terça-feira, junho 13, 2006

Humanidade

Pessoas vivendo próximas umas das outras, atadas por laços de sangue, às vezes se cuidam menos que pessoas distantes sem parentescos. Meu tio mora em uma cidade habitata por pelo menos mais dois de seus irmãos e alguns sobrinhos. Mas ninguém percebeu a gravidade do seu quadro, a sua provável demência. Em seu quarto, foram encontrados vários ratos mortos em estado de putrefação, com os quais ele convivia. Doces espalhados por todo lado. Ele era diabético. Mas ninguém viu, ninguém viu... Não falo isso para culpar alguém. Falo isso apenas para me lembrar que posso frequentemente ser uma dessas pessoas que não vê o que se passa ao redor, que devo tentar ser mais humano.

domingo, junho 11, 2006

Sonho

Às vezes, o passado brota do nada. Desta vez, ele veio na forma de um sonho. Estávamos juntos novamente. Ela parecia feliz, eu também. Nossos corpos estavam sedentos, se enlaçavam e se sorviam. Mas havia em seu rosto uma indecisão, como se tudo aquilo fôsse efêmero. Eu olhava fundo em seus olhos, mas não conseguia obter resposta alguma. Então nos afundávamos na sensação. E, por mais prazeroso que fosse, me angustiava. Acordado, passei o resto do dia olhando para trás.

Vocês

Onde quer que vocês estejam, eu penso em cada um de vocês, desejando-lhes o melhor. Sim, vocês que eu mantenho vivos em minhas memórias, vocês que estarão sempre comigo, vocês que, em algum momento, deram-me uma fração de sua existência, de seu olhar, de sua atenção. Com cada um de vocês pude sentir o que é saborear a vida. Por mais longe que estejam no tempo e no espaço, estarão sempre em mim, vivos através da minha vivência. Esquecer de vocês equivaleria a esquecer-me, a esquecer de todas as vezes em que pude me ver pelo reflexo ocular. Ter um passado é uma dádiva.

quarta-feira, junho 07, 2006

Tio

Enquanto o meu pai relatava o estado deplorável em que ele foi encontrado, eu fazia um esforço enorme para evocar as melhores lembranças que tenho dele. Eis que me vejo, então, com a cabeça para o lado de fora da sua Brasília, tomando vento na cara e rindo grande. Aquele teto solar era o deleite dos seus sobrinhos. Ele sempre sorrindo e fazendo graças. Endurecia a barriga e pedia para que o socássemos o mais forte possível. "Nem Hulk pode comigo!", dizia ele. Impossível chupar uma bala de mel e não lembrar das que ele nos dava. Sempre tinha uma no bolso. Nunca vi um átomo de maldade em seu coração.

sábado, junho 03, 2006

Jonathan

Jonathan, Jonathan que foi abusado e abandonado na infância, Jonathan que teve uma mãe esquizofrênica; mãe que se tornou esquizofrênica em um longo tratamento a base de choques. Jonathan, Jonathan que era gay, que me faz lembrar do meu irmão: bonito, inteligente e exageradamente sensível. Sensibilidade que os deixa sempre oscilando entre o desespero profundo e a criatividade explosiva. Assistam Tarnation.

quinta-feira, junho 01, 2006

Carência

Jamais esquecerei o retrado da carência humana no rosto daquela dona de casa. Suas palavras foram mais ou menos assim: "Tudo que eu idealizava, mas nunca encontrava no mundo e pensava que não poderia existir, eu encontrei aqui, na herbalife. Hoje eu sou uma pessoa completa.". Completa na ilusão.

terça-feira, maio 30, 2006

Olhos

Hoje um vizinho com o qual falei apenas duas vezes veio me pedir para acompanhá-lo amanhã num jantar de formatura de um curso. Disse-me que pediu à irmã e ela negou, pediu a um amigo e ele negou. Pediu a outros vizinhos e eles negaram. Ele não precisava ter me falado de todas essas negativas, eu já tinha visto em seus olhos que era importante para ele não ir sozinho. Mas ninguém se dignou a olhar para os seus olhos. Eu olhei, então eu vou.

sábado, maio 27, 2006

Decisão

A decisão tem uma face, um rosto? Tem si, eu a vi ontem. Não era a minha, mas a de outrem. Ela veio ao meu encontro vagarosamente. A decisão transformadora é lenta. Ela carece deste tempo para solidificar a sua firmeza. A decisão é também completamente interna. Eu vi isso enquanto olhava para ela, indiferente ao mundo. Ou melhor, indiferente ao mundo físico, mas intensamente imersa no seu mundo vivido. Era um olhar cego para fora e vivo para dentro. Por que olhar para si, ao decidir? Ora, para se sentir através do que vê. A decisão é emocional. No rosto daquela mulher eu pude ver que a sua vida estava sendo assistida. Como se assim ela pudesse sentir como retomá-la em suas mãos. Não decide quem não se escuta.

quarta-feira, maio 24, 2006

Menino

Durmo olhando para o menino que ainda sou. Sempre achei difícil me desgarrar do passado e, quando posso, tento resgatá-lo para o presente. É o medo da perda. Mas é pelo medo da perda que acabo me perdendo. É no presente, no espelho que devo me encontrar.

segunda-feira, maio 22, 2006

Espelho

Sou um espelho que não se vê, mas por meio do qual outros podem se ver.

