quinta-feira, junho 26, 2008

Esperança Instintiva

Hume já dizia, o ceticismo é inócuo, ele é incapaz de atentar contra a nossa tendência natural a crer. Isso não significa que a razão seja inoperante na formação de crenças, que não devamos até estimular um certo grau saudável de dúvida, mas apenas que a razão é escrava dos nossos impulsos e instintos. Quando tenta suplantá-los, pelo ceticismo, fracassa.

O ser humano, a besta das bestas, foi dotado pela natureza com uma inigualável capacidade de ter esperanças, somos instintivamente esperançosos. Eis a sabedoria da sobrevivência. Ao nos dotar da capacidade de "conhecer" o mundo e prever o futuro, a natureza precisou compensar o pessimismo que daí emergiria naturalmente, posto que a probabilidade de quem tá na merda é continuar na merda, nos congratulando com este instinto de se agarrar a meras possibilidades mesmo quando elas são improváveis.

Quase diariamente me perguntam, e eu também, a razão pela qual não me mato. Tivesse eu uma razão para não me matar talvez aí sim me mataria, pelo gosto de contestá-la, para sentir-me livre dela também, ainda que pela última vez. Mesmo o amor não é uma razão. Mesmo com amor, as coisas ruins continuam ruins, a diferença é que aquele instinto de esperança recebe um reforço.

Com o amor há, porém, uma compensação: as coisas que já eram boas ficam ainda melhores. Mas eu sei que isso não serve de consolo e não diminui em nada o desconforto do que é ruim.

Do Concurso.

Pena que o concurso, aquele referido tempos atrás, não é para mim. Não tive tempo para estudar adequadamente em virtude das aulas de computação que acabei assumido e das n disciplinas que estava fazendo. Não, não é papo de derrotado, estou sendo apenas realista. Tenho plena noção do que seria necessário estudar para fazer uma "boa" prova aos olhos da banca, assim como soube quando concorri com sucesso ao mestrado e ao doutorado. Nessas horas, é triste, não basta escrever com diligência e inteligência. Muita erudição é importantíssimo também. E fiquei sabendo que para esse concurso da UFPR se inscreveram nada menos e nada mais que 67 pessoas, euzinho aqui incluso. Alguns professores há anos da UFRGS, UFBA etc. E é uma vaga só. Mas fiquei feliz com uma coisa. Se antes eu pensava em fazer uma prova burocrática, cheia de dedos e montado em filósofos, para tentar convencer a banca, agora chutei o balde e vou fazer a prova do jeito que eu gosto, tematicamente. Pelo menos saio de lá feliz ao me reconhecer nas próprias palavras. 

Das aulas

Ironia do destino. Não foi pela filosofia que perdi o medo de dar aulas. Muito pelo contrário. Eu me refugiei na computação não só pelo gosto de programar, mas por ter contado a mim mesmo enfaticamente a mentira de que padecia de fobia social. Pior, acreditei nessa mentira por muitos anos. E como a filosofia não me dava outra alternativa de sustento, corri atrás da computação, fugindo sempre do enfrentamento público. Mas agora eu sei, eu não tenho fobia social alguma, eu só tenho timidez, talvez um pouco acentuada, mas nada grave, nada que atrapalhe a boa execução de uma aula. E, como eu disse, foi a computação que me desmentiu, descortinou-me a verdade. Ela me empurrou para uma turma de 16 alunos e ali, durante dez dias, 4 horas por dia, eu tive de falar e ensinar. E eu ensinei e falei. Sem nervosismo, sem taquicardia, sem nada aterrador que me vinha à mente quando eu imaginava essa situação nos tempos em que ainda filosofava na graduação, mestrado ou doutorado. Agora que conheço a verdade, quero mais do que nunca dar aulas, de filosofia, pois filosofia, para ensinar, é mais divertido que computação. Muito mais.   

quinta-feira, junho 19, 2008

Eu por mim mesmo.

Esses dias recebei do meu ex-orientador, o legal, não o ex-ex, o chato, um e-mail em que ele me pedia para escrever uma autobiografia de até 5000 caracteres; o motivo: minha tese foi escolhida para concorrer, pelo departamento de filosofia da UFMG, ao prêmio CAPES lá de melhor tese do ano. Eis, então, a minha "autobiografia":

É difícil para mim precisar em que momento tive o meu primeiro contato com a história da filosofia. Provavelmente, ainda pequeno, quando, curioso pela origem do meu nome, fui em busca de livros sobre a mitologia grega. Mas não foi nesta época que a conheci de fato. Passei a infância e a pré-adolescência com a mesma inquietação dos filósofos pré-socráticos, interessado em conhecer a origem do universo e seus elementos mais fundamentais. Cheguei, então, à física bem antes de conhecer a filosofia e, por muito tempo, motivado também pelo gosto e facilidade com os cálculos, projetei-me no futuro como físico. Somente naquele ano de decisão inadiável sobre o futuro profissional é que tomei um contato direto e efetivo com a filosofia através da leitura de alguns livros sobre filosofia da ciência indicados por um tio que, então, se formava em filosofia pela UFMG.

A leitura desses livros provocou uma completa reorientação das minhas inquietações intelectuais, percebi pela primeira vez que entender o que era o conhecimento e como ele poderia ser obtido eram questões para as quais eu precisava de uma resposta antes de procurar saber sobre as leis físicas que regem o universo. Hoje, claro, não vejo o assunto assim, mas na época, senti-me completamente compelido para a filosofia em virtude dessa reorientação das minhas próprias questões. Não só isso, senti-me, de fato, curioso por saber o que era o conhecimento, o que os filósofos haviam falado sobre ele. Era algo novo para mim, até então, essas questões tinham passado pela minha mente, se é que tinham, apenas de maneira obscura, confusa; quando as vi postas claramente, senti a necessidade de passar mais tempo com elas. Decidi, assim, pela filosofia profissionalmente. A física poderia esperar, ela tinha de esperar.

