I fall in love
for a moment
before I hit despair
I turn around to see you
another one is there
how the bells of the clock
how the bell do chime
that awful reminder
"you never will be mine"
(Death in June)
domingo, abril 22, 2007
quarta-feira, abril 18, 2007
Alfredo
Alfredo se entedia com tudo. Ele se apaixona com a mesma velocidade com que se esquece dos
seus amores antigos. O entediado é movido pela novidade. Outro dia, no ponto de ônibus, Alfredo cresceu os olhos para tentar ver o título do livro que a moça ruiva ao seu lado lia. ``Notas do Subterrâneo''. Humm, pensou. Ainda não tinha reparado em seu rosto. Quando o viu, se sentiu atraído. Ela tinha entre 20 e 24 anos, um nariz pequeno e arredondado, cabelos curtos, acentuando a sua jovialidade e sardas, sardas que desde pequeno Alfredo sempre almejou. Quando o ônibus chegou, esperou que ela fosse na frente, para ter uma visão completa do seu andar. Chamou-lhe a atenção a mochila da faculdade. Nela leu ``Administração''. Ah, pensou desapontado. Então olhou para suas mãos e viu unhas enormes que ele já não gostava tanto. Depois reparou no celular que ela ostentava, pendurado no bolso da calça. Sentou logo atrás dela.
Se sentasse ao lado, teria a chance de lhe falar, mas agora ele só queria observá-la. Alguns minutos depois, ela atendeu o celular. Quem ali estivesse, poderia assistir a mudança gradual da expressão facial de Alfredo de interessado para completamete desinteressado, quando, por fim, ele deixou de reparar na moça para contemplar a paisagem que a janela do ônibus lhe oferecia. Palavras como ``balada'', ``tipo'' foram lhe assassinado o interesse. O novo tornou-se velho. Tédio. Assim segue Alfredo se apaixonando e se desinteressando todos os dias várias vezes ao dia.
seus amores antigos. O entediado é movido pela novidade. Outro dia, no ponto de ônibus, Alfredo cresceu os olhos para tentar ver o título do livro que a moça ruiva ao seu lado lia. ``Notas do Subterrâneo''. Humm, pensou. Ainda não tinha reparado em seu rosto. Quando o viu, se sentiu atraído. Ela tinha entre 20 e 24 anos, um nariz pequeno e arredondado, cabelos curtos, acentuando a sua jovialidade e sardas, sardas que desde pequeno Alfredo sempre almejou. Quando o ônibus chegou, esperou que ela fosse na frente, para ter uma visão completa do seu andar. Chamou-lhe a atenção a mochila da faculdade. Nela leu ``Administração''. Ah, pensou desapontado. Então olhou para suas mãos e viu unhas enormes que ele já não gostava tanto. Depois reparou no celular que ela ostentava, pendurado no bolso da calça. Sentou logo atrás dela.
Se sentasse ao lado, teria a chance de lhe falar, mas agora ele só queria observá-la. Alguns minutos depois, ela atendeu o celular. Quem ali estivesse, poderia assistir a mudança gradual da expressão facial de Alfredo de interessado para completamete desinteressado, quando, por fim, ele deixou de reparar na moça para contemplar a paisagem que a janela do ônibus lhe oferecia. Palavras como ``balada'', ``tipo'' foram lhe assassinado o interesse. O novo tornou-se velho. Tédio. Assim segue Alfredo se apaixonando e se desinteressando todos os dias várias vezes ao dia.
