quinta-feira, agosto 17, 2006

Sou um ateu que acredita fervorosamente na possibilidade do amor. Eu não preciso ter vivido um amor de cem anos, nem estar amando para acreditar que posso vivenciar um encontro efetivo, assim como um cristão não precisa de qualquer evidência para abrir o seu peito à graça divina. Eu simplesmente abraço o mundo com essa vontade transcendente de amar, mesmo que ele jamais venha a me corresponder.

Natureza

Quando ele acordou do seu sonho azul, entristeceu-se com a possibilidade de a realidade ser cinza. Mas depois pensou que poderia acordar deste pesadelo. Por fim, percebeu que não importa se está em vigília ou dormindo. Em suas veias, flui a esperança, em seu peito, bate a força aliterativa do t, e o vento que lhe penteia os cachos vai lhe abrindo o caminho para o futuro. A natureza há de levá-lo para um bom lugar.

quarta-feira, agosto 16, 2006

Azul

Apesar de o céu ter amanhecido acinzentado, o que, nestes tempos de estiagem e racionamento, é extremamente desejável, eu estampei no peito, em franca rebeldia, um azul celeste. Não precisei da luz solar para me iluminar, todo o eu já estava radiante.

terça-feira, agosto 15, 2006

Homeoteleutos

Homeoteleutos, eu já vos conhecia, mas não com este nome. Agora que vos vejo, meus olhos matam a fome.
Quero para mim a força aliterativa do t esbravejada no "Eu te amo".
Quero agradecer às palavras fônicas o conhecimento que me sibilaram

Amar

Dormir e acordar com um brilho nos olhos, por ter em quem pensar, cumprimentar o mundo, por saber que ela o habita, envolver-se com os braços, para sentir a sua pele, andar correndo, por estar sempre indo ao seu encontro, abrir os olhos para vê-la, fechar os olhos para vê-la novamente, sorrir muito, transbordar amor, por saber que ela existe, respirar sempre fundo, para inspirar a sua presença. No mundo que vislumbro, faremos assim. Em meu mundo, eu sou assim.

segunda-feira, agosto 14, 2006

Abundante

O amor universal cristão era possível para Cristo, pois, por suposição, ele era/é onipotente. Com uma atenção ilimitada, ele podia/pode amar a todos igualmente. Mas a mensagem que ele nos deixa ao morrer na cruz, por amor a nós humanos, é clara: não deixe a sua atenção ociosa e nem a desperdice em vão. Como seres finitos, temos uma obrigação ainda maior de gerir os nossos recursos amorosos com maior preocupação e diligência. A vontade de amar jorra abundante no mundo que vislumbro.

sexta-feira, agosto 11, 2006

Pães

Simplicidade. Gosto de ir comprar pães na padaria. Ver o sorriso de olhos esverdeados da atendente. Ela retribui em igual media o cumprimento aberto que lhe dou.

quarta-feira, agosto 09, 2006

Curitiba

Quando a minha mãe disse que achava muito difícil andar pelas ruas de Curitiba como pedestre, em virtude da falta de sinalização, o que eu concordo, o escroque do seu primo carioca, que aqui mora há mais de dez anos, disse: "sim, é verdade, mas só esse povo pobre, humilde anda à pé.". Essa resposta ele já não deu mais como carioca e sim como curitibano. Eu sinto um cheiro de esnobsimo no ar desta cidade. Evidentemente, não falo da totalidade, falo do típico, que nem precisa ser a maioria, basta que seja representativo.

domingo, agosto 06, 2006

Sorriso

Algumas experiências são impagáveis e indeléveis. O sorriso feliz de alguém que mata as saudades ao lhe ver é uma delas. Nove anos atrás eu desembarcava em Brasília para receber um sorriso assim, contagiante, envolvente, que tinha a capacidade de me fazer sentir completamente vivo, conectato ao mundo. São alguns poucos segundos de existência física que se prolongam por uma eternidade, que transbordam em sentido. Eu me sinto agraciado por ter visto um dia os olhos de um ser humano brilhar.

sábado, agosto 05, 2006

Espera

Nunca espere absolutamente nada de outro ser humano. Deixe-o completamente livre. Se, ainda assim, ele lhe der algo, será genuíno. Espere menos para sofrer menos também.

sexta-feira, agosto 04, 2006

Amor

Eu nunca disse que era cristão. Amor e afeto devemos dar e eu procuro dar, mas amor e afeto eu não distribuo universalmente. Quem a todos ama, em verdade, não ama ninguém. Sem diferenciação, o amor é tão vazio quanto a palavra "ser". O motivo é simples. Não existe amor sem atenção e a atenção, entre humanos, é um recurso finito e escasso. Se você diz que ama a todos, então doa uma atenção que tende a zero, isto é, não dá atenção alguma. Se isto é amor, é um bem vazio. Amor genuíno requer atenção e, uma vez que você a distribui, limita a quantidade de pessoas que pode amar. Eu dispenso o amor de uma pessoa que não pode me dar atenção alguma. Não, definitivamente, isso não é amor.

domingo, julho 30, 2006

Valor

O valor de uma pessoa é medido pela quantidade de memórias que existem atualmente dela. Não me refiro às memórias históricas, mas às memórias emotivas, presentes nas mentes das pessoas. Por isso, cuide para que você mesmo esteja sempre em seu coração. Se não estiver impresso no coração de mais ninguém e nem no teu, então não tens valor; é como se não existisse. Exerça a bondade, ame-se, pois só assim poderá amar o outro. Se você se abandonar, perderá a chance de ter algum valor.

sexta-feira, julho 28, 2006

Avante

A verdade é que eu sou um futurista otimista e um contemporâneo pessimista. Miro o futuro com olhos esperançosos e interpreto o presente com lentes turvas.

