domingo, dezembro 16, 2007
Sem desculpas
Eu entendo perfeitamente a intenção louvável de um pai de querer educar os seus rebentos com o que há de melhor na nossa cultura ocidental, colocando-os em contato com obras clássicas desde a mais tenra infância. Contudo, essa intenção egoísta não está acima de modo algum da vontade pública de usufruir de um concerto com o silêncio absoluto da platéia. Veja bem, se você quer que o seu pimpolho escute e deguste música erudita, submeta-o ao enxoval musical no conforto do seu lar. Eu não tenho nada a ver com isso. É de uma imbecilidade sem tamanha esperar e de uma crueldade insuportável querer que uma criança com menos de 10 anos fique sentada numa sala escura completamente quieta, sem falar e se mexer. Se muitos adultos pseudo-cientes de si mesmos já não conseguem segurar a própria língua, o que não esperar de uma criança que ainda sequer é capaz de distinguir-se do mundo! E sinceramente eu não sei de onde sai tanto bebê assim, estavam lá em enxame. Não é fácil me irritar, mas o som gutural de hominídeos infantes num concerto tira-me do sério, me desconcerta, me desconcentra. Não, não foi por ser de graça, o público era o mesmo. Quando paguei para ouvir a nona do Beethoven, a mesma horda estava lá. Não há desculpa para a má educação de pais com boas intenções.
domingo, dezembro 09, 2007
Mãos
Alfredo um dia abordou a vizinha e, desde então, troca algumas palavras com ela sempre que se encontram no elevador. Encontros não raros, é verdade, haja vista a sua diligência intuitiva em perceber os horários dela. Agora ele escreve também, movido pelo mesmo encantamento que outrora despertara o interesse do remetente, do qual, aliás, não temos mais notícias. Alfredo tem manias estranhas, como a sua fixação por mãos. Uma vez ele me disse que era capaz de extrair todo o perfil psicológico de uma pessoa só de olhar para as mãos dela. Não duvido que ele realmente leve a sério essa idéia, embora eu seja incrédulo sobre os seus resultados. Mas isso é lá com ele. Ontem ele me mostrou um bilhete que escreveu para ela e o reproduzo aqui a título de curiosidade, como exemplo da sua mania.
Enquanto te ouço falar, é difícil às vezes não me deixar levar pela beleza das tuas mãos, elas me magnetizam de tal maneira que só com muito esforço junto as tuas palavras em uma frase com sentido. Fico perturbado. Teus dedos perfeitamente arredondados, delicadamente grossos, sem gordura, diria ternos e maternais, embora não tenha ainda entrelaçado a minha mão na tua, entram imponentes na minha imaginação, arrebatando-me emoções e sensações. Tenho a impressão de que me sentiria seguro e calmo ao apertá-las. Preciso dizer: não há outras mais belas na minha experiência lembrada e não digo isso como clichê de sedução, não, não mesmo. As mãos sempre tiveram sobre mim um efeito notável de encantamento, diria até que não raramente viso-as antes mesmo de encarar a face de uma mulher, desinteressando-me dela, a despeito de tudo o mais, se forem grosseiras ou vulgares. Mas as tuas mãos se casam perfeitamente com tudo o que vejo em você. São francas, firmes, clássicas, sem excesso nas pinturas e no tamanho das unhas, que, aliás, estão sempre muito bem polidas. Não pretendo me delongar, só queria me explicar, caso algum dia tenha me estranhado por demorar demais na contemplação das tuas mãos. É consciente sim, mas nem por isso tenho o controle, é como se elas emitissem o canto das sereias e confesso estar muito longe da virtude de Odisseu. Sucumbo. Quando penso em você, lembro-me delas, sempre.
Enquanto te ouço falar, é difícil às vezes não me deixar levar pela beleza das tuas mãos, elas me magnetizam de tal maneira que só com muito esforço junto as tuas palavras em uma frase com sentido. Fico perturbado. Teus dedos perfeitamente arredondados, delicadamente grossos, sem gordura, diria ternos e maternais, embora não tenha ainda entrelaçado a minha mão na tua, entram imponentes na minha imaginação, arrebatando-me emoções e sensações. Tenho a impressão de que me sentiria seguro e calmo ao apertá-las. Preciso dizer: não há outras mais belas na minha experiência lembrada e não digo isso como clichê de sedução, não, não mesmo. As mãos sempre tiveram sobre mim um efeito notável de encantamento, diria até que não raramente viso-as antes mesmo de encarar a face de uma mulher, desinteressando-me dela, a despeito de tudo o mais, se forem grosseiras ou vulgares. Mas as tuas mãos se casam perfeitamente com tudo o que vejo em você. São francas, firmes, clássicas, sem excesso nas pinturas e no tamanho das unhas, que, aliás, estão sempre muito bem polidas. Não pretendo me delongar, só queria me explicar, caso algum dia tenha me estranhado por demorar demais na contemplação das tuas mãos. É consciente sim, mas nem por isso tenho o controle, é como se elas emitissem o canto das sereias e confesso estar muito longe da virtude de Odisseu. Sucumbo. Quando penso em você, lembro-me delas, sempre.
terça-feira, novembro 27, 2007
Belo Horizonte
Confesso que senti inveja da cidade que me abrigou por tanto tempo. Deu até um pingo de saudades. Veja.
E num dia desses, sentou no banco da frente, no mesmo ônibus costumeiro, uma mineira de BH. Fosse só mineira, não daria nada. Mas ela começou a falar com a amiga sentada ao seu lado de situações e lugares que me foram próximos. Falou do CMBH, da festa da Poeira, que uma vez ajudei a organizar, quando prestei serviço militar obrigatório e, por fim, citou a minha imponente e saudosa UFMG.
Mas da UFMG, para falar a verdade, eu me lembro e sinto saudades quase todos os dias ao entrar na biblioteca e nos banheiros da UFPR...Não vou nem comparar a diferença monumental dos acervos, pois seria grotesco da minha parte, mas puxa, há 8 anos atrás, quando iniciava o meu mestrado em filosofia na UFMG, eu podia fazer reservas e renovações dos livros pela internet, ao consultar o livro, tinha acesso a desenhos que mostravam, no ambiente da biblioteca, a localização da sua estante, aqui me ofertam apenas uma consulta online muito da porca e a renovação, que não pode ser feita pela internet, tem de ser presencial, se limita a uma única vez por não terem um sistema simples de reservas que impediria um aluno de renovar um livro indefinidamente. Não vou nem comentar que aqui só posso emprestar dois livros simultaneamente...
E num dia desses, sentou no banco da frente, no mesmo ônibus costumeiro, uma mineira de BH. Fosse só mineira, não daria nada. Mas ela começou a falar com a amiga sentada ao seu lado de situações e lugares que me foram próximos. Falou do CMBH, da festa da Poeira, que uma vez ajudei a organizar, quando prestei serviço militar obrigatório e, por fim, citou a minha imponente e saudosa UFMG.
Mas da UFMG, para falar a verdade, eu me lembro e sinto saudades quase todos os dias ao entrar na biblioteca e nos banheiros da UFPR...Não vou nem comparar a diferença monumental dos acervos, pois seria grotesco da minha parte, mas puxa, há 8 anos atrás, quando iniciava o meu mestrado em filosofia na UFMG, eu podia fazer reservas e renovações dos livros pela internet, ao consultar o livro, tinha acesso a desenhos que mostravam, no ambiente da biblioteca, a localização da sua estante, aqui me ofertam apenas uma consulta online muito da porca e a renovação, que não pode ser feita pela internet, tem de ser presencial, se limita a uma única vez por não terem um sistema simples de reservas que impediria um aluno de renovar um livro indefinidamente. Não vou nem comentar que aqui só posso emprestar dois livros simultaneamente...
sábado, novembro 24, 2007
A caminhada
A labuta obstinada e incessante recompensa sempre o autor, inventor ou artista, conferindo em suas mãos e mentes os artefatos e as capacidades necessárias para esculpir as suas obras com primor e perfeição. Sim, concordo com a F. que o caminho retilíneo, sem dúvidas, sem paradas, sem mudanças, é, ao menos no mundo euclidiano, o mais curto até a criação cristalina. Contudo, não podemos desprezar a importância do vadio que erra pelo mundo sem propósito, desbravando paisagens inauditas, ainda que apenas para colocar por onde passa uma placa grosseira que será depois meticulosamente pintada e polida pelo artista.
As coisas só não ficam bem, para o vadio, quando ele não aceita o seu destino e se compara com o artista, queixando-se da falta de retidão, incomodando-se com o seu andar em ziquezague, procurando retroativamente, em desespero, uma ligação entre as paisagens visitadas. Tudo em vão. O vadio só vai conseguir tirar proveito da sua situação, forjando olhos para o inusitado, com alegria e vivacidade, quando aceitar a sua existência paradoxal, quando perceber que o seu propósito é justamente não ter propósito algum, que ele não anda para chegar em algum lugar, mas simplesmente para andar, a fim de que sempre tenha alguém andando.
