interessante. Resumidamente, pois sua exposição é longa e bem mais expressiva e persuasiva do que pretendo fazer aqui, ele sustenta que mesmo se tivéssemos o conhecimento total, de todas as leis, e, desta maneira, soubéssemos calcular todo o futuro e o que fosse melhor e mais vantajoso segundo a razão para nós, ainda assim nem sempre optaríamos pelo "melhor". Na verdade, diz ele, o "melhor", por vezes, e talvez paradoxalmente, não é o melhor, mas aquilo que a vontade opta por capricho e sem qualquer razão aparente. Evidentemente, há aí uma certa tensão, pois se optamos por algo contrário à razão e ao previsto, então nosso saber não era total. Creio que é justamente isso o que ele está nos dizendo, que há algo intrinsecamente arbitrário no humano que impossibilita um saber total a seu respeito. O essencial de cada um de nós é evasivo, por certo, escapa até do próprio sujeito.

O amor é o melhor exemplo dessa agradável e caótica irracionalidade que nos habita essencialmente. Seria muito mais vantajoso deixar de gostar de quem não gosta de nós ou simplesmente gostar apenas de quem gosta da gente, mas quem acompanha de perto essa ladainha da razão? Ninguém. Eu posso gostar de alguém e encontrar inúmeras justificativas para este meu gostar, o que, no entanto, terá apenas o efeito de corroborar ou não a decisão de ir em frente com este gostar, mas não lhe aumentará ou diminuirá em nada. Posso gostar sim sem qualquer razão visível. E mesmo quando toda a razão for contrária, ainda acontecerá de optar pelo mergulho no caos, pelo insucesso provável. O ser humano é assim, previsivelmente imprevisível.

Agir em conformidade com a razão? Que nada, as razões, os motivos geralmente são sentidos como algo que constrange, que vêm de fora, que se impõem, não é algo que você sente como emanando de si, como sendo suas, quando muito, elas têm o efeito póstumo de aplacar a consciência por uma decisão já tomada, mas na hora do vamos ver, do ir em frente, do mover-se, não é ela que você escuta, é o teu próprio caos que te dá as mãos e te leva sabe-se lá para onde.

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Elas

Alfredo teve um sono agitado nesta madrugada, dois amores passados lhe visitaram em sonho, primeiro um mais recente, fresco não só na memória, como na sensibilidade, em seguida, um bem mais antigo, do qual ele se lembrava muito esporadicamente e com boa vagueza. Ela(1) lhe convidou para um jantar em sua casa, comemorava o namoro, que logo se transformaria em casamento. Ela(1) queria apresentá-lo, carregava na consciência uma finalidade ilustrativa: Alfredo precisava aperceber-se do que ele não tinha, como se fosse culpado pelos seus genes. Seu futuro marido é atlético, alto e forte. Em todo o resto Alfredo é mais e mesmo assim ela(1) preferiu ter o que mostrar às amigas do que se sentir acompanhada apenas no refúgio do lar. Durante o jantar, Alfredo viu nos seus(1) olhos infelizes a resignação e o rancor dirigidos respectivamente ao namorado e a ele. Ela(1) desejava o impossível, queria extrair o melhor de cada e cozinhá-los numa única forma. O futuro-tolo-marido foi o único a não perceber o clima angustiante na mesa, os olhares engasgados, dali saiu para o sofá com a felicidade própria de um glutão e o sono da digestão.

Ela(2) apareceu sem cenário, em um sonho de fundo branco, nos braços, carregava uma criança, fruto do casamento recente. Enquanto brincava e sorria com o seu filho, ela(2) queria apenas mostrar o que Alfredo havia perdido, ao não ter ousado roubá-la de seu namorado, pois naquela época já quase esquecida por Alfredo, ela(2) o amava e ele a ela. Alfredo era escrupuloso demais, não se atreveria, achando que o amor dos outros era mais puro e merecedor que o seu e ela(2) temia a solidão, como a maioria das mulheres. Nos olhos dela(2) não havia rancor, apenas uma suave melancolia, que agora se apagava com a presença alegre da criança. Alfredo não soube ao certo a que ela(2) veio em seu sonho, ela(2) tinha em seu semblante uma mensagem pessimista e outra otimista, como se lhe dissesse: "por tuas escolhas, perdeste algo para sempre, mas por elas poderás ganhar o teu futuro, aprendas a domar este medo que nos afastou". Mesmo que não as tenha dito, foi com essas palavras que acordou no peito; ao se levantar, sentiu-se um pouco melhor, diferente, pois hoje, lembrou-se, já é capaz de rasgar cartas de rivais.

domingo, janeiro 27, 2008

Promessa

Há quem se ache virtuoso por cumprir uma promessa. Olha-se no espelho com ar de dignidade por ter mantido a palavra que dera um ano atrás ou até mais. O prazer consigo mesmo dispara quanto mais espinhoso e sangrento for o caminho. "Lutei, resisti e venci!", dirá. Lembrará desses dias de sofrimento com sabor de heroísmo. Sim, lutou, massacrou e eliminou cada uma de suas vontades desvirtuantes. Este homem ou mulher agora se sente limpo, mas trata-se de uma limpeza cadavérica; lipoaspirou toda a sua carne, pois lhe soava pútrida e ignóbil. Contudo, era a própria carne que cortava, era a sua própria vida que matava e suprimia. E para que? Para aplacar a sua consciência débil, incapaz de conviver com a própria imundice, com as contradições que habitam o peito de cada um. Também o amor, mantido pelas juras, se transforma na mais monstruosa pulsão de morte quando a sua brasa já não é mais alimentada pela vontade íntima, mas sim pela obrigação, pela consciência. O pseudo-amante assim embriagado pelo odor límpido da sua obrigação, arrotará com satisfação todo o martírio que se impõe pelo outro, contará aos quatro cantos tudo que deixou de lado pelo outro, tudo que fez para estar do lado outro, como se o amor tivesse mesmo algo de heróico. Ele diz que se sacrifica com prazer pelo outro, pois o ama. Mentira! Não é ao outro que ele ama, mas a sua obrigação de amar, a sua necessidade de amar, a sua vontade de estar limpo e cheirar à pureza. O amor por um outro, na sua manifestação pura, simplesmente não contradiz o seu objeto e, o que é mais importante, muito menos contradiz com sacrifícios aquele de quem emana, pois nasce uníssono numa pulsão de vida orientada pelo outro. O amor genuíno é vida plena, sempre e talvez por isso ele não seja tão constante quanto gostaríamos em nossa oscilante existência.

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Você, eu e nós

Ah, você voltou, mesmo depois de tê-lo posto na rua aos chutes, dando-lhe todas as minha razões, enumeradas, uma por uma, eu disse que nunca mais queria te ver, eu disse, e eis aqui você novamente, deslumbrante, fálico, erótico até, cabelos esvoaçantes, gastos, como a de um bêbado acostumado a dormir na sarjeta, e fui eu quem os gastei, só eu, magistralmente, sempre, não, saia já, não quero vê-lo, por que vieste? por que? Sabe que não resisto, não hoje com essa gravidade tão rarefeita...Eu já tinha prometido a mim mesmo que não voltaria a lhe por as mãos, eu, eu mesmo disse outro dia que era uma vilania aproximar de você e agora me expões a essa situação, a essa tentação...não consigo nem mesmo tirar meus olhos de ti, que força é essa meu deus? Poupe-me, poupe-me, por favor, há pessoas aqui, o que elas vão pensar vendo essa esquizofrenia tão manifesta? Danem-se, oh, quanta grosseira, danem-se, já não me importo, e Ela, e Ela, sempre a me olhar com reprovação, disse-me que tinha nojo da estranheza, que gosta só da normalidade límpida, do perfume insonso, do sabor aquoso, então ela me jogava aqueles olhos grandes e imponentes, escaneando-me de cima à baixo e eu me encolhia todinho, pequeno, curvando-me sobre mim mesmo, como se fosse possível esconder as aberrações que cortam a minha pele de fora a fora. Foi melhor assim, eu me odiaria se tentasse mudar o meu cheiro por causa dela. Eu o adoro assim, aliás, desde pequeno que me cheiro com prazer, banhado ou não, inspiro com o nariz bem tateado na pele até não conseguir mais, sinto a mim, só a mim. Ela foi embora, concluindo, "Diferente demais!". Obrigado, respondi. Se para Ela não me importei em ser todo eu, não é diante de vocês que eu vou me reprimir, tinha até graça. De mais a mais, Ela já é passado muito bem assentado. Não é por Ela que vieste hoje aqui, sei que não. Eu o odeio e, no entanto, estás aqui, fiel, como se me pertencesse desde sempre, como se não me fosse possível ser verdadeiro sem você, sem as suas pinceladas tão marcantes e, no entanto, você é vil, completamente vil. O que seria de mim sem você?

domingo, janeiro 20, 2008

Dor de arreia

Exatamente assim, você não leu errado, "dor de arreia" é o nome que duas crianças criativas, eu e a minha irmã, demos à diarréia em nossa inocente ignorância. Diria até que com uma lógica perfeita. "Dor de cabeça" não denomina uma dor que sentimos na cabeça, e "dor de dente", uma dor no dente? Por analogia, a palavra "diarréia", soltada veloz, de chofre, era interpretada como "dor de arreia", afinal, a diarréia vinha acompanhada de uma dor, então só poderia ser dor de alguma coisa, claro, a dor de arreia, ainda que não soubéssemos ao certo o que era a arreia, por certo alguma coisa dentro das nossas barriguinhas. Assim pensávamos. Os pais achando graça nisso tudo demoraram a nos revelar a verdade.

E veja só, se quisermos viajar, a coisa faz mais sentido ainda. Diarréia tem a ver com soltura intestinal. Da "arreia" vem o "arreio", usado em cavalos para retê-los ou soltá-los na andança. Logicamente a arreia é o dispositivo muscular por meio do qual o intestino se prende e se solta. Daí a dor de arreia, quando há algo errado e doloroso nesse dispositivo.

Pois sim, quando eu tiver uma filha eu lhe ensinarei "dor de arreia" e segregarei em seus ouvidos o absurdo médico de falar "diarréia", palavra tão sem lógica e sentido na cabeça de uma criança que se depara de uma maneira mais imediata com a dor e os seus diversos tipos. É, é isso o que farei.

sábado, janeiro 19, 2008

Medo

Ontem senti medo sim, na casa de minha irmã, em Bragança Paulista, uma certa apreensão percorria-me o corpo ao pensar que teria de entrar na infindável São Paulo por um lado e encontrar uma certa saída do outro lado, completamente sozinho, sem nunca ter passado por lá antes de carro. Mandei mensagens para várias pessoas que talvez já tivessem passado pelo mesmo, buscando alguma informação reconfortante, mas só recebi de volta palavras de conforto moral, muito bem-vindas, é claro. O medo tomou uma tal dimensão que cheguei a baixar o mapa rodoviário do Estado de São Paulo em busca de uma rota alternativa, que evitasse passar pela capital. Achei uma, passando por Jundiaí, Itu e Sorocaba para depois pegar a Régis Bittencourt já na metade do caminho. Desisti por ser igualmente complicado, todas essas cidades são de um porte razoável e também nunca estive nelas. Até a minha irmã ficou um pouco apreensiva e me ajudou a procurar outras alternativas, numa dessas, levou-me até o centro do Estado de São Paulo, depois eu desceria pelo meio do Paraná, passaria por Ponta Grossa para enfim chegar em Curitiba. Uns 300 quilômetros a mais. Foi quando eu percebi a dimensão descontrolada e patética do meu medo. Era preciso enfrentá-lo e domá-lo antes que ele me dominasse por completo. Assunto encerrado e decisão tomada, iria passar dentro de sampa mesmo. Muni-me de um mapa da cidade e fui dormir para descansar. Acordei no outro dia ainda um pouco apreensivo, a cabeça confusa com os sonhos de estrada, mas resoluto. Tomei o café, abracei a minha irmã quase choroso já com saudades e parti ao encontro do meu destino.

