A dor e o sofrimento são praticamente ubíquas na vida de todo ser humano. Ao longo de nossas vidas, nos encontraremos com eles várias vezes. Contudo, as atitudes podem variar. Algumas pessoas preferem simplesmente ignorar que a dor e o sofrimento existem. Logram êxito nesse intento lançando mão da diversão e do entretenimento e, em casos mais extremados, das drogas, que também não deixam de ser entretenimento. Não há fuga melhor da dor que lançar-se no prazer. São pessoas que acabam tendo um sorriso constante para a vida, agitadas e inquietas. Eu as considero otimistas falsos, pois elas sorriem para a vida não por um motivo positivo, mas pela ausência de motivos negativos. Outras pessoas pecam de maneira oposta, preferem aprofundar a dor e o sofrimento presentes, tomando-os como a totalidade de seus mundos. Elas exageram a dor que possuem e, às vezes, reconhecem mesmo aquelas que não têm. A ordem do dia é reclamar. Conseguir sobreviver, para essas pessoas, é tão digno de mérito quanto os feitos de Hércules. A vida é sem sentido e absurda, pois, como nos lembra o mito de Sísifo, não há qualquer razão para vivermos imersos eternamente na repetição tediosa e dilacerante da dor. Esses são os pessimistas. Entre uma atitude e outra, penso que há espaço para uma posição que poderíamos chamar de "otimismo verdadeiro" ou ainda "otimismo pessimista". Ele é verdadeiro, pois engendra um motivo positivo para sorrir diante da vida, mas ele também é pessimista, pois não nega os motivos negativos, isto é, não ignora a dor e o sofrimento existentes. Óbvio que esse motivo positivo não pode ser o prazer presente, usado pelos otimistas falsos, pois ele é leve e efêmero demais para contrabalancear a ubiquidade do sofrimento. Um sujeito que se refugia o tempo inteiro no prazer reconhece automaticamente que esse mesmo prazer, ao cessar, ao se esgotar, não lhe deixa nada que o permita suportar a dor. Por isso mesmo a lógica da fuga incessante. Como, então, é possível o otimismo verdadeiro? Ora, se um motivo positivo para sorrir diante da vida não se encontra no prazer, no nível da sensação, ele deve estar no nível do sentido. Você precisa encontrar justamente aquilo que os pessimistas afirmam a vida não ter: um sentido. O sentido, se você o tem, é algo que lhe permite sorrir para a vida mesmo diante da dor, mesmo reconhecendo a dor. Ele lhe dá forças para enfrentá-la. Não precisa fugir. O único problema é que ele não se acha assim tão facilmente. Mas as possibilidades são inúmeras. Schopenhauer fala do contato com o absoluto por meio da intuição, Tolstoi, da experiência religiosa, o toque divino sobre o ser. Ambas têm em comum a trascendência, a idéia de que algo além do humano pudesse lhe dar um sentido, uma direção.
Eu sou mais modesto. Não nego a possibilidade de uma experiência religiosa ou de um contato intuitivo com o absoluto, apesar de considerá-los muito improváveis, mas acredito que há possibilidades mais mundanas para o sentido da vida e bem mais prováveis. Penso em especial na experiência do amor, que é, ao mesmo tempo, transcendente e imanente. O amor é completamente imanente, emana de nós mesmos, é humano, nasce da relação do eu com o outro, mas, ao mesmo tempo, transcende o eu em unidades maiores, ceifa o isolamento existencial, cria uma interseção onde só parecia haver silêncio, vazio ou incompreensão. É verdade que um amor talvez não lhe dê um sentido para toda a vida, mas ele lhe dá um sentido suficientemente forte para suportar o sofrimento mesmo quando cessa o prazer presente. Os amores particulares acabam e, com eles, a força do sentido que engendraram, mas o amor em si enquanto direção é um sentido perfeitamente mundano e realista para um otimista verdadeiro.
Eu sou um otimista verdadeiro com esporádicas e efêmeras recaídas pessimistas. Eu também não tenho nada contra o otimismo falso e me valho das suas estratégias vez ou outra. Só acho que a busca incessante pelo prazer efêmero entedia, além de pesar no bolso.
sábado, setembro 29, 2007
sexta-feira, setembro 28, 2007
Des-umanidade
domingo, setembro 23, 2007
30
10, 20, 30, idades que marcam, para nós que raramente nos tornamos centenários. Se vivêssemos 2000 mil anos, a passagem dos 9 para os 10 seria tão marcante quanto é atualmente a passagem de 23 para 24, por exemplo. Mas, enfim, na minha perspectiva decenária, lembro que ao fazer dez anos contava com a alegria de ter recebido um novo irmão, temporão. Deixei de ser o caçula, mas isso sinceramente não me incomodou. Ao completar 10 anos, estava mais concentrado nos meus planos de ser algum tipo de cientista, ainda não sabia que tipo, se é que nessa época eu tinha clareza dos tipos em que eles poderiam se dividir. Acho que não. Tinha apenas uma vaga imagem de um sujeito que faz invenções mirabolantes e era o que eu queria fazer. Foi nessa época que comecei a me interessar por ficção científica, inicialmente manifestada na minha seleção literária. Minha independência já era visível. Ia nas livrarias sozinho, sim, essa era a vantagem de passar a infância numa pequena cidade, e comprava os livros do meu desejo, sem qualquer intervenção materna ou paterna. Mas a melhor parte vinha depois. Eu caçava o endereço das editoras e enviava cartas pedindo catálogos dos seus livros. A Ediouro era a única que tinha um programa de vendas por reembolso postal e durante um tempo tive que me limitar a ela. Pelo menos ela tinha, na época, umas coleções até interessantes, dados os meus gostos. Lembro bem até hoje da coleção Enrola e Desenrola. Geralmente histórias de ficção científica em um formato pré-hipertexto. A cada duas páginas, você escolhia um desenrolar possível da história, entre algumas opções que lhe eram dadas, de modo que o mesmo livro acabava contento entre 15 e 20 desenrolos possíveis. Toda essa transação, pedir o catálogo, fazer o próprio pedido e, em seguida, ir buscar no correio o pacote quando recebia o aviso de chegada, era feito por mim mesmo sem nem que os meus pais às vezes soubessem. Recebia uma mesadinha, então não havia necessidade de pedir dinheiro para o pagamento. Com que alegria eu não ia ao correio pegar os meus livros! E assim os meus 10 anos foram marcados por essa busca frenética pela ficção, pelo imaginário de ser um cientista.
