segunda-feira, agosto 13, 2007

Angústia

No dia em que senti, pela primeira vez, angústia real, sufocante, paralisante, não tive vontade de morrer, mas medo de morrer. Tive medo que o meu ateísmo se revelasse falso diante da morte. O ateu não difere em nada do cristão. Ambos são movidos pela fé, apenas que são opostas. Desejei, então, desesperadamente viver. Na finitude, a angústia é suportável.

sábado, agosto 11, 2007

Sósias

Vai aqui um relato real, um espanto. Pessoas que me conhecem apenas por foto me vêm em lugares em que não estive. Já não bastava o professor de grafos que todos os alunos do curso dizem ser eu, agora aparece uma multidão de sósias espalhada pela cidade. Em BH, eu também tinha um colega fisicamente gêmeo. Sou comum. Ponto. Sorte a minha nunca ter atrelado a minha identidade, se é que tenho uma, aos meus atributos físicos. Mas quer saber de uma coisa? O fato de "eu" estar espalhado pela Curitiba, entranhado nas suas ruas, é só mais uma confirmação do meu pertencimento ao novo lar que adotei. Já antes de vir, aqui estava. E nenhum deles tem o meu nome E é sinistro, ao mesmo tempo, e isso é o que importa ;).

sexta-feira, agosto 10, 2007

Magia

Estava andando pela rua, quando vi o menino do balão azul, ele tinha a pele manchada de sol, seca, cabelos loiros e escurecidos, caminhava olhando reto, sem expressão, como uma criança que quase nunca pôde se deixar levar pelo brincar, parecia carregar o balão por obrigação e não por diversão. Quando nos cruzamos, seu balão começou a subir e ele também, segurando sem esforço na corda, leve, planando. Foi quando o vi gargalhar e eu sorri, admirado com aquela mágica gravitacional. E ele foi subindo, subindo, suas gargalhadas cada vez mais inaudíveis, até que ele sumiu por trás de uma nuvem rosada em forma de elefante. Continuei andando com aquela imaginem na mente por alguns minutos, fazendo o meu caminho costumeiro. Observava as mesmas árvores e as mesmas casas amarelas de sempre, pois sim, em uma mesma quadra, os moradores engendraram uma admiração conjunta e pintaram suas moradas com o ouro da bandeira nacional. Passei por ali pensando nos ipês amarelos. Lembrei que na escola eu pintava os olhos humanos de amarelo, eu sempre quis ter olhos em um tom amarelo esbranquiçado, olhos que refletissem quase por completo, para servir melhor de espelho ao outro. Então cheguei em uma esquina e havia um sinal para pedestre, vermelho. Coloquei as mãos no bolsos e girei o corpo, olhando inclinado para cima, procurando o menino do balão azul. Vi dois falcões cruzando o céu e um deles segurava uma corda no bico. Ao olhar novamente para frente, franzi o rosto, tentando compreender o que se apresentava a minha frente. Parecia ser o Alfredo. Mas era o Alfredo! Mas como poderia ser ele? Ele estava no meio de duas mulheres ruivas e de mãos dadas a ambas. Pasmem. Ele me viu, mas era como se não tivesse me visto. Viu um rosto apenas, não o seu amigo de infância. O sinal abriu e ele começou a caminhar com as sua ruivas. Ele apertava a mão de uma, depois a de outra, cheirava o cabelo de uma, inclinava o rosto para se apoiar no ombro da outra e assim vinha, faceiro. Dei meus passos também, em sua direção, sempre tentando encontrar seus olhos, sua alma. Mas ele estava sintonizado em outra estação, estação do fogo. Passou por mim e foi-se. Quando terminei de atravessar a rua, voltei-me para trás para observá-los. Uma das ruivas era magrela, esquia, bem mais alta que Alfredo, mesmo se estivesse sem o salto alto, que usava com classe. A outra tinha ares de adolescente, mais carnuda, coxas bem brancas, exibidas pela sua saia rodada curta, quadril largo, andava rebolando, esbarrando em Alfredo e chamando a atenção dos homens que lhe cruzavam o caminho. Segui em frente, andei por mais quinze minutos até chegar em meu destino, o parque da grama estrelada. Sim, a grama do parque possui desenhos de estrelas em relevo. Eles deixam a grama crescer em alguns pontos e depois podam no formato estrelar. Gosto de uma em especial. Ela fica quase no topo de uma pequena elevação e suas pontas são levemente avermelhadas. Não sei se plantaram ali um tipo especial de grama ou se o sol que bate forte naquele ponto a queimou e deu aquele aspecto à estrela. Mas é ali que me sento, ao lado da minha Estrela da Tarde, onde posso ver o sol se pôr entre os prédios da cidade. Vi mais nuvens rosadas de elefante. Hoje seria mais belo que o habitual, pensei. Ainda faltava uma hora para o sol cruzar a linha do horizonte. Resolvi me deitar um pouco para descansar, usei a ponta da estrela como travesseiro. Estava gostoso assim, os fios de grama se moviam em um vai-vem carinhoso, alisando a minha nuca. Fechei os meus olhos, sentindo o calor do sol queimando meu rosto rosado por completo. Algo começou a tocar a mina mão, senti uma pressão leve seguindo suavemente as minhas linhas da vida. A textura era um pouco diferente da pele humana, mais macia e aveludada. Morno. Abri os olhos e não vi nada, embora continuasse sentindo o contato. Logo percebi que era a Venusiana que estava ali do meu lado, invisível na sua presença. Viera assistir o pôr do sol comigo. Voltei à escuridão para melhor conversar com ela, usando a linguagem das mãos, do toque. A Venusiana sempre entendeu a minha necessidade, e acredito que ela também a tenha, de conversar através do silêncio, de recusar o imperativo da palavra, de explorar a linguagem do corpo, do contexto, da situação; há muito o que falar pela alteridade. Uma vez ela me disse que as palavras são como caixas onde guardamos as coisas para esquecê-las. E é verdade. O substantivo concreto se desmancha na mente sob a forma de conceito. Chega um momento em que você fala "cadeira" e já não tem mais nenhuma cadeira particular em mente. Esqueceu-se dela ou delas. Triste. Então, pelas mãos, abrimos os nossos corpos e a intimidade pôde se compreender pelo toque irregular e ilógico, toque que ia fundo sem a casca da forma. Assim ligados e conectados presenciamos o pôr do sol mais sublime de nossas vidas. A bola celeste e todo o universo se transformando diante de mim pela magia humana da significação.

