sexta-feira, abril 17, 2009

Da injustiça extroversa ou da justiça introversa

Não sou o tipo de pessoa cujo ser se revela em algumas falas
encenadas. Meu ser é contraído, raramente se expande luminosamente
chamando a atenção alheia. Ao contrário, sou o tipo de pessoa cujo ser
se desvela por convívio. Somente o estar com é suficiente para
despertar-me a abertura. Por isso, uma vez me disseram, "quem, em te
conhecendo, não te amarás?". Concordo. Isto vale para outras dimensões
do meu ser: "quem, em me conhecendo, não perceberás o meu engenho?". Mas
há aqueles que conseguem expressar engenho pela casca, sem o conviver, e
outros que o manifestam sem tê-lo de todo. Seu engenho consiste
justamente em serem altamente capazes de parecer engenhosos. Há várias
situações da vida em que demandam de ti apresentar as suas qualidades em
um intervalo pequeno de tempo, isto é, querem de ti a manifestação das
suas qualidades sem terem de conviver contigo. Esta é uma situação
injusta, uma vez que privilegia a maior capacidade natural do extroverso
de parecer o que é ou mesmo de parecer o que não é, enquanto o
introverso pode ser muito mais que o extroverso sem conseguir, em tempo
hábil, parecê-lo. O que só comprova o mote comum de que vivemos numa
sociedade que privilegia muito mais as aparências. Não que a aparência
seja, em si, ruim, não, em muitas ocasiões, a aparência é realmente tudo
o que devemos almejar, mas, em outras, dizemos hipocritamente que
esperamos o ser, quando, na verdade, julgamos erroneamente a sua
presença apenas por umas parcas aparências. Assumamos logo o que
queremos e valorizamos.

terça-feira, abril 14, 2009

"De alegre já basta a vida"

"De alegre já basta a vida", disse o professor amigo, em defesa da sua apreciação estética de ambientes sombrios, vitorianos. Eu vou mais longe: que pena que até a vida seja alegre ou tenha de nos aparecer sempre alegre! Não há nada mais sofrido e entristecedor que a pressão por parecer alegre. Sabe-se que ela é mais cultural que humana. Argentinos, ao contrário de nós, cultivam a experiência dramática da dor, do sofrimento. Cultivam, na verdade, a não-distância entre o que se sente e o que se manifesta. Já  nós na altura dos trópicos temos maior apetite pela esquizofrenia, sentimos a obrigação moral de mostrar os dentes mesmo quando há dor, ou quando a dor é suficientemente insuporável para permitir o sorriso, sentimos a obrigação de nos esconder, de não mostrar a cara à vida, poupando, assim, os nossos pares desta visão maledicente. E muitas vezes pode não ter nada mais doloroso do que ter de esconder a própria dor ou fingir que não a sente. Sem contar o roubo de significado que esta pressão realiza sobre a vida.  A dor é tão signficativa quanto a alegria e o prazer. Absorver este significado demanda, no entanto, encarar a dor de frente, sem máscaras, senti-la de cabo a rabo.  Mas não, a todo instante somos moralmente convidados a se esquivar de nossas próprias vidas, a deixar-lhe passar longe todo o sentido. E, assim, a sociedade que mais transparece felicidade é certamente a sociedade em que as pessoas tem menos chances de perceber os sentidos para as suas vidas, o que é paradoxal, uma vez que ser feliz, agora numa acepção bem geral e não atrelada meramente ao prazer, é um dos principais sentidos da vida. Então quanto mais você se esforça para transparecer feliz mais distante está de ser efetivamente feliz. 

sexta-feira, abril 10, 2009

Energizar Diário

Energizo-me pelos seus abraços, volto à carga total para a vida depois
de um demorado e intenso abraço dela. Resisto, então, aos "nãos" que o
mundo me dá. Não que eu sinta menos falta dos "sims" e sim que eu sofro
menos com a presença dos "nãos". Dormir e acordar ao lado dela engrossa
a casca que me mantém vivo no atrito com o mundo.

