quarta-feira, novembro 19, 2008

Da erudição e Da contradição

Então, já perto das 16:30, o professor especialista em Nietzsche encerrou a sua fala. Embora a maioria sempre saia embasbacada com a fala de eruditos que citam de cabeça não só frases do seu pensador preferido, mas também a página e o parágrafo onde se encontram e que arrotam sentenças em 4 línguas diferentes, o que, felizmente, não ocorreu desta vez, eu sempre saio com a impressão de que nada realmente profundo me foi dito, apesar de reconhecer a riqueza de informação e a persistência mnemônica do sujeito que se dá o trabalho de ficar decorando páginas e parágrafos. Mas riqueza de informação eu encontro na internet também. É por isso que, salvo raras exceções, o papel do erudito perdeu a sua razão de ser. Desde os anos 90 que a informação não precisa de mentes humanas para circular no espaço. Ela está virtualmente em todo o espaço. Há quem diga que os eruditos ainda são relevantes pelas associações que fazem entre as milhares de informações que eles acumularam e programa algum é capaz de fazê-las. Concordo que a computação ainda é muito burra para isso. Mas comparando os tempos, os 60 minutos dedicados a relatar as obras que Nietzsche leu ou deixou de ler, quando as leus, onde estudou, com quem estudou, a ordem de publicação dos seus livros, por fim, como um ou outro conceito foi usado de maneira diferente aqui e ali, e, em seguida, os ligeiros 5 minutos dedicados a formular o perspectivismo de Nietzsche e distinguí-lo do relativismo, eu concluo que o ganho de associação e clareza é quase nulo, e olha que julguei esse erudito, em especial, bastante inteligente. Não foi por falta desse atributo que a discussão ficou rala. Enfim, eu só queria dizer que, apesar de respeitar a figura do erudito, espero que sejam felizes com o que fazem, que se divirtam, eu pessoalmente geralmente não me enriqueço vendo o desempenho de um. E o motivo é muito claro: eu tenho mais sede de compreensão e verdade que de informação.

Só que a minha sede de verdade é circunscrita pelo ceticismo, relativismo e pluralismo. Quando lhe foi dada a palavra, o aluno acusou: "Eu acho que Nietzsche é cheio de contradições, são muitas contradições". Diferente do acadêmico inseguro, minha rusga com o aluno não  é pelo seu "eu acho". Eu realmente não entendo qual é a indignação do acadêmico com o "eu acho". Em muitos contextos, "eu acho que", "eu penso que" e até um leve "eu sei que" são equivalentes. Se vamos considerar ou não o que a pessoa diz depois do "que" depende da responsta que ela nos der para o porquê. Simples, não?  Minha rusga com o aluno se resume na conotação moral do seu ato de fala. Aponta-se a contradição em um autor como se estivesse exibindo uma chaga, algo ignóbil e vergonhoso. Incompreensível que ninguém tenha percebido a incongruência dessa reação ou, pior, o seu caráter exemplar, justamente depois de se destacar a luta de Nietzsche contra a verdade apolínea, a verdade socrática, metafísica, de uma cor e dimensão só. Ninguém mais que o princípio da não-contradição esteve em defesa ao longo dos séculos dessa verdade transcendente. Quer chegar até a verdade, ver a sua face, dar-lhe uma espiada? Eis a chave: não se contradiga. Mas não é só uma questão de imputar erro a quem se contradiz ou vetar-lhe a vista da verdade. Vai além, moralizou-se a coisa. Quem se contradiz, é mentiroso, é inconstante, não é confiável etc. E lá estava o dedo do aluno apontando indignado para a sujeira contraditória de Nietzsche. Fechemos o livro, não há nada ali que preste. O mesmo aluno que bebeu o mito da caverna, que se catequizou pela verdade apolínea, perde a visão das contradições da vida, escapa-lhe o devir vital. Trocou o ser pelo não-ser.

quarta-feira, novembro 05, 2008

Da consciência do pé

Um corpo miserável causa uma consciência miserável, todo mundo sabe disso. E se a velhice ou, para falar de um modo mais brando, o passar dos anos, tem, para mim, algum porém, é a convivência mais assídua e íntima com essa consciência. Perturba sentir a fragilidade se apossando do corpo a cada fração de segundo, ceifando potências e incrustando medos. Semana passada subi em uma árvore para colher umas pitangas que ela tanto ama. Não, antes que tentem concluir por mim, eu não caí da árvore. Ao descer, contudo, quando estava mais ou menos a um metro do chão, resolvi pular. Como a sola do allstar e nada são a mesma coisa, senti penetrante a dureza do chão. Dor momentânea que logo se esvaeceu no fluxo da consciência. Uma semana se passou e o local do impacto resolveu progressivamente revoltar-se contra mim, como se eu não tivesse lhe dado a devida atenção naquele seu momento nascente, e hoje vejo-me obrigado a ficar em casa por não conseguir andar. Acharia ótimo se não tivesse recebido aquele papelzinho pela fresta da porta convocando-me a comparecer nos Correios para receber uns livros encomendados. Ah, mas nem que eu vá de saci! De qualquer modo, aflige, anos atrás, algo bobo assim não causaria mais que uma coceira.