quarta-feira, agosto 08, 2007

Pirueta

Para que te olhar, se posso te ouvir? Para que te ouvir, se posso te cheirar? Para que te cheirar, se posso te lamber? Para que te lamber, se posso te tocar? Para que te tocar, se posso pensar em você? Ah não, sem essa. Pensar é distante, é egoísta, é masturbar-me na solidão com o que roubei de ti, é me fechar aqui dentro e sonhar com um quadro teu abstrato, simbólico, é me admirar no vazio ilusório. Nada disso, não, não e não. Quero você escorregando na minha percepção, balançando no meu paladar, dando piruetas no meu olhar. Assim eu te encontro, assim a gente se encontra.

sexta-feira, agosto 03, 2007

Locomotiva

Enquanto dormia, foi lançado na locomotiva do tempo. Ela foi levando-o velozmente para bem longe do que ele era. Via, pela janela, se afastar o cenário do seu presente, as paisagens onde ele tinha se acostumado a andar, a deitar à noite sobre a relva para ver as estrelas. Já não sentia mais as cócegas das formigas que subiam em suas pernas e se entrelaçavam em seus pelos. Olhou para elas e viu-as límpidas, brancas, sem marcas de picadas, como se algo as tivesse apagado. Olhou fixo, pela última vez, enquanto ainda era possível, para a casa onde, até então, havia morado. Lembrou-se do seu primeiro tombo de bicicleta e sentiu leve, já bem fraca, a ardência do joelho ralado. Tudo ia se apagando enquanto a locomotiva seguida o seu caminho, indiferente a ele, sem lhe dar qualquer chance de reação. Na verdade, não havia um caminho, ela apenas ia, se afastava, sem prestar contas, sem anunciar destinos, sem padecer pelo que causava aos outros, fosse alegria ou tristeza. A locomotiva do tempo é completamente impessoal. E ele estava ali sentado no banco tentando segurar, com todas as suas forças, tudo o que ele era, tudo o que ele foi. Quando mais se esforçava para continuar sendo, menos ele era, mais deixava de ser, mais se perdia em lembranças que se apagavam, em imagens que criava como se algum dia elas tivessem lhe pertencido. Via, aos poucos, meio confuso, partes de si ficando para trás e começou a sentir um medo queimando a boca do estômago, uma angústia que lhe dava um nó na garganta. Pensou na sua extinção, na sua ausência completa e isso lhe pareceu aterrador. Mas depois percebeu que, por mais que se mutilasse, por mais que seus fragmentos se dispersassem pelo cosmos, ele ainda estava ali, assistindo e padecendo o horror deste acontecimento. Ele estaria consigo ainda que não houvesse mais nada com que estar. O medo passou, mas no lugar ficou a tristeza, ficou a nostalgia do belo que ele havia perdido, que ele deixara escapar quando a locomotiva começou a andar. Embora ele não se lembrasse de mais nada concretamente, havia em si a semente mnemônica, o pensamento de algo perdido, a presença da ausência, a vivência do vazio. Ele sabia que algo lhe faltava, mas não tinha idéia do que poderia ser e de como poderia resgatá-lo. A locomotiva parou e a porta se abriu. Uma luz se irradiou para dentro da cabine, era muito forte. Ele não pôde ver o que havia lá fora. Resolveu ficar. Fechou os olhos e se encolheu. A locomotiva partiu novamente e ele com a esperança de que ela agora lhe levasse também a sua tristeza. Escolhas, sempre elas...