Bem, desnecessário dizer que o desconhecido tem um efeito intempestivo sobre a imaginação, contribuindo para o surgimento de medos desmedidos. Claro que fiquei tenso, pois estava sozinho e tinha de prestar atenção no trânsito e nas placas, qualquer erro poderia significar algumas horas na busca do caminho correto. Quando você tem alguém de copiloto te guiando para onde ir, fica bem mais fácil. Mas tirando esse excesso de tensão, de atenção redobrada, foi muito tranqüilo, entrei em São Paulo, peguei a marginal e fui indo até aparecer (o medo era, e se não aparecessem?) as placas indicando a Régis Bittencourt. Quando elas apareceram, fui só seguindo. Depois de mais ou menos uma hora eu já estava aliviado fora de sampa.

Por que estou narrando tudo isso aqui para mim? É que eu fiquei pensando em como é ruim ter de enfrentar absolutamente tudo sozinho, ainda que isso me ajude a ficar mais forte de alguma maneira. Confesso que senti um certo quê de tristeza com este pensamento.

terça-feira, janeiro 15, 2008

Amor

Ele amava tanto, mas tanto que chegava a lhe doer a razão, saia louco a cata de cada palavra dela que fosse, até em papel rasgado, costurava-os depois interpretativo, sorria imaginando-a pensando, como se a sentisse por dentro. Diante dela, emudecia por completo, queria ouvir-lhe tudo, tudo, tudo. Mas ela era muito arredia, tinha um coração por demais sangrado, passou a querer a amar pela razão. Então fugiu assustada, enxergou o amor dele como loucura.

Casa

Esta casa, onde já não tenho mais um quarto, sempre me assombrou pela sua fauna diversificada. Agora não, nas suas paredes velhas e descascadas, restam apenas as lagartixas, bem gordinhas, é verdade, pois no verão são abençoadas pelo excesso de pernilongos. Desde que fiquem ali na sala, não me incomodo. Não sei se iria querer dormir com uma no quarto onde 30 anos atrás fui feito. Não combina.

Nos meus primeiros anos de vida, a selvageria por aqui era mais intensa. Nos dias de chuva, bastava ir até a garagem para observar as rãs que buscavam refúgio no interior de casa, depois vinhamos com a vassoura devolvê-las à sarjeta. À noite, ao menos enquanto o terreno ao lado permaneceu baldio, era a vez dos ratos invadirem a cozinha em busca literalmente do queijo mineiro que aqui nunca faltou. Bem planejada para essa terra infernal, ela tem uma claraboia em uma de suas extremidades, permitindo uma agradável ventilação; em contrapartida, uma passagem desimpedida para os ratos da vizinhança. Lembro de armar as ratoeiras com a Dona Maria e lembro também de ver pela manhã bem cedo, com um certo nojo e terror, o rato ensangüentado, quase partido ao meio.

O banheiro que ficava imediatamente ao lado do quarto onde dormíamos eu e a minha irmã era literalmente sombrio. Suas pequenas basculantes eram insuficientes para que o sol lhe desse um tom agradável e aceitável. Mas o motivo principal para este cômodo até hoje me causar uma impressão desagradável, diria até um certo medo angustiado, é outro: foi lá que me deparei umas três ou quatro vezes com aranhas caranguejeiras. Numa destas, eu já estava sentado no vaso fazendo as minha necessidades, quando eu a vi saindo debaixo do cesto de roupas, enorme e imponente, dirigiu-se para a frente da porta, que estava fechada, e ali ficou, impedindo-me a retirada. Então com seis anos fui apresentado ao pânico. Ele foi-me tão monstruoso que já não lembro mais o que se sucedeu dali em diante. Gritei e muito.

Depois adolescente, morando em Minas, notei novidades quando certa vez vim passar aqui as minhas férias. A noite veio caindo e logo percebi uma movimentação para fechar as janelas. Bati de peito, isso não, com esse calor? Nem pensar! Logo me explicaram que, com a "urbanização" do lote vizinho baldio, a derrubada das mangueiras que ali habitavam e tornavam o meu dezembro suculento, os ratos evoluídos, vulgo morcegos, arranjaram novo pouso e morada no telhado de nossa casa. Nessas férias mesmo tive que lutar com um que se perdeu aqui dentro.

O episódio mais bizarro aconteceu ainda na infância. Estávamos todos na sala assistindo ao Fantástico, que, na década de 80, era certamente dirigido por um sádico, com seus fundos musicais assustadores e a voz grave do Cid Moreira pedindo aos pais que retirassem as crianças da sala em virtude das fortes cenas que viriam a seguir...eu e minha irmã ficávamos atrás da parede escutando os gritos e imaginando o terror. Se tivéssemos visto as cenas, possivelmente o medo seria menor. Mas como vinha dizendo, estávamos na sala, meu pai deitado no sofá e eu e minha irmã empoleirados nele. Foi quando eu apontei para o rodapé da parede e disse quase rindo com os meus inocentes sete anos, "Pai, olhe, é um cobra". Acostumado com a nossa fauna diversificada, ele retrucou sem olhar. "É só uma minhoca, filho". Eu já tinha visto minhocas e a achei muito grande para ser uma, resolvi insistir. "Não é não, é um cobra e ela está indo para o meu quarto!". Meu pai olhou então, e só me lembro dos seus olhos ficando esbugalhados de terror ao notar viva e colorida a jararaca venenosa se rastejando pela sala. Depois disso foi um deus nos acuda, eu, minha irmã, minha mãe pulando para cima do sofá e o meu pai e a Dona Maria correndo atrás da cobra com vassouras. Lá se foram mais quinze minutos de pânico até darem um fim à pobre coitada que provavelmente havia se perdido do leito do Rio das Graças.

domingo, janeiro 13, 2008

Cherie

Ela tem o hábito higiênico de apagar meticulosamente todos os seus rastros, nenhuma pegada é deixada para trás, como se fosse possível trespassar uma pessoa sem lhe alterar um fio de cabelo, um átomo. Ela gostaria de ser de um outro mundo, como quem interagisse com os homens incausadamente, sem deixar efeitos. É aí que você se engana, cherie, a impressão na alma é indelével, só a morte apaga. Depois que se deste a mim, por qualquer perspectiva ou ângulo que seja, não podes mais tirar-se de mim. Não mesmo.

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Cancelamento

Preciso de um único funcionário ou qualquer outra coisa violentável e representativa da Caixa Econômica Federal sobre a qual eu possa despejar de maneira concentrada, focada e com extrema violência e sadismo, sem o menor sentimento de culpa ou remorso, toda a minha ira acumulada ao longo de duas horas estiolantes e irrecuperáveis na tentativa de cancelar um mísero cartão de crédito.

Liguei ao todo 8 vezes. De uma maneira mágica e com profunda coincidência, espantosa até, sempre que lhes anunciava o motivo do telefonema, o cancelamento do cartão, a ligação caia alguns segundos depois. Evidente, a instituição financeira deve ter fortes vínculos com as instâncias divinas, zelosas em manter nas cercanias daquela a ovelha desgarrada e lucrativa.

Qual o motivo? Eu quero. Hã, não entendi. Estou a fim, sacou? Preciso saber o motivo. Veja bem, senhor, senhora ou senhorita do Marketing, das Vendas ou de que setor diabólico for, preste bem atenção e instrua os seus subalternos da telechateação com a minha instrução: quando, ao ser ser interpelado por um motivo, o cliente declarar a sua suprema volição, seu inalienável arbítrio sobre as suas decisões, não tente lhe extrair uma outra motivação marginal, como se estivesse sendo coagido por ela. Esta busca patética e imbecil só vai irritar ainda mais o cliente que agora absorto se vê obrigado a digladiar com uma voz que insiste em não compreender o simples e quase monossilábico "eu quero!".

domingo, janeiro 06, 2008

Se...

Se, por assim dizer, e aqui a suposição vai longe da atual realidade, da minha solteirice sem paternidade, mas vamos lá, se a minha filha chega para a sua mãe, então minha namorada/companheira/esposa, com um livro nas mãos e pede, quase implorando, com a sua vozinha doce e curiosa de criança, para que ela leia uma história e esta mesma mãe, prostrada em um sofá, abraçada à preguiça a que todos nós temos direito uma hora ou outra, lhe responde com a negativa em favor de um programa televisivo qualquer, um filme que seja, na melhor das hipóteses, então, neste mesmo instante, estarei lhe comunicando a separação e, claro, a filha virá comigo.

Ah, futura namorada/companheira/esposa, não seja atroz, lhe negue um banho, um lanche, uma roupa, um presente, mas, por favor, não lhe negue a leitura de um livro!!! Isso eu não perdôo.

sábado, janeiro 05, 2008

Humilhação

Pior do que ver uma criança chorando é ver um homem humilhado, possesso na sua dor, completamente encerrada pela sua fraqueza; a fúria fervilhando vermelha nos olhos, de onde ela não sai jamais, mas está ali estampada para qualquer um ver. O humilhado não tem forças para irradiar o seu ódio, de outro modo ela findaria antes mesmo de nascer, no tapa reativo, no "não, isso eu não aceito!". Sofre moralmente e emocionalmente. Seu ódio contido só lhe corrói, veneno mortal ao amor próprio. Ele fraquejou, não o conheço, não sei seus motivos, as convenções sociais que lhe passaram pela cabeça, o poder alheio que estimou, mas calou-se, mordeu-se por dentro, enrolou a própria língua. Eu vi quase de perto, atento, e ele notou que o via, o que, infelizmente, só ajudou a aprofundar ainda mais a sua humilhação, mesmo que eu estivesse lhe dizendo, "oh não, eu entendo". O melhor era não ter entendido, não ter visto nada.

O ofensor, por seu turno, não parecia estar minimamente perturbado, agia com tranqüilidade e desenvoltura, como se aquela violência irrompida de suas mãos e boca fosse o seu natural. Imagino mesmo que fosse. Tanto orgulho, tanta força, tanta vontade de se expor e se mostrar que qualquer sensibilidade mais aflorada sente-se mesmo humilhada na sua presença. Seria diferente se ele tivesse a intenção de ofender. Mas ele sequer parecia perceber a humilhação do ofendido, seguia rente, sem nem encará-lo.