Ingressei na graduação de filosofia da UFMG em 1995, então, com 17 anos. Foi um ano desafiador e amedrontador, meu contato anterior com a disciplina se limitava àqueles livros citados acima, e, de cara, deparei com professores sequiosos em esbanjar o jargão filosófico. Muita coisa foi dita nas salas de aula sem que eu conseguisse entender. Temi que o curso não fosse para mim. Cogitei até mudar para física ou ciência da computação. Mas a medida que aprofundava as minhas leituras e me acostumava com o palavreado obtuso dos filósofos, senti-me mais à vontade entre eles. Vieram as provas, os trabalhos e sai-me bem neles. Alguns professores elogiaram a minha argumentação e eu comecei a me convencer que tinha jeito para a coisa. Novamente, as ciências exatas tiveram de esperar um pouco mais.

No ano de 1996, foi abrutamente arrancado do curso de filosofia. Já tinha ouvido falar de Hobbes e dos tentáculos poderosos do Leviatã, mas só fui compreender a sua real força quando ele me agarrou. O Exército achou que eu era interessante nas suas fileiras. Ironicamente, eu era, na época, anarquista. Aceitei, no entanto, o destino sem revolta, curioso até pela experiência inusitada, consolado com os relatos de filósofos que tinham também passado pela experiência militar.

Em 1997, voltei ao curso, com muita vontade e mesmo vigor físico para a pesquisa. Agradeço aos milicos por esse preparo. Conheci Wittgenstein e apaixonei-me pela sua vida e obra. Percebi que mais fundamental ainda que a questão do conhecimento era a questão do sentido. Nem tanto assim, é verdade, como se verá em seguida. Na época, pareceu-me claro, antes de perguntar qualquer coisa, essa pergunta precisa ter um sentido e o filósofo austríaco incutiu-me a dúvida de que muitas perguntas não tinham. Eu precisava, assim, saber (vejam só) o que era o sentido.

Daí em diante fui perdendo a minha ingenuidade intelectual e aprendendo a exercer essa atividade que se costuma denominar de "acadêmica", fazendo pesquisa, criticando artigos, buscando entender os filósofos, suas idéias e tentando escrever as próprias. Algo nessa atividade me irritava, na filosofia brasileira, em especial, a hegemonia exegética. Mas, por sorte, encontrei alguns professores que me estimularam e encorajaram a abordar a filosofia de uma maneira mais temática, que é o tipo de abordagem com a qual me sinto mais à vontade, por nenhuma razão fundamental, é verdade, apenas uma questão de gosto. Assim pude continuar na filosofia, seguindo mais ou menos o percurso esperado de um acadêmico: especializando-se. Formei-me no ano de 2000 e já em seguida iniciei o mestrado. Ainda interessado no conhecimento, foquei-me num tipo específico, o perceptivo. Critiquei aqueles que combatiam a idéia de que há crenças justificadas não-inferencialmente pela percepção. Em seguida, no doutorado, enfim, tentei positivamente articular essa idéia, provendo uma compreensão filosófica de como essa justificação se dá. Defendi a tese em 2007. Desde, então, sou um filósofo desempregado.

quarta-feira, junho 18, 2008

Do azar

Qual a probabilidade de cair um raio na minha cabeça? Quase a mesma de ganhar na mega-sena, correto? Errado. Hoje a probabilidade de cair um raio na minha cabeça deve ser de 1 em 500000, ou até menos, quem sabe, 1 em 10000. Desculpem-me pelo sarcasmo, mas é impossível não ter agora diante do mundo e com o mundo, seja lá o que isso for, uma reação de revolta e indignação, mesmo sabendo que isso não faz sentido. E o que nessa vida faz sentido? Como se já não bastasse meu irmão ter quase morrido ao cair ou pular do quarto andar, depois de ter passado três semanas em coma, agora que ele começa a se recuperar, a falar, ainda que meio embolado, minha mãe que estava cuidando dele integralmente é atropelada. Urucubaca familiar? Tenho medo de ser estraçalhado pelo trem que passa aqui nas imediações da minha rua amanhã ou depois. Eu não preciso, como o Kyle do South Park, desenvolver aos 8 anos de idade uma hemorróida para duvidar da existência divina, nem ser submetido aos piores infortúnios, como o Cândido de Voltaire, para concluir que não vivemos no melhor dos mundos possíveis; o ateísmo/agnosticismo eu abraço com ou sem desgraças, mas é impossível diante de acumuladas desgraças não se sentir irracionalmente irritado com o mundo. O mundo é como ele é, sim, indiferente a mim, eu sei, mas ele é uma bosta, enfim, eu, agora, neste instante, não consigo ser indiferente a ele.

terça-feira, maio 20, 2008

Da Queda

Parece que foi outro dia que subi a escada eufórico gritando para a minha irmã, "nasceu, nasceu, é menino". Urrei tão alto que quando ela foi contar a novidade na escola para a vizinha amiga, recebeu em resposta: "eu já sei, ouvi o seu irmão". Veio ao mundo gigante, quatro quilos e não sei lá quantas. Um bebê forte, força que eu espero ele ainda ter agora quando mais precisa...Eu tinha então nove anos quando ele nasceu. Eu era constantemente convocado para tomar conta dele e gostava. Lembro em especial de um ursinho azul que usava para fazê-lo gargalhar, aquela gargalhada gostosa de bebê que só de ouvir nos faz rir também. Eu esfregava o ursinho na sua barriga e obtinha o efeito. Até hoje não entendo qual era a graça, não creio que eram cócegas, mas vai lá saber como a esfregada do ursinho era percebida pela sua mente infante. Depois quando ele cresceu um pouco mais, com dois ou três anos, era uma beleza vê-lo na piscina mergulhando. Parecia que tinha nascido nadando. Não é exagero, todo mundo se espantava ao ver aquela coisa miudinha mergulhando, sem bóias. Com cinco e seios anos vinha sempre bater na minha porta pedindo para ir nadar com ele. Soltava a mesma gargalhada do ursinho quando eu o tirava da água e o lançava bem alto.