terça-feira, outubro 21, 2008

Back to Philosophy

Estou de volta à filosofia. Mamãe resolveu me acolher novamente, depois de me deixar vagando como um pedinte na terra dos bits por esses últimos 4 ou 5 anos. Sem ressentimentos. Mãe é Mãe, filho é filho e, pela natureza, estamos destinados a perdoar um o outro. Eu penso que ela quis me dar uma lição, não tanto de moral, mas como se quisesse me dizer, "se aqui na matrix tá ruim, lá fora tá pior ainda". Duvidei dela de teimoso e fui pra rua. Enquanto tinha dinheiro no bolso, diverti-me um monte, é verdade. Os bits até que são caras legais, jovens, borbulham idéias, diria que são hippies científicos, aceitam quase de tudo entre eles, cientificamente falando, é claro, bem diferente do tom casmurro e opressor em casa de mamãe, talvez porque ela espera demais de nós e, em parte também pelas toneladas de séculos pesando sobre os nossos ombros. Apesar dessa jovialidade de idéias entre os bits, eles tendem a adotar a moral de rebanho quando chega a hora de pedir dinheiro ao pai. E o pai desses caras, vou dizer curto e grosso, é um estereotipado protestante calvinista. Simplesmente intolerável e repugnante. Dá aos filhos o que comer com a estrita exigência de que estes panfleteiem o seu bom nome pelos quatro cantos. Quando começou a rarear as moedas em meu bolso e vi que teria de recorrer ao pai de algum bit e me sujeitar endireitado ao proselitismo paternal, mamãe apareceu de braços abertos, salvando-me da miséria espiritual que logo me imundaria. Volto à matrix, aos sonhos, aos gênios malignos, volto à terra das infinitas possibilidades, e, por que não dizer, dos sonhos de dimensões transfinitos? Em casa de mamãe, apenas os anos pesam, de resto, tudo lá tem um tom etéreo, esfumaçante, respirar é meio que brincar. E, de um certo modo, há uma parte de mim que quero sempre criança, ingênua. Se percebi algo entre os bits, é que não gosto de vida reta. É por demais artificial, alcançável sobretudo por estímulos e reforços que vêm de fora, de algo que absolutamente não sou. A vida verdadeira, cínica, porém corretamente falando, é curvilínea, pois é impossível, com essas pernas naturalmente cambotas que temos, caminhar em linha reta, ainda que diminuamos o tamanho do passo a dimensões infinitesimais. Andar é meio que saltar. Então é isso, salto de volta para a casa de mamãe, sem razões, sem justificativas, mas cheio de sonhos.

segunda-feira, outubro 06, 2008

Da única possível razão, desarrazoada.

Não há nada que me atinja mais do que a possibilidade da sua inexistência, do seu cessar, do seu deixar de ser entre as minhas possibilidades perceptivas futuras. Meus sonhos foram imundados de pesadelos sem ti, expressei isso com o forte e demorado abraço amedrontado que lhe dei ao acordar. Mesmo o maior dos convictos fraqueja diante do maior dos seus temores. Já aprendi a viver sem muita coisa, para falar a verdade, com quase nada, meu ceticismo já matou todas as razões, todos os motivos, menos, paradoxalmente, essa necessidade que se arraiga no maior dos mitos: o do amor romântico. Mesmo que me fosse contada milimetricamente cada antecedente histórico que deu origem a esse mito socialmente localizado e contextualizado, mesmo que eu reconhecesse a sua tolice, e eu a reconheço, ainda assim não deixaria, e não deixo, de sentir, em minhas respirações e palpitações, a necessidade de amar única e totalmente. Talvez resida aí o resquício mais sólido do meu instinto de sobrevivência, habilmente incutido pela seleção natural. E daí? Grito eu para todos os lados. Acaso isso perturba em uma porção infinitesimal que seja a forma como me sinto? Não. Ou ainda uma explicação psicológica mais íntima, se quiseres, na forma de uma disjunção: ou eu percebo que sou necessário para um outro, não um outro qualquer, é óbvio, mas você concretamente, ou eu me faço desnecessário para mim mesmo e perco todos os laços que me prendem ao mundo. Patética conclusão irrefutável. Amor que me atordoa se não lhe serve de alívio, remédio, por pouco que seja e, no entanto, sem ele, não quero nada além do nada.

sábado, setembro 20, 2008

As cores.