As coisas só não ficam bem, para o vadio, quando ele não aceita o seu destino e se compara com o artista, queixando-se da falta de retidão, incomodando-se com o seu andar em ziquezague, procurando retroativamente, em desespero, uma ligação entre as paisagens visitadas. Tudo em vão. O vadio só vai conseguir tirar proveito da sua situação, forjando olhos para o inusitado, com alegria e vivacidade, quando aceitar a sua existência paradoxal, quando perceber que o seu propósito é justamente não ter propósito algum, que ele não anda para chegar em algum lugar, mas simplesmente para andar, a fim de que sempre tenha alguém andando.
sexta-feira, novembro 23, 2007
Força
Até que ponto está em suas mãos não se deixar afetar pelo que acontece nas imediações, pelo que te fazem ou deixam de fazer? Uma sensação nos atropela. Reagimos emocionalmente ao mundo e às pessoas sem um ato de reflexão, o corpo se modifica em piloto automático, para o seu bem ou mal, como anjo ou algoz. No entanto, sinto emanar de mim uma força, uma vontade, uma capacidade de resistir a um pensamento penoso que se reitera segundo após segundo diante de uma emoção que tenta me sugar e engolfar em lágrimas. Uma luta caótica, um eu que se cinde, que se ataca e se defende. Agora ele apenas sorri, vitorioso, imaginando, antecipando, o vento fresco que buscará na aurora do dia junto com o azul que lhe cobrirá os olhos, e as pernas que libertará para correrem vadias o mundo que o encanta.
quarta-feira, novembro 14, 2007
Testa
A testa deveria ser um letreiro luminoso onde apareceria o nome do livro que a pessoa está lendo no momento. Poxa, a moça passou o percurso inteiro do ônibus com um sorriso na boca enquanto lia o seu livro. Provavelmente era de literatura, pois pude identificar que era um daquela coleção de bolso da Martin Claret, mas não consegui ver o título. Saco, agora vou ter de morrer na curiosidade. E o trecho deveria estar realmente muito bom, pois ela não desfez o seu sorriso em nenhum momento. Qual era o contexto, o que estava acontecendo, qual era a história? Ó céus!
sábado, novembro 10, 2007
Há males que vem para bem
Alguns vieram me dizer que Alfredo é um puto por ter roubado e rasgado a carta alheia, infligindo um sofrimento gratuito e injusto sobre o remetente. Como conheço todas as partes envolvidas nesta história e, posso assim, portar-me, no relato, como ser onisciente, saio em defesa de Alfredo em virtude do que vim a saber. Apesar da sua má intenção, Alfredo acabou fazendo bem ao remetente quando liquidou com a carta. Sejamos sinceros, eu conheço bem a vizinha de Alfredo e a verdade é que o melhor sentimento que ela conseguiu sentir pelo remetente foi a compaixão. Nada mais. Não vou dizer que nada menos também, pois eis aqui o nó da questão. Sabe quando a mulher, após achar graça e se envaidecer ao perceber olhares interessados, começa a se incomodar com a persistência desses mesmos olhares e, por fim, toma nojo deles se não sente nenhum interesse correspondente? Pois é nesse limiar que encontramos a vizinha de Alfredo. Vivida e experiente, já vinha percebendo a comoção que a sua presença provocava no remetente, mas não levou muito a sério, imaginando que a sua frieza lhe mataria mais cedo ou mais tarde a esperança. Para o seu infortúnio, o delírio parece ser apanágio dos apaixonados e mesmo diante de um comportamento que qualquer um veria como irritação ou rejeição, o remetente interpretava como desatenção, timidez ou mesmo um jogo de sedução, que, certamente, só na sua cabeça fazia algum sentido. Um coitado, falemos a verdade, mas nem por isso incapaz de despertar o desprezo crescente da vizinha. Eis então que Alfredo salva o remetente de cair sob a mira do ódio ao rasgar a sua carta patética, pois era o estopim que faltava para ela se explodir em uma rejeição definitiva, em um nojo sem volta.
Vários dias se passaram, reinando entre a vizinha e o remetente o mais profundo silêncio. Hoje a angústia do remetente não é mais a da espera e sim a do arrependimento, pois já não está mais febril como antes. Mal sabe ele que desta vergonha está livre graças ao puto do Alfredo.
Vários dias se passaram, reinando entre a vizinha e o remetente o mais profundo silêncio. Hoje a angústia do remetente não é mais a da espera e sim a do arrependimento, pois já não está mais febril como antes. Mal sabe ele que desta vergonha está livre graças ao puto do Alfredo.
Introversão
Eis aqui um bom texto sobre o que é a introversão e como introvertidos se comportam. Tenho de concordar com o autor que a maior dificuldade do introvertido é se fazer entender para um extrovertido, explicar para ele que precisamos de momentos de solidão após uma interação social, que não desejamos estar na companhia de outros seres humanos o tempo inteiro e que isso não é sinônimo de gostar menos ou de frieza e muito menos de infelicidade ou tristeza. Já cansei de ver extrovertidos me olharem com aquela cara de compaixão depois de tomarem ciência dos poucos amigos que possuo ou dos longos tempos que passo sozinho na minha agradável companhia. O extrovertido simplesmente projeta sobre o introvertido o seu sofrimento ou angústia de quando está só, de quando o seu celular fica sem tocar ou receber mensagens por uma hora, levando-o quase ao pânico. A ele só me resta dizer que não tenho esse tipo de sofrimento e, por isso, sua compaixão é completamente sem sentido. No final, sou eu quem acabo ficando com pena do extrovertido pela sua falta de capacidade de se colocar no lugar do outro. O extrovertido precisa entender que o introvertido está bem quando procura a reclusão. Ou melhor, ele procura a reclusão justamente para ficar bem e sente-se feliz ao usufruí-la.
O texto também distingue apropriadamente a introversão da timidez e da misantropia. Essas características não andam necessariamente juntas em uma pessoa. Indivíduos introvertidos podem fazer discursos para grandes públicos sem um cisco de nervosismo ou apreensão. Mas certamente procurarão a reclusão após a fala. No meu caso, além de introvertido, também sou tímido, mas essa conjunção de características na minha pessoa é acidental. E não vejo em mim nada que possa me caracterizar como anti-social. Muito pelo contrário, minha calma e paciência fazem com que o meu trato com os outros, mesmo desconhecidos, seja, em princípio, bem amigável. Esses dias mesmo passei a cumprimentar o vigia de um restaurante que fica no meu caminho de retorno para casa. Eu sempre passava ali e o via e ele a mim também, por que não saudá-lo, na sua sim solidão obrigatória, labutada, talvez sofrida, com um "boa noite" ou "tudo bem"?. Sociabilidade não tem nada a ver com falar pelos cotovelos. Conheço, aliás, pessoas extrovertidas que são exageradamente irascíveis, que se deixam afetar visivelmente por qualquer contrariedade e, portanto, são muito mais anti-sociais do que eu.
Lembro quando falei pela primeira vez ao meu irmão, então com os seus 15 ou 16 anos, que eu precisava ficar só depois de passar um bom tempo mesmo com as pessoas que eu mais gostava, os familiares, os amigos ou a namorada. Ele reagiu com espanto, interpretando o meu comportamento como indício de que gostava menos dos meus familiares que eles de mim, por exemplo. Não é nada disso. Se posso colocar a matéria de uma forma clara, é essa: depois de um certo tempo interagindo com outras pessoas, sinto saudades colossais de mim, de falar comigo, de pensar comigo e, neste momento, a reclusão se torna um imperativo, uma necessidade da qual não posso, sem sofrimento, me furtar. Por sorte, o meu irmão acabou me entendendo. Infelizmente, não é sempre assim.
O texto também distingue apropriadamente a introversão da timidez e da misantropia. Essas características não andam necessariamente juntas em uma pessoa. Indivíduos introvertidos podem fazer discursos para grandes públicos sem um cisco de nervosismo ou apreensão. Mas certamente procurarão a reclusão após a fala. No meu caso, além de introvertido, também sou tímido, mas essa conjunção de características na minha pessoa é acidental. E não vejo em mim nada que possa me caracterizar como anti-social. Muito pelo contrário, minha calma e paciência fazem com que o meu trato com os outros, mesmo desconhecidos, seja, em princípio, bem amigável. Esses dias mesmo passei a cumprimentar o vigia de um restaurante que fica no meu caminho de retorno para casa. Eu sempre passava ali e o via e ele a mim também, por que não saudá-lo, na sua sim solidão obrigatória, labutada, talvez sofrida, com um "boa noite" ou "tudo bem"?. Sociabilidade não tem nada a ver com falar pelos cotovelos. Conheço, aliás, pessoas extrovertidas que são exageradamente irascíveis, que se deixam afetar visivelmente por qualquer contrariedade e, portanto, são muito mais anti-sociais do que eu.
Lembro quando falei pela primeira vez ao meu irmão, então com os seus 15 ou 16 anos, que eu precisava ficar só depois de passar um bom tempo mesmo com as pessoas que eu mais gostava, os familiares, os amigos ou a namorada. Ele reagiu com espanto, interpretando o meu comportamento como indício de que gostava menos dos meus familiares que eles de mim, por exemplo. Não é nada disso. Se posso colocar a matéria de uma forma clara, é essa: depois de um certo tempo interagindo com outras pessoas, sinto saudades colossais de mim, de falar comigo, de pensar comigo e, neste momento, a reclusão se torna um imperativo, uma necessidade da qual não posso, sem sofrimento, me furtar. Por sorte, o meu irmão acabou me entendendo. Infelizmente, não é sempre assim.
sexta-feira, novembro 02, 2007
Espera
Carta que Alfredo roubou da vizinha, antes que ela lhe pusesse as mãos. Ele ainda não sabe se vai entregá-la, é o destino de duas vidas em sua mãos. No entanto, tudo indica que o desenrolar da história já tem um destino previsível. Ele entregar ou não a carta terá apenas o efeito de antecipar ou retardar a espera angustiada do outro, o remetente. Mas quem disse que Alfredo não aprecia um pouco de sadismo?
