sexta-feira, abril 17, 2009
Da injustiça extroversa ou da justiça introversa
encenadas. Meu ser é contraído, raramente se expande luminosamente
chamando a atenção alheia. Ao contrário, sou o tipo de pessoa cujo ser
se desvela por convívio. Somente o estar com é suficiente para
despertar-me a abertura. Por isso, uma vez me disseram, "quem, em te
conhecendo, não te amarás?". Concordo. Isto vale para outras dimensões
do meu ser: "quem, em me conhecendo, não perceberás o meu engenho?". Mas
há aqueles que conseguem expressar engenho pela casca, sem o conviver, e
outros que o manifestam sem tê-lo de todo. Seu engenho consiste
justamente em serem altamente capazes de parecer engenhosos. Há várias
situações da vida em que demandam de ti apresentar as suas qualidades em
um intervalo pequeno de tempo, isto é, querem de ti a manifestação das
suas qualidades sem terem de conviver contigo. Esta é uma situação
injusta, uma vez que privilegia a maior capacidade natural do extroverso
de parecer o que é ou mesmo de parecer o que não é, enquanto o
introverso pode ser muito mais que o extroverso sem conseguir, em tempo
hábil, parecê-lo. O que só comprova o mote comum de que vivemos numa
sociedade que privilegia muito mais as aparências. Não que a aparência
seja, em si, ruim, não, em muitas ocasiões, a aparência é realmente tudo
o que devemos almejar, mas, em outras, dizemos hipocritamente que
esperamos o ser, quando, na verdade, julgamos erroneamente a sua
presença apenas por umas parcas aparências. Assumamos logo o que
queremos e valorizamos.
terça-feira, abril 14, 2009
"De alegre já basta a vida"
"De alegre já basta a vida", disse o professor amigo, em defesa da sua apreciação estética de ambientes sombrios, vitorianos. Eu vou mais longe: que pena que até a vida seja alegre ou tenha de nos aparecer sempre alegre! Não há nada mais sofrido e entristecedor que a pressão por parecer alegre. Sabe-se que ela é mais cultural que humana. Argentinos, ao contrário de nós, cultivam a experiência dramática da dor, do sofrimento. Cultivam, na verdade, a não-distância entre o que se sente e o que se manifesta. Já nós na altura dos trópicos temos maior apetite pela esquizofrenia, sentimos a obrigação moral de mostrar os dentes mesmo quando há dor, ou quando a dor é suficientemente insuporável para permitir o sorriso, sentimos a obrigação de nos esconder, de não mostrar a cara à vida, poupando, assim, os nossos pares desta visão maledicente. E muitas vezes pode não ter nada mais doloroso do que ter de esconder a própria dor ou fingir que não a sente. Sem contar o roubo de significado que esta pressão realiza sobre a vida. A dor é tão signficativa quanto a alegria e o prazer. Absorver este significado demanda, no entanto, encarar a dor de frente, sem máscaras, senti-la de cabo a rabo. Mas não, a todo instante somos moralmente convidados a se esquivar de nossas próprias vidas, a deixar-lhe passar longe todo o sentido. E, assim, a sociedade que mais transparece felicidade é certamente a sociedade em que as pessoas tem menos chances de perceber os sentidos para as suas vidas, o que é paradoxal, uma vez que ser feliz, agora numa acepção bem geral e não atrelada meramente ao prazer, é um dos principais sentidos da vida. Então quanto mais você se esforça para transparecer feliz mais distante está de ser efetivamente feliz.
sexta-feira, abril 10, 2009
Energizar Diário
de um demorado e intenso abraço dela. Resisto, então, aos "nãos" que o
mundo me dá. Não que eu sinta menos falta dos "sims" e sim que eu sofro
menos com a presença dos "nãos". Dormir e acordar ao lado dela engrossa
a casca que me mantém vivo no atrito com o mundo.