Eu diria que ela é uma artista coloral. Suas cores estão sempre em rica harmonia, cintilando meus olhos, me fazem lembrar das caixas de lápis de cor e massinha que ganhava quando criança no início das aulas. Passava horas contemplando a beleza das cores lado a lado, o azul celeste, o azul turquesa das águas das piscinas, o amarelo sol, o verde grama, o marrom tronco, o beje azulejo, o vermelho telhado, o cinza nuvem, infantil mesmo nas representações; as massinhas em barrinhas retangulares, macias de apertar, demorava-me enamorando-as antes de partir para a destruição tatual, gostava de fazer cobrinhas coloridas. O ciclo da massinha lembra o ciclo das vivências. Primeiro você se deslumbra com a nitidez e diversidade das cores, a novidade colorida. Depois a frustração entediante da massa acinzentada. Perdemos o interesse com o igual das coisas. Ela porém nunca se acinzenta diante dos meus olhos, mesmo na sua versão menos viva e colorida, ela desperta a reação de todos os meus bastonetes. Ela tem sede de cores invisíveis, de cores que não existem ou simplesmente de cores que estão além do nosso infante aparelho visual. Quantas lágrimas não pipocam dos seus olhos verde-negros borrados pela impercepção de todas essas cores transcendentes. Se pudesse, lhe daria uma caixa de lápis de cor com todas essas cores inomináveis. Eu que sempre fui muito cinza por fora e por dentro, tenho me sentido bastante colorido, tanto que até ela suspeita do meu acinzentado passado. Diz-me que era conversa fiada minha. Não era. Só que com o seu colorido presente tão vivo diante dos meus olhos, eu me esqueço do cinza de ontem e ignoro o de amanhã. Se alguma vez transpareci irritar-me com ela, confesso-o, foi comigo que me irritei profundamente por não conseguir irradiar uma nova cor que lhe despertasse o sorriso.

segunda-feira, setembro 08, 2008

Sinta mais e pense menos

Downhill Roller

Já passei da idade que me permitira ser assim tão destemido. O corpo é sábio e traz, junto com o envelhecimento, a compreensão do seu retardo para se recuperar. Daí a reação emocional mais medrosa diante de situações que coloquem a integridade do corpo em risco.

O corpo é tão sábio que se não o ouço claramente, se não me atento ao seu modo não-verbal e intuitivo de dizer-me as coisas, de indicar-me para que lado ir e com que força, sou lançado ao chão. É como tocar violão. A última coisa que se deseja em uma atividade motora é a intervenção da consciência reflexiva. Se ela brota, o desempenho será pífio. Notas erradas em um caso, cara no chão, no outro. Para todas as aprendizagens motoras, vale a máxima: sinta mais e pense menos.

Eu e os meus patins que o digam. É uma questão de foco. Não se concentrar jamais no que se deve fazer, quais ações tomar, mas sim no que se está fazendo, no produto. Concentrar-se sim na música produzida, no som, e os dedos irão para onde devem ir; jamais pense nos dedos ao tocar. Igualmente, jamais pensar em como mover as pernas; devo apenas sentir o meu corpo, o seu equilíbrio; concentrando-me nele, nessas sensações, evito a cara no chão.

terça-feira, setembro 02, 2008

Agora foi, mas do outro lado da força.

Parece inusitado que um aluno da graduação seja contratado para ser professor, ainda que substituto, deste mesmo curso e na mesma instituição. Eu não esperava que aceitassem a minha candidatura, mas um professor encorajou e lá no edital estava escrito que aceitariam títulos equivalentes de mestre. "Equivalência" sem critério não diz muita coisa, pode ser tanta uma coisa larga quanto restrita. E o professor foi categórico enquanto me encorajava: "filosofia é IA". Conforme entendamos esse "é", eu devo discordar, óbvio. Por outro lado, é inegável a penetração que uma disciplina tem na outra. Então apostei na equivalência dos meus títulos com os de informática/computação. Aceitaram.

Sobre as condições, bem melhores agora. Sou aluno do curso e, portanto, relativamente "conhecido". Não vou me desfazer do meu argumento da postagem anterior, ainda penso o mesmo. No entanto, preciso dizer: por mais cabaços que as pessoas de exatas "tendam" a ser, estas em específico, os examinadores, me surpreenderam, em primeiro lugar, ao aceitar a minha inscrição e, em segundo, ao mostrar uma tal atitude ética na avaliação que se esperaria encontrar mais facilmente naqueles que justamente teorizam sobre a coisa: os filósofos. Justamente o contrário. Posso estar pisando em falso, não tenho obviamente como provar que houve favorecimento no concurso para prof. substituto no departamento de filosofia, embora tenha ficado meio na cara. Muita conjunção providencial de uma vez só. Também não posso dizer que eu ser conhecido pelos professores que me examinaram no departamento de informática não tenha também me favorecido de alguma maneira. Certamente que sim. No entanto, os candidatos que deixei para trás também foram alunos não só do curso, mas também do mestrado do departamento, de modo que, se eu fui favorecido por ser conhecido, eles também foram.

O que de certa maneira me deixa puto. Puto por ter de reconhecer que filósofos possam adotar a moral das panelinhas com muito mais facilidade e estar mais fechados à alteridade que as pessoas das exatas. Na verdade, essa guerrinha humanas vs. exatas é uma guerrinha boba. Importam as pessoas. Dei sorte de encontrar algumas pessoas boas na computação e azar de encontrar outras ruins na filosofia. Bem e mal é outra distinção difícil de ser feita a não ser em uma perspectiva pessoal, como fiz agora, para deixar claro.

segunda-feira, agosto 04, 2008

Do sentido sem sentido.