Os 20, posso dizer, vieram coroar um certo otimismo com a vida, brando é verdade, mas suficiente para ao menos solapar a acumulada depressão dos anos anteriores, nascida com a adolescência e intensificada até então. O contato com a filosofia, dos 16 aos 19, embora tenha consumido minha atenção, meu tempo e proporcionado intensas fruições intelectuais, acentuava também as minhas dúvidas. Minha relação com a filosofia sempre foi paradoxal, de amor e ódio. E o amor...o amor, que até então havia passado ao largo da minha vida, apenas como idealização, imaginação e desejo não realizado, desabrochou nessa passagem dos 19 para os 20. Descobri em mim a intempestividade, a loucura, a adorável sensação de seguir a desrazão em prol de uma emoção. Ter sido assim tocado pelo amor de uma maneira tão profunda numa época me que o meu desespero existencial era máximo teve o efeito de me abrir uma nova perspectiva diante da vida.
Até então, a realização profissional, o desejo de fazer alguma contribuição relevante para a filosofia me apareciam como as únicas finalidades mais profundas legítimas. Contudo, na primavera dos meus 20, percebi que o relacionamento com o outro tinha uma importância tão fundamental ou ainda maior que a realização profissional, que por ela me humanizava e me descobria enquanto ser e existência, percebia meus limites, defeitos e os ultrapassava. Desde então a busca pela vivência de um relacionamento mais profundo e significativo passou a fazer parte da minha agenda, do meu horizonte.
Hoje completo 30. Ou melhor, completei às 7:05 da manhã, segundo a minha certidão de nascimento. Mas como disse uma amiga esses dias, não dá para confiar nesses registros e um número assim redondo como o 5 levanta suspeitas. Concordo. E vou mais longe. Acho que o nascimento deveria ser o desabrochar da consciência, provavelmente ainda em estado fetal. Contudo, quem sou eu para criar dificuldades epistêmicas ainda mais fundas. Se já é difícil precisar a hora que você veio ao mundo enquanto corpo, destacando-se da mãe, quanto mais precisar o emergir da sua consciência. Enfim, enfim, os 30 chegaram e ainda não sei o que marcam. Talvez a consolidação das mudanças mais bruscas dos últimos anos. Mudança de cidade, de profissão. Meus compromissos burocráticos com a filosofia foram definitivamente saldados, com a defesa do doutorado esse ano e, ao menos por enquanto, não tenho maiores planos para ela que a diversão que me proporciona ao final do dia antes de dormir, junto com os livros de literatura. Estou feliz com as escolhas que fiz, por mais que, pelo lado financeiro, isso tenha atrasado um pouco os resultados que se espera de um burguesinho da classe média. Mas se tem algo que marca esses meus 30 é a perspectiva de não ter lá grandes perspectivas, de não tentar submeter e forçar todo o meu futuro
a um plano que tenho hoje, de saber aproveitar bem as possibilidades que tenho abertas agora para mim. Tenho sim algumas direções, alguns planos, mas que podem ser mudados conforme o vento que bater em minha porta. Não quero decidir apenas para ser consistente com o passado, não preciso olhar para trás e sentir uma linearidade. O sentido, se há algum, está na própria decisão presente, limitada que seja. E o amor...continua sendo fundamental, cada vez mais fundamental.
Os 20, posso dizer, vieram coroar um certo otimismo com a vida, brando é verdade, mas suficiente para ao menos solapar a acumulada depressão dos anos anteriores, nascida com a adolescência e intensificada até então. O contato com a filosofia, dos 16 aos 19, embora tenha consumido minha atenção, meu tempo e proporcionado intensas fruições intelectuais, acentuava também as minhas dúvidas. Minha relação com a filosofia sempre foi paradoxal, de amor e ódio. E o amor...o amor, que até então havia passado ao largo da minha vida, apenas como idealização, imaginação e desejo não realizado, desabrochou nessa passagem dos 19 para os 20. Descobri em mim a intempestividade, a loucura, a adorável sensação de seguir a desrazão em prol de uma emoção. Ter sido assim tocado pelo amor de uma maneira tão profunda numa época me que o meu desespero existencial era máximo teve o efeito de me abrir uma nova perspectiva diante da vida.
Até então, a realização profissional, o desejo de fazer alguma contribuição relevante para a filosofia me apareciam como as únicas finalidades mais profundas legítimas. Contudo, na primavera dos meus 20, percebi que o relacionamento com o outro tinha uma importância tão fundamental ou ainda maior que a realização profissional, que por ela me humanizava e me descobria enquanto ser e existência, percebia meus limites, defeitos e os ultrapassava. Desde então a busca pela vivência de um relacionamento mais profundo e significativo passou a fazer parte da minha agenda, do meu horizonte.