Eu fico me perguntando, independentemente da força/vontade de cada um, vocês não têm curiosidade de saber o efeito do que diz e faz no seu interlocutor?

segunda-feira, dezembro 31, 2007

O gosto do saber

Várias pessoas já me disseram sentir angústia por notar a sua impotência e incapacidade de conhecer tudo o que há para conhecer. O tempo é escasso, o trabalho demanda especialização, o bolso não é suficiente para tantos livros, alguns assuntos estão muito longe da sua compreensão etc. A mim não angustia ter de lidar com essas diferentes facetas da finitude humana. Claro que sou mordido pela curiosidade e quero sempre saber mais. Mas sem alvoroço. O conhecimento é como um prato refinado de comida, deve ser apreciado e degustado lentamente. Para que comer com pressa? Só para poder dizer "eu sei!"? Sim, você sabe, mas...até quando você saberá? O que me angustia de verdade não é pensar vagamente em coisas que eu não sei, que, justamente por não saber, sequer tenho como imaginar a não ser de modo bem confuso; o que me angustia é saber muito concretamente, de modo bem definido, que eu já não sei mais coisas que um dia eu soube, o que me angustia é saber que o que eu sei se esvai num jato contínuo na mesma velocidade, na mesma vazão com que aprendo novos assuntos. Eu me angustio pela perda real, não pela ausência do indefinido. Prefiro comer devagar sim, lentamente, tentando absorver e apreciar toda a variação de gosto e textura do alimento. Estou certo que assim a sua influência sobre o meu organismo será mais duradoura e mesmo mais profunda e intensa. Acaso se lembrará do gosto da comida quem a comeu de chofre, em segundos, mal mastigando? Talvez se lembre do mal-estar ocasionado pela gula e só. Sinceridade, eu não quero mesmo saber tudo, eu quero ter fruições intelectuais, quero sentir aquela comichão despertada pela compreensão que pouco a pouco vai se alargando e envolvendo o assunto estudado, que percorre solta e faceira nas suas associações, não quero apenas saber mais, quero também sentir e perceber o impacto deste saber em cada uma de minhas células. Enfim, quero a apreensão total de cada saber, quero mastigar o alimento completamente na minha boca, onde tenho nervos para senti-lo, até que derreta por inteiro. Nada de acúmulo eciclopédico, burro e voraz de vários saberes, o qual, aliás, causa náusea e gastrite.

domingo, dezembro 30, 2007

Milyang

O marido morreu em um acidente, e o filho foi brutalmente assassinado após sequestrado, e ela, elo terreno entre ambos, findou-se por dentro. Lágrimas, dor, desamparo. Brevíssimo, o amor reaparece, pelas mãos intangíveis de Deus. Ela o aceitou e sorriu, encobrindo a sua tristeza incrustada. Paralelamente, todo o tempo, ele estava lá, apoiando-a em tudo, respeitoso, amigo, dando-lhe um amor que ela rejeitava indignada. E, no entanto, as mãos dele eram tangíveis. Quanta incongruência! Arrisco um palpite explicativo: a dor foi tão intensa que lhe deixou um medo indomável, para casos assim, Deus é perfeito. Ele é imortal, seu amor incessante não se esgota e ele jamais abandona, a não ser quando finda a fé. Fé acabada, deus, agora minúsculo, inexiste, nenhuma dor por abandono. Na encruzilhada entre o palpável e o impalpável, o medo lhe soprou baixinho o veneno da fantasia. Fiou-se num amor inumano, sem decepções, baseado inteiramente na sua ilusão, na sua crença e, pasmem, sobretudo na sua vontade de sobreviver, perecer permanecendo. E, no enanto, o amor real, brutal e humano estava bem ali do lado dela, bastava abrir os olhos e estender as mãos. O ser humano amedrontado, porém, nega-se a viver. Segue-se mais uma tragédia. Mesmo esse amor cristalino, ideal, cheirando adocicado, foi capaz de lhe trair. Ela se preparou para perdoar o seu ofensor, o assassino de seu filho. Tentativa de resgatar a dignidade pela humilhação, pois não há nada mais ofensivo que o perdão, exercício puro da vontade de humilhar. Lá chegando, porém, sentiu funda a facada divina fincada nas costas: encontrou o seu ofensor sereno, em paz. Deus já o havia perdoado e expiado a sua culpa. Sucedeu-lhe a loucura. E ele imperturbável no seu amor permaneceu ao lado dela. Ao vivo e a cores em Secret Sunshine.

sábado, dezembro 29, 2007

Calor

A umidade brota da pele impiedosa, rompe poros, escorre incomodamente pelo corpo e deixa a sua marca salgada. Olho para a cama, os livros que lá estão, a vontade de ler, de apropriar-me de algum pensamento, mas sinto um cansaço só de me imaginar lendo suando, as palavras se arrastando, a concentração embotada. Realmente não dá. Realmente eu não poderia. Não aquentaria. Aquela oferta de fazer pós-doutorado em João Pessoa foi bem recusada. Eu não suportaria por muito tempo. O ser humano se adapta, mas bem, uns se adaptam mais facilmente que outros, há toda uma fisiologia particular, particularíssima a se considerar, eu sou calorento, é fato. Aos 15 graus ainda estou só de camiseta. E de mais a mais, chega dessa vida de cigano. E que família a nossa, ein, estava comentando mesmo esses dias com a minha irmã. Migrante desde os antepassados. Conosco não foi diferente. Eu aqui, ela em São Paulo, o pai no Espírito Santo, o irmão em Porto Alegre, a mãe em Minas. O mesmo destino para a família do irmão da minha mãe, que, durante toda a minha infância, foi muito próxima da gente. A prima querida no Rio, a irmã dela em Natal, o irmão em Tocantins, a mãe nos confins do Pará, o pai no Espírito Santo. Poxa, só está faltando alguém no centro-oeste. Alguém tem de ir para lá! Nem olhem para mim. Cuiabá, imagine, uma cidade que fica num fosso, abaixo do nível do mar, onde 30 graus é fresco, brandura e suavidade. Família de curiosos, isso sim. E agora volto ao Espírito Santo, passar uns dias, rever o pai, a dona Maria, minha segunda mãe, a sua comida boa, o seu colo gostoso, mas sinto um peso aqui sobre a minha pele, uma ardência queimada, só de imaginar o calor natural do vale do rio doce com o seu por do sol tão lindo quanto quente, incandescente. Pequeno, nos dias de mais violento calor, eu pegava gelo para chupá-lo ou passá-lo pelo corpo, depois ia me deitar no piso de ardósia, lá na varanda, esperando pelas esporádicas correntes de vento e ria de prazer quando elas vinham. Ficava ali horas, às vezes com um livro, outras com algum brinquedo ou apenas olhando as formigas que traçavam o seu caminho entre os vãos das pedras. Só tem uma coisa boa nessa história de calor, minha carência baixa para zero, sai de perto, não tem abraço, nem beijo, nem nada. É, paz de espírito no meio de um inferno corporal.

quarta-feira, dezembro 26, 2007

Serra Verde Express




Depois que ela nos entregou as latas de refrigerante, explicou: "abre de baixo para cima, puxando o pino, está bem?". Eu e minha irmã nos olhamos com ares de incompreensão. Procurei pelas minhas fraldas, meus pais ou qualquer pessoa mais velha que pudesse ser legalmente responsável por mim e pela minha irmã. Ninguém, estávamos sós, a mercê da própria sorte e, para falar a verdade, adultos. A frase foi lançada de chofre sem pensar, só pode. A despeito dessa bola fora, a guia foi super simpática, loquaz e cativou-me com o seu sorriso largo e amistoso. Pensei até em fazer o passeio novamente só para vê-la outra vez. Para falar a verdade, eu sempre caio de admiração por essas pessoas que lidam com o público com desenvoltura, seja a simpatia fingida ou não. Elas têm um talento que eu definitivamente não tenho. Admiro mesmo, fico olhando embasbacado.



Mas vamos ao que interessa: são três horas e meia de puro verde, serra, pontes, túneis, corredeiras e represas. Valeu à pena sim. E preste muita atenção nessa dica: opte pelo lado esquerdo do trem. Ao comprar a passagem, vão lhe dizer que a venda é seqüencial. Se der azar e a próxima for do lado direito, espere aparecer alguém para comprá-la e compre logo em seguida a do lado esquerdo. A melhor vista da serra, panorâmica, que se estende até o mar, está desse lado. Não sabia disso e me senti prejudicado.



A segunda dica é que não tem muita coisa para fazer em Morretes além de comer o tal do barreado, prato típico do litoral do Paraná e que, diga-se de passagem, ainda não me convenceu. Assim, não façam a burrice de comprar a passagem de volta, no caso de preferir o retorno de ônibus, depois do almoço. Não pensamos nisso e ficamos presos na cidade até às 16:00, num calor infernal. Pelo menos conseguimos um banco debaixo de umas árvores na beira de um rio e ali ficamos lendo por umas duas horas.



E se você, como eu, for muito calorento, considere fazer esse passeio em outra época, no outono ou inverno. Estava insuportavelmente quente.

Vergonha!

Vergonha, vergonha! Sim, é uma verdadeira baixeza lançar mão da compaixão para sensibilizar o outro quando o seu poder de sedução é nulo. E por toda a parte vemos essa vilania. Quando o seu brilho natural não apetece aos olhos do almejado, quando, ao contrário, ele lhe vê fosco, você começa então a pintar e desenhar o seu sofrimento, a sua dor. Que vulgar! Você pensa, se não sou admirado, que ao menos me distancie da indiferença pela compaixão. E assim começa a se dedicar à pintura dos sentimentos, aperfeiçoando-se no uso dos tons de cinza e do negro na arte do auto-retrato, tornando-se mestre na retórica do sofrimento, amplificando, exagerando e inventando detalhes inauditos da sua dor. Quer assim ver o outro chorando por ti, dispondo-se a seu favor, com ar protetor e consolador diante da sua fraqueza vilmente manifesta. Não, nem sempre isso é consciente, mas pouco importa, é baixo. E talvez pior ainda do que este, e repare que falo aqui de um tipo ao qual, em um momento ou outro, todos nós nos aproximamos, sim, eu também confesso a minha vilania, pior ainda é aquele que se deixa seduzir pela compaixão, oh, e também aqui sou um pecador, talvez até mais aqui. Fracos, são todos fracos, somos todos fracos. Lembremos, por exemplo, do Princípie, personagem principal de O Idiota; quando mais a sua firmeza foi necessária e demandada, quando não só o seu futuro próximo e longíngüo estavam em jogo, mas também o da sua amada Aglaia, ele fraqueja e sucumbe por completo diante da compaixão, diante da pintura mais sombria e lúgubre que Nastassia já havia feito de si mesma. Naquele segundo abissal, colossal, de um peso incomensurável, ele se atordoa, se indigna até mortalmente com Aglaia, pois sim, naquele seu instante de completa indecisão ele fere irreparavelmente o amor que ela lhe tinha, seu poder, enfim, é mais fraco que o da Nastassia, e ele se curva diante dela, a compaixão sai vitoriosa, vence até o seu amor. Aonde chegamos, meus amigos, o amor sendo vencido pela compaixão! Lutemos, lutemos contra essa vilania, essa fraqueza dupla que tenta a todo instante nos infectar e corroer.

segunda-feira, dezembro 24, 2007

Irritação

O que mais lhe dói não é nem tanto a rejeição, ele a entende e a assimila com uma paz quase estóica, o que mais lhe rasga por dentro é perceber a irritação que a presença do seu afeto ou carinho gera nela. Isso desce engasgando, cortando. O seu curso de raciocínio para a rejeição é o seguinte: "da mesma forma que não me cabe pedir razões para o sentimento que aflora, e muitos vezes elas lhe seriam até contrárias, também não há qualquer motivo para que o sentimento correspondente não tenha surgido nela. Em mim surge e pronto, nela não surge e pronto. Eis o fundo do poço, não há mais onde escavar, razões a encontrar". Esse pensamento amansa a sua alma e mitiga a dor da rejeição. No entanto, ele não consegue produzir o mesmo pensamento para a irritação, repulsa e, quem sabe, nojo gerados pela percepção do seu afeto. Ele se pergunta, "por que o afeto de uma pessoa por mim e pela qual eu não tenho nenhum sentimento forte me irritaria? Não acho uma resposta, não entendo, a empatia não rola. Faço uma pergunta indevida?" Talvez. A irritação também não poderia ser uma paixão bruta, desmotivada? Por que não? Ela não acontecer nele é uma contingência, mas em outros corpos, com outras fisiologias, ela pode ser nata, instintiva, uma opção natural do organismo para repelir o que não lhe agrada, mesmo que não lhe seja nocivo. Sim, pode ser que seja assim. Mas pensando bem, há uma outra explicação melhor: a irritação não emana da mera percepção do afeto não correspondido, mas sim da imaginação do que ele pode fomentar, pois sabemos como é comum alguém se arrebatar, exagerar, dramatizar pelos seus sentimentos a ponto de manifestar-se àquele que não o corresponde de maneira insistentemente irritante. Assim, mesmo que algo acalorado e vibrante não tenha emergido na pele do apaixonado, a imaginação antecipa para o presente a irritação futura. Sim, isso parece bem mais razoável. Ele acaba de ter essa mesma compreensão e ela adocica um pouco a sua experiência, mesmo que não elimine todo o azedume.