Fico me perguntando se deveria me calar, aceitar a percepção que se me
apresenta como evidente, fazendo com que o tempo encubra com montes de
areia o sentimento que hoje é latente, sentimento solitário, sem
par. Ganho ou perco ao falar? Não sei, realmente não sei. Sei apenas
que, ao falar, cristalizo a verdade, mato a esperança que tece
ilusões. Não é nada elegante o que vim aqui fazer, sim, eu sei, e já
imagino você franzindo a testa achando isso tudo um grande absurdo. E
não deixa mesmo de ser. Mas acaso há alguma retidão no que a gente
sente? Na verdade, até tem, posto que nenhum sentimento nasce do
nada, ele tem uma história, uma gênese. Se o torna racional, eu não
sei, mas é certo que faz dele um pedacinho de si, para o qual você
olha e se reconhece. Quando a vi pela primeira vez, voltei para casa
com o gosto da admiração na boca. Mas sem comoção, apenas deslumbre,
afinal, ainda estávamos deslizando sobre a superfície das
aparências. Mas calhou de nos vermos mais e mais vezes, muitas vezes e
nesse vaivém pude começar a conhecer os detalhes, a ver um pouco mais
a fundo, pincelar seus meandros. Aos poucos, a admiração foi ganhando
um tom emocional e quando eu me dei conta do que se passava comigo, já
não era mais possível olhar para as tuas mãos de mulher e não imaginar
as minhas a apertá-las, ver teus lábios e não desejar beijá-los,
acordar pela manhã e não me perguntar pelo seu bem-estar, ouvi-la
falar e não me deixar levar pela musicalidade do seu timbre.
Não me tomes por exagerado, não dei nenhum nome
para o sentimento aqui declarado, nem pretendo pintá-lo com mais cores
do que possui. Ele ainda é fetal, germinal e antecipo o seu parto
justamente para lhe dar um fim antes que nasça por completo. Só venho
pedir pelo teu "não" claro e explícito, pois mesmo que eu já o tenha
intuído, a esperança não me deixa escutá-lo. Só o teu "não" tem a
capacidade de penetrar em minha alma com a verdade verdadeira,
derradeira. Ajude-me a abortar esse bem que só me faz mal!
Alfredo sorri, desponta em seu íntimo a curiosidade pela vizinha que até então ele só havia visto algumas vezes de relance. Em causa própria, rasga a carta. Sua moral é rasa, pragmática, o mero amor possível lhe alivia a consciência do delito cometido. Já sente, aliás, raiva e ciúmes do rival, o pobre e desavisado remetente, que, pelo andar da carruagem, amargará ainda mais com a sua espera angustiada.
Fico me perguntando se deveria me calar, aceitar a percepção que se me
apresenta como evidente, fazendo com que o tempo encubra com montes de
areia o sentimento que hoje é latente, sentimento solitário, sem
par. Ganho ou perco ao falar? Não sei, realmente não sei. Sei apenas
que, ao falar, cristalizo a verdade, mato a esperança que tece
ilusões. Não é nada elegante o que vim aqui fazer, sim, eu sei, e já
imagino você franzindo a testa achando isso tudo um grande absurdo. E
não deixa mesmo de ser. Mas acaso há alguma retidão no que a gente
sente? Na verdade, até tem, posto que nenhum sentimento nasce do
nada, ele tem uma história, uma gênese. Se o torna racional, eu não
sei, mas é certo que faz dele um pedacinho de si, para o qual você
olha e se reconhece. Quando a vi pela primeira vez, voltei para casa
com o gosto da admiração na boca. Mas sem comoção, apenas deslumbre,
afinal, ainda estávamos deslizando sobre a superfície das
aparências. Mas calhou de nos vermos mais e mais vezes, muitas vezes e
nesse vaivém pude começar a conhecer os detalhes, a ver um pouco mais
a fundo, pincelar seus meandros. Aos poucos, a admiração foi ganhando
um tom emocional e quando eu me dei conta do que se passava comigo, já
não era mais possível olhar para as tuas mãos de mulher e não imaginar
as minhas a apertá-las, ver teus lábios e não desejar beijá-los,
acordar pela manhã e não me perguntar pelo seu bem-estar, ouvi-la
falar e não me deixar levar pela musicalidade do seu timbre.
Não me tomes por exagerado, não dei nenhum nome
para o sentimento aqui declarado, nem pretendo pintá-lo com mais cores
do que possui. Ele ainda é fetal, germinal e antecipo o seu parto
justamente para lhe dar um fim antes que nasça por completo. Só venho
pedir pelo teu "não" claro e explícito, pois mesmo que eu já o tenha
intuído, a esperança não me deixa escutá-lo. Só o teu "não" tem a
capacidade de penetrar em minha alma com a verdade verdadeira,
derradeira. Ajude-me a abortar esse bem que só me faz mal!
Alfredo sorri, desponta em seu íntimo a curiosidade pela vizinha que até então ele só havia visto algumas vezes de relance. Em causa própria, rasga a carta. Sua moral é rasa, pragmática, o mero amor possível lhe alivia a consciência do delito cometido. Já sente, aliás, raiva e ciúmes do rival, o pobre e desavisado remetente, que, pelo andar da carruagem, amargará ainda mais com a sua espera angustiada.
domingo, outubro 28, 2007
O Passado
Ontem assisti no cinema "O Passado", dirigido por Hector Babenco e contando com a atuação do galã Gael Garcia, no personagem de Rimini. Não vou narrar a trama, só quero chamar a atenção para a imagem negativa do comportamento feminino em relacionamentos amorosos pintada no filme. Todas as mulheres têm um comportamento emocional exagerado, uma compulsão que beira à loucura, e o ápice desse delírio é magistralmente encarnado pela personagem Sofia que, após se separar aparentemente de modo amigável de Rimini, passa a perseguí-lo, por anos, em busca do amor perdido; mesmo uma "separação pode fazer parte de uma história de amor", diz ela na sessão inaugural de um clube criado por ela para mulheres abandonadas compartilharem suas diferentes obsessões pela volta do marido/amor perdido. Vera, uma outra namorada de Rimini, é obcecada pelos seus ciúmes e chega a ter uma ataque completamente desmedido quando o vê dando pouca atenção ao que ela falava para brincar ternamente com uma menina de 6 ou 7 anos. Depois que ele agradece um biscoito que a menina lhe traz, brincando um pouco com ela, Vera explode, "E agora, vai querer chupar a xoxota dela também?". A mulher mais "normal" do filme é uma ricaça que tem fetiche por instrutores de academia, mantendo com eles intercursos sexuais. Mas ela racionaliza seu comportamento, não se apega aos rapazes e, assim, podemos vê-la como uma mulher com uma luz de razão no meio de outras que só agem segundo seus furores emocionais. É verdade que qualquer mulher tem razão suficiente para sair revoltada da sessão. Mas a imagem do comportamento masculino também não é muito melhor. Rimini é um puto, um canalha, quase trai a esposa na frente do próprio filho, ainda bebê, num motel de quinta categoria. Mas Rimini é sobretudo um fraco, incapaz de falar sobre seus sentimentos, se percebe que o relacionamento está acabando, já procura outra mulher, não consegue ficar sozinho e quando é abandonado pela segunda esposa e se vê desamparado, só e impossibilitado juridicamente de ver o filho, sucumbe na mais absoluta e abjeta depressão. A fraqueza de Rimini fica ainda mais evidenciada no alívio constante que ele procura encontrar com o uso da coca.
Assim, se o filme tem alguma tese sobre a diferença de comportamento entre os gêneros nos relacionamentos, ela é a de que as mulheres são obsessivas, capazes de cometer as maiores loucuras para reaver o amor perdido, remoendo um passado que assim se estende pelo presente, e os homens são emocionalmente fracos, não se aguentam sozinhos, verdadeiros bundões. É claro que as duas imagens são, genericamente falando, falsas. Nem todas as mulheres são obsessivas, assim como nem todo homem é fraco. Na verdade, pode muito bem ser o caso que mulheres nem sejam mais obsessivas que os homens ou, mesmo que sejam, é apenas um traço estimulado pela nossa cultura. Não sei, pouco importa. Importa mesmo é o efeito catártico que essas duas imagens provocam na platéia, na angústia gerada pela visão da situação ao mesmo tempo humilhante e patética a que uma pessoa pode chegar, seja ela homem ou mulher, por causa de uma obsessão sem limites. De maneira semelhante, a fraqueza de alguém que não se aguenta sozinho nos remete à importância do constante encontro consigo mesmo, da necessidade de aprender a sofrer a própria dor sem muletas.
Assim, se o filme tem alguma tese sobre a diferença de comportamento entre os gêneros nos relacionamentos, ela é a de que as mulheres são obsessivas, capazes de cometer as maiores loucuras para reaver o amor perdido, remoendo um passado que assim se estende pelo presente, e os homens são emocionalmente fracos, não se aguentam sozinhos, verdadeiros bundões. É claro que as duas imagens são, genericamente falando, falsas. Nem todas as mulheres são obsessivas, assim como nem todo homem é fraco. Na verdade, pode muito bem ser o caso que mulheres nem sejam mais obsessivas que os homens ou, mesmo que sejam, é apenas um traço estimulado pela nossa cultura. Não sei, pouco importa. Importa mesmo é o efeito catártico que essas duas imagens provocam na platéia, na angústia gerada pela visão da situação ao mesmo tempo humilhante e patética a que uma pessoa pode chegar, seja ela homem ou mulher, por causa de uma obsessão sem limites. De maneira semelhante, a fraqueza de alguém que não se aguenta sozinho nos remete à importância do constante encontro consigo mesmo, da necessidade de aprender a sofrer a própria dor sem muletas.