De quando o amor/amizade se transforma em ódio/inimizade
antes amor ou amizade genuínos, quando muito simulacros deles, ou, ao
contrário, justamente por serem genuínos é que o ódio e a inimizade
puderam vir à tona? O que acontece na transição?
A minha tese é a de que, nestes casos, o ódio é uma forma menos dolorida
de se representar a perda. Justamente por alguém significar muito para
você é que, na eminência de vê-la rompendo contigo, você recruta todos
os motivos lembráveis de suas história com ela que corroboram a visão de
que ela é uma pessoa odiável, desprezível e que não merecia a sua
atenção. Dói muito mais a ausência de alguém querido do que a ausência
de alguém odiado. Quando a representação odiosa da pessoa se consolida,
você não só não vê como não sente tanta necessidade de lamentar a
perda. E quanto mais as duas pessoas envolvidas na transformação do amor
em ódio concretizam o seu ódio mútuo, quanto mais elas se ferem pelo
desprezo, mais elas facilitam o processo de lidar com a perda e menos
sentirão a dor da ausência. Sempre que uma lembrar da outra, o fará pela
modalidade odiosa, isto é, a imagem da pessoa lembrada estará
emotivamente carregada de repulsa, o que é suficiente para impedir que os
sentimentos da saudade e da falta despertem. Representar o amado pelo
ódio é, assim, uma forma de mitigar a dor engendrada pela ausência do
amado.
Para evitar confusão, não estou dizendo que sempre chegamos a odiar
alguém é porque a amamos antes. Não, em muitos casos, não gostamos da
pessoa desde o início. Se a percebemos desde o início como uma pessoa
chata, como alguém que incomoda, então desde o início vamos detestá-la,
odiá-la ou na melhor das hipóteses meramente tolerá-la. Enfim, o vir a
odiar pode ter causas diversas.
Esta tese, no entanto, explica como acontece e o que fomenta a
transformação de amizade em inimizade, de amor em ódio. Não explica ou
não detalha o que causa esta transformação. Dei uma pista: a percepção
(verídica ou não) do rompimento eminente. Pode explicar alguns casos,
mas não todos. E mesmo aqueles que explica, o faz de modo impreciso. Há
certamente mais coisas envolvidas. Como algo supostamente tão firme e
sólido pode desmoronar tão rapida e definitivamente?
quarta-feira, abril 01, 2009
Quer que eu segure?
Já tinha até me esquecido de certas cordialidades mundanas. Agradeço aos catarinenses por fazer-me lembrá-las, essa em específico: é de bom tom perguntar às pessoas que estão em pé no ônibus se elas desejam ter as suas coisas seguradas por quem está confortavelmente sentado. É interessante investigar porque o impulso solidário diante do sofrimento visível e estampado se retrai e se intimida, entre curitibanos, numa situação tão banal como esta.
sexta-feira, março 27, 2009
Do Eu
sexta-feira, março 20, 2009
De-situado.
terça-feira, março 03, 2009
Aula boa
sexta-feira, fevereiro 06, 2009
Mas eu disse a verdade...
Aquele orientador que eu admirava e continuo admirando, ao menos enquanto mente, magoou-se com as minhas palavras, que nem lhe foram dirigidas, mas lhe foram repassas por aquele outro orientador com o qual me desentendi intelectualmente. Não sei como as minhas palavras lhe foram repassadas ou, se repassadas na íntegra, se o contexto em que foram expressas também foi explicitado. Duvido muito, de outro modo, a mágoa não seria sensata.
O contexto era explicitar se eu tive, dos meus professores, ao longo da graduação, não só apoio mais estímulo para filosofar. A resposta não podia ser diferente: tive algum, porém pouco, bem longe do ideal. Se o contexto fosse outro, isto é, se me pedissem para explicitar se eu tive, dos meus professores, ao longo da graduação, apoio e estímulo formativo, a resposta não poderia ser diferente desta: tive enorme apoio, de alguns professores, em especial do orientador admirado, um apoio e estímulo tão grandes que seria impossível lhe manifestar todo o meu agradecimento.