Hoje completo 30. Ou melhor, completei às 7:05 da manhã, segundo a minha certidão de nascimento. Mas como disse uma amiga esses dias, não dá para confiar nesses registros e um número assim redondo como o 5 levanta suspeitas. Concordo. E vou mais longe. Acho que o nascimento deveria ser o desabrochar da consciência, provavelmente ainda em estado fetal. Contudo, quem sou eu para criar dificuldades epistêmicas ainda mais fundas. Se já é difícil precisar a hora que você veio ao mundo enquanto corpo, destacando-se da mãe, quanto mais precisar o emergir da sua consciência. Enfim, enfim, os 30 chegaram e ainda não sei o que marcam. Talvez a consolidação das mudanças mais bruscas dos últimos anos. Mudança de cidade, de profissão. Meus compromissos burocráticos com a filosofia foram definitivamente saldados, com a defesa do doutorado esse ano e, ao menos por enquanto, não tenho maiores planos para ela que a diversão que me proporciona ao final do dia antes de dormir, junto com os livros de literatura. Estou feliz com as escolhas que fiz, por mais que, pelo lado financeiro, isso tenha atrasado um pouco os resultados que se espera de um burguesinho da classe média. Mas se tem algo que marca esses meus 30 é a perspectiva de não ter lá grandes perspectivas, de não tentar submeter e forçar todo o meu futuro
a um plano que tenho hoje, de saber aproveitar bem as possibilidades que tenho abertas agora para mim. Tenho sim algumas direções, alguns planos, mas que podem ser mudados conforme o vento que bater em minha porta. Não quero decidir apenas para ser consistente com o passado, não preciso olhar para trás e sentir uma linearidade. O sentido, se há algum, está na própria decisão presente, limitada que seja. E o amor...continua sendo fundamental, cada vez mais fundamental.
quinta-feira, setembro 20, 2007
Atividade
Nunca entendi muito bem as pessoas que me diziam não sentir prazer por nenhum tipo de atividade. "Nem bordado, ler romances?", perguntava eu. Recebia uns "não" tão decisivos que a minha compreensão ficava muda. Alguns diziam que, se gostavam de algo, era de não fazer nada. Eu também gosto de ócio. Quem não gosta? Mas essas mesmas pessoas reclamavam de tédio e angústia durante o seu ócio sofrido. Aí eu já não entendo mais nada. Tédio eu sinto quando ou estou fazendo algo que não gosto, ao qual estou obrigado, ou se o ócio se prolonga demasiadamente sem envolver nada criativo. No primeiro caso, quero que passe logo a atividade indesejada, no segundo, quero que uma atividade apareça logo para me ocupar. Causas bem diversas, mas ambas têm por efeito fazer com que a minha experiência tenha por conteúdo a própria passagem do tempo, a qual se torna, então, um martírio que eu padeço. Sinto o próprio tempo passar ao invés de passar através dele. A minha solução para isso é buscar atividades que me coloquem desafios e obstáculos, que tragam alguma porção de enigma, instigando, enfim, a minha curiosidade e que catalizem a minha atenção por completo. E o principal: que eu sinta algum prazer, alguma fruição em enfrentar as dificuldades dessa atividade. Quando encontro o par prazer e obstáculo cercando juntos uma atividade e me envolvo com ela, esqueço-me de mim, do tempo, do tédio e mesmo da angústia, que, aliás, muito raramente se apossa de mim. Simplesmente sumo, desapareço, entro em alfa, em comunhão com a atividade.
E a chuva caindo cada vez mais forte, derrubando meus olhos, que quase se fecham diante do computador. Pelo menos vem entrando um vento fresco. Mas antes que me esqueça do propósito inicial, não queria dizer que não entendo as pessoas que não buscam atividades para matar o seu tédio, não, não é por isso que não as entendo. O que não compreendo é a pura e simples ausência de prazer, de gosto, de querência. O que poderia ter atrofiado a sensibilidade de uma pessoa a ponto de ela não sentir prazer por nada?
E a chuva caindo cada vez mais forte, derrubando meus olhos, que quase se fecham diante do computador. Pelo menos vem entrando um vento fresco. Mas antes que me esqueça do propósito inicial, não queria dizer que não entendo as pessoas que não buscam atividades para matar o seu tédio, não, não é por isso que não as entendo. O que não compreendo é a pura e simples ausência de prazer, de gosto, de querência. O que poderia ter atrofiado a sensibilidade de uma pessoa a ponto de ela não sentir prazer por nada?