terça-feira, julho 31, 2007

Pedra

Havia um pedra
em meu jardim
e eu pensei
ser essa pedra

Mas a terra
a engoliu
com a ajuda
da chuva

Então me vi
deslizando
nas curvas
da pétala anil

Caí no chão
orvalhado
e a lágrima
banhou-me a face

sábado, julho 28, 2007

Lúdico

Eu digo que sou uma eterna criança lúdica porque acredito na magia do amor e vivo, ainda que ilusoriamente, a graça dessa magia, em toda a sua plenitude, recebendo a esperança e o otimismo que ela produz. E sorrio muito ao senti-la na minha pele, florindo cada emoção que me é possível ter. Como hoje...O problema são os seres humanos, jovens velhos que, na sua inquisição laica, guilhotinam a minha crença.

Angústia

O amor dormiu enquanto falava comigo. Eu o abraçava fortemente, cravando minhas unhas em teu corpo, envolvendo nele as minhas pernas, sussurando em seu ouvido as minhas questões. Mas ele dormiu antes que pudesse escutar a minha angústia. Melhor assim, pois que bem faria eu ao amor se lhe pintasse não a minha beleza, mas a minha feiúra? O que há de pior em cada um de nós a gente só olha na completa solidão, à luz de vela, até para não ver demais os detalhes do horror, tal como fazia Dorian Gray.

quinta-feira, julho 05, 2007

...

- Por que você fica aí calado?
- O que queria que eu dissesse?
- Sei lá, qualquer coisa.
- Qualquer coisa.
- Você é mesmo um chato!
- Não sou eu que sou chato, é o meu silêncio que te chateia.
- Para mim, dá no mesmo.
- Não dá. A chatice está no efeito ou na causa? O chato é aquele que, por ser chato, produz a chatice ou aquele que, por produzir a chatice, é chato?
- Que diferença faz? Você está me aborrecendo. Odeio quando você começa com esses papos.
- Entendo. Calado, te chateio. Falando, te aborreço. Faz muito sentido isso.
- Está vendo, você não me entende, não percebe o que eu realmente quero.
- O que você quer?
- Você.
...

domingo, julho 01, 2007

Existência

Você existe mesmo? Como sabe? O prêmio de consolação cartesiano embutido no penso, logo existo é, na verdade, um escárnio, uma ironia, uma trombeta a lhe gozar, a lhe espetar o dedo na cara apontando o seu nada. Para chegar à brilhante conclusão do cogito, você precisa suspender todo o universo, seu corpo, sua história e até as suas memórias. No final desse processo de suspensão, resta apenas um ser amorfo que tem a singular propriedade de pensar. Ele pensa e pronto, nada mais. Termina aí. Mas ele não tem personalidade, não tem rosto, não tem nome, não tem memória, não tem quem se lembre dele, nem quem o toque, pois isso já seria pedir demais. E assim fica claro que podemos existir sem, no fundo, realmente existir. Um eu que perdeu todas as suas relações com outros eus deixou também de ser. Existe apenas como essa coisa amorfa pensante, destituída de qualquer significado.