De quando o amor/amizade se transforma em ódio/inimizade

Quando acontece? Como acontece? Por que acontece? Pode-se dizer que não havia
antes amor ou amizade genuínos, quando muito simulacros deles, ou, ao
contrário, justamente por serem genuínos é que o ódio e a inimizade
puderam vir à tona? O que acontece na transição? 

A minha tese é a de que, nestes casos, o ódio é uma forma menos dolorida
de se representar a perda. Justamente por alguém significar muito para
você é que, na eminência de vê-la rompendo contigo, você recruta todos
os motivos lembráveis de suas história com ela que corroboram a visão de
que ela é uma pessoa odiável, desprezível e que não merecia a sua
atenção. Dói muito mais a ausência de alguém querido do que a ausência
de alguém odiado. Quando a representação odiosa da pessoa se consolida,
você não só não vê como não sente tanta necessidade de lamentar a
perda. E quanto mais as duas pessoas envolvidas na transformação do amor
em ódio concretizam o seu ódio mútuo, quanto mais elas se ferem pelo
desprezo, mais elas facilitam o processo de lidar com a perda e menos
sentirão a dor da ausência. Sempre que uma lembrar da outra, o fará pela
modalidade odiosa, isto é, a imagem da pessoa lembrada estará
emotivamente carregada de repulsa, o que é suficiente para impedir que os
sentimentos da saudade e da falta despertem. Representar o amado pelo
ódio é, assim, uma forma de mitigar a dor engendrada pela ausência do
amado.  

Para evitar confusão, não estou dizendo que sempre chegamos a odiar
alguém é porque a amamos antes. Não, em muitos casos, não gostamos da
pessoa desde o início. Se a percebemos desde o início como uma pessoa
chata, como alguém que incomoda, então desde o início vamos detestá-la,
odiá-la ou na melhor das hipóteses meramente tolerá-la. Enfim, o vir a
odiar pode ter causas diversas.  

Esta tese, no entanto, explica como acontece e o que fomenta a
transformação de amizade em inimizade, de amor em ódio. Não explica ou
não detalha o que causa esta transformação. Dei uma pista: a percepção
(verídica ou não) do rompimento eminente. Pode explicar alguns casos,
mas não todos. E mesmo aqueles que explica, o faz de modo impreciso. Há
certamente mais coisas envolvidas. Como algo supostamente tão firme e
sólido pode desmoronar tão rapida e definitivamente?

quarta-feira, abril 01, 2009

Quer que eu segure?

Já tinha até me esquecido de certas cordialidades mundanas. Agradeço aos catarinenses por fazer-me lembrá-las, essa em específico: é de bom tom perguntar às pessoas que estão em pé no ônibus se elas desejam ter as suas coisas seguradas por quem está confortavelmente sentado. É interessante investigar porque o impulso solidário diante do sofrimento visível e estampado se retrai e se intimida, entre curitibanos, numa situação tão banal como esta.

 

sexta-feira, março 27, 2009

Do Eu

Este aqui anda vagaroso, em ritmo de idoso, enquanto o outro exibe frescor e juventude, apenas para atestar a obviedade de que a atenção é limitada. Como agora toda a minha atenção se divide entre a Marcely e a filosofia, quase não sobra nenhuma atenção para dirigi-la a mim, ao auto-conhecer-se ou mesmo auto-desconhecer-se, não importa, o fundamental aqui é o "auto". Não poderia ser diferente. Antes, sozinho, tinha em mim toda a fonte de reflexão, tinha ali um Eu cheio de demandas e necessidades clamando por atenção. Agora, entre os filósofos, sou bombardeado de todos os lados com estímulos reflexivos, aos quais reajo incontrolável e prazerosamente. Assim, eu me descuido para cuidar da filosofia. O tanto que eu escrevia aqui eu escrevo lá em dobro ou em triplo. Não vejo nenhum mal nisso, sinto-me, para falar a verdade, até melhor assim.  É como se eu estivesse o tempo todo a brincar. Tudo bem que é um brincar mais a sério, mas é tão lúdico quanto qualquer outro brincar. Meu Eu, assim, encontra-se tão divertidamente ocupado que ele quase não me requer mais qualquer atenção.  Tá como a crinaça que se enturma e não pede mais o colo da mãe o tempo todo. 

sexta-feira, março 20, 2009

De-situado.