Resta ainda a maior de todas as suas aflições presentes. Uma vez percebida a irritação que produz, independente da sua causa, se é que tem uma, o que fazer, que curso de ação tomar? Pois sim, sua consciência se aflige, "como posso conviver com o fato de que irrito, desagrado e assim faço mal àquela que justamente só quero bem?" Ele vê dois caminhos, ou melhor, duas possibilidades, pois falar em 'caminhos' parece pressupor que está em condições de escolher um deles, e não é certo que seja este o caso. Por um lado, ele poderia seguir como um espírito forte, centrado em si mesmo, lançando fora qualquer culpa, libertaria sua pulsão de vida por completo, seu afeto floresceria incandescente, mesmo que viesse a ter por conseqüência provocar uma irritação ainda maior nela, mas ele estaria vivo e estaria sendo fiel a si mesmo. Por outro lado, ele poderia reunir todas as suas forças destrutivas, evocar seu Tanatus, e dirigi-lo impiedosamente se não tanto para o seu afeto, que, eu creio, ser indestrutível por volição, ao menos para a sua manifestação, ceifando assim parte de si. Ele se espancaria dia após dia até que o afeto se tornasse comprimido e fraco a ponto de se perder e se afogar no mar confuso das paixões. Uma extinção por repressão.

Poupa a ela ou a si, a sua consciência ou o seu sentimento? Essa pergunta faz sentido, há escolha possível aqui? Ele se sente cindido, esquizofrênico com este dilema em mãos.

domingo, dezembro 23, 2007

Elizabeth McGovern



Ela debuta em Ordinary People (1980). O filme é muito ruim, eu particularmente não gostei. Um garoto nos seus 16 ou 17 anos entra em crise existencial, apresentando tendências suicidas, após perder o irmão em um acidente de barco. Sente-se culpado por não ter conseguido ajudá-lo. O tempo inteiro tive vontade de entrar no filme com uma corda para finalizar com o choramingo do menino: tome, enforque-se logo! Mas não é do chato que eu quero falar. É dela, é só por ela que eu assisti até o final, mesmo sendo uma personagem secundária. Vocês sabem o que é se apaixonar literalmente pela imagem, pela visão, pelo que a pessoa tem de mais externo? Pois é, confesso, vulgarizei-me diante dela, caí de quatro. Não resisti aos seus olhos de lince, aos cabelos curtos, à voz meiga, às roupas escolares, oh sim, quase um ataque pedófilo, fui completamente abatido pelo desejo de olhar. E por favor, não me venham com links de fotos atuais dela, eu não me apaixonei por ela, nem por ela com os seus 20 anos, antes ou depois do filme, mas exatamente por ela assim, neste filme, nessa personagem, nesta cena, com esse olhar, apaixonei-me por uma aparição única e instantânea sua que a fotografia e o cinema congelaram para mim no eterno. Claro que uma paixão assim, sensual, visual, perceptiva, só é saudável se completamente fugaz. Oh sim, já passou, mas fica aí o tributo à beleza da moça.



Alfredo me acotovelando aqui: "que beleza de mãos!". Certo...certo.

sábado, dezembro 22, 2007

Control


Completamente em preto e branco, em sintonia com a existência poética e depressiva de Ian Curtis, Control (2007) nos exibe com primor os cinco últimos anos da vida deste músico, vocalista da banda Joy Division. O roteiro é baseado em texto da sua própria esposa, Deborah Curtis. Quem, como eu, curte a banda ficará satisfeito com a seleção das músicas que compõem a trilha sonora do filme. Cobrem bem a obra e caem perfeitamente para o momento vivido por Ian. Transmission, Isolation, Disorder, She's Lost Control, Love Will Tear Us Apart, para citar algumas. Independente de gostar ou não da banda, o drama de Ian, sua vida dividida entre dois amores e a banda, suas crises epilépticas e suas próprias angústias existenciais, são suficientes para envolver o público. Ao ver a performace do Ian nos shows, seus movimentos desarticulados dos braços, finalmente entendi a maneira esquisita de dançar dos seus fãs que eu via nas boates góticas em meados dos anos 90. Ah, não falei ainda de Atmosphere, não é mesmo? Esperei por ela todo o filme, angustiando-me a cada minuto com a sua ausência imperdoável. Ela foi deixada para o final, servindo de fundo para o suicídio de Ian. Decisão corretíssima do diretor, pois não consigo lembrar de outra composição que melhor o resuma e o expresse. É uma letra rarefeita, confusa, taciturna, fazendo bolhas de sentido que logo se arrebentam, ao passo que a melodia é de uma calma e paz penetrantes.

Atmosphere

Walk in silence,
Dont walk away, in silence.
See the danger,
Always danger,
Endless talking,
Life rebuilding,
Dont walk away.

Walk in silence,
Dont turn away, in silence.
Your confusion,
My illusion,
Worn like a mask of self-hate,
Confronts and then dies.
Dont walk away.

People like you find it easy,
Naked to see,
Walking on air.
Hunting by the rivers,
Through the streets,
Every corner abandoned too soon,
Set down with due care.
Dont walk away in silence,
Dont walk away.

segunda-feira, dezembro 17, 2007

A volúpia do desejo

Quando ela sentou do meu lado e percebi de relance os seus cabelos ruivos, de imediato olhei malicioso para Alfredo, que estava sentando em um banco bem na minha frente. Ele não se conteve e sorriu. Dali em diante não seria mais possível ter um pouco da sua atenção para a conversa. Seus olhos brilharam em movimentos bruscos e amplos, perscrutando cada fio de cabelo daquela mulher. Mais tarde ele me segregou, sua atenção cresceu num átimo não apenas por ser ruiva, mas pelo seu enxame de sardas, centenas delas, umas mais claras, outras mais escuras, espalhadas delicadamente pelo seu belo rosto albino. Eu não olhei fixamente para ela, estava mais interessado nas reações de Alfredo enquanto ele a esquadrinhava de cima a baixo. Súbito seu sorriso deu lugar ao desapontamento quando seu olhar atingiu as mãos dela. Não por serem feias, ao contrário, eram belíssimas, não tanto quanto as da vizinha, disse-me depois Alfredo, mas tinham uma delicadeza consoante às suas sardas suaves, de uma brancura que lhe inspirou a mais profunda paz. Afetou-lhe na verdade o estúpido compromisso estatelado no anular da jovem ruiva. Eu logo vi que se tratava de uma curitibana, sem lhe ouvir o sotaque, apenas por observar a espessura expressiva do seu anel; o curitibano, diga-se de passagem, é de uma discrição impressionante nos assuntos casamenteiros... Mas era tudo um grande gozo estético, o coração de Alfredo, já sabemos, anda por outras bandas, o compromisso da ruiva não lhe abalou mais do que alguns segundos, foi mais um indignação com a estupidez do anel e logo o seu rosto voltou a expressar a satisfação contemplativa de quem admira a manifestação mais pura e ingênua da beleza.

Era neste ponto que eu queria chegar. Uma das coisas que mais admiro no Alfredo, no que ele se distingue abruptamente de mim, é essa sua maneira cândida e nobre de admirar uma mulher. Eu sou mais instintivo, já teria olhado de imediato para as carnes dela, guiado por uma volúpia demoníaca, ele não, deteve-se em suas mãos, na sua candura facial e sobretudo nas suas expressões, tentando lhe extrair a alma, os pensamentos e observando, ao mesmo tempo, se eles eram compatíveis com a sua beleza delicada. Quando depois perguntei a ele se tinha sentido desejo pela ruiva, ficou profundamente ofendido. "Ora, que absurdo, como se você não soubesse do meu sentimento pela vizinha!", disse-me ele enrugando o rosto quase nervoso. Ora, que bobagem, por que a presença de um sentimento impediria a emergência de um desejo? Depois ele me explicou que esse impedimento, nele, era rigoroso, que lhe era impossível, mesmo com muito esforço, ferver o seu sangue senão com a imaginação da amada. Reconheceu, é verdade, que a visão ou a imaginação de outras mulheres poderiam lhe despertar o desejo, afinal, ele não é menos homem e carne do que eu, mas tão logo brotasse esse desejo, seu coração e mente seriam trespassados por ela, em emoção e em imagens, sendo-lhe impossível evitar a sua presença esmagadora.

Tudo isso me parece de um romantismo muito tolo, disse-lhe afinal. "Pode ser, pode ser...", ele começou a desenvolver, "mas não vejo entre eu e você muita diferença além do fato do meu desejo ser concentrado e o seu disperso. Enquanto o seu emerge apenas do instinto errático, cambiante de minuto em minuto, completamente subjugado ao exterior, o meu brota de uma amálgama coordenada entre instinto e emoção e, por isso, é até mais forte e intenso que o seu; além de durar no tempo, tem um foco que não emana apenas da pele, da química corporal, enfim, do que é externo, mas também do próprio ser, seja lá o que isso for, é um desejo que brota de uma semente que sou eu mesmo, não é algo que apenas me acontece. Na forma não diferem. Meu desejo não é menos violento e obsceno que o seu, quando ela me trespassa, estou liberto de qualquer pudor, meus olhos flamejam, deliro com ela sob todas as formas de união carnal, mas, e aqui nos distanciamos, enquanto a violência do seu desejo violenta, reduzindo a pessoa ao corpo, sugando-lhe a química apenas para a satisfação do desejo, a do meu penetra na alma, eleva o corpo à categoria de pessoa, cada gota de suor toma a dimensão de um orvalho que o corpo dela esponjal absorve, pois todo esse desejo voluptuoso, e não menos demoníaco, vem aveludado por uma capa emotiva, que, quando toca, não só absorve, mas doa também, cede, sou animal sem ser animalesco. No fundo, o romântico aqui é você, olhando para a dimensão mais idealista do termo, pois acredita numa natureza dicotômica e cindida muito pouco humana. Assim, para concluir e calar a leviandade que me sugeriu há pouco, meu desejo dual, que vem de fora e de dentro, embora possa ser desperto por aquela ruiva, e sim, eu a admirei, não poderia tê-la por objeto, pois na sua própria dinâmica, intangível pela minha vontade, as mãos alvas da ruiva seriam magicamente substituídas pelas mãos arredondadas da vizinha, e assim com todo o resto, de modo que, quando me desse conta, estaria entrelaçado não com a ruiva, mas com aquela que só de ver ou pensar me emociona.".