Desde sexta-feira estou assim, mnemônico, escavando a minha memória e imaginando o que ainda não vi e reluto em ver. Sonho com quedas, penso na queda, imagino a queda, seu corpo estendido no chão, seu crânio com afundamentos em vários lugares, não consigo parar de pensar, principalmente quando estou sozinho. As informações desencontradas, antes foi do terceiro andar, agora é do quarto. Antes tinham chamado o IML ao invés do socorro, agora parece que fizeram o correto. Antes não estava alcoolizado, agora parece que estava. Quase 5 anos sem colocar um pingo de álcool na boca e depois de um mês sozinho, tudo desaba. Uma festa da psicologia, ele bebe muito, ele vai para a casa delas, bebem mais, ele está agitado, elas vão para um quarto, ele para um outro, passa uma ou duas horas, elas escutam um barulho, vão para o quarto onde ele estava, não o vêm lá, olham pela janela e ele está estirado lá embaixo. Foi o que elas contaram. Será que algum dia ele vai recobrar a consciência para nos contar o que houve? Escorregou? Pulou? Se escorregou, foi azar fomentado pela burrice já que ele sabia que uma gota de álcool na sua boca chamaria outras milhares. Se pulou, teve o azar de não obter o fim pretendido. Sim, não é por ser o meu irmão e por amá-lo que vou mudar a minha opinião de que os suicidas devem ser respeitados pela sua escolha, ainda que eu não queira que as pessoas do meu afeto se matem e sofra se o fizerem.

Eu falei em burrice, mas estou sendo injusto. É muito fácil para um não-viciado falar que é burrice um alcoólotra ceder à sua cede etílica. E o que sei eu da intensidade da sua necessidade e desejo? Isso me faz pensar nas pessoas que ficam buzinando no ouvido daqueles que não bebem para beberem, que fazem cara de reprovação moral por não beberem, que oferecem drogas e exaltam seus efeitos; e eu me pergunto se essas pessoas que chegam sempre cheias das melhores intenções de divertimento, ah sim, claro, no fundo elas querem ver esse outro feliz como elas, tendo prazer, tendo lá as suas compreensões mais "ampliadas" do mundo, mas eu me pergunto se em algum momento elas se preocupam em saber se a sua "vítima" é ou não alguém facilmente susceptível ao vício. Não, não estou dizendo que o oferecido é o culpado pelo vício do outro, não retiro o livre-arbítrio deste último, mas devemos reconhecer também que o livre-arbítrio deste último não é tão livre assim e que o oferecido tem sim uma parcela de responsabilidade ao ofertar. As pessoas são diferentes e umas têm uma propensão muito maior a se viciar do que outras. Devemos ter isso sempre em mente.

Esse é um bom exemplo de porque a moral deontológica não funciona sempre, a moral que diz que uma ação é boa se foi motivada por uma intenção boa. Como diz o ditado, de intenções boas, o inferno está cheio. Que se dane a boa intenção de compartilhar com o outro a sua alegria gregária, sim, eu digo, enfie no rabo essa intenção. Seja utilitarista a este respeito, pense nas conseqüências do seu ato, pense que elas podem não ser boas e se há uma chance grande de não serem, evite-o. É o que você DEVE fazer. Vou colocar de uma maneira mais clara para você entender. Se você não sabe se uma pessoa tem alta propensão a viciar (pior ainda se sabe que tem) e dado o efeito devastador que é para uma pessoa viciar-se no que quer que seja, sim, se você ainda não se convenceu disso, leia "O Jogador" do Dosto, então parece moralmente recomendável que você não oferte a essa pessoa substâncias reconhecidamente como viciantes. Deu para pescar a idéia? Espero que sim...

Comecei pensando no meu irmão em tom triste e terminei moralizando em tom de revolta. E fico assim o dia todo mesmo oscilando. Eu penso nele estendido no chão e me entristeço, imagino seus colegas cheios de ofertas efusivas e me revolto. E só para deixar claro aos desavisados, eu não fiz uma apologia contra o uso de drogas ou bebidas, eu bebo, para início de conversa, eu fiz uma consideração moral sobre o ato de ofertar a terceiros drogas ou bebidas.

segunda-feira, maio 12, 2008

Da fraqueza amorosa

Concordo que se eu encarasse todos os dias o medo da perda, a possibilidade do fim, eu desenvolveria talvez uma musculatura emocional para suportar os tempos difíceis, mas esses olhos pequenos que a natureza me deu foram constituídos de tal maneira que eles não conseguem enxergar um palmo a frente se não houver no ambiente um mínimo, um pingo ou cisco que seja, de luz esperançosa. Você me dirá que eu deveria aprender a me virar no escuro, que cegos o fazem, mas talvez eu seja fraco para essas coisas. Ou não. Para falar a verdade, eu tenho mais medo de me acostumar com a escuridão a ponto de não sentir mais falta da luz do que da própria escuridão. Eu sei que uma coisa não implica a outra, sei que é virtualmente possível aprender a viver na escuridão sem cair de amores por ela, que é possível ser forte sem ser ao mesmo tempo indiferente. No entanto, será o forte forte o suficiente para jamais sucumbir à vontade de poder que é inerente ao exercício da sua força? Eu não sei, eu duvido. Nas entranhas de cada psiquê vive um Narciso. Quando ele é despertado pela sua vaidade, nada mais parece importar... Sabe, se ser forte implica em escravizar-se à vontade de poder, à contemplação vaidosa de si, então prefiro ser um fraco e continuar podendo amar um outro que não seja eu mesmo. Prefiro temer perdê-la a amar-me só e apenas.

Você não escuta esses pensamentos que me passam pela mente, já dorme. Eu não tenho sono, não quero dormir, quero continuar assim, velando o teu sono com a mão que acaricia a sua face, sentindo na pele o medo de perdê-la, esse medo que, na verdade, é apenas a face complementar do amor que tenho por ti.

terça-feira, maio 06, 2008

Concurso

Dois meses atrás recebi um e-mail do meu ex-orientador-substituto (sim, não foi possível terminar o doutorado com o "original") me convidando a participar de um concurso para professor na UFMG. Confesso que titubeei, pela UFMG apenas, é verdade. Nunca escondi minha opinião arrogante (ou não) de que a UFPR está alguns anos luz atrás da UFMG. Só que Belo Horizonte é quente demais para mim, tem uma feiúra desorganizada que fere meu senso estético libriano e poluída e morrada a ponto de me proibir caminhadas decentes sem precisar fazer uma viagem quilométrica até encontrar um lugar apropriado. Enfim, inviável. Tem um pró só que me faz falta: seu povo. Nas minhas idealizações, a cidade perfeita seria Curitiba com o frio que diziam fazer no passado e habitada por mineiros. Só pelo seu povo titubeei então com o tal concurso. Mas aí conheci uma pessoa muito especial, a qual, diga-se de passagem, não é curitibana, e a tentação dissipou-se na mesma velocidade com que ela me encantou. Na verdade, nem lembrava ou pensava mais no tal concurso, estava e estou em outra. Lamento, Belo Horizonte, você já me deu tudo o que tinha de me dar.