Vejo-me de-situado, sempre de fora, alguém a observar, raramente a partilhar. Não é uma posição muito agradável. Muitas vezes rio sem rir, animo-me sem me animar. É uma sensação estranha esta de viver sem imergir. É como se eu vivesse apenas na casca. Deslizo tentando entrar no miolo da fruta, mas nunca a penetro. Não estou falando de fingimento, em ser o que não sou. Estou falando em ser o que não consigo ser. Nem falo que é algo que gostaria de ser, é uma falta que não é falta. É sobretudo estranheza. É, no fundo, não conseguir entender, compreender, captar a essência dos grupos, o que lhe dá razão de ser. Sem esta compreensão, não posso ter nem a impressão do que é ligeiramente viver em grupo. Não que eu não viva em grupo, eu vivo, mas sem vivênciá-lo de dentro, sem aquela sensação de eu pertenço a isto. 

terça-feira, março 03, 2009

Aula boa

Para a maioria dos filósofos brasileiros, aula boa é aquela em que o aluno não entende patavinas. Flósofo que se preza tem de parecer profundo e a profundidade é evidenciada pela obscuridade. Em mais um concurso, me ensinaram um truque adicional: ganha mais pontos pela didática a aula totalmente lida. Óbvio, não? O objetivo é maximizar o não-entendimento. E só agora eu percebo essas coisas. 

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

Mas eu disse a verdade...

Aquele orientador que eu admirava e continuo admirando, ao menos enquanto mente, magoou-se com as minhas palavras, que nem lhe foram dirigidas, mas lhe foram repassas por aquele outro orientador com o qual me desentendi intelectualmente.  Não sei como as minhas palavras lhe foram repassadas ou, se repassadas na íntegra, se o contexto em que foram expressas também foi explicitado. Duvido muito, de outro modo, a mágoa não seria sensata. 

O contexto era explicitar se eu tive, dos meus professores, ao longo da graduação, não só apoio mais estímulo para filosofar. A resposta não podia ser diferente: tive algum, porém pouco, bem longe do ideal. Se o contexto fosse outro, isto é, se me pedissem para explicitar se eu tive, dos meus professores, ao longo da graduação, apoio e estímulo formativo, a resposta não poderia ser diferente desta: tive enorme apoio, de alguns professores, em especial do orientador admirado, um apoio e estímulo tão grandes que seria impossível lhe manifestar todo o meu agradecimento. 

Imagino que seja difícil para quem não fez um curso de filosofia no Brasil perceber a diferença entre apoio e estímulo para filosofar e receber apoio e estímulo formativo.  Explico: nossos cursos de filosofia tendem a ser, embora isso venha mudando muito vagarosamente, uma apresentação da história da filosofia ocidental e o aluno é asseverado um bom aluno quando aprende a fazer uma boa história da filosofia. É para isso que ele é treinado e é por isso que ele é avaliado. Vê-se, então, que não cabe nesses cursos ou nem faz muito sentido estimular o filosofar, a não ser secundariamente enquanto meio para o bom historiar. 

E a realidade era essa mesmo. Apesar de a maior parte dos alunos de filosofia de todos os cursos de filosofia no Brasil se frustrarem ao longo do curso pela ausência do filosofar, nenhum estímulo nesse sentido lhes é dado aberta ou explicitamente. Ao contrário, costumam ser até punido se o fazem. Tive a sorte de encontrar alguns professores que não puniam o filosofar, mas também não posso dizer que o encorajavam e, quando o faziam, era de um modo bem tímido. Então eu disse o que eu disse e, em dizendo o que eu disse, eu disse a verdade. 

Talvez essa seja apenas a minha percepção, talvez, na dele, ele tenha feito demais. Eu acho que ele fez demais sim, mas de um modo formativo. Propiciou-me muito conhecimento que de outro modo eu pastaria para obter.  Deu-me algum apoio sim para o filosofar, mas nada revolucionário, nada perto do que eu imaginaria ideal em um curso de filosofia. 