Bolo de Mel

A receita me foi passada maternalmente, é a primeira não-de-caixinha que tento fazer e deu certo. Pudera também, mais simples impossível ;)
2 xícaras de trigo
1 xícara de açúcar mascavo
1 xícara de aveia
1 xícara de mel
1 xícara de água quente
1 ovo
1 colher (sopa) de fermento em pó.
Coloque em uma tigela o trigo, a aveia, o açúcar e o fermento. Despeje o mel e mexa. Despeje a água quente e mexa. Por último, coloque o ovo e mexa bem até ficar uma massa homogênea. Fica a critério adicionar nozes, castanhas etc. Optei pelas nozes e ficou muito bom.
domingo, outubro 21, 2007
Estar com
Abraço de irmão, abraço de irmã, abraço de mãe, todos em ciranda sorrindo, expelindo as saudades, meu olho em cada um deles, tudo abarcando, nada abarcando, só sentindo, mergulhado na emoção, até as fagulhas que antes incendiam, agora me são brisas, eu sei, eles sabem, mesmo sem saber, que o que mais importa é o simples, o mundano, o irreflexivo estar com.
domingo, outubro 14, 2007
A Concepção
Foi lá, mas vai aqui também:

A Concepção (2006), dirigido por José Eduardo Belmonte, narra a história de um grupo de jovens que, cansados de seus seres e de suas existências entediantes e repetitivas, funda um movimento chamando "concepcionista". O bordão do movimento é ser uma nova fraude a cada dia, inventar e viver uma nova personalidade que não dure mais que 24 horas. A chave para por em prática esse projeto é o hedonismo exagerado. Submergir em prazeres efêmeros, intensos e fugazes, valendo-se de drogas inclusive para ajudar a eliminar a prisão maior do ser: a memória. "Devemos eliminar a memória", diz um concepcionista. A busca incessante pelas múltiplas personalidades resulta da constatação de que "as pessoas estão doentes de si mesmas", há, em todo ser humano, uma angústia por estar preso ao seu ser. O personagem X (Matheus Nachtergaele), que serve de guru ao grupo de jovens e cuja identidade é desconhecida, lança a reflexão inaugural do movimento: "ser sempre o mesmo é como morrer aos poucos. Para viver, é preciso se libertar". O ego deve morrer em prol do prazer, da liberdade de si.
A execução do projeto concepcionista coloca uma dificuldade imediata de ordem prática: como garantir a subsistência se a cada dia você é uma personalidade diferente e não mantém qualquer consistência nas relações e nem persistência no trabalho? Problema que é resolvido com o conhecimento períto de X na falsificação de documentos e cartões de crédito. Assim o grupo pôde cair em orgias, consumir drogas, desligar-se do mundo, viver fantasias, fingir profissões sem se preocupar com o pão de amanhã.
O filme termina com um choque de realidade, quando a polícia faz uma batida no apartamento do grupo para apurar uma denúncia de tráfico de drogas. Os membros principais escapam a tempo, se separam e tentam ainda manter suas vidas concepcionistas, agora em situações mais precárias, sem a ajuda estelionatária do personagem X. Não há uma conclusão definitiva sobre o modo de vida concepcionista, o diretor parece mesmo oscilar no seu próprio julgamento. Os jovens peristem, apesar dos riscos e dificuldades, mesmo quando a prisão se apresenta como provável.
Em consonância com o mote da "morte ao ego", o filme explora o nú masculino o tempo inteiro. O pênis está sempre visível, solto e balouçante nas cenas de orgia, sobrepondo-se ao corpo feminino, que, embora apareça, não recebe grande destaque. Parece uma clara tentativa de chocar os padrões sociais que execram o nú masculino nas telas de cinema.
"A Concepção" deixa alguma reflexão interessante? O movimento tem um apelo fraco, afinal sua execução passa pela bandidagem, pela falsificação de documentos, riscos que poucas pessoas estarão dispostas a correr para "libertar" o seu eu. Há um certo irrealismo psicológico também na própria concepção do concepcionismo. A não ser que você elimine por completo a sua memória, jamais vai conseguir viver a farsa de dentro, como indistinta de si, ela sempre lhe será fingida, o que denuncia a percepção de um Eu constante, que não se altera, ou pelo menos que não se desintegra na velocidade diária requerida pelo concepcionista. O método hedônico de eliminar a memória, consumindo drogas compulsivamente, tem o efeito de deixar a pessoa tão desligada da realidade e tapada socialmente que é de se questionar se ainda faz sentido dizer que ela vive alguma personalidade de alguma maneira. Os próprios concepcionistas do filme não atingem esse grau absoluto de eliminação da memória. Isso fica vizível quando Liz, que fora para São Paulo passar um tempo aplicando suas farsas, resolve voltar à Brasília para se juntar novamente aos seus amigos concepcionistas, sentindo saudades de suas bagunças. Ora, saudades é algo que não cabe a um ser sem memória.
A despeito das falhas de argumento, "A Concepção" tem ao menos o mérito de colocar em destaque uma questão existencial que qualquer ser humano já deparou ou irá deparar um dia: a angústia e o desespero de ser quem é. Difícil imaginar uma pessoa que, em algum momento da sua vida, não tenha sentido um desespero enorme por se sentir preso à pessoa que é, às expectativas que são criadas em seu entorno, à impossibilidade de se mover em alternativas de vida. Esse tipo de angústia já havia sido identificado e explorado por Kierkegaard em "O Desespero Humano". No entanto, lá ele aponta a oscilação constante do Eu na sua relação consigo mesmo entre dois desesperos antagônicos, o primeiro é aquele já discutido e o segundo é justamente o seu oposto: a angústia de não ser quem é, o desespero em se ver forçado a se refugiar de si mesmo. Exemplo desse segundo tipo de desespero obtive pelo efeito catártico do próprio filme. Ao ver cenas de hedonismo exagerado e a tentativa de eliminar a memória, senti quase angustiado a necessidade de ser quem sou, de não perder as minhas memórias, de ser capaz de sentir saudades das pessoas que me foram caras, de não me afastar de mim mesmo num frenesi hedônico que não costure nenhum rumo a minha existência. Esse segundo tipo de desespero, tão comum quanto o primeiro, não é mencionado no filme, o que é até de se esperar, posto que ele enfraquece a tese concepcionista, ao nos fazer constatar que as pessoas não estão assim tão "doentes de si mesmas". Há sim uma oscilação existencial, em virtude das várias situações que vivemos, positivas e negativas, entre querer ser desesperadamente quem é e querer ser desesperadamente outro. Por fim, a própria solução hedônica para o primeiro tipo de angústia e desespero não parece de fato uma solução, mas uma fuga. Esquecer-se de si pela perda de memória e submergir no prazer fugaz e efêmero tem mais a cara de um encobrimento do problema que uma solução para ele. Põe-se o eu para dormir, assim a angústia não é vivenciada. Mas pode-se questionar se um efrentamento consciente do desespero não poderia resultar numa transformação positiva de si mesmo.

A Concepção (2006), dirigido por José Eduardo Belmonte, narra a história de um grupo de jovens que, cansados de seus seres e de suas existências entediantes e repetitivas, funda um movimento chamando "concepcionista". O bordão do movimento é ser uma nova fraude a cada dia, inventar e viver uma nova personalidade que não dure mais que 24 horas. A chave para por em prática esse projeto é o hedonismo exagerado. Submergir em prazeres efêmeros, intensos e fugazes, valendo-se de drogas inclusive para ajudar a eliminar a prisão maior do ser: a memória. "Devemos eliminar a memória", diz um concepcionista. A busca incessante pelas múltiplas personalidades resulta da constatação de que "as pessoas estão doentes de si mesmas", há, em todo ser humano, uma angústia por estar preso ao seu ser. O personagem X (Matheus Nachtergaele), que serve de guru ao grupo de jovens e cuja identidade é desconhecida, lança a reflexão inaugural do movimento: "ser sempre o mesmo é como morrer aos poucos. Para viver, é preciso se libertar". O ego deve morrer em prol do prazer, da liberdade de si.
A execução do projeto concepcionista coloca uma dificuldade imediata de ordem prática: como garantir a subsistência se a cada dia você é uma personalidade diferente e não mantém qualquer consistência nas relações e nem persistência no trabalho? Problema que é resolvido com o conhecimento períto de X na falsificação de documentos e cartões de crédito. Assim o grupo pôde cair em orgias, consumir drogas, desligar-se do mundo, viver fantasias, fingir profissões sem se preocupar com o pão de amanhã.
O filme termina com um choque de realidade, quando a polícia faz uma batida no apartamento do grupo para apurar uma denúncia de tráfico de drogas. Os membros principais escapam a tempo, se separam e tentam ainda manter suas vidas concepcionistas, agora em situações mais precárias, sem a ajuda estelionatária do personagem X. Não há uma conclusão definitiva sobre o modo de vida concepcionista, o diretor parece mesmo oscilar no seu próprio julgamento. Os jovens peristem, apesar dos riscos e dificuldades, mesmo quando a prisão se apresenta como provável.
Em consonância com o mote da "morte ao ego", o filme explora o nú masculino o tempo inteiro. O pênis está sempre visível, solto e balouçante nas cenas de orgia, sobrepondo-se ao corpo feminino, que, embora apareça, não recebe grande destaque. Parece uma clara tentativa de chocar os padrões sociais que execram o nú masculino nas telas de cinema.