domingo, dezembro 16, 2007

Sem desculpas

Eu entendo perfeitamente a intenção louvável de um pai de querer educar os seus rebentos com o que há de melhor na nossa cultura ocidental, colocando-os em contato com obras clássicas desde a mais tenra infância. Contudo, essa intenção egoísta não está acima de modo algum da vontade pública de usufruir de um concerto com o silêncio absoluto da platéia. Veja bem, se você quer que o seu pimpolho escute e deguste música erudita, submeta-o ao enxoval musical no conforto do seu lar. Eu não tenho nada a ver com isso. É de uma imbecilidade sem tamanha esperar e de uma crueldade insuportável querer que uma criança com menos de 10 anos fique sentada numa sala escura completamente quieta, sem falar e se mexer. Se muitos adultos pseudo-cientes de si mesmos já não conseguem segurar a própria língua, o que não esperar de uma criança que ainda sequer é capaz de distinguir-se do mundo! E sinceramente eu não sei de onde sai tanto bebê assim, estavam lá em enxame. Não é fácil me irritar, mas o som gutural de hominídeos infantes num concerto tira-me do sério, me desconcerta, me desconcentra. Não, não foi por ser de graça, o público era o mesmo. Quando paguei para ouvir a nona do Beethoven, a mesma horda estava lá. Não há desculpa para a má educação de pais com boas intenções.

domingo, dezembro 09, 2007

Mãos

Alfredo um dia abordou a vizinha e, desde então, troca algumas palavras com ela sempre que se encontram no elevador. Encontros não raros, é verdade, haja vista a sua diligência intuitiva em perceber os horários dela. Agora ele escreve também, movido pelo mesmo encantamento que outrora despertara o interesse do remetente, do qual, aliás, não temos mais notícias. Alfredo tem manias estranhas, como a sua fixação por mãos. Uma vez ele me disse que era capaz de extrair todo o perfil psicológico de uma pessoa só de olhar para as mãos dela. Não duvido que ele realmente leve a sério essa idéia, embora eu seja incrédulo sobre os seus resultados. Mas isso é lá com ele. Ontem ele me mostrou um bilhete que escreveu para ela e o reproduzo aqui a título de curiosidade, como exemplo da sua mania.

Enquanto te ouço falar, é difícil às vezes não me deixar levar pela beleza das tuas mãos, elas me magnetizam de tal maneira que só com muito esforço junto as tuas palavras em uma frase com sentido. Fico perturbado. Teus dedos perfeitamente arredondados, delicadamente grossos, sem gordura, diria ternos e maternais, embora não tenha ainda entrelaçado a minha mão na tua, entram imponentes na minha imaginação, arrebatando-me emoções e sensações. Tenho a impressão de que me sentiria seguro e calmo ao apertá-las. Preciso dizer: não há outras mais belas na minha experiência lembrada e não digo isso como clichê de sedução, não, não mesmo. As mãos sempre tiveram sobre mim um efeito notável de encantamento, diria até que não raramente viso-as antes mesmo de encarar a face de uma mulher, desinteressando-me dela, a despeito de tudo o mais, se forem grosseiras ou vulgares. Mas as tuas mãos se casam perfeitamente com tudo o que vejo em você. São francas, firmes, clássicas, sem excesso nas pinturas e no tamanho das unhas, que, aliás, estão sempre muito bem polidas. Não pretendo me delongar, só queria me explicar, caso algum dia tenha me estranhado por demorar demais na contemplação das tuas mãos. É consciente sim, mas nem por isso tenho o controle, é como se elas emitissem o canto das sereias e confesso estar muito longe da virtude de Odisseu. Sucumbo. Quando penso em você, lembro-me delas, sempre.

terça-feira, novembro 27, 2007

Belo Horizonte

Confesso que senti inveja da cidade que me abrigou por tanto tempo. Deu até um pingo de saudades. Veja.

E num dia desses, sentou no banco da frente, no mesmo ônibus costumeiro, uma mineira de BH. Fosse só mineira, não daria nada. Mas ela começou a falar com a amiga sentada ao seu lado de situações e lugares que me foram próximos. Falou do CMBH, da festa da Poeira, que uma vez ajudei a organizar, quando prestei serviço militar obrigatório e, por fim, citou a minha imponente e saudosa UFMG.

Mas da UFMG, para falar a verdade, eu me lembro e sinto saudades quase todos os dias ao entrar na biblioteca e nos banheiros da UFPR...Não vou nem comparar a diferença monumental dos acervos, pois seria grotesco da minha parte, mas puxa, há 8 anos atrás, quando iniciava o meu mestrado em filosofia na UFMG, eu podia fazer reservas e renovações dos livros pela internet, ao consultar o livro, tinha acesso a desenhos que mostravam, no ambiente da biblioteca, a localização da sua estante, aqui me ofertam apenas uma consulta online muito da porca e a renovação, que não pode ser feita pela internet, tem de ser presencial, se limita a uma única vez por não terem um sistema simples de reservas que impediria um aluno de renovar um livro indefinidamente. Não vou nem comentar que aqui só posso emprestar dois livros simultaneamente...

sábado, novembro 24, 2007

A caminhada

A labuta obstinada e incessante recompensa sempre o autor, inventor ou artista, conferindo em suas mãos e mentes os artefatos e as capacidades necessárias para esculpir as suas obras com primor e perfeição. Sim, concordo com a F. que o caminho retilíneo, sem dúvidas, sem paradas, sem mudanças, é, ao menos no mundo euclidiano, o mais curto até a criação cristalina. Contudo, não podemos desprezar a importância do vadio que erra pelo mundo sem propósito, desbravando paisagens inauditas, ainda que apenas para colocar por onde passa uma placa grosseira que será depois meticulosamente pintada e polida pelo artista.

As coisas só não ficam bem, para o vadio, quando ele não aceita o seu destino e se compara com o artista, queixando-se da falta de retidão, incomodando-se com o seu andar em ziquezague, procurando retroativamente, em desespero, uma ligação entre as paisagens visitadas. Tudo em vão. O vadio só vai conseguir tirar proveito da sua situação, forjando olhos para o inusitado, com alegria e vivacidade, quando aceitar a sua existência paradoxal, quando perceber que o seu propósito é justamente não ter propósito algum, que ele não anda para chegar em algum lugar, mas simplesmente para andar, a fim de que sempre tenha alguém andando.

sexta-feira, novembro 23, 2007

Força

Até que ponto está em suas mãos não se deixar afetar pelo que acontece nas imediações, pelo que te fazem ou deixam de fazer? Uma sensação nos atropela. Reagimos emocionalmente ao mundo e às pessoas sem um ato de reflexão, o corpo se modifica em piloto automático, para o seu bem ou mal, como anjo ou algoz. No entanto, sinto emanar de mim uma força, uma vontade, uma capacidade de resistir a um pensamento penoso que se reitera segundo após segundo diante de uma emoção que tenta me sugar e engolfar em lágrimas. Uma luta caótica, um eu que se cinde, que se ataca e se defende. Agora ele apenas sorri, vitorioso, imaginando, antecipando, o vento fresco que buscará na aurora do dia junto com o azul que lhe cobrirá os olhos, e as pernas que libertará para correrem vadias o mundo que o encanta.

quarta-feira, novembro 14, 2007

Testa

A testa deveria ser um letreiro luminoso onde apareceria o nome do livro que a pessoa está lendo no momento. Poxa, a moça passou o percurso inteiro do ônibus com um sorriso na boca enquanto lia o seu livro. Provavelmente era de literatura, pois pude identificar que era um daquela coleção de bolso da Martin Claret, mas não consegui ver o título. Saco, agora vou ter de morrer na curiosidade. E o trecho deveria estar realmente muito bom, pois ela não desfez o seu sorriso em nenhum momento. Qual era o contexto, o que estava acontecendo, qual era a história? Ó céus!

sábado, novembro 10, 2007

Há males que vem para bem

Alguns vieram me dizer que Alfredo é um puto por ter roubado e rasgado a carta alheia, infligindo um sofrimento gratuito e injusto sobre o remetente. Como conheço todas as partes envolvidas nesta história e, posso assim, portar-me, no relato, como ser onisciente, saio em defesa de Alfredo em virtude do que vim a saber. Apesar da sua má intenção, Alfredo acabou fazendo bem ao remetente quando liquidou com a carta. Sejamos sinceros, eu conheço bem a vizinha de Alfredo e a verdade é que o melhor sentimento que ela conseguiu sentir pelo remetente foi a compaixão. Nada mais. Não vou dizer que nada menos também, pois eis aqui o nó da questão. Sabe quando a mulher, após achar graça e se envaidecer ao perceber olhares interessados, começa a se incomodar com a persistência desses mesmos olhares e, por fim, toma nojo deles se não sente nenhum interesse correspondente? Pois é nesse limiar que encontramos a vizinha de Alfredo. Vivida e experiente, já vinha percebendo a comoção que a sua presença provocava no remetente, mas não levou muito a sério, imaginando que a sua frieza lhe mataria mais cedo ou mais tarde a esperança. Para o seu infortúnio, o delírio parece ser apanágio dos apaixonados e mesmo diante de um comportamento que qualquer um veria como irritação ou rejeição, o remetente interpretava como desatenção, timidez ou mesmo um jogo de sedução, que, certamente, só na sua cabeça fazia algum sentido. Um coitado, falemos a verdade, mas nem por isso incapaz de despertar o desprezo crescente da vizinha. Eis então que Alfredo salva o remetente de cair sob a mira do ódio ao rasgar a sua carta patética, pois era o estopim que faltava para ela se explodir em uma rejeição definitiva, em um nojo sem volta.

Vários dias se passaram, reinando entre a vizinha e o remetente o mais profundo silêncio. Hoje a angústia do remetente não é mais a da espera e sim a do arrependimento, pois já não está mais febril como antes. Mal sabe ele que desta vergonha está livre graças ao puto do Alfredo.

Introversão

Eis aqui um bom texto sobre o que é a introversão e como introvertidos se comportam. Tenho de concordar com o autor que a maior dificuldade do introvertido é se fazer entender para um extrovertido, explicar para ele que precisamos de momentos de solidão após uma interação social, que não desejamos estar na companhia de outros seres humanos o tempo inteiro e que isso não é sinônimo de gostar menos ou de frieza e muito menos de infelicidade ou tristeza. Já cansei de ver extrovertidos me olharem com aquela cara de compaixão depois de tomarem ciência dos poucos amigos que possuo ou dos longos tempos que passo sozinho na minha agradável companhia. O extrovertido simplesmente projeta sobre o introvertido o seu sofrimento ou angústia de quando está só, de quando o seu celular fica sem tocar ou receber mensagens por uma hora, levando-o quase ao pânico. A ele só me resta dizer que não tenho esse tipo de sofrimento e, por isso, sua compaixão é completamente sem sentido. No final, sou eu quem acabo ficando com pena do extrovertido pela sua falta de capacidade de se colocar no lugar do outro. O extrovertido precisa entender que o introvertido está bem quando procura a reclusão. Ou melhor, ele procura a reclusão justamente para ficar bem e sente-se feliz ao usufruí-la.

O texto também distingue apropriadamente a introversão da timidez e da misantropia. Essas características não andam necessariamente juntas em uma pessoa. Indivíduos introvertidos podem fazer discursos para grandes públicos sem um cisco de nervosismo ou apreensão. Mas certamente procurarão a reclusão após a fala. No meu caso, além de introvertido, também sou tímido, mas essa conjunção de características na minha pessoa é acidental. E não vejo em mim nada que possa me caracterizar como anti-social. Muito pelo contrário, minha calma e paciência fazem com que o meu trato com os outros, mesmo desconhecidos, seja, em princípio, bem amigável. Esses dias mesmo passei a cumprimentar o vigia de um restaurante que fica no meu caminho de retorno para casa. Eu sempre passava ali e o via e ele a mim também, por que não saudá-lo, na sua sim solidão obrigatória, labutada, talvez sofrida, com um "boa noite" ou "tudo bem"?. Sociabilidade não tem nada a ver com falar pelos cotovelos. Conheço, aliás, pessoas extrovertidas que são exageradamente irascíveis, que se deixam afetar visivelmente por qualquer contrariedade e, portanto, são muito mais anti-sociais do que eu.