Não é que ele passe a ver o sentido das coisas quando está do lado dela, e sim que ele não sente a falta deste sentido. Acha até engraçado quando a pedra de Sísifo rola morro abaixo e tem de buscá-la novamente. Que lhe importa esse vai-vem eterno se a tem bem ao lado, se pode caminhar rumo ao nada ou mesmo a um qualquer todo desde que ela esteja presente em cada passo? Nem é também que lhe faltasse a capacidade de planejar e sonhar com um amanhã de mais de um mês, e sim que não era empolgante e divertido fazê-lo; agora é. Quer falar para vê-la sorrir, quer sorrir para fazê-la falar. Ele sabe que, num certo sentido, nada disso faz muito sentido, mas, num outro sentido, todo esse sem-sentido é muito sentido. Sentido demais e bom dimais, mineiramente falando. Ele se sabe uma faísca temporal perto da duração cósmica, mas que importa, que importa, conclui ele, "enquanto duro, quero-a". E quão idiota soará a sua sentença se um dia terminar e ele perdurar. Ele o sabe, como sabe de todos esses sem sentido...e como também esse em específico lhe é tão sentido. O que exatamente? A possibilidade sem-sentido do "se", que, embora possível, ele sente inconcebível e, por isso, sem sentido. Não só isso, essa mera possibilidade rouba todo o seu atual sentido, e ele teima contra isso, a cada dia, a cada instante, amando ela mais e mais.

quarta-feira, julho 23, 2008

A diferença que faz diferença não é qualquer diferença

Eu penso assim: mesmo uma pequena diferença em meio a quase nenhuma diferença faz toda a diferença, ao passo que qualquer diferença no meio de várias diferenças não faz quase diferença alguma. É por isso que, apesar do ser comum ao qual somos coagidos e constrangidos social e biologicamente, temos uma unicidade tão visível. É por sermos exageradamente iguais que nossas poucas diferenças nos tornam espantosamente únicos e visivelmente diferentes. Fôssemos tão radicalmente diferentes uns dos outros, ficaríamos perdidos na indiferença de tantas diferenças. Nada se destacaria. Então, mesmo diferentes uns dos outros, não seríamos, por assim dizer, diferentes aos olhos de uns e outros.

Meu Lema

No Frio, é possível existir; no calor, é difícil até subsistir.

Outras naturezas, outras reações. Mas não existe explicação sensata para o fato de 70% da população desta cidade usar casacos e blusas de lã num dia ensolarado (21/07/2008) que bate os 30 graus.

segunda-feira, julho 21, 2008

Bom dia

A constatação de que estamos acostumados à secura do curitibano veio quando, ao entrar no restaurante do hotel em Pouso Alegre para tomar café da manhã, nos sentimos surpreendidos com a chuva calorosa de "bom dia" que nos foi dirigida. Eu e ela ficamos visivelmente atrapalhados, já não esperávamos por isso. E mesmo apreciando a casmurrice curitibana na sua discrição, no seu bom gosto em não querer saber demais da vida alheia, eu sinto falta sim de um alegre "bom dia", e me ofendo quando dou um e sequer sou respondido. Ir a BH ou a qualquer lugar de Minas me faz lembrar o quão agradável é começar o dia assim.

E quão surpresa e feliz não ficou a minha namorada quando, saindo pelo portão da casa de minha mãe, chegou-lhe nos tímpanos o desabafo: "mas que cabelo bonito, moça, quero pintar o meu assim também!". Era o motorista do caminhão de lixo que, com toda a simplicidade e sem nenhuma malícia, soltava alegre, de sorriso banguelo, o efeito que lhe imprimia nas vistas o cabelo cherry bombado da minha namorada.

Mas pára por aí. Não muito mais que o seu povo me agrada em BH, já o disse outras vezes. Lembro agora do e-mail que meu tio enviou ao governador sugerindo que a capital fosse transferida para Curvelo. A idéia era resgatar a BH pacata e até fria dos anos 60. Depois, na viagem de volta, eu e a Marcely tivemos a idéia de entrar com um projeto no congresso, pleiteando a mudança da capital do Paraná para BH e a de Minas para Curitiba, obrigando todos os curitibanos a se mudarem num prazo de até 2 anos para BH e os mineiros de BH para cá. Mas como eu sei que dificilmente chegaremos a viver no melhor dos mundos possíveis, fico aqui só sonhando em quão Curitiba ficaria *das mais estribada* se recheada de mineiros.

quarta-feira, julho 02, 2008

Cozinhar é bom se...

Uma das coisas boas, entre inúmeras outras, de se morar com a pessoa amada é que somos levados, eu ao menos, à arte de cozinhar com fervoroso impulso. Desde que ela veio para cá, sinto enorme prazer em assumir o papel de chefe. Meio canhestro ainda, é verdade, mas se antes eu tinha preguiça até de fazer um miojo para mim, é notável que agora eu passe com alegria algumas horas preparando uma deliciosa sopa eslava para nós. 