Eis que hoje recebo um e-mail de um professor daqui falando de um concurso para professor na UFPR. Certo que irei concorrer. Só estou titubeando quanto a direcionar toda a minha atenção para ele nos próximos meses ou mantê-la dividida entre o concurso e a computação. Decisões, decisões. Por mais pesadas e difíceis que sejam, eu as amo. Sinto-me vivo quando tenho de decidir. Ao mesmo tempo, oscilar o pêndulo novamente para a filosofia me faz sentir meio sanfona. Alguns ainda apontarão acusadores e dirão: você é indeciso e não sabe o que quer. Discordo. Sei sim. É que eu não quero uma coisa só, mas várias. Embora eu seja completamente monogâmico no relacionamento, sou promíscuo na minha relação com o saber. Um só não basta, careço de vários. Pronto, confessei. E ainda não decidi o que fazer!

terça-feira, abril 29, 2008

Paranóia.

Em dias normais, quando ele amanhece cinza e chuvoso, eu acordo e levanto com uma alegre disposição. Hoje não. Vi pela janela o cinza que tanto me agrada, escutei os pingos torrenciais da chuva que caia, refrescantes, mas continuei sem forças para levantar. Minhas obrigações vieram à mente e nada. Não imagino que sonho ou pensamento noturno possa ter tido para acordar assim. Sinto o efeito, desconheço a gênese. Minto. Lembrei-me da minha paranóia. Não é isso, não penso que sou perseguido, que há alienígenas tentando me capturar ou que, quando algo dá errado no trabalho ou na faculdade, exista uma confabulação dos meus colegas, superiores e professores para me sacanear. Não tenho esse tipo de paranóia, não acho que sou perseguido, nem que as pessoas vão se esforçar para me prejudicar, não me dou toda essa importância, embora até tenha motivos para pensar que sou perseguido. Uma pessoa disse ter me visto passar várias vezes sem que eu a tenha visto ou notado. Não tenho medo. Sofro do que se pode chamar de "paranóia emocional" ou "paranóia pessimista". Suponho sempre que serei rejeitado e que se a minha presença não causa desgosto, desperta, na melhor das hipóteses, indiferença. Tenho olhos de águia para os sinais da rejeição. Um olhar distante, a falta de um sorriso no momento oportuno, as mil e uma maneiras, talvez muitas inventadas por mim, do enfado se expressar em um rosto, a delonga em responder-me, em qualquer situação, presencial, e-mail, msn, este, então..., tudo isso é filtrado em pilo automático pelos meus olhos como sinais inequívocos da rejeição. Pergunto-me de onde provém essa falsa (?) convicção de que enfado, quais seriam os acontecimentos remotos que a teriam fomentado. Seria o fato de a minha mãe não ter me dado uma gota sequer do seu leite materno, ou seriam os abraços que minha tia me negava sem qualquer motivo que eu pudesse entender, tão pequeno para compreender, mas tão atento para sentir, enquanto agarrava todos os seus outros sobrinhos diante dos meus olhos com efusiva alegria, ou o fato de ser sempre, sempre, o último a ser escolhido nos esportes coletivos, mesmo odiando-os, vendo-me, então, forçado a encarar olhares de ódio no time que me recebia ou, na melhor das hipóteses, de pena resignada, ou ainda o ser jogado no sofá do meio enquanto meu pai se derretia, na esquerda, justo ele canhoto, em carícias com a minha irmã e a minha mãe se comprazia, no sofá da direita, atenta e indiferente a mim o programa televisivo? Poderia continuar a lista e talvez me faltassem dedos para ela. Nasci com essa tendência pessimista e cada um desses itens a reforçou e comprovou, destacando a rejeição diante dos meus olhos e ofuscando todas as outras manifestações de apreço e carinho por mim, ou a soma delas incrustou em meu peito a convicção que me sentencia? Quem veio primeiro, o ovo ou a galinha? Mesmo quando estou consciente de todos esses fatos, mesmo quando em um ato fervoroso de esperança imagino infundadas todas as rejeições lembradas, ainda assim não consigo evitar as interpretações pessimistas. Elas invadem a minha mente, aparecem como um rio caudaloso transbordando; nessas horas, sinto que não sei nadar, afogo-me. Tantas vozes me acuando. Veja, nem respondem o que diz, não é interessante, olha só, agora estão monossilábicos, pare, não cause tanto enfado, afaste-se, afaste-se. Então recolho-me na quietude. A voz continua. Não percebe que preferem beltrano, ciclano e fulano a você? Por que insiste? Por que se humilha tanto se percebe o desprezo? E sinto-me humilhado e desprezado. Piora ainda quando aparece a culpa. Sim, culpa. Antes de aceitar completamente resignado o corpo que se afunda no rio, lanço-me em desesperadas batidas, buscando um último engolfo de ar, a última respiração. Pinto-me melancólico. Espero a compaixão. Que sensação de miséria me gera a consciência desse ato! E culpa, culpa mortal por ter exercido sobre o outro uma influência tão vil, mesmo que sem intenção, mesmo que levado pelo desespero do afogamento. Então paro de me agitar. Vejo-me afundando aos poucos. O frio da água me adormece.

E, no entanto, seria capaz de me lançar ferino a quem me acusasse de falta de amor próprio. Vivo essa contradição. Eu simplesmente não consigo imaginar razões sensatas para que me rejeitem, para que me pretiram tanto, tenho ampla convicção e consciência de inúmeras qualidades minhas, e, no entanto, não só sinto a rejeição como a interpreto e vejo em tudo quanto é canto. Daí nasce mais uma situação, entre tantas outras, para a sensação de completa solidão.

quarta-feira, abril 23, 2008

Ela, o vermelho e a confissão.