"A Concepção" deixa alguma reflexão interessante? O movimento tem um apelo fraco, afinal sua execução passa pela bandidagem, pela falsificação de documentos, riscos que poucas pessoas estarão dispostas a correr para "libertar" o seu eu. Há um certo irrealismo psicológico também na própria concepção do concepcionismo. A não ser que você elimine por completo a sua memória, jamais vai conseguir viver a farsa de dentro, como indistinta de si, ela sempre lhe será fingida, o que denuncia a percepção de um Eu constante, que não se altera, ou pelo menos que não se desintegra na velocidade diária requerida pelo concepcionista. O método hedônico de eliminar a memória, consumindo drogas compulsivamente, tem o efeito de deixar a pessoa tão desligada da realidade e tapada socialmente que é de se questionar se ainda faz sentido dizer que ela vive alguma personalidade de alguma maneira. Os próprios concepcionistas do filme não atingem esse grau absoluto de eliminação da memória. Isso fica vizível quando Liz, que fora para São Paulo passar um tempo aplicando suas farsas, resolve voltar à Brasília para se juntar novamente aos seus amigos concepcionistas, sentindo saudades de suas bagunças. Ora, saudades é algo que não cabe a um ser sem memória.
A despeito das falhas de argumento, "A Concepção" tem ao menos o mérito de colocar em destaque uma questão existencial que qualquer ser humano já deparou ou irá deparar um dia: a angústia e o desespero de ser quem é. Difícil imaginar uma pessoa que, em algum momento da sua vida, não tenha sentido um desespero enorme por se sentir preso à pessoa que é, às expectativas que são criadas em seu entorno, à impossibilidade de se mover em alternativas de vida. Esse tipo de angústia já havia sido identificado e explorado por Kierkegaard em "O Desespero Humano". No entanto, lá ele aponta a oscilação constante do Eu na sua relação consigo mesmo entre dois desesperos antagônicos, o primeiro é aquele já discutido e o segundo é justamente o seu oposto: a angústia de não ser quem é, o desespero em se ver forçado a se refugiar de si mesmo. Exemplo desse segundo tipo de desespero obtive pelo efeito catártico do próprio filme. Ao ver cenas de hedonismo exagerado e a tentativa de eliminar a memória, senti quase angustiado a necessidade de ser quem sou, de não perder as minhas memórias, de ser capaz de sentir saudades das pessoas que me foram caras, de não me afastar de mim mesmo num frenesi hedônico que não costure nenhum rumo a minha existência. Esse segundo tipo de desespero, tão comum quanto o primeiro, não é mencionado no filme, o que é até de se esperar, posto que ele enfraquece a tese concepcionista, ao nos fazer constatar que as pessoas não estão assim tão "doentes de si mesmas". Há sim uma oscilação existencial, em virtude das várias situações que vivemos, positivas e negativas, entre querer ser desesperadamente quem é e querer ser desesperadamente outro. Por fim, a própria solução hedônica para o primeiro tipo de angústia e desespero não parece de fato uma solução, mas uma fuga. Esquecer-se de si pela perda de memória e submergir no prazer fugaz e efêmero tem mais a cara de um encobrimento do problema que uma solução para ele. Põe-se o eu para dormir, assim a angústia não é vivenciada. Mas pode-se questionar se um efrentamento consciente do desespero não poderia resultar numa transformação positiva de si mesmo.
terça-feira, outubro 09, 2007
Sunga
Então que eu preciso comprar umas...chego na loja e a vendedora me pergunta o que eu quero e eu digo, você tem...não sai, travado, mudo. A vendedora com aquela cara de "não estou entendendo". Eu as vejo logo adiante e aponto. "Ah, cuecas, qual tamanho?". Gente, não dá para falar essa palavra em público sem pudor. Eu não consigo. Ela é suja, é feia, simplesmente deselegante. Nunca notaram o óbvio? CU - ECA. Ficou mais claro assim com essa divisão silábica? Ainda não? ECA - CU, perceberam? Então que eu sempre me refiro a essa vestimenta íntima por "sunga", mesmo sabendo que sungas são aquelas coisas que usamos na praia.
segunda-feira, outubro 08, 2007
Irrealidade
Quando o sonho é assim suave e delicado, sedutor e envolvente, próximo do idealizado, leva um bom tempo para perceber a chuva ácida que cai sobre o corpo, criando bolhas na pele, feridas que ardem. O sonho é tão desejado que ficamos surdos para o coro de vozes que denunciam a sua irrealidade. No mundo ideal, a nossa capacidade de sonhar não é tão ilimitada.
quarta-feira, outubro 03, 2007
Onírico
Sonhei que tinha um blog perdido, não mais visitado, atualizado e cujo endereço eu havia me esquecido. Eu o havia criado logo quando cheguei em Curitiba, mas depois fui escrevendo mais em outros e o deixei de lado, até esquecê-lo por completo. O pior de tudo foi, depois de acordar, continuar com a forte impressão de que ele realmente existiu. Já tentei olhar em várias contas minhas e nada, nenhum rastro, nenhuma pista ou sinal, o que evidencia o meu engano. Mas a impressão forte, vívida, imponente, não se desfaz. É como se eu realmente me lembrasse dele. E agora eu não sei se estou realmente me lembrando ou se um sonho entrou no canal errado e se solidificou na minha mente em forma de lembrança. Para avacalhar geral, no sonho, me lembrei que havia escrito coisas importantes nesse blog, mas ao acordar, só a parte de que eram importantes ainda estavam na memória, o conteúdo dos escritos não veio para a vigília comigo. Agora estou aqui completamente tomado pela curiosidade de saber o que eu supostamente um dia escrevi...É a idade.
segunda-feira, outubro 01, 2007
Se ao menos...
Bilhete confessionário achado na rua:
Se ao menos eu pudesse distinguir a compaixão da paixão em teus olhos, eu teria um guia de ação. Mas até o seu abraço é nevoeiro, não deixa pistas no seu aperto incógnito. Invisto desarmado, quase nú no sentimento, ainda que mudo, e você se defende terna, porém distante, sem nunca ousar tatear a minha face. E, no entanto, você me procura. Doces olhos teus que pousavam em mim entre uma colherada e outra, eram de ternura ou admiração? Espero com a paciência de um Buda ou lanço-me na loucura de dizer o que com muito esforço tenho mantido calado no meu corpo? Não queria assustá-la, de modo algum, mas também não sei por quanto tempo conseguirei me domar.
Se ao menos eu pudesse distinguir a compaixão da paixão em teus olhos, eu teria um guia de ação. Mas até o seu abraço é nevoeiro, não deixa pistas no seu aperto incógnito. Invisto desarmado, quase nú no sentimento, ainda que mudo, e você se defende terna, porém distante, sem nunca ousar tatear a minha face. E, no entanto, você me procura. Doces olhos teus que pousavam em mim entre uma colherada e outra, eram de ternura ou admiração? Espero com a paciência de um Buda ou lanço-me na loucura de dizer o que com muito esforço tenho mantido calado no meu corpo? Não queria assustá-la, de modo algum, mas também não sei por quanto tempo conseguirei me domar.
sábado, setembro 29, 2007
Sentido
A dor e o sofrimento são praticamente ubíquas na vida de todo ser humano. Ao longo de nossas vidas, nos encontraremos com eles várias vezes. Contudo, as atitudes podem variar. Algumas pessoas preferem simplesmente ignorar que a dor e o sofrimento existem. Logram êxito nesse intento lançando mão da diversão e do entretenimento e, em casos mais extremados, das drogas, que também não deixam de ser entretenimento. Não há fuga melhor da dor que lançar-se no prazer. São pessoas que acabam tendo um sorriso constante para a vida, agitadas e inquietas. Eu as considero otimistas falsos, pois elas sorriem para a vida não por um motivo positivo, mas pela ausência de motivos negativos. Outras pessoas pecam de maneira oposta, preferem aprofundar a dor e o sofrimento presentes, tomando-os como a totalidade de seus mundos. Elas exageram a dor que possuem e, às vezes, reconhecem mesmo aquelas que não têm. A ordem do dia é reclamar. Conseguir sobreviver, para essas pessoas, é tão digno de mérito quanto os feitos de Hércules. A vida é sem sentido e absurda, pois, como nos lembra o mito de Sísifo, não há qualquer razão para vivermos imersos eternamente na repetição tediosa e dilacerante da dor. Esses são os pessimistas. Entre uma atitude e outra, penso que há espaço para uma posição que poderíamos chamar de "otimismo verdadeiro" ou ainda "otimismo pessimista". Ele é verdadeiro, pois engendra um motivo positivo para sorrir diante da vida, mas ele também é pessimista, pois não nega os motivos negativos, isto é, não ignora a dor e o sofrimento existentes. Óbvio que esse motivo positivo não pode ser o prazer presente, usado pelos otimistas falsos, pois ele é leve e efêmero demais para contrabalancear a ubiquidade do sofrimento. Um sujeito que se refugia o tempo inteiro no prazer reconhece automaticamente que esse mesmo prazer, ao cessar, ao se esgotar, não lhe deixa nada que o permita suportar a dor. Por isso mesmo a lógica da fuga incessante. Como, então, é possível o otimismo verdadeiro? Ora, se um motivo positivo para sorrir diante da vida não se encontra no prazer, no nível da sensação, ele deve estar no nível do sentido. Você precisa encontrar justamente aquilo que os pessimistas afirmam a vida não ter: um sentido. O sentido, se você o tem, é algo que lhe permite sorrir para a vida mesmo diante da dor, mesmo reconhecendo a dor. Ele lhe dá forças para enfrentá-la. Não precisa fugir. O único problema é que ele não se acha assim tão facilmente. Mas as possibilidades são inúmeras. Schopenhauer fala do contato com o absoluto por meio da intuição, Tolstoi, da experiência religiosa, o toque divino sobre o ser. Ambas têm em comum a trascendência, a idéia de que algo além do humano pudesse lhe dar um sentido, uma direção.