Cozinhar é bom se você tem um outro a quem deseja dar prazer. É como no sexo. Quando ama, só o seu gozo jamais é suficiente, pelo contrário, seu gozo só é completo quando o outro goza também. O amor é incompatível com o egoísmo na cama. Na cozinha é a mesma coisa, você só fica satisfeito com a própria comida quando o outro, ao degustá-la, expressa na face um verdadeiro gozo palatal. 

quinta-feira, junho 26, 2008

Esperança Instintiva

Hume já dizia, o ceticismo é inócuo, ele é incapaz de atentar contra a nossa tendência natural a crer. Isso não significa que a razão seja inoperante na formação de crenças, que não devamos até estimular um certo grau saudável de dúvida, mas apenas que a razão é escrava dos nossos impulsos e instintos. Quando tenta suplantá-los, pelo ceticismo, fracassa.

O ser humano, a besta das bestas, foi dotado pela natureza com uma inigualável capacidade de ter esperanças, somos instintivamente esperançosos. Eis a sabedoria da sobrevivência. Ao nos dotar da capacidade de "conhecer" o mundo e prever o futuro, a natureza precisou compensar o pessimismo que daí emergiria naturalmente, posto que a probabilidade de quem tá na merda é continuar na merda, nos congratulando com este instinto de se agarrar a meras possibilidades mesmo quando elas são improváveis.

Quase diariamente me perguntam, e eu também, a razão pela qual não me mato. Tivesse eu uma razão para não me matar talvez aí sim me mataria, pelo gosto de contestá-la, para sentir-me livre dela também, ainda que pela última vez. Mesmo o amor não é uma razão. Mesmo com amor, as coisas ruins continuam ruins, a diferença é que aquele instinto de esperança recebe um reforço.

Com o amor há, porém, uma compensação: as coisas que já eram boas ficam ainda melhores. Mas eu sei que isso não serve de consolo e não diminui em nada o desconforto do que é ruim.

Do Concurso.

Pena que o concurso, aquele referido tempos atrás, não é para mim. Não tive tempo para estudar adequadamente em virtude das aulas de computação que acabei assumido e das n disciplinas que estava fazendo. Não, não é papo de derrotado, estou sendo apenas realista. Tenho plena noção do que seria necessário estudar para fazer uma "boa" prova aos olhos da banca, assim como soube quando concorri com sucesso ao mestrado e ao doutorado. Nessas horas, é triste, não basta escrever com diligência e inteligência. Muita erudição é importantíssimo também. E fiquei sabendo que para esse concurso da UFPR se inscreveram nada menos e nada mais que 67 pessoas, euzinho aqui incluso. Alguns professores há anos da UFRGS, UFBA etc. E é uma vaga só. Mas fiquei feliz com uma coisa. Se antes eu pensava em fazer uma prova burocrática, cheia de dedos e montado em filósofos, para tentar convencer a banca, agora chutei o balde e vou fazer a prova do jeito que eu gosto, tematicamente. Pelo menos saio de lá feliz ao me reconhecer nas próprias palavras. 

Das aulas

Ironia do destino. Não foi pela filosofia que perdi o medo de dar aulas. Muito pelo contrário. Eu me refugiei na computação não só pelo gosto de programar, mas por ter contado a mim mesmo enfaticamente a mentira de que padecia de fobia social. Pior, acreditei nessa mentira por muitos anos. E como a filosofia não me dava outra alternativa de sustento, corri atrás da computação, fugindo sempre do enfrentamento público. Mas agora eu sei, eu não tenho fobia social alguma, eu só tenho timidez, talvez um pouco acentuada, mas nada grave, nada que atrapalhe a boa execução de uma aula. E, como eu disse, foi a computação que me desmentiu, descortinou-me a verdade. Ela me empurrou para uma turma de 16 alunos e ali, durante dez dias, 4 horas por dia, eu tive de falar e ensinar. E eu ensinei e falei. Sem nervosismo, sem taquicardia, sem nada aterrador que me vinha à mente quando eu imaginava essa situação nos tempos em que ainda filosofava na graduação, mestrado ou doutorado. Agora que conheço a verdade, quero mais do que nunca dar aulas, de filosofia, pois filosofia, para ensinar, é mais divertido que computação. Muito mais.   

quinta-feira, junho 19, 2008

Eu por mim mesmo.

Esses dias recebei do meu ex-orientador, o legal, não o ex-ex, o chato, um e-mail em que ele me pedia para escrever uma autobiografia de até 5000 caracteres; o motivo: minha tese foi escolhida para concorrer, pelo departamento de filosofia da UFMG, ao prêmio CAPES lá de melhor tese do ano. Eis, então, a minha "autobiografia":

É difícil para mim precisar em que momento tive o meu primeiro contato com a história da filosofia. Provavelmente, ainda pequeno, quando, curioso pela origem do meu nome, fui em busca de livros sobre a mitologia grega. Mas não foi nesta época que a conheci de fato. Passei a infância e a pré-adolescência com a mesma inquietação dos filósofos pré-socráticos, interessado em conhecer a origem do universo e seus elementos mais fundamentais. Cheguei, então, à física bem antes de conhecer a filosofia e, por muito tempo, motivado também pelo gosto e facilidade com os cálculos, projetei-me no futuro como físico. Somente naquele ano de decisão inadiável sobre o futuro profissional é que tomei um contato direto e efetivo com a filosofia através da leitura de alguns livros sobre filosofia da ciência indicados por um tio que, então, se formava em filosofia pela UFMG.