O que chateia mesmo é saber que para sobreviver em meio a esses egos ultrasensíveis é preciso aprender a falar sempre como se estivesse pisando em ovos. E, para isso, eu confesso realmente não ter o menor saco. Por isso, prefiro agora me calar diante deles. Assim, ninguém se magoa. 

 

Casados, enfim.

Enfim, casados segundo a lei dos homens. Bom. :)

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Eu poderia ter feito...que importa?

Pensar no que você poderia ter feito antes para ser melhor hoje não ajudará em nada para ser melhor hoje ou depois. Pensar no que você ainda pode fazer hoje pode ajudar-lhe em ser melhor
depois. Preocupe-se também em pensar se o seu ideal de melhor é algo que necessariamente deve, para a sua satisfação e bem-estar pessoal, ser atingido e, em sendo, se, pelo que você ainda pode fazer hoje e depois, é razoável esperar atingí-lo.  

Em verdade, a verdade.

Em verdade, poucos querem saber a verdade, em especial, a sua verdade. O manto das aparências convém à sobrevivência. Na verdade, a verdade não é assim sempre tão importante.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

Quem quer reconhecimento não quer novidade

Quanto maior a necessidade de reconhecimento, 
menor o potencial criativo, o que não significa que serás 
efetivamente menos criativo que fulano caso sua necessidade 
de reconhecimento seja maior que a dele. Entre potência e ato
concorre vários fatores. É óbvio, no entanto, que a necessidade
de reconhecimento favorece a parciomônia e desencoraja assumir
riscos. Este último enunciado pode não ser tão correto se a sua 
necessidade de reconhecimento se satisfaz pelo reconhecimento de
uns poucos, conforme, é claro, este poucos sejam selecionados. 
Se, no entanto, ela demanda o reconhecimento do maior 
número possível de pessoas, então fatalmente a parcimônia será 
adotada como meio e os riscos serão evitados. Nesta situação, 
a criatividade não fica impossibilitada, mas é severamente 
prejudicada e empobrecida. Pode-se dizer que o seu potencial total
é sensivelmente abatido. O novo dificilmente emerge se a sua 
busca é regulada pela convergência. 

De um dos medos

O medo de perder, de sentir saudades, de saber que certas coisas boas presentemente sentidas jamais o serão novamente em tempos futuros. Não qualquer coisa, é óbvio. Posso tomar com avidez um suco de limão sabendo que será o último. A saudade de um gosto não é forte o suficiente para me fazer temê-la. Posso passar sem este gosto em minhas experiências futuras, posso resistir a sua ausência. Mas há outras coisas cujo mero pensamento da ausência me faz fraquejar. Não quero, do fundo do meu sentir, passar sem elas. Por que? Por serem muito prazerosas? Mas também poderia passar sem algo muito gostoso. Sofreria um pouco se comesse agora uma pizza sabendo que seria a última. Sofreria, mas não temeria. O fato de ter outras coisas gostosas ao meu dispor, algumas até bem similares à pizza, acalmam o meu desejo, restringem o sofrimento pela ausência da pizza. Aquelas coisas, então, cujo mero pensamento da ausência me faz tremer devem não primordialmente propriciar-me um grande prazer, embora muitas o façam, mas sim serem tão únicas que nada no mundo faria diminuir o incômodo pela sua ausência. São tão únicas, tão insubstituíveis, tão dessemelhantes a todo o resto que pensar-me para sempre sem elas me angustia, me tira o chão onde piso.  Perder uma dessas coisas é como perder um mundo. Quando uma dessas coisas não é uma coisa, mas uma pessoa, e uma pessoa amada, então não há palavras para descrever tudo o que se perde e o medo de perdê-la transfigura o rosto só de pensá-lo. E cedo ou tarde a morte nos obrigará a enfrentá-lo.