domingo, setembro 16, 2007
Sinaleiros
Eu realmente adoro essa cidade, suas qualidades superam em muito as de outras cidades que já habitei e justamente por lhe querer bem, noto seus defeitos com a esperança de que algum dia eles sejam podados ou atenuados. Então, eu gostaria de falar um pouco da disposição dos semáforos nas ruas de Curitiba. A situação é a seguinte. Imagine que você venha de São Paulo, Belo Horizonte, Brasília ou Rio de Janeiro, aporte em uma rua curitibana e vá caminhando pela sua calçada até a próxima esquina. Na sua frente, uma rua transversal que, na situação de pedestre, se apresenta como um obstáculo a ser ultrapassado, no caso, atravessado. Um cidadão das cidades supracitadas, de imediato, olharia para frente em busca de um sinal para pedestre. Primeira frustração. Eles praticamente não existem aqui. Objeto em extinção. Tudo bem, pensa o cidadão. E continua, posso extrair a informação de que necessito do semáforo (sinaleiro para os curitibanos) para os carros. Então ele vai olhar para a sua esquerda ou direita, conforme a esquina da quadra em que estiver, em busca do semáforo. Ele vai ver o semáforo, vai coçar a cabeça e soltar a sua indignação e incompreensão, como eu fiz logo que aqui cheguei: "como é que esses gênios da urbanização querem que eu descubra se posso atravessar ou não a rua se o semáforo está de costas para mim?". Sim, pasmem. O cidadão está exatamente na linha da faixa de pedestre. O semáforo, ao invés de estar bem no final da quadra, de modo que o pedestre pudesse vê-lo junto com os motoristas, não, está recuado, antes da faixa e, portanto, de costas para ele. Talvez os gênios da urbanização tenham pressuposto a correção moral do condutor curitibano de modo que qualquer pedestre pudesse inferir, com absoluta certeza e sem receios, o sinal vermelho ao ver os carros parados e o sinal verde ao ver os carros em movimento. Tenha a santa paciência!
quarta-feira, setembro 12, 2007
Diferenças II
- Sim, não sou mesmo como tu, sempre de cara feliz. Resplandeço minha dúvida no existir. No entanto, a mesma dúvida que me joga no chão também me eleva. Sou, por assim dizer, bipolar.
- Não esperava outra coisa de ti, meu caro, teu rosto sempre interrogado, louco. Não me espanta que não obtenhas com as mulheres o sucesso que eu obtenho com os homens. A minha crista de convicção seduz, a tua sombra de incerteza repele.
- Hoje estou mais ferino, não me pisarás como no outro dia. Teu sucesso com os homens não se deve tanto assim a ti, mas à tolice deles. Ausentes de vontade, encontraram em ti o guia de suas existências. Eu, ao contrário, não quero a companhia de tolos insensíveis ao pensar, mas sim daqueles que se sentem atraídos pela curiosidade, no seio da qual a dúvida se aloja.
- Tu se refugias em um elitismo que jamais poderá bater de frente com as legiões que trago debaixo dos meus braços.
- De frente jamais, minha tática é a da guerrilha, ataco pelas bordas. Talvez sim, talvez não, teus soldados aos poucos cairão atrás de outras ainda mais cegas que tu. O líder sempre está só entre os seus partidários.
- Tantos a me rodear e tens a coragem de dizer que estou sozinha?
- Tanta convicção para tão pouca percepção. Não vês a fraqueza do elo que os liga a você. Sugam a tua certeza até esgotá-la ou até depararem com outra mais cristalina, sedutora. Vão de porto em porto, ávidos pela mentira maior. Outra como ti a contará, cedo ou tarde. Que verdade já não foi traída?
- Não esperava outra coisa de ti, meu caro, teu rosto sempre interrogado, louco. Não me espanta que não obtenhas com as mulheres o sucesso que eu obtenho com os homens. A minha crista de convicção seduz, a tua sombra de incerteza repele.
- Hoje estou mais ferino, não me pisarás como no outro dia. Teu sucesso com os homens não se deve tanto assim a ti, mas à tolice deles. Ausentes de vontade, encontraram em ti o guia de suas existências. Eu, ao contrário, não quero a companhia de tolos insensíveis ao pensar, mas sim daqueles que se sentem atraídos pela curiosidade, no seio da qual a dúvida se aloja.
- Tu se refugias em um elitismo que jamais poderá bater de frente com as legiões que trago debaixo dos meus braços.
- De frente jamais, minha tática é a da guerrilha, ataco pelas bordas. Talvez sim, talvez não, teus soldados aos poucos cairão atrás de outras ainda mais cegas que tu. O líder sempre está só entre os seus partidários.
- Tantos a me rodear e tens a coragem de dizer que estou sozinha?
- Tanta convicção para tão pouca percepção. Não vês a fraqueza do elo que os liga a você. Sugam a tua certeza até esgotá-la ou até depararem com outra mais cristalina, sedutora. Vão de porto em porto, ávidos pela mentira maior. Outra como ti a contará, cedo ou tarde. Que verdade já não foi traída?
domingo, setembro 09, 2007
Enfadonho
Estudo psicológico mostra que se você repete a sua opinião várias vezes, em um grupo, as chances de que esta opinião seja percebida pelos outros membros como representativa do grupo são significativas. Ou seja, o enfadonho convence. Mas sinceramente eu prefiro um baixo desempenho no convencimento de manada e imaginar que a platéia que eu realmente espero ser sensível ao que digo seja suficientemente esperta e atenta para captar e absorver as minhas idéias de primeira e as assimile por reflexão e não por preguiça.
terça-feira, setembro 04, 2007
Inefável
O clichê do inefável acontece quando você desculpa a sua falta de palavras com o transbordar dos sentimentos. Não há apaixonado que não o tenha utilizado pelo menos uma vez na vida. Mas há também aqueles poucos afetados que usam o clichê para ludibriar, afirmar um excesso de sentimento que estão muito longe de sentir. Acho muito chinfrim o apaixonado que se vale desse clichê. Prefiro o apaixonado extasiado, que abre as porteiras da imaginação e deixa fluir seus sentimentos em metáforas. Boas ou más, floreadas ou não, bem ou mal escritas, é verdade que elas não transmitirão exatamente o que ele sente, não servirão de pintura realista do quadro que ele contempla em seu peito, mas serão capazes de causar no outro alguma reação, possivelmente o aguçamento da receptividade. A minha paixão nunca será a tua, nunca passará de mim para ti, mas a minha paixão pode despertar a tua.
quinta-feira, agosto 30, 2007
Diferenças
- Eu tenho fé, eu faço, eu arrisco.