A leitura desses livros provocou uma completa reorientação das minhas inquietações intelectuais, percebi pela primeira vez que entender o que era o conhecimento e como ele poderia ser obtido eram questões para as quais eu precisava de uma resposta antes de procurar saber sobre as leis físicas que regem o universo. Hoje, claro, não vejo o assunto assim, mas na época, senti-me completamente compelido para a filosofia em virtude dessa reorientação das minhas próprias questões. Não só isso, senti-me, de fato, curioso por saber o que era o conhecimento, o que os filósofos haviam falado sobre ele. Era algo novo para mim, até então, essas questões tinham passado pela minha mente, se é que tinham, apenas de maneira obscura, confusa; quando as vi postas claramente, senti a necessidade de passar mais tempo com elas. Decidi, assim, pela filosofia profissionalmente. A física poderia esperar, ela tinha de esperar.

Ingressei na graduação de filosofia da UFMG em 1995, então, com 17 anos. Foi um ano desafiador e amedrontador, meu contato anterior com a disciplina se limitava àqueles livros citados acima, e, de cara, deparei com professores sequiosos em esbanjar o jargão filosófico. Muita coisa foi dita nas salas de aula sem que eu conseguisse entender. Temi que o curso não fosse para mim. Cogitei até mudar para física ou ciência da computação. Mas a medida que aprofundava as minhas leituras e me acostumava com o palavreado obtuso dos filósofos, senti-me mais à vontade entre eles. Vieram as provas, os trabalhos e sai-me bem neles. Alguns professores elogiaram a minha argumentação e eu comecei a me convencer que tinha jeito para a coisa. Novamente, as ciências exatas tiveram de esperar um pouco mais.

No ano de 1996, foi abrutamente arrancado do curso de filosofia. Já tinha ouvido falar de Hobbes e dos tentáculos poderosos do Leviatã, mas só fui compreender a sua real força quando ele me agarrou. O Exército achou que eu era interessante nas suas fileiras. Ironicamente, eu era, na época, anarquista. Aceitei, no entanto, o destino sem revolta, curioso até pela experiência inusitada, consolado com os relatos de filósofos que tinham também passado pela experiência militar.

Em 1997, voltei ao curso, com muita vontade e mesmo vigor físico para a pesquisa. Agradeço aos milicos por esse preparo. Conheci Wittgenstein e apaixonei-me pela sua vida e obra. Percebi que mais fundamental ainda que a questão do conhecimento era a questão do sentido. Nem tanto assim, é verdade, como se verá em seguida. Na época, pareceu-me claro, antes de perguntar qualquer coisa, essa pergunta precisa ter um sentido e o filósofo austríaco incutiu-me a dúvida de que muitas perguntas não tinham. Eu precisava, assim, saber (vejam só) o que era o sentido.

Daí em diante fui perdendo a minha ingenuidade intelectual e aprendendo a exercer essa atividade que se costuma denominar de "acadêmica", fazendo pesquisa, criticando artigos, buscando entender os filósofos, suas idéias e tentando escrever as próprias. Algo nessa atividade me irritava, na filosofia brasileira, em especial, a hegemonia exegética. Mas, por sorte, encontrei alguns professores que me estimularam e encorajaram a abordar a filosofia de uma maneira mais temática, que é o tipo de abordagem com a qual me sinto mais à vontade, por nenhuma razão fundamental, é verdade, apenas uma questão de gosto. Assim pude continuar na filosofia, seguindo mais ou menos o percurso esperado de um acadêmico: especializando-se. Formei-me no ano de 2000 e já em seguida iniciei o mestrado. Ainda interessado no conhecimento, foquei-me num tipo específico, o perceptivo. Critiquei aqueles que combatiam a idéia de que há crenças justificadas não-inferencialmente pela percepção. Em seguida, no doutorado, enfim, tentei positivamente articular essa idéia, provendo uma compreensão filosófica de como essa justificação se dá. Defendi a tese em 2007. Desde, então, sou um filósofo desempregado.

quarta-feira, junho 18, 2008

Do azar

Qual a probabilidade de cair um raio na minha cabeça? Quase a mesma de ganhar na mega-sena, correto? Errado. Hoje a probabilidade de cair um raio na minha cabeça deve ser de 1 em 500000, ou até menos, quem sabe, 1 em 10000. Desculpem-me pelo sarcasmo, mas é impossível não ter agora diante do mundo e com o mundo, seja lá o que isso for, uma reação de revolta e indignação, mesmo sabendo que isso não faz sentido. E o que nessa vida faz sentido? Como se já não bastasse meu irmão ter quase morrido ao cair ou pular do quarto andar, depois de ter passado três semanas em coma, agora que ele começa a se recuperar, a falar, ainda que meio embolado, minha mãe que estava cuidando dele integralmente é atropelada. Urucubaca familiar? Tenho medo de ser estraçalhado pelo trem que passa aqui nas imediações da minha rua amanhã ou depois. Eu não preciso, como o Kyle do South Park, desenvolver aos 8 anos de idade uma hemorróida para duvidar da existência divina, nem ser submetido aos piores infortúnios, como o Cândido de Voltaire, para concluir que não vivemos no melhor dos mundos possíveis; o ateísmo/agnosticismo eu abraço com ou sem desgraças, mas é impossível diante de acumuladas desgraças não se sentir irracionalmente irritado com o mundo. O mundo é como ele é, sim, indiferente a mim, eu sei, mas ele é uma bosta, enfim, eu, agora, neste instante, não consigo ser indiferente a ele.