Eu sou mais modesto. Não nego a possibilidade de uma experiência religiosa ou de um contato intuitivo com o absoluto, apesar de considerá-los muito improváveis, mas acredito que há possibilidades mais mundanas para o sentido da vida e bem mais prováveis. Penso em especial na experiência do amor, que é, ao mesmo tempo, transcendente e imanente. O amor é completamente imanente, emana de nós mesmos, é humano, nasce da relação do eu com o outro, mas, ao mesmo tempo, transcende o eu em unidades maiores, ceifa o isolamento existencial, cria uma interseção onde só parecia haver silêncio, vazio ou incompreensão. É verdade que um amor talvez não lhe dê um sentido para toda a vida, mas ele lhe dá um sentido suficientemente forte para suportar o sofrimento mesmo quando cessa o prazer presente. Os amores particulares acabam e, com eles, a força do sentido que engendraram, mas o amor em si enquanto direção é um sentido perfeitamente mundano e realista para um otimista verdadeiro.
Eu sou um otimista verdadeiro com esporádicas e efêmeras recaídas pessimistas. Eu também não tenho nada contra o otimismo falso e me valho das suas estratégias vez ou outra. Só acho que a busca incessante pelo prazer efêmero entedia, além de pesar no bolso.
Eu sou mais modesto. Não nego a possibilidade de uma experiência religiosa ou de um contato intuitivo com o absoluto, apesar de considerá-los muito improváveis, mas acredito que há possibilidades mais mundanas para o sentido da vida e bem mais prováveis. Penso em especial na experiência do amor, que é, ao mesmo tempo, transcendente e imanente. O amor é completamente imanente, emana de nós mesmos, é humano, nasce da relação do eu com o outro, mas, ao mesmo tempo, transcende o eu em unidades maiores, ceifa o isolamento existencial, cria uma interseção onde só parecia haver silêncio, vazio ou incompreensão. É verdade que um amor talvez não lhe dê um sentido para toda a vida, mas ele lhe dá um sentido suficientemente forte para suportar o sofrimento mesmo quando cessa o prazer presente. Os amores particulares acabam e, com eles, a força do sentido que engendraram, mas o amor em si enquanto direção é um sentido perfeitamente mundano e realista para um otimista verdadeiro.
Eu sou um otimista verdadeiro com esporádicas e efêmeras recaídas pessimistas. Eu também não tenho nada contra o otimismo falso e me valho das suas estratégias vez ou outra. Só acho que a busca incessante pelo prazer efêmero entedia, além de pesar no bolso.
sexta-feira, setembro 28, 2007
Des-umanidade
domingo, setembro 23, 2007
30
10, 20, 30, idades que marcam, para nós que raramente nos tornamos centenários. Se vivêssemos 2000 mil anos, a passagem dos 9 para os 10 seria tão marcante quanto é atualmente a passagem de 23 para 24, por exemplo. Mas, enfim, na minha perspectiva decenária, lembro que ao fazer dez anos contava com a alegria de ter recebido um novo irmão, temporão. Deixei de ser o caçula, mas isso sinceramente não me incomodou. Ao completar 10 anos, estava mais concentrado nos meus planos de ser algum tipo de cientista, ainda não sabia que tipo, se é que nessa época eu tinha clareza dos tipos em que eles poderiam se dividir. Acho que não. Tinha apenas uma vaga imagem de um sujeito que faz invenções mirabolantes e era o que eu queria fazer. Foi nessa época que comecei a me interessar por ficção científica, inicialmente manifestada na minha seleção literária. Minha independência já era visível. Ia nas livrarias sozinho, sim, essa era a vantagem de passar a infância numa pequena cidade, e comprava os livros do meu desejo, sem qualquer intervenção materna ou paterna. Mas a melhor parte vinha depois. Eu caçava o endereço das editoras e enviava cartas pedindo catálogos dos seus livros. A Ediouro era a única que tinha um programa de vendas por reembolso postal e durante um tempo tive que me limitar a ela. Pelo menos ela tinha, na época, umas coleções até interessantes, dados os meus gostos. Lembro bem até hoje da coleção Enrola e Desenrola. Geralmente histórias de ficção científica em um formato pré-hipertexto. A cada duas páginas, você escolhia um desenrolar possível da história, entre algumas opções que lhe eram dadas, de modo que o mesmo livro acabava contento entre 15 e 20 desenrolos possíveis. Toda essa transação, pedir o catálogo, fazer o próprio pedido e, em seguida, ir buscar no correio o pacote quando recebia o aviso de chegada, era feito por mim mesmo sem nem que os meus pais às vezes soubessem. Recebia uma mesadinha, então não havia necessidade de pedir dinheiro para o pagamento. Com que alegria eu não ia ao correio pegar os meus livros! E assim os meus 10 anos foram marcados por essa busca frenética pela ficção, pelo imaginário de ser um cientista.
Os 20, posso dizer, vieram coroar um certo otimismo com a vida, brando é verdade, mas suficiente para ao menos solapar a acumulada depressão dos anos anteriores, nascida com a adolescência e intensificada até então. O contato com a filosofia, dos 16 aos 19, embora tenha consumido minha atenção, meu tempo e proporcionado intensas fruições intelectuais, acentuava também as minhas dúvidas. Minha relação com a filosofia sempre foi paradoxal, de amor e ódio. E o amor...o amor, que até então havia passado ao largo da minha vida, apenas como idealização, imaginação e desejo não realizado, desabrochou nessa passagem dos 19 para os 20. Descobri em mim a intempestividade, a loucura, a adorável sensação de seguir a desrazão em prol de uma emoção. Ter sido assim tocado pelo amor de uma maneira tão profunda numa época me que o meu desespero existencial era máximo teve o efeito de me abrir uma nova perspectiva diante da vida.
Até então, a realização profissional, o desejo de fazer alguma contribuição relevante para a filosofia me apareciam como as únicas finalidades mais profundas legítimas. Contudo, na primavera dos meus 20, percebi que o relacionamento com o outro tinha uma importância tão fundamental ou ainda maior que a realização profissional, que por ela me humanizava e me descobria enquanto ser e existência, percebia meus limites, defeitos e os ultrapassava. Desde então a busca pela vivência de um relacionamento mais profundo e significativo passou a fazer parte da minha agenda, do meu horizonte.
Hoje completo 30. Ou melhor, completei às 7:05 da manhã, segundo a minha certidão de nascimento. Mas como disse uma amiga esses dias, não dá para confiar nesses registros e um número assim redondo como o 5 levanta suspeitas. Concordo. E vou mais longe. Acho que o nascimento deveria ser o desabrochar da consciência, provavelmente ainda em estado fetal. Contudo, quem sou eu para criar dificuldades epistêmicas ainda mais fundas. Se já é difícil precisar a hora que você veio ao mundo enquanto corpo, destacando-se da mãe, quanto mais precisar o emergir da sua consciência. Enfim, enfim, os 30 chegaram e ainda não sei o que marcam. Talvez a consolidação das mudanças mais bruscas dos últimos anos. Mudança de cidade, de profissão. Meus compromissos burocráticos com a filosofia foram definitivamente saldados, com a defesa do doutorado esse ano e, ao menos por enquanto, não tenho maiores planos para ela que a diversão que me proporciona ao final do dia antes de dormir, junto com os livros de literatura. Estou feliz com as escolhas que fiz, por mais que, pelo lado financeiro, isso tenha atrasado um pouco os resultados que se espera de um burguesinho da classe média. Mas se tem algo que marca esses meus 30 é a perspectiva de não ter lá grandes perspectivas, de não tentar submeter e forçar todo o meu futuro
a um plano que tenho hoje, de saber aproveitar bem as possibilidades que tenho abertas agora para mim. Tenho sim algumas direções, alguns planos, mas que podem ser mudados conforme o vento que bater em minha porta. Não quero decidir apenas para ser consistente com o passado, não preciso olhar para trás e sentir uma linearidade. O sentido, se há algum, está na própria decisão presente, limitada que seja. E o amor...continua sendo fundamental, cada vez mais fundamental.
Os 20, posso dizer, vieram coroar um certo otimismo com a vida, brando é verdade, mas suficiente para ao menos solapar a acumulada depressão dos anos anteriores, nascida com a adolescência e intensificada até então. O contato com a filosofia, dos 16 aos 19, embora tenha consumido minha atenção, meu tempo e proporcionado intensas fruições intelectuais, acentuava também as minhas dúvidas. Minha relação com a filosofia sempre foi paradoxal, de amor e ódio. E o amor...o amor, que até então havia passado ao largo da minha vida, apenas como idealização, imaginação e desejo não realizado, desabrochou nessa passagem dos 19 para os 20. Descobri em mim a intempestividade, a loucura, a adorável sensação de seguir a desrazão em prol de uma emoção. Ter sido assim tocado pelo amor de uma maneira tão profunda numa época me que o meu desespero existencial era máximo teve o efeito de me abrir uma nova perspectiva diante da vida.
Até então, a realização profissional, o desejo de fazer alguma contribuição relevante para a filosofia me apareciam como as únicas finalidades mais profundas legítimas. Contudo, na primavera dos meus 20, percebi que o relacionamento com o outro tinha uma importância tão fundamental ou ainda maior que a realização profissional, que por ela me humanizava e me descobria enquanto ser e existência, percebia meus limites, defeitos e os ultrapassava. Desde então a busca pela vivência de um relacionamento mais profundo e significativo passou a fazer parte da minha agenda, do meu horizonte.