Lembro quando falei pela primeira vez ao meu irmão, então com os seus 15 ou 16 anos, que eu precisava ficar só depois de passar um bom tempo mesmo com as pessoas que eu mais gostava, os familiares, os amigos ou a namorada. Ele reagiu com espanto, interpretando o meu comportamento como indício de que gostava menos dos meus familiares que eles de mim, por exemplo. Não é nada disso. Se posso colocar a matéria de uma forma clara, é essa: depois de um certo tempo interagindo com outras pessoas, sinto saudades colossais de mim, de falar comigo, de pensar comigo e, neste momento, a reclusão se torna um imperativo, uma necessidade da qual não posso, sem sofrimento, me furtar. Por sorte, o meu irmão acabou me entendendo. Infelizmente, não é sempre assim.

sexta-feira, novembro 02, 2007

Espera

Carta que Alfredo roubou da vizinha, antes que ela lhe pusesse as mãos. Ele ainda não sabe se vai entregá-la, é o destino de duas vidas em sua mãos. No entanto, tudo indica que o desenrolar da história já tem um destino previsível. Ele entregar ou não a carta terá apenas o efeito de antecipar ou retardar a espera angustiada do outro, o remetente. Mas quem disse que Alfredo não aprecia um pouco de sadismo?

Fico me perguntando se deveria me calar, aceitar a percepção que se me
apresenta como evidente, fazendo com que o tempo encubra com montes de
areia o sentimento que hoje é latente, sentimento solitário, sem
par. Ganho ou perco ao falar? Não sei, realmente não sei. Sei apenas
que, ao falar, cristalizo a verdade, mato a esperança que tece
ilusões. Não é nada elegante o que vim aqui fazer, sim, eu sei, e já
imagino você franzindo a testa achando isso tudo um grande absurdo. E
não deixa mesmo de ser. Mas acaso há alguma retidão no que a gente
sente? Na verdade, até tem, posto que nenhum sentimento nasce do
nada, ele tem uma história, uma gênese. Se o torna racional, eu não
sei, mas é certo que faz dele um pedacinho de si, para o qual você
olha e se reconhece. Quando a vi pela primeira vez, voltei para casa
com o gosto da admiração na boca. Mas sem comoção, apenas deslumbre,
afinal, ainda estávamos deslizando sobre a superfície das
aparências. Mas calhou de nos vermos mais e mais vezes, muitas vezes e
nesse vaivém pude começar a conhecer os detalhes, a ver um pouco mais
a fundo, pincelar seus meandros. Aos poucos, a admiração foi ganhando
um tom emocional e quando eu me dei conta do que se passava comigo, já
não era mais possível olhar para as tuas mãos de mulher e não imaginar
as minhas a apertá-las, ver teus lábios e não desejar beijá-los,
acordar pela manhã e não me perguntar pelo seu bem-estar, ouvi-la
falar e não me deixar levar pela musicalidade do seu timbre.
Não me tomes por exagerado, não dei nenhum nome
para o sentimento aqui declarado, nem pretendo pintá-lo com mais cores
do que possui. Ele ainda é fetal, germinal e antecipo o seu parto
justamente para lhe dar um fim antes que nasça por completo. Só venho
pedir pelo teu "não" claro e explícito, pois mesmo que eu já o tenha
intuído, a esperança não me deixa escutá-lo. Só o teu "não" tem a
capacidade de penetrar em minha alma com a verdade verdadeira,
derradeira. Ajude-me a abortar esse bem que só me faz mal!


Alfredo sorri, desponta em seu íntimo a curiosidade pela vizinha que até então ele só havia visto algumas vezes de relance. Em causa própria, rasga a carta. Sua moral é rasa, pragmática, o mero amor possível lhe alivia a consciência do delito cometido. Já sente, aliás, raiva e ciúmes do rival, o pobre e desavisado remetente, que, pelo andar da carruagem, amargará ainda mais com a sua espera angustiada.

domingo, outubro 28, 2007

O Passado

Ontem assisti no cinema "O Passado", dirigido por Hector Babenco e contando com a atuação do galã Gael Garcia, no personagem de Rimini. Não vou narrar a trama, só quero chamar a atenção para a imagem negativa do comportamento feminino em relacionamentos amorosos pintada no filme. Todas as mulheres têm um comportamento emocional exagerado, uma compulsão que beira à loucura, e o ápice desse delírio é magistralmente encarnado pela personagem Sofia que, após se separar aparentemente de modo amigável de Rimini, passa a perseguí-lo, por anos, em busca do amor perdido; mesmo uma "separação pode fazer parte de uma história de amor", diz ela na sessão inaugural de um clube criado por ela para mulheres abandonadas compartilharem suas diferentes obsessões pela volta do marido/amor perdido. Vera, uma outra namorada de Rimini, é obcecada pelos seus ciúmes e chega a ter uma ataque completamente desmedido quando o vê dando pouca atenção ao que ela falava para brincar ternamente com uma menina de 6 ou 7 anos. Depois que ele agradece um biscoito que a menina lhe traz, brincando um pouco com ela, Vera explode, "E agora, vai querer chupar a xoxota dela também?". A mulher mais "normal" do filme é uma ricaça que tem fetiche por instrutores de academia, mantendo com eles intercursos sexuais. Mas ela racionaliza seu comportamento, não se apega aos rapazes e, assim, podemos vê-la como uma mulher com uma luz de razão no meio de outras que só agem segundo seus furores emocionais. É verdade que qualquer mulher tem razão suficiente para sair revoltada da sessão. Mas a imagem do comportamento masculino também não é muito melhor. Rimini é um puto, um canalha, quase trai a esposa na frente do próprio filho, ainda bebê, num motel de quinta categoria. Mas Rimini é sobretudo um fraco, incapaz de falar sobre seus sentimentos, se percebe que o relacionamento está acabando, já procura outra mulher, não consegue ficar sozinho e quando é abandonado pela segunda esposa e se vê desamparado, só e impossibilitado juridicamente de ver o filho, sucumbe na mais absoluta e abjeta depressão. A fraqueza de Rimini fica ainda mais evidenciada no alívio constante que ele procura encontrar com o uso da coca.

Assim, se o filme tem alguma tese sobre a diferença de comportamento entre os gêneros nos relacionamentos, ela é a de que as mulheres são obsessivas, capazes de cometer as maiores loucuras para reaver o amor perdido, remoendo um passado que assim se estende pelo presente, e os homens são emocionalmente fracos, não se aguentam sozinhos, verdadeiros bundões. É claro que as duas imagens são, genericamente falando, falsas. Nem todas as mulheres são obsessivas, assim como nem todo homem é fraco. Na verdade, pode muito bem ser o caso que mulheres nem sejam mais obsessivas que os homens ou, mesmo que sejam, é apenas um traço estimulado pela nossa cultura. Não sei, pouco importa. Importa mesmo é o efeito catártico que essas duas imagens provocam na platéia, na angústia gerada pela visão da situação ao mesmo tempo humilhante e patética a que uma pessoa pode chegar, seja ela homem ou mulher, por causa de uma obsessão sem limites. De maneira semelhante, a fraqueza de alguém que não se aguenta sozinho nos remete à importância do constante encontro consigo mesmo, da necessidade de aprender a sofrer a própria dor sem muletas.

Bolo de Mel


A receita me foi passada maternalmente, é a primeira não-de-caixinha que tento fazer e deu certo. Pudera também, mais simples impossível ;)

2 xícaras de trigo
1 xícara de açúcar mascavo
1 xícara de aveia
1 xícara de mel
1 xícara de água quente
1 ovo
1 colher (sopa) de fermento em pó.

Coloque em uma tigela o trigo, a aveia, o açúcar e o fermento. Despeje o mel e mexa. Despeje a água quente e mexa. Por último, coloque o ovo e mexa bem até ficar uma massa homogênea. Fica a critério adicionar nozes, castanhas etc. Optei pelas nozes e ficou muito bom.

domingo, outubro 21, 2007

Estar com

Abraço de irmão, abraço de irmã, abraço de mãe, todos em ciranda sorrindo, expelindo as saudades, meu olho em cada um deles, tudo abarcando, nada abarcando, só sentindo, mergulhado na emoção, até as fagulhas que antes incendiam, agora me são brisas, eu sei, eles sabem, mesmo sem saber, que o que mais importa é o simples, o mundano, o irreflexivo estar com.

domingo, outubro 14, 2007

A Concepção

Foi , mas vai aqui também:




A Concepção (2006), dirigido por José Eduardo Belmonte, narra a história de um grupo de jovens que, cansados de seus seres e de suas existências entediantes e repetitivas, funda um movimento chamando "concepcionista". O bordão do movimento é ser uma nova fraude a cada dia, inventar e viver uma nova personalidade que não dure mais que 24 horas. A chave para por em prática esse projeto é o hedonismo exagerado. Submergir em prazeres efêmeros, intensos e fugazes, valendo-se de drogas inclusive para ajudar a eliminar a prisão maior do ser: a memória. "Devemos eliminar a memória", diz um concepcionista. A busca incessante pelas múltiplas personalidades resulta da constatação de que "as pessoas estão doentes de si mesmas", há, em todo ser humano, uma angústia por estar preso ao seu ser. O personagem X (Matheus Nachtergaele), que serve de guru ao grupo de jovens e cuja identidade é desconhecida, lança a reflexão inaugural do movimento: "ser sempre o mesmo é como morrer aos poucos. Para viver, é preciso se libertar". O ego deve morrer em prol do prazer, da liberdade de si.

A execução do projeto concepcionista coloca uma dificuldade imediata de ordem prática: como garantir a subsistência se a cada dia você é uma personalidade diferente e não mantém qualquer consistência nas relações e nem persistência no trabalho? Problema que é resolvido com o conhecimento períto de X na falsificação de documentos e cartões de crédito. Assim o grupo pôde cair em orgias, consumir drogas, desligar-se do mundo, viver fantasias, fingir profissões sem se preocupar com o pão de amanhã.

O filme termina com um choque de realidade, quando a polícia faz uma batida no apartamento do grupo para apurar uma denúncia de tráfico de drogas. Os membros principais escapam a tempo, se separam e tentam ainda manter suas vidas concepcionistas, agora em situações mais precárias, sem a ajuda estelionatária do personagem X. Não há uma conclusão definitiva sobre o modo de vida concepcionista, o diretor parece mesmo oscilar no seu próprio julgamento. Os jovens peristem, apesar dos riscos e dificuldades, mesmo quando a prisão se apresenta como provável.

Em consonância com o mote da "morte ao ego", o filme explora o nú masculino o tempo inteiro. O pênis está sempre visível, solto e balouçante nas cenas de orgia, sobrepondo-se ao corpo feminino, que, embora apareça, não recebe grande destaque. Parece uma clara tentativa de chocar os padrões sociais que execram o nú masculino nas telas de cinema.