terça-feira, maio 20, 2008

Da Queda

Parece que foi outro dia que subi a escada eufórico gritando para a minha irmã, "nasceu, nasceu, é menino". Urrei tão alto que quando ela foi contar a novidade na escola para a vizinha amiga, recebeu em resposta: "eu já sei, ouvi o seu irmão". Veio ao mundo gigante, quatro quilos e não sei lá quantas. Um bebê forte, força que eu espero ele ainda ter agora quando mais precisa...Eu tinha então nove anos quando ele nasceu. Eu era constantemente convocado para tomar conta dele e gostava. Lembro em especial de um ursinho azul que usava para fazê-lo gargalhar, aquela gargalhada gostosa de bebê que só de ouvir nos faz rir também. Eu esfregava o ursinho na sua barriga e obtinha o efeito. Até hoje não entendo qual era a graça, não creio que eram cócegas, mas vai lá saber como a esfregada do ursinho era percebida pela sua mente infante. Depois quando ele cresceu um pouco mais, com dois ou três anos, era uma beleza vê-lo na piscina mergulhando. Parecia que tinha nascido nadando. Não é exagero, todo mundo se espantava ao ver aquela coisa miudinha mergulhando, sem bóias. Com cinco e seios anos vinha sempre bater na minha porta pedindo para ir nadar com ele. Soltava a mesma gargalhada do ursinho quando eu o tirava da água e o lançava bem alto.

Desde sexta-feira estou assim, mnemônico, escavando a minha memória e imaginando o que ainda não vi e reluto em ver. Sonho com quedas, penso na queda, imagino a queda, seu corpo estendido no chão, seu crânio com afundamentos em vários lugares, não consigo parar de pensar, principalmente quando estou sozinho. As informações desencontradas, antes foi do terceiro andar, agora é do quarto. Antes tinham chamado o IML ao invés do socorro, agora parece que fizeram o correto. Antes não estava alcoolizado, agora parece que estava. Quase 5 anos sem colocar um pingo de álcool na boca e depois de um mês sozinho, tudo desaba. Uma festa da psicologia, ele bebe muito, ele vai para a casa delas, bebem mais, ele está agitado, elas vão para um quarto, ele para um outro, passa uma ou duas horas, elas escutam um barulho, vão para o quarto onde ele estava, não o vêm lá, olham pela janela e ele está estirado lá embaixo. Foi o que elas contaram. Será que algum dia ele vai recobrar a consciência para nos contar o que houve? Escorregou? Pulou? Se escorregou, foi azar fomentado pela burrice já que ele sabia que uma gota de álcool na sua boca chamaria outras milhares. Se pulou, teve o azar de não obter o fim pretendido. Sim, não é por ser o meu irmão e por amá-lo que vou mudar a minha opinião de que os suicidas devem ser respeitados pela sua escolha, ainda que eu não queira que as pessoas do meu afeto se matem e sofra se o fizerem.

Eu falei em burrice, mas estou sendo injusto. É muito fácil para um não-viciado falar que é burrice um alcoólotra ceder à sua cede etílica. E o que sei eu da intensidade da sua necessidade e desejo? Isso me faz pensar nas pessoas que ficam buzinando no ouvido daqueles que não bebem para beberem, que fazem cara de reprovação moral por não beberem, que oferecem drogas e exaltam seus efeitos; e eu me pergunto se essas pessoas que chegam sempre cheias das melhores intenções de divertimento, ah sim, claro, no fundo elas querem ver esse outro feliz como elas, tendo prazer, tendo lá as suas compreensões mais "ampliadas" do mundo, mas eu me pergunto se em algum momento elas se preocupam em saber se a sua "vítima" é ou não alguém facilmente susceptível ao vício. Não, não estou dizendo que o oferecido é o culpado pelo vício do outro, não retiro o livre-arbítrio deste último, mas devemos reconhecer também que o livre-arbítrio deste último não é tão livre assim e que o oferecido tem sim uma parcela de responsabilidade ao ofertar. As pessoas são diferentes e umas têm uma propensão muito maior a se viciar do que outras. Devemos ter isso sempre em mente.