Imagino que seja difícil para quem não fez um curso de filosofia no Brasil perceber a diferença entre apoio e estímulo para filosofar e receber apoio e estímulo formativo. Explico: nossos cursos de filosofia tendem a ser, embora isso venha mudando muito vagarosamente, uma apresentação da história da filosofia ocidental e o aluno é asseverado um bom aluno quando aprende a fazer uma boa história da filosofia. É para isso que ele é treinado e é por isso que ele é avaliado. Vê-se, então, que não cabe nesses cursos ou nem faz muito sentido estimular o filosofar, a não ser secundariamente enquanto meio para o bom historiar.
E a realidade era essa mesmo. Apesar de a maior parte dos alunos de filosofia de todos os cursos de filosofia no Brasil se frustrarem ao longo do curso pela ausência do filosofar, nenhum estímulo nesse sentido lhes é dado aberta ou explicitamente. Ao contrário, costumam ser até punido se o fazem. Tive a sorte de encontrar alguns professores que não puniam o filosofar, mas também não posso dizer que o encorajavam e, quando o faziam, era de um modo bem tímido. Então eu disse o que eu disse e, em dizendo o que eu disse, eu disse a verdade.
Talvez essa seja apenas a minha percepção, talvez, na dele, ele tenha feito demais. Eu acho que ele fez demais sim, mas de um modo formativo. Propiciou-me muito conhecimento que de outro modo eu pastaria para obter. Deu-me algum apoio sim para o filosofar, mas nada revolucionário, nada perto do que eu imaginaria ideal em um curso de filosofia.
O que chateia mesmo é saber que para sobreviver em meio a esses egos ultrasensíveis é preciso aprender a falar sempre como se estivesse pisando em ovos. E, para isso, eu confesso realmente não ter o menor saco. Por isso, prefiro agora me calar diante deles. Assim, ninguém se magoa.
quarta-feira, fevereiro 04, 2009
Eu poderia ter feito...que importa?
depois. Preocupe-se também em pensar se o seu ideal de melhor é algo que necessariamente deve, para a sua satisfação e bem-estar pessoal, ser atingido e, em sendo, se, pelo que você ainda pode fazer hoje e depois, é razoável esperar atingí-lo.
Em verdade, a verdade.
quinta-feira, janeiro 22, 2009
Quem quer reconhecimento não quer novidade
menor o potencial criativo, o que não significa que serás
efetivamente menos criativo que fulano caso sua necessidade
de reconhecimento seja maior que a dele. Entre potência e ato
concorre vários fatores. É óbvio, no entanto, que a necessidade
de reconhecimento favorece a parciomônia e desencoraja assumir
riscos. Este último enunciado pode não ser tão correto se a sua
necessidade de reconhecimento se satisfaz pelo reconhecimento de
uns poucos, conforme, é claro, este poucos sejam selecionados.
Se, no entanto, ela demanda o reconhecimento do maior
número possível de pessoas, então fatalmente a parcimônia será
adotada como meio e os riscos serão evitados. Nesta situação,
a criatividade não fica impossibilitada, mas é severamente
prejudicada e empobrecida. Pode-se dizer que o seu potencial total
é sensivelmente abatido. O novo dificilmente emerge se a sua
busca é regulada pela convergência.
De um dos medos
sábado, janeiro 03, 2009
Litoral liberal
quinta-feira, dezembro 25, 2008
A bela feia

De longe, realmente é bela; de perto, as imperfeições machucam as vistas. Muita pichação, não há quase prazer algum em sair pelas ruas a fim de se deleitar com os sentidos, pensando aqui no aspecto urbanístico e arquitetônico. O sobe e desce desanima qualquer perna. Ainda assim a visita vale à pena pelas guloseimas e o sorriso hospitaleiro que se vê estampado em cada mineiro. A melhor parte: os amigos de décadas com a mesma amizade incólume, faz-me pensar que, para algumas coisas mais abstratas, porém reais, o tempo é inofensivo.