Hoje completo 30. Ou melhor, completei às 7:05 da manhã, segundo a minha certidão de nascimento. Mas como disse uma amiga esses dias, não dá para confiar nesses registros e um número assim redondo como o 5 levanta suspeitas. Concordo. E vou mais longe. Acho que o nascimento deveria ser o desabrochar da consciência, provavelmente ainda em estado fetal. Contudo, quem sou eu para criar dificuldades epistêmicas ainda mais fundas. Se já é difícil precisar a hora que você veio ao mundo enquanto corpo, destacando-se da mãe, quanto mais precisar o emergir da sua consciência. Enfim, enfim, os 30 chegaram e ainda não sei o que marcam. Talvez a consolidação das mudanças mais bruscas dos últimos anos. Mudança de cidade, de profissão. Meus compromissos burocráticos com a filosofia foram definitivamente saldados, com a defesa do doutorado esse ano e, ao menos por enquanto, não tenho maiores planos para ela que a diversão que me proporciona ao final do dia antes de dormir, junto com os livros de literatura. Estou feliz com as escolhas que fiz, por mais que, pelo lado financeiro, isso tenha atrasado um pouco os resultados que se espera de um burguesinho da classe média. Mas se tem algo que marca esses meus 30 é a perspectiva de não ter lá grandes perspectivas, de não tentar submeter e forçar todo o meu futuro
a um plano que tenho hoje, de saber aproveitar bem as possibilidades que tenho abertas agora para mim. Tenho sim algumas direções, alguns planos, mas que podem ser mudados conforme o vento que bater em minha porta. Não quero decidir apenas para ser consistente com o passado, não preciso olhar para trás e sentir uma linearidade. O sentido, se há algum, está na própria decisão presente, limitada que seja. E o amor...continua sendo fundamental, cada vez mais fundamental.
quinta-feira, setembro 20, 2007
Atividade
Nunca entendi muito bem as pessoas que me diziam não sentir prazer por nenhum tipo de atividade. "Nem bordado, ler romances?", perguntava eu. Recebia uns "não" tão decisivos que a minha compreensão ficava muda. Alguns diziam que, se gostavam de algo, era de não fazer nada. Eu também gosto de ócio. Quem não gosta? Mas essas mesmas pessoas reclamavam de tédio e angústia durante o seu ócio sofrido. Aí eu já não entendo mais nada. Tédio eu sinto quando ou estou fazendo algo que não gosto, ao qual estou obrigado, ou se o ócio se prolonga demasiadamente sem envolver nada criativo. No primeiro caso, quero que passe logo a atividade indesejada, no segundo, quero que uma atividade apareça logo para me ocupar. Causas bem diversas, mas ambas têm por efeito fazer com que a minha experiência tenha por conteúdo a própria passagem do tempo, a qual se torna, então, um martírio que eu padeço. Sinto o próprio tempo passar ao invés de passar através dele. A minha solução para isso é buscar atividades que me coloquem desafios e obstáculos, que tragam alguma porção de enigma, instigando, enfim, a minha curiosidade e que catalizem a minha atenção por completo. E o principal: que eu sinta algum prazer, alguma fruição em enfrentar as dificuldades dessa atividade. Quando encontro o par prazer e obstáculo cercando juntos uma atividade e me envolvo com ela, esqueço-me de mim, do tempo, do tédio e mesmo da angústia, que, aliás, muito raramente se apossa de mim. Simplesmente sumo, desapareço, entro em alfa, em comunhão com a atividade.
E a chuva caindo cada vez mais forte, derrubando meus olhos, que quase se fecham diante do computador. Pelo menos vem entrando um vento fresco. Mas antes que me esqueça do propósito inicial, não queria dizer que não entendo as pessoas que não buscam atividades para matar o seu tédio, não, não é por isso que não as entendo. O que não compreendo é a pura e simples ausência de prazer, de gosto, de querência. O que poderia ter atrofiado a sensibilidade de uma pessoa a ponto de ela não sentir prazer por nada?
E a chuva caindo cada vez mais forte, derrubando meus olhos, que quase se fecham diante do computador. Pelo menos vem entrando um vento fresco. Mas antes que me esqueça do propósito inicial, não queria dizer que não entendo as pessoas que não buscam atividades para matar o seu tédio, não, não é por isso que não as entendo. O que não compreendo é a pura e simples ausência de prazer, de gosto, de querência. O que poderia ter atrofiado a sensibilidade de uma pessoa a ponto de ela não sentir prazer por nada?
domingo, setembro 16, 2007
Sinaleiros
Eu realmente adoro essa cidade, suas qualidades superam em muito as de outras cidades que já habitei e justamente por lhe querer bem, noto seus defeitos com a esperança de que algum dia eles sejam podados ou atenuados. Então, eu gostaria de falar um pouco da disposição dos semáforos nas ruas de Curitiba. A situação é a seguinte. Imagine que você venha de São Paulo, Belo Horizonte, Brasília ou Rio de Janeiro, aporte em uma rua curitibana e vá caminhando pela sua calçada até a próxima esquina. Na sua frente, uma rua transversal que, na situação de pedestre, se apresenta como um obstáculo a ser ultrapassado, no caso, atravessado. Um cidadão das cidades supracitadas, de imediato, olharia para frente em busca de um sinal para pedestre. Primeira frustração. Eles praticamente não existem aqui. Objeto em extinção. Tudo bem, pensa o cidadão. E continua, posso extrair a informação de que necessito do semáforo (sinaleiro para os curitibanos) para os carros. Então ele vai olhar para a sua esquerda ou direita, conforme a esquina da quadra em que estiver, em busca do semáforo. Ele vai ver o semáforo, vai coçar a cabeça e soltar a sua indignação e incompreensão, como eu fiz logo que aqui cheguei: "como é que esses gênios da urbanização querem que eu descubra se posso atravessar ou não a rua se o semáforo está de costas para mim?". Sim, pasmem. O cidadão está exatamente na linha da faixa de pedestre. O semáforo, ao invés de estar bem no final da quadra, de modo que o pedestre pudesse vê-lo junto com os motoristas, não, está recuado, antes da faixa e, portanto, de costas para ele. Talvez os gênios da urbanização tenham pressuposto a correção moral do condutor curitibano de modo que qualquer pedestre pudesse inferir, com absoluta certeza e sem receios, o sinal vermelho ao ver os carros parados e o sinal verde ao ver os carros em movimento. Tenha a santa paciência!
quarta-feira, setembro 12, 2007
Diferenças II
- Sim, não sou mesmo como tu, sempre de cara feliz. Resplandeço minha dúvida no existir. No entanto, a mesma dúvida que me joga no chão também me eleva. Sou, por assim dizer, bipolar.
- Não esperava outra coisa de ti, meu caro, teu rosto sempre interrogado, louco. Não me espanta que não obtenhas com as mulheres o sucesso que eu obtenho com os homens. A minha crista de convicção seduz, a tua sombra de incerteza repele.
- Hoje estou mais ferino, não me pisarás como no outro dia. Teu sucesso com os homens não se deve tanto assim a ti, mas à tolice deles. Ausentes de vontade, encontraram em ti o guia de suas existências. Eu, ao contrário, não quero a companhia de tolos insensíveis ao pensar, mas sim daqueles que se sentem atraídos pela curiosidade, no seio da qual a dúvida se aloja.
- Tu se refugias em um elitismo que jamais poderá bater de frente com as legiões que trago debaixo dos meus braços.
- De frente jamais, minha tática é a da guerrilha, ataco pelas bordas. Talvez sim, talvez não, teus soldados aos poucos cairão atrás de outras ainda mais cegas que tu. O líder sempre está só entre os seus partidários.
- Tantos a me rodear e tens a coragem de dizer que estou sozinha?
- Tanta convicção para tão pouca percepção. Não vês a fraqueza do elo que os liga a você. Sugam a tua certeza até esgotá-la ou até depararem com outra mais cristalina, sedutora. Vão de porto em porto, ávidos pela mentira maior. Outra como ti a contará, cedo ou tarde. Que verdade já não foi traída?
- Não esperava outra coisa de ti, meu caro, teu rosto sempre interrogado, louco. Não me espanta que não obtenhas com as mulheres o sucesso que eu obtenho com os homens. A minha crista de convicção seduz, a tua sombra de incerteza repele.
- Hoje estou mais ferino, não me pisarás como no outro dia. Teu sucesso com os homens não se deve tanto assim a ti, mas à tolice deles. Ausentes de vontade, encontraram em ti o guia de suas existências. Eu, ao contrário, não quero a companhia de tolos insensíveis ao pensar, mas sim daqueles que se sentem atraídos pela curiosidade, no seio da qual a dúvida se aloja.
- Tu se refugias em um elitismo que jamais poderá bater de frente com as legiões que trago debaixo dos meus braços.
- De frente jamais, minha tática é a da guerrilha, ataco pelas bordas. Talvez sim, talvez não, teus soldados aos poucos cairão atrás de outras ainda mais cegas que tu. O líder sempre está só entre os seus partidários.
- Tantos a me rodear e tens a coragem de dizer que estou sozinha?