Ela chegou de mansinho, com dúvidas, reticente, como era de se esperar com a dor tão recente. Se eu confessar a ela, não vai acreditar, mas a verdade é essa: quando seus olhos pequenos e doces me encontraram pela primeira vez, tremi todo; o vermelho dos seus cabelos dilatou agradavelmente a minha atenção. Eu estava com o meu livro azul do Nietzsche nas mãos, abaixei a cabeça e fingi que lia compenetrado um último pensamento, enquanto ela se aproximava; estava nervoso, não conseguia ter nenhuma idéia para a primeira fala, embora milhares de pensamentos passassem cortantes pela minha mente. Eu com essa minha mania de me achegar nas pessoas pelas suas palavras, já tinha apreciado as dela, estive com seus pensamentos sem estar com ela e agora ela me aparecia bem diante de mim, provocando-me a tremura de um admirador. Segurei firme o meu livro, esperado dele talvez algum apoio, e senti aumentar a cada passo que ela dava, na boca do estômago, o receio da rejeição. Foi ela quem perguntou do livro azul. Eu lhe respondi gestualmente, mostrando a capa. Não fez nem que sim, nem que não, eu desconhecia, então, o seu desgosto pelo autor. Arrogância desmedida, confessou-me depois. Concordo, ainda assim aprecio a sua iluminação, nada que umas boas reprimendas e correções não resolvam. E que importa isso agora na minha lembrança? Nada. Enrolo para postergar a confissão do meu desejo súbito, ao sentir irrefutável a sua presença, de enfiar-me na mochila junto com o livro ou de sair correndo dali desesperado. Esconda-se, esconda-se rapaz..., agora é tarde, ela está ao lado te olhando e espera alguma reação. Nessa idade e com essa vergonha. Que vergonha! O calor era imenso e ela deu a agradável sugestão de caminharmos pela rua. Eu suava muito, calorento que sou, e ainda mais pelo nervosismo. E a consciência desse fato só me fazia suar ainda mais. Lastimável. Queria sumir, definitivamente. Mas aceitei a sua sugestão, controlando as minhas pernas fugidias, e assim fomos peripatéticos. Feitos baratas tontas, cruzamos as mesmas quadras e ruas dezenas de vezes. A tontura, eu assumo, era toda minha. Quase tive uma síncope na primeira curva quando ela soltou: "acho que a conversa ainda não engatou". O sinal da rejeição apitou forte, respirei fundo e chamei em meu socorro a tranqüilidade do introverso, só ela poderia salvar-me do pânico do tímido. E ela veio. Mais alguns passos e pude voltar a respirar normalmente. Conversamos bem, muito bem mesmo e fiquei ainda mais admirado do que já estava. Não vivo só de pensamentos e também gosto de ver as pessoas no mundo. Adorei vê-la assim. Adoro vê-la assim.

Sei que nesse primeiro encontro não causei nela o mesmo impacto que ela me causou. Só no segundo, talvez. Paciência. Culpa minha de ter falado menos para observar mais? Não sei. Quando nos despedimos, ela me deu um abraço e um sorriso, guardei-os comigo a noite toda; na verdade, até hoje os tenho bem vivos e coloridos. Fui embora para casa sonhando alto, só fui dormir quando a madrugada perdia a sua mocidade.

terça-feira, abril 15, 2008

Babaquice

Algo que me choca e desencadeia a minha revolta é a babaquice humana. Então tinha esse carinha que, enquanto terminava o seu doutorado, passeava lá pelo departamento todo sorridente, cheio de amizade, enturmado, só na humildade. Não muita, é claro, mas também não se notava lá nenhuma intenção de se distinguir, pelo menos nada muito consciente. Pintou um concurso no departamento, ele apressou sua defesa, estudou lá um monte e passou. Mérito dele, claro. Vieram as férias. No início do semestre tava ele lá pronto para assumir o cargo e junto com ele a sua mudança de personalidade. Agora anda de olhar grave, sem muito sorriso, já não cumprimenta a todos, só os de interesse, os professores mais velhos, olha meio de desdém para os alunos etc. Enfim, faz questão de afirmar a sua distinção professoral. Dava para fazer melhor, um carimbo assim com letras bem garrafais "PROFESSOR", tinta nova e fresca, e pimba, bem forte na testa. Tudo bem, pra quem usa franja não dá, mas entre uma rajada e outra de vento todo mundo também ficaria sabendo. Sério, eu sinceramente não entendo porque a obtenção de um título ou a lotação de um cargo tenha de mudar radicalmente a percepção que a pessoa tem de si. Eu chamo isso de babaquice. Eu tento me imaginar no lugar dele, passando por uma situação semelhante e espero mesmo não ser afetado dessa maneira por uma mudança desse tipo.

segunda-feira, abril 14, 2008

A Lágrima lúgubre-feliz

meu tom brega-romântico pincela a lágrima lúgubre-feliz: ali durante o abraço que completa, quando os olhos se fecham para o melhor sentir e o bem-estar se infunde por todo o corpo, nos levando àquela sensação remota e primeva de unidade total, eis que um pensamento atrevido emerge na penumbra, vagueando nas bordas da mente, cutucando pontiagudo o conforto arredondado, dura pouco, é verdade, nem um piscar de olhos, mas traz consigo o medo remoto, a possibilidade da negação do abraço presente, o vislumbre da ausência do bem envolvente, tudo muito vago, um mero ponto no oceano do conforto presente, mas suficiente para desencadear algumas sinapses; e o corpo reage pelo arco-reflexo, o abraço se retese, de olhos ainda fechados, desce vagarosa a lágrima lúgubre-feliz, evidencia insofismável do pensamento relâmpago e cuja existência é dada a apreciar somente pelos extasiados, só aí ela ganha o seu sentido; vai-se embora rolando, esvaindo-se sobre a pele, valorando o próprio êxtase que buscou negar na possibilidade lúgubre, deixando-o, porém, incólume na efetividade.

terça-feira, abril 08, 2008

Somente um pesar...