terça-feira, abril 10, 2007
Amada
Não seja tímida. Vim de longe para me entregar completamente a ti, para sentir teu sopro gélido sobre a minha nuca. Acorde, já é hora de despertar! Mostre-me do que és capaz. Não suporto mais te ver assim tão aprisionada, temerosa, refém das ações humanas, quando és capaz de sobrepujá-las todas. Solte teu bafo esbranquiçado enquanto inspiro, deixe-me levar-te aos meus pulmões! Tenho um sangue demasiado latino que tu precisas arrefecer. Há semanas que sonho com o teu abraço cristal. Ouso dizer que sou o primeiro a te amar verdadeiramente. Todos aqueles a quem deste a luz se protegem com grossas mantas quando tu te aproximas. Covardes, se refugiam. Não te sentem, não te encaram. Negam a própria mãe. Ainda bem que não nasci de ti. Estou livre para amá-la sem complexos. Diferente dos teus filhos, saio correndo de braços abertos ao teu encontro sempre que tu te mostras. Não fosse o olhar impuro dos homens e o seu poder insano, iria nú te receber. Deixaria que me tocasses por completo. Ah, Curitiba minha, tu és a gaia que eu, investido de eros, vim fecundar. Acorde, já é hora de me receberes.
terça-feira, abril 03, 2007
Jornada
Esse vento forte que me corta a cara e me faz cerrar os olhos, como ele me arde. Só vejo um palmo diante dos olhos. Essas pernas trêmulas que já não me fixam direito no chão. Cansado, envelhecido e com sede neste deserto. Fecho os olhos e sinto sua mão tocando a minha face, deslizando suave sobre os meus lábios. Mordisco-a. Alívio em forma de delírio. Até a lembrança envelhece. Em vão me esforço. O chão me chama, quero deitar, dormir, descansar.
domingo, março 25, 2007
Abraço
Abraço somado. Abraço que eterniza em mim a sensação da sua presença constante. Teu jeito de encantar e produzir sorrisos. Como não lembrar? Foi preciso represar a vontade de hábitos antigos.
terça-feira, março 20, 2007
Pornográfico
Cansei, cansei da minha hipocrisia. A minha capa de formalidade quando falo contigo é falsa, é ilusória, é forjada. Debaixo dela pulsa a minha vontade de conhecer teus lábios, de apertar o seu corpo contra o meu. Pensa que é fácil para mim? Não é não. Hoje resolvi mandar tudo às favas. E daí que você tem um namorado, amante ou sei lá o que? O que eu tenho a ver com isso? Nada. Eu sinto o que eu sinto. Quer mesmo saber o que eu sinto, a verdade nua e rasgada? Eu digo. Não é paixão, não é amor, mas tem carinho no meio. Só no meio, pois nas pontas tem desejo, de um lado e atração, do outro. Tem algum gostar também, sei que tem, ou eu não sentiria essa vontade louca de suprimir com todo o pudor entre quatro paredes. Você me deixa pornográfico.
terça-feira, março 13, 2007
Maroto
Instante extenso. Uma fração de segundos de uma duração penetrante. Cruzei o limiar da porta e te vi. Senti-me golpeado no estômago. Que era aquele sorriso maroto? Sim, você sabe, você nota. Baixei os olhos. Suportaria o teu olhar, mas não pude com o teu sorriso. Pensei em me derramar nos teus braços, mas você se assustaria. Continuas uma incógnita que magnetiza a minha atenção. Não sei nada sobre você além do fato de que és canhota. No entanto, já sei o bastante. Isto basta.
domingo, março 11, 2007
Filo
"Você é um homem das humanas", foi me dito outro dia, questionando minha opção mais recente pelas exatas. O que me levou e me leva às exatas é a oportunidade de me ocupar exclusiva e voluptuosamente com questões externas, questões que não me obriguem a voltar sobre mim mesmo. Embora a filosofia também dê algumas oportunidades assim, ela sempre nos força à reflexão especular. E há momentos em que simplesmente não quero ficar olhando para mim. Quero me ocupar do mundo, oras. Motivo banal e simples. Quando, ao contrário, sinto saudades de mim, vou à procura do leite materno filosofal. Aí sento, leio, penso, escrevo e me sinto aconchegado pertinho de mim.
sábado, março 10, 2007
Amizade
- Você é o meu melhor amigo.
- Por que está me dizendo isso?
- Não sei, queria que soubesse.
- Não diga algo que não possa sustentar no instante seguinte.
- Mas estou certa que posso.
- Eu não.
- Você está seco!
- Realista.
- Mas eu gosto sim de você.
- Para que dizer isso? Há centenas de formas mais interessantes de manifestar a sua estima por mim. A mais pobre delas é essa, pela fala.