- Eu tenho dúvida, paraliso-me, espero.
- Olha só o tamanho do meu EU, gigante, me imponho, grito.
- Escondo-me, falo baixo, sou corcunda.
- Transpiro a verdade, mesmo se não a tiver.
- Vomito a insegurança e sempre a tenho.
- Tu és um verme, tentas se infiltrar e corroer as pilastras da minha fortaleza.
- Teu peso me esmaga, não tens piedade, és implacável.
- A dúvida é um erro, sempre reclamona.
- Você acha?
- Tenho certeza.
- Eu não paro de pensar, percorro todos os caminhos sem sair do lugar.
- Eu percorro um só e chego lá, nunca paro, não preciso pensar, eu simplesmente vou.
- Lá onde?
- Lá, tu não sentes, não podes entender, não vês, é cego.
- Sou infeliz, sou casmurro, sou Bentinho.
- Sou alegre, sinto nas veias a verdade que me alimenta, sou forte e expressiva, sempre a passear, sou Capitu.
- És uma dissimulada, engana a todos com essa pele macia, mas tua carne por dentro é podre.
- Vives no rancor, na inveja, por lhe faltar o que tenho, de graça, sem correr atrás.
- Que tens, o que é? Conte-me!
- Eu tenho o que eu sou, o sentimento da verdade, da qual ela própria emana, Eu sou a Verdade.
- Sentimento...verdade...Eu não sei o que eu sou.
- Você não é!
- Talvez.
- Eu tenho dúvida, paraliso-me, espero.
- Olha só o tamanho do meu EU, gigante, me imponho, grito.
- Escondo-me, falo baixo, sou corcunda.
- Transpiro a verdade, mesmo se não a tiver.
- Vomito a insegurança e sempre a tenho.
- Tu és um verme, tentas se infiltrar e corroer as pilastras da minha fortaleza.
- Teu peso me esmaga, não tens piedade, és implacável.
- A dúvida é um erro, sempre reclamona.
- Você acha?
- Tenho certeza.
- Eu não paro de pensar, percorro todos os caminhos sem sair do lugar.
- Eu percorro um só e chego lá, nunca paro, não preciso pensar, eu simplesmente vou.
- Lá onde?
- Lá, tu não sentes, não podes entender, não vês, é cego.
- Sou infeliz, sou casmurro, sou Bentinho.
- Sou alegre, sinto nas veias a verdade que me alimenta, sou forte e expressiva, sempre a passear, sou Capitu.
- És uma dissimulada, engana a todos com essa pele macia, mas tua carne por dentro é podre.
- Vives no rancor, na inveja, por lhe faltar o que tenho, de graça, sem correr atrás.
- Que tens, o que é? Conte-me!
- Eu tenho o que eu sou, o sentimento da verdade, da qual ela própria emana, Eu sou a Verdade.
- Sentimento...verdade...Eu não sei o que eu sou.
- Você não é!
- Talvez.
segunda-feira, agosto 27, 2007
Baratas
Psiquiatra explica: "No caso da fobia de baratas, o interessante é que incide mais nas mulheres do que nos homens, na proporção de 8, 9 mulheres para cada homem". Concluo, então, que sou um homem raro. Ele narra: "Tive uma paciente com fobia de baratas que trabalhava com os pés em cima do cesto de papéis com medo de que uma barata subisse por suas pernas e revistava os ambientes à procura de orifícios por onde os insetos pudessem passar". Não cheguei ainda a esse ponto, mas houve uma época em que eu não me deitava para dormir sem verificar se havia alguma embaixo da cama e nos cantos do quarto. Hoje não mais, já que, desde que cheguei aqui, nenhuma resolveu aparecer em meu lar. E que não apareçam, viu, vocês não são bem-vindas!
sábado, agosto 25, 2007
Ego
Id. - Ego, Ego, Egoooooo!
Ego. - Pare de gritar, não sou surdo!
Id. - Quero fazer sexo com um pé, agora!
Ego. - Agora não dá.
Id. - Por que não dá? Quero e quero, já disse.
Ego. - Serve o teu pé?
Id. - Óbvio que não!
Ego. - Sem chances, então; no momento não há nenhum outro pé disponível, nenhum te desejando.
Id. - Não quero saber, se vire!
Ego. - Já disse, não há como.
Id. Pegue um aí à força.
Ego. - Há conseqüências...
Id. E daí? É você quem vai sofrê-las mesmo...
Ego. - E por que eu iria me prejudicar?
Id. Humm...tá vendo esse chicote aqui na minha mão esquerda? Com ele eu estalo a angústia na suas costas. Com esse outro, na direita, eu fagulho a frustração em você. Preciso dizer o que vou fazer?
Ego. - Não, mimado como é, não duvido.
Id. - Vamos, mova-se. O tempo está passando. Pé, pé, pé, quero um pé, agoraaaaaa!
(murros na porta, "Silêncio, Silêncio!", ouve-se lá de fora.)
Ego. - Ai, estou perdido!
(a porta se abre, Superego entra, irritado).
Supergo. - Não se pode mais dormir por aqui? Que baderna é essa, Ego?
Ego. - É o Id que não me deixa em paz, ele agora quer...