Felicidade


Consumidor feliz, vibrante na euforia do desejo realizado. Quanto tempo ela durará?

quinta-feira, junho 28, 2007

Pernas

Pernas grossas e roliças, de uma brancura noturna, cruzadas bem na minha frente, evidenciando ainda mais a sua exuberância. Realmente lindas, perfeitas no branco para aquele horário e ambiente. Estava só, não apenas no sentido físico da palavra, mas principalmente no psíquico. Olhar distante, voltada para si mesma, olhos consternados, quase ouvi um choro. Completamente absorvida em si que nem me percebeu dissecá-la. Nunca imaginei que no meio de pernas tão perfeitas pudesse encontrar um sofrimento tão visível. Então o frenesi da gravação voltou a tomar conta do local e ela foi chamada a assumir a sua posição de dançarina figurante. Guardou na pequena bolsa preta os óculos que afundavam ainda mais o seu olhar. Levantou no seu salto preto exibindo as pernas mais vistosas do recinto, não minto, acho que nunca esquecerei aquelas pernas, arrumou um sorriso falso na boca e dirigiu-se para o meio da pista. Livre do pensar, do pesar, voltou a dançar.

segunda-feira, junho 25, 2007

Erro

Reconheço que errei, que falei além da evidência, do permitido pelos fatos. Inventei calcado na emoção. Enganei a ti e a mim mesmo. Pincelei com o exagero uma generalidade que não existiu nem no particular.

domingo, junho 24, 2007

Ilusão

Você está tão longe, tão do outro lado do mundo, mas ao mesmo tempo, tão perto, tão dentro de mim. Te apalpo com a sobrancelha do peito. Li ontem, em algum lugar, que somente através do amor e das amizades criamos a ilusão efêmera de que não estamos sozinhos. A frase era para ser pessimista, mas eu a incorporo com otimismo. Ilusão tem ser, tem cor, tem impacto sobre a minha sensação. Ela está viva na minha experiência. E depois, o Berkeley me ensinou que esse est percipi. Sendo assim, deixe-me em paz na ilusão diária de tê-la por perto, ouvinte dos meus ecos.

sexta-feira, junho 22, 2007

Fraquejo

Adianta dizer a verdade a quem não está preparado para ouvi-la? Esmaga meus ossos essa pressão para não fraquejar. A mulher, em nossa sociedade (ou seria ainda mais radical, a fêmea, em nossa espécie?), pode se dar ao luxo de declarar publicamente a sua auto-estima em baixa. O homem será punido se o fizer, mesmo pelos mais sensíveis. Sua virilidade percebida, em especial pelas mulheres, decai na mesma medida da sua perda de auto-confiança, gerando um ciclo vicioso direto para o abismo. Já recebi em meus braços o choro da mulher esquartejada, dilacerada pela existência. Quando, no entanto, fui buscar o apoio compreensivo no abraço dessa mesma mulher, nem tão assim lamurioso, nem tão assim lacrimoso e queixoso, recebi em retorno um tapa nas costas, aveludado por: "cuide-se, amigo". Uma preocupação a falsear um quase desprezo. É por isso que eu estou sempre muito bem, muito bem mesmo, obrigado.