"A Concepção" deixa alguma reflexão interessante? O movimento tem um apelo fraco, afinal sua execução passa pela bandidagem, pela falsificação de documentos, riscos que poucas pessoas estarão dispostas a correr para "libertar" o seu eu. Há um certo irrealismo psicológico também na própria concepção do concepcionismo. A não ser que você elimine por completo a sua memória, jamais vai conseguir viver a farsa de dentro, como indistinta de si, ela sempre lhe será fingida, o que denuncia a percepção de um Eu constante, que não se altera, ou pelo menos que não se desintegra na velocidade diária requerida pelo concepcionista. O método hedônico de eliminar a memória, consumindo drogas compulsivamente, tem o efeito de deixar a pessoa tão desligada da realidade e tapada socialmente que é de se questionar se ainda faz sentido dizer que ela vive alguma personalidade de alguma maneira. Os próprios concepcionistas do filme não atingem esse grau absoluto de eliminação da memória. Isso fica vizível quando Liz, que fora para São Paulo passar um tempo aplicando suas farsas, resolve voltar à Brasília para se juntar novamente aos seus amigos concepcionistas, sentindo saudades de suas bagunças. Ora, saudades é algo que não cabe a um ser sem memória.

A despeito das falhas de argumento, "A Concepção" tem ao menos o mérito de colocar em destaque uma questão existencial que qualquer ser humano já deparou ou irá deparar um dia: a angústia e o desespero de ser quem é. Difícil imaginar uma pessoa que, em algum momento da sua vida, não tenha sentido um desespero enorme por se sentir preso à pessoa que é, às expectativas que são criadas em seu entorno, à impossibilidade de se mover em alternativas de vida. Esse tipo de angústia já havia sido identificado e explorado por Kierkegaard em "O Desespero Humano". No entanto, lá ele aponta a oscilação constante do Eu na sua relação consigo mesmo entre dois desesperos antagônicos, o primeiro é aquele já discutido e o segundo é justamente o seu oposto: a angústia de não ser quem é, o desespero em se ver forçado a se refugiar de si mesmo. Exemplo desse segundo tipo de desespero obtive pelo efeito catártico do próprio filme. Ao ver cenas de hedonismo exagerado e a tentativa de eliminar a memória, senti quase angustiado a necessidade de ser quem sou, de não perder as minhas memórias, de ser capaz de sentir saudades das pessoas que me foram caras, de não me afastar de mim mesmo num frenesi hedônico que não costure nenhum rumo a minha existência. Esse segundo tipo de desespero, tão comum quanto o primeiro, não é mencionado no filme, o que é até de se esperar, posto que ele enfraquece a tese concepcionista, ao nos fazer constatar que as pessoas não estão assim tão "doentes de si mesmas". Há sim uma oscilação existencial, em virtude das várias situações que vivemos, positivas e negativas, entre querer ser desesperadamente quem é e querer ser desesperadamente outro. Por fim, a própria solução hedônica para o primeiro tipo de angústia e desespero não parece de fato uma solução, mas uma fuga. Esquecer-se de si pela perda de memória e submergir no prazer fugaz e efêmero tem mais a cara de um encobrimento do problema que uma solução para ele. Põe-se o eu para dormir, assim a angústia não é vivenciada. Mas pode-se questionar se um efrentamento consciente do desespero não poderia resultar numa transformação positiva de si mesmo.

terça-feira, outubro 09, 2007

Sunga

Então que eu preciso comprar umas...chego na loja e a vendedora me pergunta o que eu quero e eu digo, você tem...não sai, travado, mudo. A vendedora com aquela cara de "não estou entendendo". Eu as vejo logo adiante e aponto. "Ah, cuecas, qual tamanho?". Gente, não dá para falar essa palavra em público sem pudor. Eu não consigo. Ela é suja, é feia, simplesmente deselegante. Nunca notaram o óbvio? CU - ECA. Ficou mais claro assim com essa divisão silábica? Ainda não? ECA - CU, perceberam? Então que eu sempre me refiro a essa vestimenta íntima por "sunga", mesmo sabendo que sungas são aquelas coisas que usamos na praia.

segunda-feira, outubro 08, 2007

Irrealidade

Quando o sonho é assim suave e delicado, sedutor e envolvente, próximo do idealizado, leva um bom tempo para perceber a chuva ácida que cai sobre o corpo, criando bolhas na pele, feridas que ardem. O sonho é tão desejado que ficamos surdos para o coro de vozes que denunciam a sua irrealidade. No mundo ideal, a nossa capacidade de sonhar não é tão ilimitada.

quarta-feira, outubro 03, 2007

Onírico

Sonhei que tinha um blog perdido, não mais visitado, atualizado e cujo endereço eu havia me esquecido. Eu o havia criado logo quando cheguei em Curitiba, mas depois fui escrevendo mais em outros e o deixei de lado, até esquecê-lo por completo. O pior de tudo foi, depois de acordar, continuar com a forte impressão de que ele realmente existiu. Já tentei olhar em várias contas minhas e nada, nenhum rastro, nenhuma pista ou sinal, o que evidencia o meu engano. Mas a impressão forte, vívida, imponente, não se desfaz. É como se eu realmente me lembrasse dele. E agora eu não sei se estou realmente me lembrando ou se um sonho entrou no canal errado e se solidificou na minha mente em forma de lembrança. Para avacalhar geral, no sonho, me lembrei que havia escrito coisas importantes nesse blog, mas ao acordar, só a parte de que eram importantes ainda estavam na memória, o conteúdo dos escritos não veio para a vigília comigo. Agora estou aqui completamente tomado pela curiosidade de saber o que eu supostamente um dia escrevi...É a idade.

segunda-feira, outubro 01, 2007

Se ao menos...

Bilhete confessionário achado na rua:


Se ao menos eu pudesse distinguir a compaixão da paixão em teus olhos, eu teria um guia de ação. Mas até o seu abraço é nevoeiro, não deixa pistas no seu aperto incógnito. Invisto desarmado, quase nú no sentimento, ainda que mudo, e você se defende terna, porém distante, sem nunca ousar tatear a minha face. E, no entanto, você me procura. Doces olhos teus que pousavam em mim entre uma colherada e outra, eram de ternura ou admiração? Espero com a paciência de um Buda ou lanço-me na loucura de dizer o que com muito esforço tenho mantido calado no meu corpo? Não queria assustá-la, de modo algum, mas também não sei por quanto tempo conseguirei me domar.

sábado, setembro 29, 2007

Sentido

A dor e o sofrimento são praticamente ubíquas na vida de todo ser humano. Ao longo de nossas vidas, nos encontraremos com eles várias vezes. Contudo, as atitudes podem variar. Algumas pessoas preferem simplesmente ignorar que a dor e o sofrimento existem. Logram êxito nesse intento lançando mão da diversão e do entretenimento e, em casos mais extremados, das drogas, que também não deixam de ser entretenimento. Não há fuga melhor da dor que lançar-se no prazer. São pessoas que acabam tendo um sorriso constante para a vida, agitadas e inquietas. Eu as considero otimistas falsos, pois elas sorriem para a vida não por um motivo positivo, mas pela ausência de motivos negativos. Outras pessoas pecam de maneira oposta, preferem aprofundar a dor e o sofrimento presentes, tomando-os como a totalidade de seus mundos. Elas exageram a dor que possuem e, às vezes, reconhecem mesmo aquelas que não têm. A ordem do dia é reclamar. Conseguir sobreviver, para essas pessoas, é tão digno de mérito quanto os feitos de Hércules. A vida é sem sentido e absurda, pois, como nos lembra o mito de Sísifo, não há qualquer razão para vivermos imersos eternamente na repetição tediosa e dilacerante da dor. Esses são os pessimistas. Entre uma atitude e outra, penso que há espaço para uma posição que poderíamos chamar de "otimismo verdadeiro" ou ainda "otimismo pessimista". Ele é verdadeiro, pois engendra um motivo positivo para sorrir diante da vida, mas ele também é pessimista, pois não nega os motivos negativos, isto é, não ignora a dor e o sofrimento existentes. Óbvio que esse motivo positivo não pode ser o prazer presente, usado pelos otimistas falsos, pois ele é leve e efêmero demais para contrabalancear a ubiquidade do sofrimento. Um sujeito que se refugia o tempo inteiro no prazer reconhece automaticamente que esse mesmo prazer, ao cessar, ao se esgotar, não lhe deixa nada que o permita suportar a dor. Por isso mesmo a lógica da fuga incessante. Como, então, é possível o otimismo verdadeiro? Ora, se um motivo positivo para sorrir diante da vida não se encontra no prazer, no nível da sensação, ele deve estar no nível do sentido. Você precisa encontrar justamente aquilo que os pessimistas afirmam a vida não ter: um sentido. O sentido, se você o tem, é algo que lhe permite sorrir para a vida mesmo diante da dor, mesmo reconhecendo a dor. Ele lhe dá forças para enfrentá-la. Não precisa fugir. O único problema é que ele não se acha assim tão facilmente. Mas as possibilidades são inúmeras. Schopenhauer fala do contato com o absoluto por meio da intuição, Tolstoi, da experiência religiosa, o toque divino sobre o ser. Ambas têm em comum a trascendência, a idéia de que algo além do humano pudesse lhe dar um sentido, uma direção.

Eu sou mais modesto. Não nego a possibilidade de uma experiência religiosa ou de um contato intuitivo com o absoluto, apesar de considerá-los muito improváveis, mas acredito que há possibilidades mais mundanas para o sentido da vida e bem mais prováveis. Penso em especial na experiência do amor, que é, ao mesmo tempo, transcendente e imanente. O amor é completamente imanente, emana de nós mesmos, é humano, nasce da relação do eu com o outro, mas, ao mesmo tempo, transcende o eu em unidades maiores, ceifa o isolamento existencial, cria uma interseção onde só parecia haver silêncio, vazio ou incompreensão. É verdade que um amor talvez não lhe dê um sentido para toda a vida, mas ele lhe dá um sentido suficientemente forte para suportar o sofrimento mesmo quando cessa o prazer presente. Os amores particulares acabam e, com eles, a força do sentido que engendraram, mas o amor em si enquanto direção é um sentido perfeitamente mundano e realista para um otimista verdadeiro.

Eu sou um otimista verdadeiro com esporádicas e efêmeras recaídas pessimistas. Eu também não tenho nada contra o otimismo falso e me valho das suas estratégias vez ou outra. Só acho que a busca incessante pelo prazer efêmero entedia, além de pesar no bolso.

sexta-feira, setembro 28, 2007

Des-umanidade


Somos humanos por sermos desumanos ou desumanos por sermos humanos?
O homem ao fundo ainda não percebeu que o monge se queimando tem o fogo que ele precisa para ascender o seu cigarro. Questão de tempo. ;) A variação de valores é, ao mesmo tempo, a glória e a desgraça do humano.

domingo, setembro 23, 2007

30

10, 20, 30, idades que marcam, para nós que raramente nos tornamos centenários. Se vivêssemos 2000 mil anos, a passagem dos 9 para os 10 seria tão marcante quanto é atualmente a passagem de 23 para 24, por exemplo. Mas, enfim, na minha perspectiva decenária, lembro que ao fazer dez anos contava com a alegria de ter recebido um novo irmão, temporão. Deixei de ser o caçula, mas isso sinceramente não me incomodou. Ao completar 10 anos, estava mais concentrado nos meus planos de ser algum tipo de cientista, ainda não sabia que tipo, se é que nessa época eu tinha clareza dos tipos em que eles poderiam se dividir. Acho que não. Tinha apenas uma vaga imagem de um sujeito que faz invenções mirabolantes e era o que eu queria fazer. Foi nessa época que comecei a me interessar por ficção científica, inicialmente manifestada na minha seleção literária. Minha independência já era visível. Ia nas livrarias sozinho, sim, essa era a vantagem de passar a infância numa pequena cidade, e comprava os livros do meu desejo, sem qualquer intervenção materna ou paterna. Mas a melhor parte vinha depois. Eu caçava o endereço das editoras e enviava cartas pedindo catálogos dos seus livros. A Ediouro era a única que tinha um programa de vendas por reembolso postal e durante um tempo tive que me limitar a ela. Pelo menos ela tinha, na época, umas coleções até interessantes, dados os meus gostos. Lembro bem até hoje da coleção Enrola e Desenrola. Geralmente histórias de ficção científica em um formato pré-hipertexto. A cada duas páginas, você escolhia um desenrolar possível da história, entre algumas opções que lhe eram dadas, de modo que o mesmo livro acabava contento entre 15 e 20 desenrolos possíveis. Toda essa transação, pedir o catálogo, fazer o próprio pedido e, em seguida, ir buscar no correio o pacote quando recebia o aviso de chegada, era feito por mim mesmo sem nem que os meus pais às vezes soubessem. Recebia uma mesadinha, então não havia necessidade de pedir dinheiro para o pagamento. Com que alegria eu não ia ao correio pegar os meus livros! E assim os meus 10 anos foram marcados por essa busca frenética pela ficção, pelo imaginário de ser um cientista.