terça-feira, dezembro 23, 2008
Da maturidade intelectual
quinta-feira, dezembro 04, 2008
Da Covardia
quarta-feira, novembro 19, 2008
Da erudição e Da contradição
Então, já perto das 16:30, o professor especialista em Nietzsche encerrou a sua fala. Embora a maioria sempre saia embasbacada com a fala de eruditos que citam de cabeça não só frases do seu pensador preferido, mas também a página e o parágrafo onde se encontram e que arrotam sentenças em 4 línguas diferentes, o que, felizmente, não ocorreu desta vez, eu sempre saio com a impressão de que nada realmente profundo me foi dito, apesar de reconhecer a riqueza de informação e a persistência mnemônica do sujeito que se dá o trabalho de ficar decorando páginas e parágrafos. Mas riqueza de informação eu encontro na internet também. É por isso que, salvo raras exceções, o papel do erudito perdeu a sua razão de ser. Desde os anos 90 que a informação não precisa de mentes humanas para circular no espaço. Ela está virtualmente em todo o espaço. Há quem diga que os eruditos ainda são relevantes pelas associações que fazem entre as milhares de informações que eles acumularam e programa algum é capaz de fazê-las. Concordo que a computação ainda é muito burra para isso. Mas comparando os tempos, os 60 minutos dedicados a relatar as obras que Nietzsche leu ou deixou de ler, quando as leus, onde estudou, com quem estudou, a ordem de publicação dos seus livros, por fim, como um ou outro conceito foi usado de maneira diferente aqui e ali, e, em seguida, os ligeiros 5 minutos dedicados a formular o perspectivismo de Nietzsche e distinguí-lo do relativismo, eu concluo que o ganho de associação e clareza é quase nulo, e olha que julguei esse erudito, em especial, bastante inteligente. Não foi por falta desse atributo que a discussão ficou rala. Enfim, eu só queria dizer que, apesar de respeitar a figura do erudito, espero que sejam felizes com o que fazem, que se divirtam, eu pessoalmente geralmente não me enriqueço vendo o desempenho de um. E o motivo é muito claro: eu tenho mais sede de compreensão e verdade que de informação.
Só que a minha sede de verdade é circunscrita pelo ceticismo, relativismo e pluralismo. Quando lhe foi dada a palavra, o aluno acusou: "Eu acho que Nietzsche é cheio de contradições, são muitas contradições". Diferente do acadêmico inseguro, minha rusga com o aluno não é pelo seu "eu acho". Eu realmente não entendo qual é a indignação do acadêmico com o "eu acho". Em muitos contextos, "eu acho que", "eu penso que" e até um leve "eu sei que" são equivalentes. Se vamos considerar ou não o que a pessoa diz depois do "que" depende da responsta que ela nos der para o porquê. Simples, não? Minha rusga com o aluno se resume na conotação moral do seu ato de fala. Aponta-se a contradição em um autor como se estivesse exibindo uma chaga, algo ignóbil e vergonhoso. Incompreensível que ninguém tenha percebido a incongruência dessa reação ou, pior, o seu caráter exemplar, justamente depois de se destacar a luta de Nietzsche contra a verdade apolínea, a verdade socrática, metafísica, de uma cor e dimensão só. Ninguém mais que o princípio da não-contradição esteve em defesa ao longo dos séculos dessa verdade transcendente. Quer chegar até a verdade, ver a sua face, dar-lhe uma espiada? Eis a chave: não se contradiga. Mas não é só uma questão de imputar erro a quem se contradiz ou vetar-lhe a vista da verdade. Vai além, moralizou-se a coisa. Quem se contradiz, é mentiroso, é inconstante, não é confiável etc. E lá estava o dedo do aluno apontando indignado para a sujeira contraditória de Nietzsche. Fechemos o livro, não há nada ali que preste. O mesmo aluno que bebeu o mito da caverna, que se catequizou pela verdade apolínea, perde a visão das contradições da vida, escapa-lhe o devir vital. Trocou o ser pelo não-ser.