- Por que?
- Porque é fácil.
- Ah, então eu teria de me sacrificar para mostrar a você alguma estima?
- Não falei de sacrifício. E se você já vê qualquer ato além da palavra como um sacrifício, então realmente não sabe o que está falando quando diz que sou o seu melhor amigo.
- Você pressupõe que sentimentos são eternos. Se digo agora que você é o meu melhor amigo é porque me sinto assim em relação a você, mas por que deveria sustentar isso para sempre? Sentimentos acabam. Você não disse que é realista?
- Sim, eu disse.
- Então...
- Então que você pode dizer que sou o teu melhor amigo sem precisar sustentar isso para sempre. Mas eu ainda não vejo sentido em que me diga tal coisa, se você não é capaz de
manifestar isso que diz por outras formas além da palavra.
- Você parece querer que as pessoas provem o tempo todo o que sentem.
- Não, não quero. Se sentem, não precisam provar. Naturalmente irão fazê-lo.
- Mas você é mais cético que o normal e o que você espera ser uma manifestação "normal" de um sentimento não é nada normal.
- Talvez você tenha razão.
- Você é o meu melhor amigo sim.
- É...acho que nunca vou saber.
- Por que está me dizendo isso?
- Não sei, queria que soubesse.
- Não diga algo que não possa sustentar no instante seguinte.
- Mas estou certa que posso.
- Eu não.
- Você está seco!
- Realista.
- Mas eu gosto sim de você.
- Para que dizer isso? Há centenas de formas mais interessantes de manifestar a sua estima por mim. A mais pobre delas é essa, pela fala.
- Por que?
- Porque é fácil.
- Ah, então eu teria de me sacrificar para mostrar a você alguma estima?
- Não falei de sacrifício. E se você já vê qualquer ato além da palavra como um sacrifício, então realmente não sabe o que está falando quando diz que sou o seu melhor amigo.
- Você pressupõe que sentimentos são eternos. Se digo agora que você é o meu melhor amigo é porque me sinto assim em relação a você, mas por que deveria sustentar isso para sempre? Sentimentos acabam. Você não disse que é realista?
- Sim, eu disse.
- Então...
- Então que você pode dizer que sou o teu melhor amigo sem precisar sustentar isso para sempre. Mas eu ainda não vejo sentido em que me diga tal coisa, se você não é capaz de
manifestar isso que diz por outras formas além da palavra.
- Você parece querer que as pessoas provem o tempo todo o que sentem.
- Não, não quero. Se sentem, não precisam provar. Naturalmente irão fazê-lo.
- Mas você é mais cético que o normal e o que você espera ser uma manifestação "normal" de um sentimento não é nada normal.
- Talvez você tenha razão.
- Você é o meu melhor amigo sim.
- É...acho que nunca vou saber.
sexta-feira, março 09, 2007
Orgulho
O orgulho que me afasta das pessoas é o mesmo que me mantém vivo. Não ser orgulhoso implica em aceitar safanão, em ser cristão. E eu sou um agnóstico bem resolvido. Mas tenho dúvidas, como sempre. É fraco aquele que abaixa a cabeça para pedir perdão ou, ao contrário, aquele que não consegue fazê-lo justamente por excesso de orgulho? É fraco aquele que permite sangrar o seu EU ou aquele que não consegue se vencer? Depende. Depende. Não reconhecer o erro já beira à burrice. Mas, por outro lado, erro mesmo só há quando você o reconhece como tal. Não vou pedir perdão por erros que me imputam de fora. Uma colherada de orgulho aqui. Perco sim, perco amizades e amores por orgulho. Mas sem ele, eu não iria conseguir me erguer depois de levar uma rasteira. O orgulho é a bengala dos homens-lobo.