sábado, janeiro 03, 2009

Litoral liberal

Comparando mineiros com curitibanos, sempre atribuí aos primeiros mais afetividade e receptividade. De fato, os mineiros acolhem mais. É improvável que, sendo de fora, em um evento social, nenhum mineiro venha tentar trazê-lo para a roda com algumas perguntas. Em Curitiba, improvável é o contrário. É perfeitamente normal e aceitável que você seja ignorado por todos o tempo todo. Agora percebo, no entanto, que o acolhimento mineiro tem algumas restrições. Ele só se aplica à pessoa se ela se ajusta muito bem à normalidade social. Comparando novamente, vejo que o mineiro é tão conservador quanto o curitibano. No aspecto visual, creio que sejam até mais. Minha namorada-esposa tem o cabelo vermelho, vermelho vivo, bem vivo. Andando pelas ruas de BH, mesmo na minha companhia, tivemos a surpresa da reação negativa de várias pessoas, ela teve, inclusive, de escutar um "cruz credo", outra velhinha, quase em posição de enfarte, colocou a mão na boca apavorada, enquanto apontava para ela e chamava em socorro o seu velho-marido, "olha aquilo". Realmente chocou-me ver tantas pessoas chocadas com o vermelho do cabelo dela. Contraste imediato com o "liberalismo visual" que encontramos ao chegar no ES, mesmo na cidade interiorana em que nasci. Andando pelas ruas, algumas pessoas a pararam para elogiar o seu cabelo, outras para saber como fazer igual. Não é novidade alguma que o calor do litoral e das praias tornam as pessoas menos desapegadas a um certo padrão de decoro e vestimenta. Lembro agora também que, ao chegar em BH, com 14 anos, aposentei logo as bermudas que, aqui, eram meu meio de se vestir diário. Depois de uma semana recebendo os olhares de todos ao entrar em um ônibus qualquer, desisti de resistir. Na época, lá ainda não era tão quente quanto é hoje. Então imagino que agora sejam um pouco menos conservadores quanto às bermudas. Mas certamente os mineiros ainda estão longe de aceitar que os cabelos sejam também uma vestimenta e, por isso, possam ser pintados e trocados das mais diversas maneiras.

quinta-feira, dezembro 25, 2008

A bela feia


De longe, realmente é bela; de perto, as imperfeições machucam as vistas. Muita pichação, não há quase prazer algum em sair pelas ruas a fim de se deleitar com os sentidos, pensando aqui no aspecto urbanístico e arquitetônico. O sobe e desce desanima qualquer perna. Ainda assim a visita vale à pena pelas guloseimas e o sorriso hospitaleiro que se vê estampado em cada mineiro. A melhor parte: os amigos de décadas com a mesma amizade incólume, faz-me pensar que, para algumas coisas mais abstratas, porém reais, o tempo é inofensivo.

terça-feira, dezembro 23, 2008

Da maturidade intelectual

"Ele ainda não está maduro", "precisa evoluir mais", "está confuso, precisa amadurecer mais". Metáforas assim são usadas para se referir ao "estágio de desenvolvimento intelectual" do aluno. Difícil discordar de que algumas idéias só saem, se moldam ou se articulam depois de muito ruminar. No entanto, desagrada-me a aceitação dogmática dessa crença bovina, a de que sem pastar, não há como inovar, ou até bem menos que isso, não há sequer como pensar ou descobrir algo interessante. Pode acontecer do pensamento de chofre ser mais agudo e penetrante que o pensamento ruminado. Perde-se coragem e ímpeto quando se pondera em demasia. O fato é emocional, mas que não deixa, por isso, de obstruir a verdade. Sorrateira ela é e, por isso, a prudência secular no cuidado em buscá-la. O medo de errar, no entanto, pode nos desviar igualmente do caminho certeiro. Às vezes é preciso arriscar e lançar a idéia tão logo apareça, antes que seus pesares a encubram nos escombros do pensamento. Quando fazê-lo? Só a sua própria experiência o pode indicar.