Supergo. - Não quero saber. A responsabilidade de velar o meu sono é tua. Nem isso você consegue fazer, nem isso! Um imprestável. Não quero ouvir mais um pio, meu sono é sagrado, você sabe. É a última vez que aviso.
(Superego sai, Id ri, Ego se sente pesado, culpado).
Ego. - Você acha graça, né?
Id. - Ainda nem comecei a me saciar. Se não tem pé, tem sadismo, hahahaha.
(Id chicoteia Ego com fervorosas chicotadas de angústia, contorcendo-se de prazer em risadas diabólicas. O Ego...bem, o Ego aguenta.).
Ego. - Pare de gritar, não sou surdo!
Id. - Quero fazer sexo com um pé, agora!
Ego. - Agora não dá.
Id. - Por que não dá? Quero e quero, já disse.
Ego. - Serve o teu pé?
Id. - Óbvio que não!
Ego. - Sem chances, então; no momento não há nenhum outro pé disponível, nenhum te desejando.
Id. - Não quero saber, se vire!
Ego. - Já disse, não há como.
Id. Pegue um aí à força.
Ego. - Há conseqüências...
Id. E daí? É você quem vai sofrê-las mesmo...
Ego. - E por que eu iria me prejudicar?
Id. Humm...tá vendo esse chicote aqui na minha mão esquerda? Com ele eu estalo a angústia na suas costas. Com esse outro, na direita, eu fagulho a frustração em você. Preciso dizer o que vou fazer?
Ego. - Não, mimado como é, não duvido.
Id. - Vamos, mova-se. O tempo está passando. Pé, pé, pé, quero um pé, agoraaaaaa!
(murros na porta, "Silêncio, Silêncio!", ouve-se lá de fora.)
Ego. - Ai, estou perdido!
(a porta se abre, Superego entra, irritado).
Supergo. - Não se pode mais dormir por aqui? Que baderna é essa, Ego?
Ego. - É o Id que não me deixa em paz, ele agora quer...
Supergo. - Não quero saber. A responsabilidade de velar o meu sono é tua. Nem isso você consegue fazer, nem isso! Um imprestável. Não quero ouvir mais um pio, meu sono é sagrado, você sabe. É a última vez que aviso.
(Superego sai, Id ri, Ego se sente pesado, culpado).
Ego. - Você acha graça, né?
Id. - Ainda nem comecei a me saciar. Se não tem pé, tem sadismo, hahahaha.
(Id chicoteia Ego com fervorosas chicotadas de angústia, contorcendo-se de prazer em risadas diabólicas. O Ego...bem, o Ego aguenta.).
sexta-feira, agosto 24, 2007
Paz
Paz insonora, entrando devagar, aos poucos, na morada do ser. Vá entrando, amiga, sente-se do meu lado, não se acanhe, passei um café pra nóis tomá com pão de queijo quentin. Desta vez você pousa aqui, não aceito negativas. Temos muito o que NÃO nos falar, olhares a trocar, sorrisos a dar. Para falar a verdade, uma noite só é pouca, quero-a comigo no eterno, dormindo ao meu lado. Sou leve, uma pluma, quando acordo com a minha mão sobre tua. Ah, querida, contigo presente, meu encontro comigo mesmo é sempre sereno. Vamos passear, vamos errar, quero que você me leve para conhecer o mundo. A porta está aberta, vamos!
segunda-feira, agosto 20, 2007
Arrogância
Dou de ombros para o seu achar-me louco. Isso só mostra que a sua capacidade de compreender é mais limitada que a minha capacidade de ser. Nunca acreditei na existência da loucura. Eu acredito em deficiências e distúrbios mentais que podem ser remontados a deficiências cerebrais. Loucura em cérebro são? Conte outra piada, use outro subterfúgio para escamotear a sua ignorância. Ah, você não quer me compreender. Oh, mas eu também não faço questão de ser compreendido por você. Não mesmo, eu ficaria completamente disforme nessas caixas mal feitas que você usa para apreender o ser do ente. Quer que eu lhe traga um espelho? Venha cá, veja-se. Passaste a vida numa lama de conceitos e crenças, sem nunca lhes dispensar nenhuma atenção organizadora, nenhum esforço higiênico para eliminar os excrementos herdados e amontoados no seu habitat. Teus pais rezavam e você gritava "amém!" mecanicamente, condicionada; até um robô mais moderninho, com fuzzy logic, entende?, seria capaz de emular um livre-arbítrio mais decente. Tua linguagem é um caos, tua rede de conceitos é vazada, não pega nem robalo, quanto mais a fineza do meu ser. Veja bem, veja bem. Deixe-me lhe explicar uma coisinha, básica até. A compreensão, a interpretação, o entendimento, a hermenêutica são completamente dependentes da arte de distinguir. Isso mesmo, a compreensão é um ofício artesanal, demanda um olhar atento e fino, uma disposição sobrehumana para rever cada grão de areia que lhe passou nas mãos, procurando erros, reclassificando peças, enfim, ela demanda um esforço e uma dedicação que só uma mente com excesso de vontade é capaz de levar adiante. Definitivamente, não. Não é com essa lama que você usa para construir castelos infantis que você vai compreender um ser humano, não mesmo. Por favor, não tente me tocar com a sua apreensão.
E ela sabiamente partiu, ao intuir, bem de longe, sem tocá-lo, o rancor do seu esperneio patético, deixando-o só, na companhia do seu amor-próprio.