Os 20, posso dizer, vieram coroar um certo otimismo com a vida, brando é verdade, mas suficiente para ao menos solapar a acumulada depressão dos anos anteriores, nascida com a adolescência e intensificada até então. O contato com a filosofia, dos 16 aos 19, embora tenha consumido minha atenção, meu tempo e proporcionado intensas fruições intelectuais, acentuava também as minhas dúvidas. Minha relação com a filosofia sempre foi paradoxal, de amor e ódio. E o amor...o amor, que até então havia passado ao largo da minha vida, apenas como idealização, imaginação e desejo não realizado, desabrochou nessa passagem dos 19 para os 20. Descobri em mim a intempestividade, a loucura, a adorável sensação de seguir a desrazão em prol de uma emoção. Ter sido assim tocado pelo amor de uma maneira tão profunda numa época me que o meu desespero existencial era máximo teve o efeito de me abrir uma nova perspectiva diante da vida.
Até então, a realização profissional, o desejo de fazer alguma contribuição relevante para a filosofia me apareciam como as únicas finalidades mais profundas legítimas. Contudo, na primavera dos meus 20, percebi que o relacionamento com o outro tinha uma importância tão fundamental ou ainda maior que a realização profissional, que por ela me humanizava e me descobria enquanto ser e existência, percebia meus limites, defeitos e os ultrapassava. Desde então a busca pela vivência de um relacionamento mais profundo e significativo passou a fazer parte da minha agenda, do meu horizonte.

Hoje completo 30. Ou melhor, completei às 7:05 da manhã, segundo a minha certidão de nascimento. Mas como disse uma amiga esses dias, não dá para confiar nesses registros e um número assim redondo como o 5 levanta suspeitas. Concordo. E vou mais longe. Acho que o nascimento deveria ser o desabrochar da consciência, provavelmente ainda em estado fetal. Contudo, quem sou eu para criar dificuldades epistêmicas ainda mais fundas. Se já é difícil precisar a hora que você veio ao mundo enquanto corpo, destacando-se da mãe, quanto mais precisar o emergir da sua consciência. Enfim, enfim, os 30 chegaram e ainda não sei o que marcam. Talvez a consolidação das mudanças mais bruscas dos últimos anos. Mudança de cidade, de profissão. Meus compromissos burocráticos com a filosofia foram definitivamente saldados, com a defesa do doutorado esse ano e, ao menos por enquanto, não tenho maiores planos para ela que a diversão que me proporciona ao final do dia antes de dormir, junto com os livros de literatura. Estou feliz com as escolhas que fiz, por mais que, pelo lado financeiro, isso tenha atrasado um pouco os resultados que se espera de um burguesinho da classe média. Mas se tem algo que marca esses meus 30 é a perspectiva de não ter lá grandes perspectivas, de não tentar submeter e forçar todo o meu futuro
a um plano que tenho hoje, de saber aproveitar bem as possibilidades que tenho abertas agora para mim. Tenho sim algumas direções, alguns planos, mas que podem ser mudados conforme o vento que bater em minha porta. Não quero decidir apenas para ser consistente com o passado, não preciso olhar para trás e sentir uma linearidade. O sentido, se há algum, está na própria decisão presente, limitada que seja. E o amor...continua sendo fundamental, cada vez mais fundamental.

quinta-feira, setembro 20, 2007

Atividade

Nunca entendi muito bem as pessoas que me diziam não sentir prazer por nenhum tipo de atividade. "Nem bordado, ler romances?", perguntava eu. Recebia uns "não" tão decisivos que a minha compreensão ficava muda. Alguns diziam que, se gostavam de algo, era de não fazer nada. Eu também gosto de ócio. Quem não gosta? Mas essas mesmas pessoas reclamavam de tédio e angústia durante o seu ócio sofrido. Aí eu já não entendo mais nada. Tédio eu sinto quando ou estou fazendo algo que não gosto, ao qual estou obrigado, ou se o ócio se prolonga demasiadamente sem envolver nada criativo. No primeiro caso, quero que passe logo a atividade indesejada, no segundo, quero que uma atividade apareça logo para me ocupar. Causas bem diversas, mas ambas têm por efeito fazer com que a minha experiência tenha por conteúdo a própria passagem do tempo, a qual se torna, então, um martírio que eu padeço. Sinto o próprio tempo passar ao invés de passar através dele. A minha solução para isso é buscar atividades que me coloquem desafios e obstáculos, que tragam alguma porção de enigma, instigando, enfim, a minha curiosidade e que catalizem a minha atenção por completo. E o principal: que eu sinta algum prazer, alguma fruição em enfrentar as dificuldades dessa atividade. Quando encontro o par prazer e obstáculo cercando juntos uma atividade e me envolvo com ela, esqueço-me de mim, do tempo, do tédio e mesmo da angústia, que, aliás, muito raramente se apossa de mim. Simplesmente sumo, desapareço, entro em alfa, em comunhão com a atividade.

E a chuva caindo cada vez mais forte, derrubando meus olhos, que quase se fecham diante do computador. Pelo menos vem entrando um vento fresco. Mas antes que me esqueça do propósito inicial, não queria dizer que não entendo as pessoas que não buscam atividades para matar o seu tédio, não, não é por isso que não as entendo. O que não compreendo é a pura e simples ausência de prazer, de gosto, de querência. O que poderia ter atrofiado a sensibilidade de uma pessoa a ponto de ela não sentir prazer por nada?

domingo, setembro 16, 2007

Sinaleiros

Eu realmente adoro essa cidade, suas qualidades superam em muito as de outras cidades que já habitei e justamente por lhe querer bem, noto seus defeitos com a esperança de que algum dia eles sejam podados ou atenuados. Então, eu gostaria de falar um pouco da disposição dos semáforos nas ruas de Curitiba. A situação é a seguinte. Imagine que você venha de São Paulo, Belo Horizonte, Brasília ou Rio de Janeiro, aporte em uma rua curitibana e vá caminhando pela sua calçada até a próxima esquina. Na sua frente, uma rua transversal que, na situação de pedestre, se apresenta como um obstáculo a ser ultrapassado, no caso, atravessado. Um cidadão das cidades supracitadas, de imediato, olharia para frente em busca de um sinal para pedestre. Primeira frustração. Eles praticamente não existem aqui. Objeto em extinção. Tudo bem, pensa o cidadão. E continua, posso extrair a informação de que necessito do semáforo (sinaleiro para os curitibanos) para os carros. Então ele vai olhar para a sua esquerda ou direita, conforme a esquina da quadra em que estiver, em busca do semáforo. Ele vai ver o semáforo, vai coçar a cabeça e soltar a sua indignação e incompreensão, como eu fiz logo que aqui cheguei: "como é que esses gênios da urbanização querem que eu descubra se posso atravessar ou não a rua se o semáforo está de costas para mim?". Sim, pasmem. O cidadão está exatamente na linha da faixa de pedestre. O semáforo, ao invés de estar bem no final da quadra, de modo que o pedestre pudesse vê-lo junto com os motoristas, não, está recuado, antes da faixa e, portanto, de costas para ele. Talvez os gênios da urbanização tenham pressuposto a correção moral do condutor curitibano de modo que qualquer pedestre pudesse inferir, com absoluta certeza e sem receios, o sinal vermelho ao ver os carros parados e o sinal verde ao ver os carros em movimento. Tenha a santa paciência!

quarta-feira, setembro 12, 2007

Diferenças II

- Sim, não sou mesmo como tu, sempre de cara feliz. Resplandeço minha dúvida no existir. No entanto, a mesma dúvida que me joga no chão também me eleva. Sou, por assim dizer, bipolar.
- Não esperava outra coisa de ti, meu caro, teu rosto sempre interrogado, louco. Não me espanta que não obtenhas com as mulheres o sucesso que eu obtenho com os homens. A minha crista de convicção seduz, a tua sombra de incerteza repele.
- Hoje estou mais ferino, não me pisarás como no outro dia. Teu sucesso com os homens não se deve tanto assim a ti, mas à tolice deles. Ausentes de vontade, encontraram em ti o guia de suas existências. Eu, ao contrário, não quero a companhia de tolos insensíveis ao pensar, mas sim daqueles que se sentem atraídos pela curiosidade, no seio da qual a dúvida se aloja.
- Tu se refugias em um elitismo que jamais poderá bater de frente com as legiões que trago debaixo dos meus braços.
- De frente jamais, minha tática é a da guerrilha, ataco pelas bordas. Talvez sim, talvez não, teus soldados aos poucos cairão atrás de outras ainda mais cegas que tu. O líder sempre está só entre os seus partidários.
- Tantos a me rodear e tens a coragem de dizer que estou sozinha?
- Tanta convicção para tão pouca percepção. Não vês a fraqueza do elo que os liga a você. Sugam a tua certeza até esgotá-la ou até depararem com outra mais cristalina, sedutora. Vão de porto em porto, ávidos pela mentira maior. Outra como ti a contará, cedo ou tarde. Que verdade já não foi traída?

domingo, setembro 09, 2007

Enfadonho

Estudo psicológico mostra que se você repete a sua opinião várias vezes, em um grupo, as chances de que esta opinião seja percebida pelos outros membros como representativa do grupo são significativas. Ou seja, o enfadonho convence. Mas sinceramente eu prefiro um baixo desempenho no convencimento de manada e imaginar que a platéia que eu realmente espero ser sensível ao que digo seja suficientemente esperta e atenta para captar e absorver as minhas idéias de primeira e as assimile por reflexão e não por preguiça.

terça-feira, setembro 04, 2007

Inefável

O clichê do inefável acontece quando você desculpa a sua falta de palavras com o transbordar dos sentimentos. Não há apaixonado que não o tenha utilizado pelo menos uma vez na vida. Mas há também aqueles poucos afetados que usam o clichê para ludibriar, afirmar um excesso de sentimento que estão muito longe de sentir. Acho muito chinfrim o apaixonado que se vale desse clichê. Prefiro o apaixonado extasiado, que abre as porteiras da imaginação e deixa fluir seus sentimentos em metáforas. Boas ou más, floreadas ou não, bem ou mal escritas, é verdade que elas não transmitirão exatamente o que ele sente, não servirão de pintura realista do quadro que ele contempla em seu peito, mas serão capazes de causar no outro alguma reação, possivelmente o aguçamento da receptividade. A minha paixão nunca será a tua, nunca passará de mim para ti, mas a minha paixão pode despertar a tua.