terça-feira, junho 19, 2007

Ruivas

Alfedro tem fixação pelas ruivas. Foi assim que ele se apaixonou através da visão instantânea pela L, K, N e W. Em tempos diferentes, é claro, pois Alfredo é o tipo de cara que prefere ataques concentrados ao invés de suportar grandes flancos. Diz ele que o risco de sucumbir no seio inimigo é maior, mas também são maiores as chances de chegar ao seu centro fatal. Não sei de onde vem essa atração irrefreável, mas é incontestável o abalo emocional de Alfredo diante de uma ruiva. Outro dia caminhávamos pelas ruas do centro, discutindo sobre um texto da faculdade, e repentinamente ele me deixa sozinho, seguindo por uma outra rua atrás de uma ruiva que ele tinha visto passar. Não o vi mais nesse dia. No ônibus, ele simplesmente fica imóvel, ouso dizer que nem pisca, encarando a primeira infeliz ruiva que ele encontra. Nem preciso lhes dizer que esse comportamento de psicopata não deu nenhum fruto. Duvido que dê. Já vi Alfredo com japas, negras, morenas, altas, baixas, gordas, magras, mas nunca com uma ruiva. Um dia resolvi lhe perguntar se sua fixação tinha alguma razão. Ele me respondeu assim: "Não tem não, meu amigo, eu simplesmente me sinto queimar por dentro quando vejo uma ruiva. Elas despertam o meu demônio. Sabe, quando você não consegue pensar em mais nada, sentindo o ser que se apresenta como senhor absoluto da sua atenção? É assim que me sinto, sem controle, sem opção, sem livre-arbítrio. Mas você quer uma razão? Quer? Não sei o que você faz com tantas razões, realmente não sei. Mas vá lá. Se quer...dou-lhe uma, essa aqui, ó: tenho medo de escuro, verdade, mesmo já estando assim quase adulto, não durmo de luz apagada e sempre imaginei que se me casasse com uma ruiva, teria um fogo incandescente a me iluminar e aquecer no próprio leito. Entende?. Não sou muito diferente dos outros homens nas associações".

terça-feira, junho 12, 2007

Delonga

Queria que saísse perfeito, apesar do meu timbre canhestro e dissonante. Longamente treinei. Mas no dia que lhe resolvi recitar essa música, ela me disse adeus. Abafou-me o sentimento antes mesmo que ele pudesse vibrar em tua alma pelas minhas cordas vocais.
Guardei esse segredo por muitos anos. Hoje a cafonice o liberta.

It's only time.

Why would I stop loving you
a hundred years from now?
It's only time.
It's only time.

What could stop this beating heart
once it's made a vow?
It's only time.
It's only time.

If rain won't change your mind,
let it fall.
The rain won't change my heart
at all.

Lock this chain
around my hand,
throw away the key.
It's only time.
It's only time.

Years falling
like grains of sand
mean nothing to me.
It's only time.
It's only time.

If snow won't change your mind
let it fall.
The snow won't change my heart,
not at all.

(I'll walk your lands)
I'll walk your lands
(And swim your sea)
And swim your sea

Marry me.
Marry me.

(Then in your hands)
Then in your hands
(I will be free)
I will be free

Marry me.
Marry me.

Why would I stop loving you
a hundred years from now?
(Magnetic Fields)

Ponto.

Amor é amor e ponto final. Quando ela me fala do seu "amor" pragmático, do seu estar ao lado por força do hábito, do seu gostar de por ser assim mais adequado, mais confortável, gostar adquirido pelo costume, eu emudeço na incompreensão. Não tenho o que lhe dizer. Penso que ela se relaciona com o mundo primordialmente através das mãos, acentuando a sua textura áspera, segurando com força o presente, enquanto que eu me relaciono pela visão, deixando-me encantar pelas ilusões que vejo longe, contemplando o futuro que ali vem. Não sei, realmente não entendo.

quinta-feira, junho 07, 2007

Pueril

Pés diminutos sobre o terreiro, ligeiros e descalços, para ali bem sentir os grãos de areia. Na mão esquerda, segurando com firmeza, o fio do seu balão azul de hidrogênio. Corre solto e livre. Na boca, um sorriso pueril de quem ainda não precisou se encontrar com a esperança.

segunda-feira, junho 04, 2007

Exatamente assim

-Como você definiria Curitiba?
-Eu a definiria como a cidade das aparências. Aqui o essencial é o inessencial.
-Por que veio para cá? Outro dia mesmo você me disse que busca o que há de mais profundo nas coisas.
-Ainda penso assim.
-Não entendo.
-É simples. Se eu estivesse em um lugar onde o essencial estivesse sobre as aparências, eu o encontraria com facilidade.
-Não seria melhor?
-Evidente que não.
-Por que?
-Uma vez que o encontrasse, iria me entediar.
-Então, por que busca?
-Ué, se não buscar, também vou me entediar.
-Deixe-me ver se entendi. Precisa buscar algo que nunca gostaria de encontrar?
-Exatamente assim.