E ela sabiamente partiu, ao intuir, bem de longe, sem tocá-lo, o rancor do seu esperneio patético, deixando-o só, na companhia do seu amor-próprio.
sexta-feira, agosto 17, 2007
Contradições
Sobre a mesa jaz a garrafa de vinho barato, que ele, despreocupado, bebe no gargalo. No quarto, uma única e fraca luz, que lhe exige esforço durante a leitura. Mas agora ele não lê. Está entediado, está sufocado com as contradições humanas. Ele sabe que as tem também, aos montes, mas pensa que as dele são mais compreensíveis ou, diversamente, são tão profundas que nem faria sentido lhe apontar na cara a tensão. Ele bebe rápido, quer se embriagar. Quer esquecer, quer transformar sua dor em raiva, contradizendo sua fala, seu discurso, pois sim, ontem ele acusava, diante da amiga, a covardia hodierna sentimental, os exércitos humanos que se agarram ao próprio ego, ao EU, para não sentir. Deixam de amar para não sofrer. "Medrosos!", exasperava-se ele com a amiga. E agora ele bebe para anestesiar a sua própria dor. Medo? Nem tanto, mas não quer enfrentá-la de frente, sente-se fraco para suportá-la, para vivê-la plenamente. Então ele bebe, só, na escuridão do seu quarto.
segunda-feira, agosto 13, 2007
Angústia
No dia em que senti, pela primeira vez, angústia real, sufocante, paralisante, não tive vontade de morrer, mas medo de morrer. Tive medo que o meu ateísmo se revelasse falso diante da morte. O ateu não difere em nada do cristão. Ambos são movidos pela fé, apenas que são opostas. Desejei, então, desesperadamente viver. Na finitude, a angústia é suportável.
sábado, agosto 11, 2007
Sósias
Vai aqui um relato real, um espanto. Pessoas que me conhecem apenas por foto me vêm em lugares em que não estive. Já não bastava o professor de grafos que todos os alunos do curso dizem ser eu, agora aparece uma multidão de sósias espalhada pela cidade. Em BH, eu também tinha um colega fisicamente gêmeo. Sou comum. Ponto. Sorte a minha nunca ter atrelado a minha identidade, se é que tenho uma, aos meus atributos físicos. Mas quer saber de uma coisa? O fato de "eu" estar espalhado pela Curitiba, entranhado nas suas ruas, é só mais uma confirmação do meu pertencimento ao novo lar que adotei. Já antes de vir, aqui estava. E nenhum deles tem o meu nome E é sinistro, ao mesmo tempo, e isso é o que importa ;).
sexta-feira, agosto 10, 2007
Magia
Estava andando pela rua, quando vi o menino do balão azul, ele tinha a pele manchada de sol, seca, cabelos loiros e escurecidos, caminhava olhando reto, sem expressão, como uma criança que quase nunca pôde se deixar levar pelo brincar, parecia carregar o balão por obrigação e não por diversão. Quando nos cruzamos, seu balão começou a subir e ele também, segurando sem esforço na corda, leve, planando. Foi quando o vi gargalhar e eu sorri, admirado com aquela mágica gravitacional. E ele foi subindo, subindo, suas gargalhadas cada vez mais inaudíveis, até que ele sumiu por trás de uma nuvem rosada em forma de elefante. Continuei andando com aquela imaginem na mente por alguns minutos, fazendo o meu caminho costumeiro. Observava as mesmas árvores e as mesmas casas amarelas de sempre, pois sim, em uma mesma quadra, os moradores engendraram uma admiração conjunta e pintaram suas moradas com o ouro da bandeira nacional. Passei por ali pensando nos ipês amarelos. Lembrei que na escola eu pintava os olhos humanos de amarelo, eu sempre quis ter olhos em um tom amarelo esbranquiçado, olhos que refletissem quase por completo, para servir melhor de espelho ao outro. Então cheguei em uma esquina e havia um sinal para pedestre, vermelho. Coloquei as mãos no bolsos e girei o corpo, olhando inclinado para cima, procurando o menino do balão azul. Vi dois falcões cruzando o céu e um deles segurava uma corda no bico. Ao olhar novamente para frente, franzi o rosto, tentando compreender o que se apresentava a minha frente. Parecia ser o Alfredo. Mas era o Alfredo! Mas como poderia ser ele? Ele estava no meio de duas mulheres ruivas e de mãos dadas a ambas. Pasmem. Ele me viu, mas era como se não tivesse me visto. Viu um rosto apenas, não o seu amigo de infância. O sinal abriu e ele começou a caminhar com as sua ruivas. Ele apertava a mão de uma, depois a de outra, cheirava o cabelo de uma, inclinava o rosto para se apoiar no ombro da outra e assim vinha, faceiro. Dei meus passos também, em sua direção, sempre tentando encontrar seus olhos, sua alma. Mas ele estava sintonizado em outra estação, estação do fogo. Passou por mim e foi-se. Quando terminei de atravessar a rua, voltei-me para trás para observá-los. Uma das ruivas era magrela, esquia, bem mais alta que Alfredo, mesmo se estivesse sem o salto alto, que usava com classe. A outra tinha ares de adolescente, mais carnuda, coxas bem brancas, exibidas pela sua saia rodada curta, quadril largo, andava rebolando, esbarrando em Alfredo e chamando a atenção dos homens que lhe cruzavam o caminho. Segui em frente, andei por mais quinze minutos até chegar em meu destino, o parque da grama estrelada. Sim, a grama do parque possui desenhos de estrelas em relevo. Eles deixam a grama crescer em alguns pontos e depois podam no formato estrelar. Gosto de uma em especial. Ela fica quase no topo de uma pequena elevação e suas pontas são levemente avermelhadas. Não sei se