quinta-feira, julho 27, 2006

Esperança

Uma vez eu disse que, sem esperanças, nos tornamos bestas. Mas talvez não seja assim tão ruim ser uma besta. Muito pelo contrário. Quem não espera, não se frustra, não sente dor, não sofre. Não falo evidentemente da dor física. A vida bestial é infinitamente mais suportável. Observem. Alguém já viu um animal não-humano arquear a coluna por causa do peso de seu futuro? Não! Mas entre nós, simetria perfeita não há. Todos nós temos algum problema de coluna, por menor que seja. Ao que acham que isso se deve? Sabe, tenho medo que a minha musculatura fique exageradamente enrijecida com todos esses chutes que me dão ou que eu sinto estarem a me dar sem parar, dia após dia. Não faz muita diferença se dão ou não. Esse est percipi, já dizia o filósofo. Como, como então arrancar do peito toda essa esperança que transborda em mim e que me pune e me fustiga diariamente?

quarta-feira, julho 26, 2006

Morte

Algumas pessoas morrem para doar a própria vida, outras pessoas doam a própria vida para morrer.

segunda-feira, julho 10, 2006

Vento

Eu corro para sentir o toque suave e gelado do vendo sobre a minha face. Depois de avaliar bem o caminho, fecho os olhos, por alguns poucos segundos, para me concentrar nesta sensação. É como uma mão doce a me acariciar. Não é quente como a humana, mas é terna e envolvente. É o afago da mãe natureza.

domingo, julho 09, 2006

Culpa

É preciso muita força de vontade para expurgar-se de todos os pensamentos ruins. A natureza humana falhada é um golpe natural contra a virtude. O caminho que preciso percorrer ainda é muito longo. Mesmo não vendo, no horizonte, qualquer chegada, continuarei firme. Mas hoje senti que me desviei um pouco da rota. Angustiei-me. Ouço os violoncelos de Bach e é como se eles não estivessem contentes comigo. O som está áspero, corta-me a carne, a alma.

sábado, julho 08, 2006

Só se sente só quem alimenta a sua própria solidão. Só se sente só quem espera que alguém venha assisti-lo. Ora, mas se você já tem um espectador fiel, disponível 24 horas do dia, compreensivo e íntimo, por que depositar tanta ansiedade em uma assistência externa inconstante, ausente, estranha e truculenta? Rodopeie os ouvidos e os olhos em 180 graus e assista o seu próprio espetáculo. Dê-se o alento, o carinho e a atenção de que precisa. Sim, reuna forças, pois é mais fácil lamentar e se ruir sobre a fraqueza. Não seja um fraco tentando conquistar a atenção alheia pela compaixão. Não se humilhe. Simplesmente seja, exista para si e em si.

Sentido

Ontem me perguntaram o que eu fiz ao longo da minha vida toda. Essa é uma pergunta que atordoa, pois inicialmente ficamos tentados a buscar na memória grandes feitos e, não os encontrando, corremos o risco de julgar a própria vida sem sentido. Resolvi, então, indagar o que são grandes feitos. Realizações que, por um motivo ou outro, são elegíveis ao registro histórico? Três ou dois mil anos atrás, atos heróicos em uma batalha eram elegíveis ao registro histórico. Alexandre, Cézar e Átila são por isso lembrados. Hoje tais atos não são mais elegíveis, muito embora, em qualquer batalha moderna, ainda haja um ou outro a agir brava e heroicamente. Em uma sociedade centrada no conhecimento, descobertas científicas são mais elegíveis ao registro histórico. Sim, hodiernamente, um grande feito seria descobrir uma vacina para a AIDS, unificar a física quântica e a da relatividade ou solucionar alguns dos problemas matemáticos formulados por Hilbert no século passado. Não há, assim, grandes feitos em absoluto. Natural que seja assim. Feitos há aos montes e qualquer vida terrena realiza vários deles. "Grande", "pequeno" ou "insignificante" são adjetivos que lhes iremos aplicar conforme a nossa ordem de valores. Minha vida é insignificante se procurar nela realizações científicas de grande feitura. Nem eu busco engrandecê-la com tais realizações. Por outro lado, minha vida está longe de ser insignificante aos meus olhos se a julgo como uma busca por humanização. A busca por um sentido é incessante, mas há tantos recortes possíveis que encontrar um sentido único e preciso é tão difícil quanto não encontrar nenhum. Com olhos bem abertos, cada um pode encontrar o seu caminho. E eu não preciso de holofotes sobre mim para merecer a luz do sol.

sábado, julho 01, 2006

Atenção

Todos estão cansados de saber o quanto essa cena é freqüente, essa que narrarei logo em seguida. Mas saber é uma coisa, perceber o seu impacto emocional, é outra. Quem a vê, sente melhor o quanto essa situação é ruim. Lá estavam eles desfrutando o almoço. Ela tinha olhos meigos e carentes. Olhos de quem se sentia constrangida. Olhava para o prato, comia, olhava para o marido, mas, como este não a olhava, ela procurava, ao redor, pessoas que estivesse percebendo a sua falta de atenção. Assim ela me viu algumas vezes. Este ciclo repetiu-se durante uns quarenta minutos. O tempo inteiro permaneceram calados. Mas ele não falava por ter o silêncio como hábito. A razão do seu silêncio era uma atenção muito bem dirigida. Logo acima dele, havia uma televisão, onde passava um jogo de futebol. Não, não era um jogo do Brasil e, se fosse, também não justificaria o seu comportamento. Ele impassível, ela envergonhada. E eu me perguntava, como, como não dar atenção gratuitamente, sem esforço, mas com prazer, a quem lhe quer e que supostamente você ama?