quarta-feira, março 07, 2007
Livre
O que algumas pessoas não entendem é que o suicídio só pode ser escolhido genuinamente se o indivíduo não tiver qualquer razão para ele. Verdade, suicídio coagido por razões não é menos suicídio, mas também não é livre. Quem se mata por tristeza ou depressão reconhece que a vida é demais para ela, que a sua fraqueza não suporta as forças vitais que batem em seu peito. Suicídio motivado é uma escolha para fracos. Um suicídio livre não é motivado por razões. Ele é a própria razão, é o fundamento da não-vida, é a aceitação e a escolha da morte como modo de ser. Uma escolha não coagida não pode ser racional. Kant está errado. Ser livre não é agir sempre em conformidade com a razão. O suicida livre, ao contrário, é aquele que tem todas as razões para viver, tem diante de si o êxtase mais sublime das paixões e ainda assim escolhe abraçar a morte. "Por que? Por que?", perguntarão alguns. "Não faz sentido!", dirão outros. Mas é justamente essa questão que não faz sentido para ele. Ele não foi coagido, ele não foi motivado, ele não foi levado. Não há uma razão para ser interrogada e inquirida. Ele apenas escolheu livremente a morte. Ele apenas desnudou seu eu de toda essa casca acidental de razões que só servem, na maioria das vezes, para nos robotizar.
domingo, fevereiro 25, 2007
Alianças
Outro dia estava conversando com uma amiga sobre o uso de alianças e ela me disse que gostava delas para simbolizar o compromisso. Um rito que para ela é agradável respeitar. Esse rito em si eu não respeito, mas posso vir a entender e respeitar a vontade da outra pessoa em querer participar desse rito. Meu amor comporta alguma abnegação. Gente, é sério, eu tenho claustrofobia anular. Tenho pânico dessa coisa entrar no dedo e não sair mais. Quando coloco um anel no dedo, e isso aconteceu pouquíssimas vezes, eu fico girando o anel o tempo todo para constatar que ele não grudou. Outra: eu jamais colocaria essa coisa no meu anular para afastar a falta de confiança. O curitiboca é hilário a esse respeito. Se vangloriam de ser o povo mais familiar, mais nuclear, mais fiel e, para prová-lo, usam alianças de quase 1 cm de espessura. Não estou mentido. Cheguei a levantar a hipótese de que os joalheiros aqui fossem ruins, não soubessem fazer alianças finas e discretas. Mas não, é o curitiboca mesmo que sente prazer em arrotar os seus compromissos, expressando com este ato, ao meu ver, a falta brutal de confiança que tem uns nos outros. Aqui não estão simplesmente participando de um rito, estão sim desesperadamente externando seus medos e desconfianças. Burrice, pois a aliança é completamente ineficaz contra a infidelidade. Diria até que a estimula. O proibido seduz. Para falar a verdade, estou me lixando para a fidelidade. Pouco importa se outras mulheres estão colocando a boca no pinto do seu namorado ou se outros homens estão colocando o pinto na boca da sua namorada. Importa mesmo é se você está sendo sincero consigo mesmo e com aquele que diz amar e respeitar. Só isso.
sábado, fevereiro 24, 2007
Obrigação
Agora que eu não tenho mais compromisso algum com a filosofia, eu posso me dedicar a ela de corpo e alma. Por razão similar, muitos amantes conseguem ser companheiros melhores para as esposas que os seus próprios maridos.
domingo, fevereiro 18, 2007
Lágrima
Eu prefiro a estética da lágrima à estética do sorriso. Um rosto com choro é infinitamente mais belo que um rosto com sorriso. Obviamente, refiro-me ao choro de uma lágrima contida que salta dos olhos involuntariamente, uma lágrima irrefreável, exprimindo uma dor que o sujeito não consegue conter. O choro esganiçado de alguém que tenta multiplicar pelo comportamento uma pequena dor é feio e imoral. O primeiro choro não, ele é sublime, é a expressão de um sentimento autêntico, é a verdade em pessoa. Já o sorriso é traiçoeiro, quase sempre falso. Exprime uma mentira que você gostaria de ouvir. Seduz pela leviandade. Sim, há os verdadeiros, mas é difícil apontá-los.