quinta-feira, dezembro 04, 2008

Da Covardia

Eu voltei, mas terei culhões para resistir dessa forma acovardada? Esse é o problema de ter a sobrevivência nas mãos de outros com os quais você discorda radicalmente em um assunto capital: a educação. A bolsa é boa, mas é uma merda. Penso também que se estivesse na iniciativa privada da computação, daria no mesmo. Sapos para engolir não faltariam. Melhor aqui, então, apesar de todos os pesares. Hoje escutei calado, muito embora não fosse dirigido a mim, a frase encorajadora: "não há nada que você diga que já não tenha sido dito de uma forma melhor por outra pessoa". Que forma estupenda de estimular a criatividade dos seus alunos! Sobre o ar interrogador desses últimos, ainda ouvi a analogia fenomenal: "as pessoas vão aprender a dirigir na auto-escola e não questionam as regras de trânsito, por que não adotam o mesmo comportamento aqui no curso?". Eu estava realmente ali? Quão mal o gênio malígno às vezes consegue ser comigo. Incrível como qualquer pessoa comum tem um bom senso infinitamente maior que a de qualquer filósofo acadêmico brasileiro. Os alunos querem ouvir mais sobre o papel do filósofo na sociedade, sua possível intervenção política e social. Depois de se olharem mutuamente, como se chegassem a um acordo implícito, desabafam raivosos: "não compete à filosofia agir, não conheço professor de filosofia que atue politicamente". Certamente Marx e Sarte não deram aulas de filosofia. Gênio, gênio, assim vou preferir ficar surdo. As psicólogas vieram relatar os resultados dos seus estudos sobre a evasão dos alunos. Atualmente, em torno dos 40% e teve ano que ficou em torno dos 80%. A maioria queixou-se do pouco espaço para pensar, da falta de estímulo para o pensamento próprio, ao contrário, ele é violentamente podado. No entanto, o corpo uníssono dos acadêmicos parece pensar que tudo vai bem, afinal, "nosso curso tem exclusivamente o objetivo de formar professores universitários". Quem ouve uma frase assim até se encolhe diante de tanta seriedade. Mas quem é que pode levar isso realmente a sério? Eu não posso. Estamos falando de dinheiro público. A graduação não pode ter apenas por objetivo formar alunos que farão mestrado e doutorado. Um curso que não tem esse objetivo exclusivo não perde, por isso, qualidade. Mas isso é o de menos, perto de tudo que ouvi, foi o menor dos males. O pior é o acordo tácito que está por trás dessa fala naquele contexto: a idéia pilar de que o professor universitário deve ser mais um papagaio que alguém que saiba pensar. Voltei para casa arrasado, principalmente comigo. Covarde. É só o que consigo me repetir. Consola-me pouco dizer-me que não adiantaria nada tentar convencê-los da importância de se estimular a criatividade dos alunos e valorizar suas idéias próprias. O tom de voz já exaltado diante de um simples relato de resultado de pesquisa se elevaria ao grito, eu não duvido, diante da discórdia frontal. Covarde. Seja um lobo em pele de cordeiro. 

quarta-feira, novembro 19, 2008

Da erudição e Da contradição

Então, já perto das 16:30, o professor especialista em Nietzsche encerrou a sua fala. Embora a maioria sempre saia embasbacada com a fala de eruditos que citam de cabeça não só frases do seu pensador preferido, mas também a página e o parágrafo onde se encontram e que arrotam sentenças em 4 línguas diferentes, o que, felizmente, não ocorreu desta vez, eu sempre saio com a impressão de que nada realmente profundo me foi dito, apesar de reconhecer a riqueza de informação e a persistência mnemônica do sujeito que se dá o trabalho de ficar decorando páginas e parágrafos. Mas riqueza de informação eu encontro na internet também. É por isso que, salvo raras exceções, o papel do erudito perdeu a sua razão de ser. Desde os anos 90 que a informação não precisa de mentes humanas para circular no espaço. Ela está virtualmente em todo o espaço. Há quem diga que os eruditos ainda são relevantes pelas associações que fazem entre as milhares de informações que eles acumularam e programa algum é capaz de fazê-las. Concordo que a computação ainda é muito burra para isso. Mas comparando os tempos, os 60 minutos dedicados a relatar as obras que Nietzsche leu ou deixou de ler, quando as leus, onde estudou, com quem estudou, a ordem de publicação dos seus livros, por fim, como um ou outro conceito foi usado de maneira diferente aqui e ali, e, em seguida, os ligeiros 5 minutos dedicados a formular o perspectivismo de Nietzsche e distinguí-lo do relativismo, eu concluo que o ganho de associação e clareza é quase nulo, e olha que julguei esse erudito, em especial, bastante inteligente. Não foi por falta desse atributo que a discussão ficou rala. Enfim, eu só queria dizer que, apesar de respeitar a figura do erudito, espero que sejam felizes com o que fazem, que se divirtam, eu pessoalmente geralmente não me enriqueço vendo o desempenho de um. E o motivo é muito claro: eu tenho mais sede de compreensão e verdade que de informação.