plantaram ali um tipo especial de grama ou se o sol que bate forte naquele ponto a queimou e deu aquele aspecto à estrela. Mas é ali que me sento, ao lado da minha Estrela da Tarde, onde posso ver o sol se pôr entre os prédios da cidade. Vi mais nuvens rosadas de elefante. Hoje seria mais belo que o habitual, pensei. Ainda faltava uma hora para o sol cruzar a linha do horizonte. Resolvi me deitar um pouco para descansar, usei a ponta da estrela como travesseiro. Estava gostoso assim, os fios de grama se moviam em um vai-vem carinhoso, alisando a minha nuca. Fechei os meus olhos, sentindo o calor do sol queimando meu rosto rosado por completo. Algo começou a tocar a mina mão, senti uma pressão leve seguindo suavemente as minhas linhas da vida. A textura era um pouco diferente da pele humana, mais macia e aveludada. Morno. Abri os olhos e não vi nada, embora continuasse sentindo o contato. Logo percebi que era a Venusiana que estava ali do meu lado, invisível na sua presença. Viera assistir o pôr do sol comigo. Voltei à escuridão para melhor conversar com ela, usando a linguagem das mãos, do toque. A Venusiana sempre entendeu a minha necessidade, e acredito que ela também a tenha, de conversar através do silêncio, de recusar o imperativo da palavra, de explorar a linguagem do corpo, do contexto, da situação; há muito o que falar pela alteridade. Uma vez ela me disse que as palavras são como caixas onde guardamos as coisas para esquecê-las. E é verdade. O substantivo concreto se desmancha na mente sob a forma de conceito. Chega um momento em que você fala "cadeira" e já não tem mais nenhuma cadeira particular em mente. Esqueceu-se dela ou delas. Triste. Então, pelas mãos, abrimos os nossos corpos e a intimidade pôde se compreender pelo toque irregular e ilógico, toque que ia fundo sem a casca da forma. Assim ligados e conectados presenciamos o pôr do sol mais sublime de nossas vidas. A bola celeste e todo o universo se transformando diante de mim pela magia humana da significação.
quarta-feira, agosto 08, 2007
Pirueta
Para que te olhar, se posso te ouvir? Para que te ouvir, se posso te cheirar? Para que te cheirar, se posso te lamber? Para que te lamber, se posso te tocar? Para que te tocar, se posso pensar em você? Ah não, sem essa. Pensar é distante, é egoísta, é masturbar-me na solidão com o que roubei de ti, é me fechar aqui dentro e sonhar com um quadro teu abstrato, simbólico, é me admirar no vazio ilusório. Nada disso, não, não e não. Quero você escorregando na minha percepção, balançando no meu paladar, dando piruetas no meu olhar. Assim eu te encontro, assim a gente se encontra.
sexta-feira, agosto 03, 2007
Locomotiva
Enquanto dormia, foi lançado na locomotiva do tempo. Ela foi levando-o velozmente para bem longe do que ele era. Via, pela janela, se afastar o cenário do seu presente, as paisagens onde ele tinha se acostumado a andar, a deitar à noite sobre a relva para ver as estrelas. Já não sentia mais as cócegas das formigas que subiam em suas pernas e se entrelaçavam em seus pelos. Olhou para elas e viu-as límpidas, brancas, sem marcas de picadas, como se algo as tivesse apagado. Olhou fixo, pela última vez, enquanto ainda era possível, para a casa onde, até então, havia morado. Lembrou-se do seu primeiro tombo de bicicleta e sentiu leve, já bem fraca, a ardência do joelho ralado. Tudo ia se apagando enquanto a locomotiva seguida o seu caminho, indiferente a ele, sem lhe dar qualquer chance de reação. Na verdade, não havia um caminho, ela apenas ia, se afastava, sem prestar contas, sem anunciar destinos, sem padecer pelo que causava aos outros, fosse alegria ou tristeza. A locomotiva do tempo é completamente impessoal. E ele estava ali sentado no banco tentando segurar, com todas as suas forças, tudo o que ele era, tudo o que ele foi. Quando mais se esforçava para continuar sendo, menos ele era, mais deixava de ser, mais se perdia em lembranças que se apagavam, em imagens que criava como se algum dia elas tivessem lhe pertencido. Via, aos poucos, meio confuso, partes de si ficando para trás e começou a sentir um medo queimando a boca do estômago, uma angústia que lhe dava um nó na garganta. Pensou na sua extinção, na sua ausência completa e isso lhe pareceu aterrador. Mas depois percebeu que, por mais que se mutilasse, por mais que seus fragmentos se dispersassem pelo cosmos, ele ainda estava ali, assistindo e padecendo o horror deste acontecimento. Ele estaria consigo ainda que não houvesse mais nada com que estar. O medo passou, mas no lugar ficou a tristeza, ficou a nostalgia do belo que ele havia perdido, que ele deixara escapar quando a locomotiva começou a andar. Embora ele não se lembrasse de mais nada concretamente, havia em si a semente mnemônica, o pensamento de algo perdido, a presença da ausência, a vivência do vazio. Ele sabia que algo lhe faltava, mas não tinha idéia do que poderia ser e de como poderia resgatá-lo. A locomotiva parou e a porta se abriu. Uma luz se irradiou para dentro da cabine, era muito forte. Ele não pôde ver o que havia lá fora. Resolveu ficar. Fechou os olhos e se encolheu. A locomotiva partiu novamente e ele com a esperança de que ela agora lhe levasse também a sua tristeza. Escolhas, sempre elas...
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