sábado, fevereiro 17, 2007
PdQ
Queen na vitrola e a mão na massa para preparar aquilo que sei fazer de melhor: pão de queijo. Posso vir a esquecer tudo que aprendi em Minas, durante os 15 anos que lá passei. Posso, com o passar dos anos, deixar de lado as suas interjeições simpáticas como "uai!" e "sô!", mitigar as imagens de Belo Horizonte, que, aliás, nem é tão belo assim, mas jamais me esquecerei do seu pão de queijo. Simplesmente inigualável. Quem já comeu um lá ou um feito pelas mãos de alguém que veio de lá, sabe do que estou falando.
segunda-feira, fevereiro 12, 2007
dfskdjhfkdj
Pessoas que não conseguem ficar sozinhas são pessoas que têm medo de si mesmas, que não querem se encarar. Imagino que temem descobrir que não se gostam. Quem se encara e gosta não teme a solidão. Ao contrário, procura por ela. Para falar a verdade, eu morro de medo de pessoas que não conseguem ficar sozinhas. Elas te sugam demais. E são traiçoeiras também. Eu me sinto mais em paz só do que na companhia dos outros. Há exceções a isso que eu disse, obviamente. Mas é raro, pois depende de um outro que é raro.
sexta-feira, fevereiro 09, 2007
Sentir
Quando a porta se fechou, teve medo. Não do escuro absoluto que incidiu sobre o quarto. Medo sim de se ver forçado cada vez mais a estar apenas consigo mesmo. Sem nada para ver, acabaria se voltando para a visão interna. Tremeu ao pensar em se ver assim tão intuitivamente. No primeiro dia, rastejou pelo chão, lambendo cada centímetro do seu piso. Mergulhou em seu sabor. Por excesso, perdeu o paladar. No segundo dia, bateu palmas, cantou e gritou. Se alguma luz pudesse entrar ali, perceberia as veias saltitando em seu pescoço. Exagerou no agudo e os seus tímpanos sangraram, perdeu a audição. No terceiro dia, rolava pelo chão, esfregava-se com força nas paredes, um tato voraz que parecia querer soldá-lo no concreto. Esmagou nervos, perdeu o tato. No quarto dia, inspirava com toda a força que podia, abrindo as narinas, para captar o cheiro do chão e das paredes. Não suportou a poeira, perdeu o olfato. No quinto dia, já desesperado, forçou bem os olhos. Mas a visão sozinha é impotente sem a luz. Não teve mais como fugir. Olhou-se, enfim, com a sua intuição. Neste instante, uma lágrima cresceu no seu olho esquerdo e desceu pela face, atingindo seus lábios semi-abertos. Mas ele não pôde vê-la, nem senti-la se deslizando sobre a pele. Em sua língua, a lágrima se misturou com a sua saliva sem que ele pudesse notar qualquer diferença, nenhum sabor. Enquanto se olhava, uma vontade crescia em seu peito. Quis se tocar, cheirar seus braços, degustar a pele, ouvir o timbre da sua voz e ver as silhuetas do seu corpo. Mas nada disso era possível agora. Tentou sem resultados. Teve, então, um medo ainda mais paralisante: o de não mais poder se sentir. Compreendeu que não lhe restava mais nada a não ser essa contemplação estática e vazia de si.
segunda-feira, janeiro 29, 2007
Só
Em "Safe", a solidão se traduziu em ódio de si mesmo. Ela não conseguia mais se amar. Terminou desamparada, humilhada. Em "Seul contre Tous", a solidão se manifesta pela revolta. Ele odeia todos os outros. Não odeia a si, mas a sua condição de solitário. Como ele diz, até mesmo quando estamos fazendo amor, estamos sós, completamente sós, imersos em nossos cheiros, tatos e paladares, aprisionados em nossas sensações e pensamentos. A existência é uma puta de uma prisão onde um só pode entrar e da qual jamais sairá vivo, nem morto. Um enamorado contestará: "eu não me sinto só!". "Não precisa sentir para estar", rebateria o personagem. Da mesma forma como há ilusões perceptivas, não poderíamos falar de uma ilusão emotiva? Não estou certo. Aqui parece que a distinção entre ser e sentir desaparece. Sentir-se só implica em estar só e estar só implicar em sentir-se só. Ser e sentir são o mesmo quando se trata da existência. Há o eremita tranqüilo que jamais se sente só na sua companhia. Há também aquele imerso em uma multidão, amado por muitos, nem sabe contá-los todos e, no entanto, está só, sente-se só, não se compreende e não imagina como outros poderiam compreendê-lo. Na base, há o amor. O eremita se divide em eus que podem se amar mesmo na solidão, uma multidão amorosa em um; enquanto o outro, mesmo sendo amado por muitos, por não amar ele mesmo ninguém, não consegue perceber e muito menos sentir o amor de alguém. Sente-se, portanto, só e está, de fato, só.