Eles falam risonhos, parecem se divertir, a gesticulação é enérgica e os movimentos bruscos do corpo expelem viva sinceridade, mas sinto-me apático, a maior parte do tempo é assim, confesso com certo pesar; eu começo prestando atenção no que estão dizendo, até me esforço para achar graça também e raramente consigo. Quando sim, brinco e me envolvo com a mesma patetice. Mas dura pouco. A consciência da minha tolice emerge e me retenho ou então sinto que o meu tom abobado não encontra respaldo. Aí me retenho mais ainda, envergonhado. Um deles me falava qualquer coisa e eu já não sabia mais o que era, ele sorria e eu respondi com lábios fingidos sem saber o porquê da graça. Não faço isso em completo piloto automático, às vezes é semi-consciente, nem é por querer parecer sociável, é por não querer que se sintam sem atenção. É horrível sentir-se desatendido. Eu dou muita atenção, muita mesmo e, às vezes, a dou até sem estar atento. Não acho que isso seja de todo falso, é um caso em que o efeito benéfico desculpa a ausência da intenção. Mas só faço assim com os de pouco ou médio apreço. Os de muito apreço têm sempre a minha atenção real, completa, nem tinha como ser diferente, estou ligado a eles por um vivo interesse, digo, interesse neles. É o que me alimenta de verdade, me tira da apatia, os seres humanos, raríssimos, que se me permitem o mergulho. Não só isso, que também me despertam, por razões que desconheço, a vontade de lhes conhecer a essência. A eles me dôo integralmente. Mas com os outros ali, os de médio, pouco ou nenhum apreço, ah, confesso, às vezes eles me estimulam o vazio total, não um vazio de sentido, angustiante ou entediante, vazio de pensar mesmo. Fico diante deles completamente absorto no nada. Nunca meditei, mas pelo que falam da experiência, é o que penso ter nessas situações, um certo não-pensar. Depois essa tranqüilidade vazia dá lugar ao pesar por não ter participado da interação, por ter vivido toda a situação não como se estivesse nela, de dentro, mas um passo atrás, de fora, só olhando. Pior de tudo é saber que isso é tolo. De fora, percebemos o sentido para terceiros, como fica facilmente visível nos filmes, o sentido da existência de uma pessoa parece saltar às vistas. Só que para o Eu, o sentido está sempre dentro e não há como percebê-lo de fora, o sentido é o tipo de coisa que o Eu só pode viver imerso sem nunca tocar. Eu mesmo cavo a minha tragédia querendo viver com dupla cidadania. Ou lá ou cá, meu caro. E quem disse que me controlo? A todo instante quero capturar o sentido das minhas vivências, por ciúmes de mim, por curiosidade, por não querer perdê-las, por esmerar pela intensidade máxima da vivência, por ser assim doentio na vontade de transcender, e, claro, quando tento fazê-lo, o sentido que havia se subtrai magicamente da vivência, ou, em outras palavras, a vivência se des-vivencia. Aí aparece aquela consciência tão bem conhecida do vazio de sentido, da angústia e do tédio, cada qual com um sabor doloroso diferente. Eu só não me considero um caso perdido porque pelo menos o amor eu vivencio completamente de dentro, não coloco nem um dedinho pra fora, pelo menos nessa dimensão meu instinto se mantém sábio e imune à estultice da razão. É o que me enraiza na vida.

sexta-feira, abril 04, 2008

Carência ética

E se deus fosse o diabo? Nada mudaria. Assim como nada mudaria se deus existisse. Dostoievsky se questionava, "se deus não existe, então tudo é permitido"? Eis o problema do homem que se deixa corroer completamente pela incerteza e procura fora de si o fundamento para os seus valores. E tem algum fundamento? Valores não são todos iguais, alguns lhe são mais caros que outros. Podemos fundamentar alguns valores em outros mais preciosos. Mas lá no fundo, o que sustenta o seu valor mais querido? Nada. Ele carece tanto de fundamento quanto a sua certeza de que tem uma mão ao olhar para ela. São absolutos? De forma alguma. Rocha dura que nunca fura? Também não. Mas são vigas assim assentadas que só com muita mina para implodir. Ah, mas se é possível implodi-las, eliminá-las, estou no vazio, no escuro. Que me serve de guia? Eis o problema daquele homem novamente: sua carência de certeza é proporcional à incerteza que vivencia. Não é a ausência do absoluto que o faz carente da certeza, é a carência do certo que o faz sentir a ausência do absoluto. O não-carente está relativamente satisfeito com as vigas que tem, até que lhe apareça uma forte, mas bem forte razão para pensar em contrário. Para o carente, até a razão chinfrim lhe deixa insatisfeito com o que tem. O carente quer o absoluto e sente mais do que tudo a sua falta justamente por estar carente, amedrontado, inseguro quanto ao que fazer. Não tem em si a força necessária para andar, por isso a busca fora, no imutável. E, pelo mesmo motivo, ele é o tipo que, se não se engana achando que encontrou o absoluto, conclui que tudo é permitido e arruína a sua vida em um caos completo. Tudo e qualquer coisa lhe é e não é guia ao mesmo tempo. Claro, se não há um absoluto, ou não o encontro, ou, ainda pior, perco a esperança de encontrá-lo quando sinto a sua falta mais do que tudo, vivo por completo o desespero. Desesperado aceito qualquer coisa. O carente que não encontra o absoluto se fere mortalmente a cada instante. Pior ainda é o carente que se engana achando ter encontrado o absoluto. Para ele o sancionado e permitido é muito bem definido. Ele abraça esse absoluto com toda a intensidade da sua carência. A força com que agora o defende é proporcional à carência que sentia. Ele range os dentes a quem se lhe opõe. Ele mata se for preciso, se suspeitar que querem lhe tirar o aconchego do absoluto. No fundo, ele teme o retorno da carência. Esse carente acaba ferindo mais aos outros que a si mesmo. Sua ação é definida e precisa, violentamente precisa, ele jamais se realinha.

E o não-carente? Ah, ele vai seguindo a vida com o bom-senso e a prudência aristotélicas. Ele anda, para e escuta as vozes alheias. Pensa, realinha-se caso ache necessário e continua o ciclo. E para ele, tudo é permitido? Não, mas a sua linha do que é e o que não é permitido também não está traçada para todo o sempre. Ele se permite o retraçado, movido pela sua força interna, não pelo oba-oba do carente que concluiu que tudo é permitido. Para este, não há retraçado, só rabiscos.

