quarta-feira, abril 26, 2006

Mary Jane

Sim, era uma Mary Jane embrutecida. Os traços não eram tão delicados, mas tinham a mesma forma. Era o tipo de mulher que trocaria o namorado de dois anos por uma paixão de fim de semana sem qualquer remorso ou sofrimento. Mulher de desejos e interesses, desumana e maligna. Percebi isso enquanto a via comendo impassível. Ainda assim, cativou os meus olhos com a sua lembrança externa de Mary Jane.

segunda-feira, abril 10, 2006

Nojo

Aquele nariz empinado só servia para exibir a sua frescura. A abrobinha era meticulosamente raspada, repelindo, em seguida, a sua casca. Olhos indignados, ofendidos. Como ela, uma princesa, ogra, para falar a verdade, poderia estar sendo submetida àquela refeição? Indignado fiquei eu.

quarta-feira, abril 05, 2006

Rostos

No meio daquela balburdia, entre rostos que não são vistos, saltaram diante de mim aqueles olhos ternos. Desta vez, estavam com uma moldura preta, mais grossa, mas, nem por isso, menos delicada. Foram breves segundos, mas suficientes para que o seu rosto se destacasse da multidão e eu pudesse mirar em teus olhos e ela nos meus.

sábado, abril 01, 2006

Passadas

Rápidas passadas, toda de preto, balzaquiana. Suprimia as baforadas do cansaço com um semi-sorriso. Seus óculos escuros me impediram de perceber onde seus olhos pousavam. A música no seu fone de ouvido era alta, pude ouvi-la, mas não identificá-la. Sempre rápida, decidida.

quarta-feira, março 29, 2006

Bandejas

No fundo, bandejas metálicas latejantes. Era a parte realmente mais barulhenta do refeitório. Seu sorriso acompanhava a intensidade das batidas. O tempo todo esteve com ele no rosto. Alias, era-me familiar, semelhante ao de uma conhecida agora já desconhecida. Sua mão destra envolvia o garfo completa e rigidamente para cortar. Olhou-me poucas vezes, é verdade. Ela estava mais interessada na cacofonia das bandejas.

terça-feira, março 28, 2006

Olhares

Mãos canhotas sobre a mesa, olhares encontrados. Doce olhar, rodeado de um lápis cinza escuro. Parecia querer falar-me. Unhas um pouco grandes em uma mão delicada, grande, mas suave. Comia pouco para a sua altura. Queria ter visto um sorriso entre os seus lábios, aliás, grandes e carnudos, e agora a minha memória o constroi visualmente para mim.