Esse é um bom exemplo de porque a moral deontológica não funciona sempre, a moral que diz que uma ação é boa se foi motivada por uma intenção boa. Como diz o ditado, de intenções boas, o inferno está cheio. Que se dane a boa intenção de compartilhar com o outro a sua alegria gregária, sim, eu digo, enfie no rabo essa intenção. Seja utilitarista a este respeito, pense nas conseqüências do seu ato, pense que elas podem não ser boas e se há uma chance grande de não serem, evite-o. É o que você DEVE fazer. Vou colocar de uma maneira mais clara para você entender. Se você não sabe se uma pessoa tem alta propensão a viciar (pior ainda se sabe que tem) e dado o efeito devastador que é para uma pessoa viciar-se no que quer que seja, sim, se você ainda não se convenceu disso, leia "O Jogador" do Dosto, então parece moralmente recomendável que você não oferte a essa pessoa substâncias reconhecidamente como viciantes. Deu para pescar a idéia? Espero que sim...

Comecei pensando no meu irmão em tom triste e terminei moralizando em tom de revolta. E fico assim o dia todo mesmo oscilando. Eu penso nele estendido no chão e me entristeço, imagino seus colegas cheios de ofertas efusivas e me revolto. E só para deixar claro aos desavisados, eu não fiz uma apologia contra o uso de drogas ou bebidas, eu bebo, para início de conversa, eu fiz uma consideração moral sobre o ato de ofertar a terceiros drogas ou bebidas.

segunda-feira, maio 12, 2008

Da fraqueza amorosa

Concordo que se eu encarasse todos os dias o medo da perda, a possibilidade do fim, eu desenvolveria talvez uma musculatura emocional para suportar os tempos difíceis, mas esses olhos pequenos que a natureza me deu foram constituídos de tal maneira que eles não conseguem enxergar um palmo a frente se não houver no ambiente um mínimo, um pingo ou cisco que seja, de luz esperançosa. Você me dirá que eu deveria aprender a me virar no escuro, que cegos o fazem, mas talvez eu seja fraco para essas coisas. Ou não. Para falar a verdade, eu tenho mais medo de me acostumar com a escuridão a ponto de não sentir mais falta da luz do que da própria escuridão. Eu sei que uma coisa não implica a outra, sei que é virtualmente possível aprender a viver na escuridão sem cair de amores por ela, que é possível ser forte sem ser ao mesmo tempo indiferente. No entanto, será o forte forte o suficiente para jamais sucumbir à vontade de poder que é inerente ao exercício da sua força? Eu não sei, eu duvido. Nas entranhas de cada psiquê vive um Narciso. Quando ele é despertado pela sua vaidade, nada mais parece importar... Sabe, se ser forte implica em escravizar-se à vontade de poder, à contemplação vaidosa de si, então prefiro ser um fraco e continuar podendo amar um outro que não seja eu mesmo. Prefiro temer perdê-la a amar-me só e apenas.

Você não escuta esses pensamentos que me passam pela mente, já dorme. Eu não tenho sono, não quero dormir, quero continuar assim, velando o teu sono com a mão que acaricia a sua face, sentindo na pele o medo de perdê-la, esse medo que, na verdade, é apenas a face complementar do amor que tenho por ti.

terça-feira, maio 06, 2008

Concurso

Dois meses atrás recebi um e-mail do meu ex-orientador-substituto (sim, não foi possível terminar o doutorado com o "original") me convidando a participar de um concurso para professor na UFMG. Confesso que titubeei, pela UFMG apenas, é verdade. Nunca escondi minha opinião arrogante (ou não) de que a UFPR está alguns anos luz atrás da UFMG. Só que Belo Horizonte é quente demais para mim, tem uma feiúra desorganizada que fere meu senso estético libriano e poluída e morrada a ponto de me proibir caminhadas decentes sem precisar fazer uma viagem quilométrica até encontrar um lugar apropriado. Enfim, inviável. Tem um pró só que me faz falta: seu povo. Nas minhas idealizações, a cidade perfeita seria Curitiba com o frio que diziam fazer no passado e habitada por mineiros. Só pelo seu povo titubeei então com o tal concurso. Mas aí conheci uma pessoa muito especial, a qual, diga-se de passagem, não é curitibana, e a tentação dissipou-se na mesma velocidade com que ela me encantou. Na verdade, nem lembrava ou pensava mais no tal concurso, estava e estou em outra. Lamento, Belo Horizonte, você já me deu tudo o que tinha de me dar.

Eis que hoje recebo um e-mail de um professor daqui falando de um concurso para professor na UFPR. Certo que irei concorrer. Só estou titubeando quanto a direcionar toda a minha atenção para ele nos próximos meses ou mantê-la dividida entre o concurso e a computação. Decisões, decisões. Por mais pesadas e difíceis que sejam, eu as amo. Sinto-me vivo quando tenho de decidir. Ao mesmo tempo, oscilar o pêndulo novamente para a filosofia me faz sentir meio sanfona. Alguns ainda apontarão acusadores e dirão: você é indeciso e não sabe o que quer. Discordo. Sei sim. É que eu não quero uma coisa só, mas várias. Embora eu seja completamente monogâmico no relacionamento, sou promíscuo na minha relação com o saber. Um só não basta, careço de vários. Pronto, confessei. E ainda não decidi o que fazer!