Assim, a questão de se tudo é ou não permitido, caso não haja um absoluto, não se conclui por uma martelada demonstrativa, ela se fecha pela psicologia. É preciso se conhecer, perceber as suas necessidades e carências. E eu, o que eu sou, um carente ou um não-carente? Ora, eu sou um ser humano, imerso no tempo, impossível ser apenas uma coisa ou outra o tempo inteiro, a vida toda. É o que eu acho. Esmero pela sobriedade prudente. Sinto-a presente. Tenho por ideal: a não-carência e o relativismo nada oba-oba que se lhe segue.

quinta-feira, abril 03, 2008

Temor

Temo: ter uma emoção que vibra pelo corpo, chega aos olhos, onde brilha seu existir e perceber que ela aí morre sem ser captada por quem está na sua origem.

terça-feira, abril 01, 2008

1 de abril.

Como hoje é um dia para se contar mentiras, eu vou me contar uma que tenha cara de verdade. Ninguém saberá, nem eu mesmo, quando comecei a mentir, se já não o fiz, nem quando pararei. Essa dúvida dará à verdade o sabor da mentira e à mentira a cara de verdade. No fundo, meus amigos, são uma e mesma coisa, faces da mesma moeda. Eu minto descaradamente, sempre menti, essa confissão vos faço com a mais límpida sinceridade e cara lavada. Minto pelo prazer da verdade. Pouco me importa se o que digo é verdade ou mentira, nunca saberei mesmo, mas que tenha a cara e o efeito da verdade, ah, para isso não poupo esforços! Não é pela diversão, eu juro, não há mentira que eu pregue sem me sentir culpado, quando abro a boca e vejo a credulidade no meu interlocutor, sinto um nojo profundo de mim mesmo, ou ódio até, apesar do meu fingimento perfeito, repito a mim mesmo o tempo todo: "vil, vil!". E não paro, sigo em frente mirabolante. Quanto mais mentirosa a mentira, mais prazer me dá ao notar que lhe conferi um ar verossímil. Prazer de vaidoso, pela astúcia engendrada? Nada disso. Sou humilde até na mentira. No fundo a obsessão que me persegue é simplesmente essa: estética. Talvez muitos não saibam, mas eu sou libriano e eis aí a chave explicativa que lhes dou. Minto porque a verdade é bela, porque tenho horror à feiúra da inverdade, da mentira. Não, eu sei que não são a mesma coisa, eu sei que a mentira é uma coisa humana e a inverdade é uma coisa lá da semântica. Mas percebam que é preciso mentir vigorosamente para encobrir esse caráter humano da mentira, para que ela resplandeça como verdade; sem mentir bem, a mentira fica assim feia com o seu aspecto mentiroso. Por isso eu minto e muito, apenas em nome do meu amor pela verdade.

segunda-feira, março 31, 2008

Rafael

Quanto de incerteza Rafael pode suportar? Ele se pergunta. Ele sente a corrosão da sua alma com cada uma das questões que se coloca. Chega a arder, é como se a cada dia cortassem um pedaço de si. E para cada certeza que perde, aparece um medo. Sua alma é assim cheia de hematomas emocionais, ultra-sensível ao toque. Hoje sentiu que todos o desacreditavam, que não havia ouvido que lhe desse mais confiança e assim começou a duvidar dos próprios relatos que fazia de si mesmo. Seria ele mesmo confiável? Seus próprios olhos não poderiam estar sempre a enganá-lo? Rafael se amedronta ao pensar que talvez ele não saiba quem é. O que afinal ele teme? E se não sabemos quem somos, o que se seque daí? O que há para temer? Seria talvez o fato de não poder olhar para si e encontrar um terreno sólido onde pisar e, assim, ter onde fincar a convicção de suas decisões? "Fiz assim, pois sou assado". Não, não é isso. Rafael sabe que a diferença entre agir com maior ou menor convicção tem mais um efeito externo, persuasivo, do que interno, acalentador. Pouco lhe importa se a sua decisão é mais ou menos convicta. Com efeito, ele sabe ainda mais, ele sabe que a sua convicção pouco tem a ver com o seu conhecer-se. Suas decisões o definem, no clichê existencialista. O grau da convicção exibida na decisão não emana de coisa alguma que ele conheça, ela é também definida e formada no próprio ato de decidir. Ainda assim, Rafael teme não se conhecer. O que há de tão ruim em não saber quais predicados aplicar a si?

Rafael conclui: a dificuldade toda está em viver a tensão de se conhecer sem se conhecer. Nem é tão paradoxal o que ele pensou quanto parece à primeira vista. Rafael não se deixa enganar, duvida tanto, levanta tantas possibilidades, que afasta de si qualquer predicado, qualquer assertiva, não assume nenhuma, não se deixa apanhar, nem se apreender pela linguagem, pelos conceitos. Ele se vê, assim, um nada, um vazio. Ele não se conhece. Contudo, há um quê de si com o qual ele se encontra e se confronta no seu viver pela emoção e o sentir. O fato de a decisão não estar assentada num solo duro do conhecer-se afirmativo não faz do sujeito uma marionete, um projeto para qualquer coisa, um nada que pode ser tudo. Não, definitivamente, não. No ato da decisão, Rafael encontra-se consigo mesmo da maneira mais intensa e intuitiva possível, ele se sente por completo durante e pela decisão. Esse sentir que lhe dá o conhecimento de si jamais é verbalizado, mas é automaticamente transferido, na verdade, já está imerso nela, na convicção da decisão. Quando Rafael decide contra o que ele é, a própria decisão já vai se tornando branda em seu ato. Ele já decide enfraquecido, desgostoso de si, às vezes, até arrependido. Quando, ao contrário, ele se encontra na decisão, o ato é pleno de vida, Rafael se vê todo comprometido no ato, até suas últimas células. Não, esse contato emocional que Rafael tem consigo ao decidir não é sensualista, não é efêmero, nem arbitrário, é de fato sua apreensão mais absoluta de si, ainda que ele não possa lhes dar qualquer razão a favor. Tampouco pode duvidar que assim seja. Ele se conhece sem se conhecer. Então, o que há de ruim em não se conhecer a priori é a espera angustiante de só se conhecer a posteriori, pois Rafael tem muita necessidade de si e sabe que nem toda vivência é um encontro consigo. E ele teme os desencontros.