Outros

Outros aparecem em cena e eu submerjo novamente no limbo. Por que agimos de modo tão egoísta? Os outros pela indiferença, eu por reclamar da indiferença.

Barco

Um barco que navega sozinho e se conserta sozinho, mesmo em alto-mar. Ele não precisa de uma direção, já que não carece de porto algum. Seu único destino é navegar. Vasculhar os mares que o mundo lhe oferece. Talvez ele os percorra todos, talvez não. Enfrentará tempestadas e aprenderá a suportá-las. É possível que venha a desejar desafiá-las. Sente melhor o seu casco quando a água bravia tenta cortá-lo ao meio. A sombra da destruição é o meio pelo qual ele ascende à vida. Passará por mares calmos e aprenderá também a suportá-los. Ali, quase sem vento, correrá o risco de se esquecer. A sombra da permanência é o meio pelo qual ele ascende ao esquecimento e à morte. Para sair daí só remando com a sua própria força. E assim navegará, sempre. Devo me satisfazer com esta imagem?

quarta-feira, maio 17, 2006

Fluxo

Pode-se viver uma vida inteira em alguns poucos instantes. É desumano. É humano. Pode-se passar uma vida inteira sem viver um instante sequer. É humano, é desumano.

terça-feira, maio 16, 2006

Certeza

Certezas são como represas que por mais bem reforçadas que estejam jamais poderão imepedir a força explosiva de águas incertas. Medos minam a mais bela das certezas. Tenho visto isto e sentido o seu efeito.

segunda-feira, maio 15, 2006

Presença

Não consigo me libertar dessa imagem que consome todos os meus pensamentos, todas as minhas sensações. Há uma outra presença em mim que não sou eu. Não se trata agora de algo que vi ou observei. É mais forte, é mais intenso, é mais real. Não posso dizer que a percebi, pois está além dos meus cinco sentidos, mas sim, eu a sinto. Está bem aqui dentro de mim.

domingo, maio 14, 2006

Surpreso

Uma imagem sem imagem. Não a via, para dizer a verdade, mas podia sentir seus dedos e seu olhar curioso sobre o que há de mais etéreo e verdadeiro sobre mim. Eu lhe respondia com sorrisos que ela também não podia ver, embora estivesse em posição vantajosa. Quando nos despedimos, fui embora ainda surpreso, sem encontrar uma razão para aquelas pupilas tão penetrantes. O que ela teria visto e como o teria visto? De qual ângulo me percebe? Senti-me como um quadro mais belo do que seria capaz de pintar.

quarta-feira, abril 26, 2006

Mary Jane

Sim, era uma Mary Jane embrutecida. Os traços não eram tão delicados, mas tinham a mesma forma. Era o tipo de mulher que trocaria o namorado de dois anos por uma paixão de fim de semana sem qualquer remorso ou sofrimento. Mulher de desejos e interesses, desumana e maligna. Percebi isso enquanto a via comendo impassível. Ainda assim, cativou os meus olhos com a sua lembrança externa de Mary Jane.

segunda-feira, abril 10, 2006

Nojo

Aquele nariz empinado só servia para exibir a sua frescura. A abrobinha era meticulosamente raspada, repelindo, em seguida, a sua casca. Olhos indignados, ofendidos. Como ela, uma princesa, ogra, para falar a verdade, poderia estar sendo submetida àquela refeição? Indignado fiquei eu.

quarta-feira, abril 05, 2006

Rostos

No meio daquela balburdia, entre rostos que não são vistos, saltaram diante de mim aqueles olhos ternos. Desta vez, estavam com uma moldura preta, mais grossa, mas, nem por isso, menos delicada. Foram breves segundos, mas suficientes para que o seu rosto se destacasse da multidão e eu pudesse mirar em teus olhos e ela nos meus.

sábado, abril 01, 2006

Passadas

Rápidas passadas, toda de preto, balzaquiana. Suprimia as baforadas do cansaço com um semi-sorriso. Seus óculos escuros me impediram de perceber onde seus olhos pousavam. A música no seu fone de ouvido era alta, pude ouvi-la, mas não identificá-la. Sempre rápida, decidida.