Só que a minha sede de verdade é circunscrita pelo ceticismo, relativismo e pluralismo. Quando lhe foi dada a palavra, o aluno acusou: "Eu acho que Nietzsche é cheio de contradições, são muitas contradições". Diferente do acadêmico inseguro, minha rusga com o aluno não  é pelo seu "eu acho". Eu realmente não entendo qual é a indignação do acadêmico com o "eu acho". Em muitos contextos, "eu acho que", "eu penso que" e até um leve "eu sei que" são equivalentes. Se vamos considerar ou não o que a pessoa diz depois do "que" depende da responsta que ela nos der para o porquê. Simples, não?  Minha rusga com o aluno se resume na conotação moral do seu ato de fala. Aponta-se a contradição em um autor como se estivesse exibindo uma chaga, algo ignóbil e vergonhoso. Incompreensível que ninguém tenha percebido a incongruência dessa reação ou, pior, o seu caráter exemplar, justamente depois de se destacar a luta de Nietzsche contra a verdade apolínea, a verdade socrática, metafísica, de uma cor e dimensão só. Ninguém mais que o princípio da não-contradição esteve em defesa ao longo dos séculos dessa verdade transcendente. Quer chegar até a verdade, ver a sua face, dar-lhe uma espiada? Eis a chave: não se contradiga. Mas não é só uma questão de imputar erro a quem se contradiz ou vetar-lhe a vista da verdade. Vai além, moralizou-se a coisa. Quem se contradiz, é mentiroso, é inconstante, não é confiável etc. E lá estava o dedo do aluno apontando indignado para a sujeira contraditória de Nietzsche. Fechemos o livro, não há nada ali que preste. O mesmo aluno que bebeu o mito da caverna, que se catequizou pela verdade apolínea, perde a visão das contradições da vida, escapa-lhe o devir vital. Trocou o ser pelo não-ser.

quarta-feira, novembro 05, 2008

Da consciência do pé

Um corpo miserável causa uma consciência miserável, todo mundo sabe disso. E se a velhice ou, para falar de um modo mais brando, o passar dos anos, tem, para mim, algum porém, é a convivência mais assídua e íntima com essa consciência. Perturba sentir a fragilidade se apossando do corpo a cada fração de segundo, ceifando potências e incrustando medos. Semana passada subi em uma árvore para colher umas pitangas que ela tanto ama. Não, antes que tentem concluir por mim, eu não caí da árvore. Ao descer, contudo, quando estava mais ou menos a um metro do chão, resolvi pular. Como a sola do allstar e nada são a mesma coisa, senti penetrante a dureza do chão. Dor momentânea que logo se esvaeceu no fluxo da consciência. Uma semana se passou e o local do impacto resolveu progressivamente revoltar-se contra mim, como se eu não tivesse lhe dado a devida atenção naquele seu momento nascente, e hoje vejo-me obrigado a ficar em casa por não conseguir andar. Acharia ótimo se não tivesse recebido aquele papelzinho pela fresta da porta convocando-me a comparecer nos Correios para receber uns livros encomendados. Ah, mas nem que eu vá de saci! De qualquer modo, aflige, anos atrás, algo bobo assim não causaria mais que uma coceira.