Para quem se sente só, a vida se torna um grande teste de resistência e paciência.
Para quem se sente só, a vida se torna um grande teste de resistência e paciência.
quarta-feira, janeiro 17, 2007
Match Point
Match Point, do Woody Allen, explora a idéia de que a sorte desempenha um papel fundamental em nossas vidas. A metáfora da rede de tênis usada no início do filme é espetacular. Às vezes, a bola bate no topo da rede e, por um instante, fica suspensa. Ela pode cair do seu lado e você perde ou ela pode cair no campo do seu adversário e você ganha. E a vida é assim cheia de eventos de sorte ou azar. Isso soa como um atentado àqueles que gostariam que a vida estivesse completamente sob o seu controle. Mas é claro que a gente não tem completo controle sobre a vida, a não ser que você e o mundo fossem um só. Não é por outro motivo que temos tanta vontade de poder...O Deus teísta se torna o próprio mundo através da sua masturbação onipotente. Mas aqui neste mundo que não é nosso, que não dominamos, com esses recursos precários e limitados que a natureza nos deu, podemos fazer escolhas de efeito marginal. O grosso da vida, e o que ainda a torna bela, misteriosa e mesmo desejável, é de uma contingência absoluta aos nossos olhos finitos.
Quando eu tinha uns 13 ou 14 anos, uma colega de classe me enviou um bilhete perguntando se eu gostava da M. M era uma sardenta bombardeada pelo foco da minha atenção, objeto de sonhos e desejos que começavam a nascer. Eu respondi, no verso do bilhete, que sim. Essa colega não me viu escrevendo e, quando pegou o bilhete de volta, olhou apenas a parte frontal e fez uma cara de reprovação, tomando o meu suposto silêncio como um não. Depois jogou o bilhete fora. Eu não disse nada. Quando a aula acabou, eu a vi indo na outra sala falar com M. E M nunca veio até a mim e eu nunca fui até a M. Depois eu fui embora daquela cidade e nunca mais vi M.
Quando eu tinha uns 13 ou 14 anos, uma colega de classe me enviou um bilhete perguntando se eu gostava da M. M era uma sardenta bombardeada pelo foco da minha atenção, objeto de sonhos e desejos que começavam a nascer. Eu respondi, no verso do bilhete, que sim. Essa colega não me viu escrevendo e, quando pegou o bilhete de volta, olhou apenas a parte frontal e fez uma cara de reprovação, tomando o meu suposto silêncio como um não. Depois jogou o bilhete fora. Eu não disse nada. Quando a aula acabou, eu a vi indo na outra sala falar com M. E M nunca veio até a mim e eu nunca fui até a M. Depois eu fui embora daquela cidade e nunca mais vi M.
domingo, janeiro 07, 2007
Pés
Gosto de pés, mas não sou um podófilo pronto para lamber e chupar dedos do pé como se fosse um sorvete. Pés macios e delicados eu beijo, contemplo e massageio. Quando a paixão da carne queima dentro de mim e penso no gozo de uma mulher, não imagino seus seios, pernas, órgãos sexuais ou contorcionismos faciais, mas sim a curva orgástica do seu pé. Imagino eles lutando contra paredes, colchas, travesseiros, pernas ou qualquer coisa que sirva de obstáculo a sua expressão. É através do pé que a mulher manifesta melhor a intensidade do seu gozo ou, pelo menos, é assim que eu gosto de ver. Jamais esqueci o pé de uma paixão.
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