sábado, março 29, 2008

Duração

Tanto cansaço da noite que se transformou em dia, e ao mesmo tempo tanta vontade de que esse dia se estenda até a noite sem que nenhum segundo se perca na inconsciência do sono. Não sinto o tempo, não vivo o tempo, ele transcorre, ele me perpassa e eu vivo nEla, com Ela e através dEla, a duração eterna de um instante.

sexta-feira, março 28, 2008

Arrependimento e Burrice

Sempre digo que nunca me arrependo das minhas escolhas e decisões. A frase é um pouco exagerada. É raro realmente eu me arrepender, mas é possível. Quando? Nas situações em que pratico a burrice. E agora preciso lhes explicar o que entendo por tal coisa. Antes, a frase de efeito que gosto de propalar: a burrice sempre tem um preço, e é muito alto.

"burro", "burrice", "estultice" geralmente são palavras usadas em contextos em que queremos falar ou da falta de uma capacidade, ou da negligência de uma responsabilidade. Quando alguém diz "fulano é burro", e atenção aqui para o "é", está querendo dizer que falta a este sujeito alguma capacidade. Talvez ele não seja bom em uma matéria qualquer e alguém já lhe lança a ofensa, "seu burro". Penso que este não seja um bom uso da palavra, embora seja corriqueiro e eu esteja muito longe de querer legislar sobre a linguagem, o que realmente seria uma estultice. Contudo, imagine uma pessoa disléxica cuja capacidade de leitura é, então, deficitária. Embora alguns possam jocosamente se referir à leitura dessa pessoa como burra, há uma certa incongruência em fazê-lo. O disléxico não tem culpa pela sua deficiência. Ele simplesmente a tem. E "burro" é uma palavra de carga negativa, ela segrega, ela estigmatiza, ela contém um tom de reprovação moral. E não parece fazer muito sentido reprovar alguém por ter uma deficiência pela qual ela não é, nem foi responsável. Em todo caso, algumas capacidades podem ser adquiridas e mesmo desenvolvidas e, nesses casos, quando há uma falta e chamamos a pessoa de burra, não estamos tanto nos referindo a sua falta, mas a sua irresponsabilidade ou desleixo em não desenvolvê-la. Se eu digo que quero aprender a jogar bem xadrez, mas não treino muito e, a o me verem jogar mal, alguém diz "o cara ali está sendo burro", o que ele está dizendo é que estou sendo desleixado e negligente ao não tentar desenvolver a minha capacidade de jogar xadrez.

Então chegamos nessa segunda acepção da burrice, que não tem nada a ver com faltas cognitivas, mas sim com desleixo, negligência e irresponsabilidade. Este tipo de burrice está mais para um acontecimento, ela ocorre quando você sabe que seria melhor fazer X, mas acaba fazendo não-X. Daí até dizermos, nesses casos, que "fulano foi burro", não que ele seja. Por exemplo, fulano, universitário instruído, sabe tudo sobre a transmissão de DSTs, saí numa baladinha, conhece uma gostosinha, e acaba transando com ela sem camisinha, no furor lá do seu tesão. Ele sabe que não estava fazendo o melhor para si, mas fez mesmo assim. Foi burro. E a sua burrice pode vir a lhe custar muito cara, como disse. Ela sempre tem um preço elevado. Se vai ser cobrado ou não é, em parte, uma questão de sorte ou azar. Mas se for cobrado, não tem para onde chorar. Enfim, sempre que tenho um conhecimento e o negligencio nas minhas ações, fazendo o contrário do esperado, estou sendo burro e legitimo que outros apontam para mim e digam "ele foi burro!".

Este tipo de burrice não ocorre apenas quando você negligencia um conhecimento, ocorre também quando você ignora um valor que lhe é fundamental. O preço a pagar, nesse caso, será a auto-flagelação da sua própria consciência. Nada mais burro do que ser infiel a si mesmo e amargar depois a dor de enojar-se de si.

Assim todos os arrependimentos que tive em minha vida se resumem em todas as vezes em que fui burro, pois todas as minhas burrices me custaram muito e nem sempre pude contar com a sorte de uma dívida não cobrada. De outro modo, jamais me arrependo, mesmo que, mais tarde, adquirindo NOVAS informações e conhecimentos, eu perceba que decisões passadas não foram as melhores. Mas, se, no passado, foram as melhores, então não tenho porque me arrepender. Fiz o melhor de mim e, principalmente, fui fiel a mim mesmo. Jamais me arrependo por ser fiel a mim mesmo, ainda que mais tarde eu perceba, guiado por novos conhecimentos, que não tomei o melhor caminho. E julgar o meu eu passado pelo meu eu presente seria, aí sim, uma grande estultice, uma irresponsabilidade sem tamanha comigo mesmo e a minha auto-estima.

domingo, março 23, 2008

Achocalhado

Achocalhado, todo eu. Alma, vida, emoção, corpo achocalhados. Pela espinha percorre um intenso tremor, concluindo lá em cima, na consciência, a sensação de plenitude de sentido, vejo sem olhar. Ela me envenenou com o sabor doce e amargurado da sua existência. Nunca apeteceu-me vidas amenas, ou fingidamente amenas. Infiltro em sua alma contemplando cada cicatriz, aberta ou fechada, e apalpo suave imaginando a sua etiologia. Quanta doçura, fineza e inteligência na forma que elas acabaram infringindo à sua alma. Na superfície, nos encontramos com névoas de lúdica suavidade. Transbordo em bobeiras pueris. Ela também. Na profundidade, nossos dedos vão se entrelaçando num íntimo e compreensivo dar as mãos. Ela envenenou-me sim, sabe, atacando a minha mortífera apatia; vejo-me, então, vivendo plenamente, sem utopia, sem perder a consciência áspera da realidade com a qual nasci. Agradeço a ela por esse mergulho em seu existir, agora que começo a relembrar como é nadar.