- Tanta convicção para tão pouca percepção. Não vês a fraqueza do elo que os liga a você. Sugam a tua certeza até esgotá-la ou até depararem com outra mais cristalina, sedutora. Vão de porto em porto, ávidos pela mentira maior. Outra como ti a contará, cedo ou tarde. Que verdade já não foi traída?
domingo, setembro 09, 2007
Enfadonho
Estudo psicológico mostra que se você repete a sua opinião várias vezes, em um grupo, as chances de que esta opinião seja percebida pelos outros membros como representativa do grupo são significativas. Ou seja, o enfadonho convence. Mas sinceramente eu prefiro um baixo desempenho no convencimento de manada e imaginar que a platéia que eu realmente espero ser sensível ao que digo seja suficientemente esperta e atenta para captar e absorver as minhas idéias de primeira e as assimile por reflexão e não por preguiça.
terça-feira, setembro 04, 2007
Inefável
O clichê do inefável acontece quando você desculpa a sua falta de palavras com o transbordar dos sentimentos. Não há apaixonado que não o tenha utilizado pelo menos uma vez na vida. Mas há também aqueles poucos afetados que usam o clichê para ludibriar, afirmar um excesso de sentimento que estão muito longe de sentir. Acho muito chinfrim o apaixonado que se vale desse clichê. Prefiro o apaixonado extasiado, que abre as porteiras da imaginação e deixa fluir seus sentimentos em metáforas. Boas ou más, floreadas ou não, bem ou mal escritas, é verdade que elas não transmitirão exatamente o que ele sente, não servirão de pintura realista do quadro que ele contempla em seu peito, mas serão capazes de causar no outro alguma reação, possivelmente o aguçamento da receptividade. A minha paixão nunca será a tua, nunca passará de mim para ti, mas a minha paixão pode despertar a tua.
quinta-feira, agosto 30, 2007
Diferenças
- Eu tenho fé, eu faço, eu arrisco.
- Eu tenho dúvida, paraliso-me, espero.
- Olha só o tamanho do meu EU, gigante, me imponho, grito.
- Escondo-me, falo baixo, sou corcunda.
- Transpiro a verdade, mesmo se não a tiver.
- Vomito a insegurança e sempre a tenho.
- Tu és um verme, tentas se infiltrar e corroer as pilastras da minha fortaleza.
- Teu peso me esmaga, não tens piedade, és implacável.
- A dúvida é um erro, sempre reclamona.
- Você acha?
- Tenho certeza.
- Eu não paro de pensar, percorro todos os caminhos sem sair do lugar.
- Eu percorro um só e chego lá, nunca paro, não preciso pensar, eu simplesmente vou.
- Lá onde?
- Lá, tu não sentes, não podes entender, não vês, é cego.
- Sou infeliz, sou casmurro, sou Bentinho.
- Sou alegre, sinto nas veias a verdade que me alimenta, sou forte e expressiva, sempre a passear, sou Capitu.
- És uma dissimulada, engana a todos com essa pele macia, mas tua carne por dentro é podre.
- Vives no rancor, na inveja, por lhe faltar o que tenho, de graça, sem correr atrás.
- Que tens, o que é? Conte-me!
- Eu tenho o que eu sou, o sentimento da verdade, da qual ela própria emana, Eu sou a Verdade.
- Sentimento...verdade...Eu não sei o que eu sou.
- Você não é!
- Talvez.
- Eu tenho dúvida, paraliso-me, espero.
- Olha só o tamanho do meu EU, gigante, me imponho, grito.
- Escondo-me, falo baixo, sou corcunda.
- Transpiro a verdade, mesmo se não a tiver.
- Vomito a insegurança e sempre a tenho.
- Tu és um verme, tentas se infiltrar e corroer as pilastras da minha fortaleza.
- Teu peso me esmaga, não tens piedade, és implacável.
- A dúvida é um erro, sempre reclamona.
- Você acha?
- Tenho certeza.
- Eu não paro de pensar, percorro todos os caminhos sem sair do lugar.
- Eu percorro um só e chego lá, nunca paro, não preciso pensar, eu simplesmente vou.
- Lá onde?
- Lá, tu não sentes, não podes entender, não vês, é cego.
- Sou infeliz, sou casmurro, sou Bentinho.
- Sou alegre, sinto nas veias a verdade que me alimenta, sou forte e expressiva, sempre a passear, sou Capitu.
- És uma dissimulada, engana a todos com essa pele macia, mas tua carne por dentro é podre.
- Vives no rancor, na inveja, por lhe faltar o que tenho, de graça, sem correr atrás.
- Que tens, o que é? Conte-me!
- Eu tenho o que eu sou, o sentimento da verdade, da qual ela própria emana, Eu sou a Verdade.
- Sentimento...verdade...Eu não sei o que eu sou.
- Você não é!
- Talvez.
segunda-feira, agosto 27, 2007
Baratas
Psiquiatra explica: "No caso da fobia de baratas, o interessante é que incide mais nas mulheres do que nos homens, na proporção de 8, 9 mulheres para cada homem". Concluo, então, que sou um homem raro. Ele narra: "Tive uma paciente com fobia de baratas que trabalhava com os pés em cima do cesto de papéis com medo de que uma barata subisse por suas pernas e revistava os ambientes à procura de orifícios por onde os insetos pudessem passar". Não cheguei ainda a esse ponto, mas houve uma época em que eu não me deitava para dormir sem verificar se havia alguma embaixo da cama e nos cantos do quarto. Hoje não mais, já que, desde que cheguei aqui, nenhuma resolveu aparecer em meu lar. E que não apareçam, viu, vocês não são bem-vindas!
sábado, agosto 25, 2007
Ego
Id. - Ego, Ego, Egoooooo!
Ego. - Pare de gritar, não sou surdo!
Id. - Quero fazer sexo com um pé, agora!
Ego. - Agora não dá.
Id. - Por que não dá? Quero e quero, já disse.
Ego. - Serve o teu pé?
Id. - Óbvio que não!
Ego. - Sem chances, então; no momento não há nenhum outro pé disponível, nenhum te desejando.
Id. - Não quero saber, se vire!
Ego. - Já disse, não há como.
Id. Pegue um aí à força.
Ego. - Há conseqüências...
Id. E daí? É você quem vai sofrê-las mesmo...
Ego. - E por que eu iria me prejudicar?
Id. Humm...tá vendo esse chicote aqui na minha mão esquerda? Com ele eu estalo a angústia na suas costas. Com esse outro, na direita, eu fagulho a frustração em você. Preciso dizer o que vou fazer?
Ego. - Não, mimado como é, não duvido.
Id. - Vamos, mova-se. O tempo está passando. Pé, pé, pé, quero um pé, agoraaaaaa!
(murros na porta, "Silêncio, Silêncio!", ouve-se lá de fora.)
Ego. - Ai, estou perdido!
(a porta se abre, Superego entra, irritado).
Supergo. - Não se pode mais dormir por aqui? Que baderna é essa, Ego?
Ego. - É o Id que não me deixa em paz, ele agora quer...
Supergo. - Não quero saber. A responsabilidade de velar o meu sono é tua. Nem isso você consegue fazer, nem isso! Um imprestável. Não quero ouvir mais um pio, meu sono é sagrado, você sabe. É a última vez que aviso.
(Superego sai, Id ri, Ego se sente pesado, culpado).
Ego. - Você acha graça, né?
Id. - Ainda nem comecei a me saciar. Se não tem pé, tem sadismo, hahahaha.
(Id chicoteia Ego com fervorosas chicotadas de angústia, contorcendo-se de prazer em risadas diabólicas. O Ego...bem, o Ego aguenta.).
Ego. - Pare de gritar, não sou surdo!
Id. - Quero fazer sexo com um pé, agora!
Ego. - Agora não dá.
Id. - Por que não dá? Quero e quero, já disse.
Ego. - Serve o teu pé?
Id. - Óbvio que não!
Ego. - Sem chances, então; no momento não há nenhum outro pé disponível, nenhum te desejando.
Id. - Não quero saber, se vire!
Ego. - Já disse, não há como.
Id. Pegue um aí à força.
Ego. - Há conseqüências...
Id. E daí? É você quem vai sofrê-las mesmo...
Ego. - E por que eu iria me prejudicar?
Id. Humm...tá vendo esse chicote aqui na minha mão esquerda? Com ele eu estalo a angústia na suas costas. Com esse outro, na direita, eu fagulho a frustração em você. Preciso dizer o que vou fazer?
Ego. - Não, mimado como é, não duvido.
Id. - Vamos, mova-se. O tempo está passando. Pé, pé, pé, quero um pé, agoraaaaaa!
(murros na porta, "Silêncio, Silêncio!", ouve-se lá de fora.)
Ego. - Ai, estou perdido!
(a porta se abre, Superego entra, irritado).
Supergo. - Não se pode mais dormir por aqui? Que baderna é essa, Ego?
Ego. - É o Id que não me deixa em paz, ele agora quer...
Supergo. - Não quero saber. A responsabilidade de velar o meu sono é tua. Nem isso você consegue fazer, nem isso! Um imprestável. Não quero ouvir mais um pio, meu sono é sagrado, você sabe. É a última vez que aviso.
(Superego sai, Id ri, Ego se sente pesado, culpado).
Ego. - Você acha graça, né?
Id. - Ainda nem comecei a me saciar. Se não tem pé, tem sadismo, hahahaha.
(Id chicoteia Ego com fervorosas chicotadas de angústia, contorcendo-se de prazer em risadas diabólicas. O Ego...bem, o Ego aguenta.).
sexta-feira, agosto 24, 2007
Paz
Paz insonora, entrando devagar, aos poucos, na morada do ser. Vá entrando, amiga, sente-se do meu lado, não se acanhe, passei um café pra nóis tomá com pão de queijo quentin. Desta vez você pousa aqui, não aceito negativas. Temos muito o que NÃO nos falar, olhares a trocar, sorrisos a dar. Para falar a verdade, uma noite só é pouca, quero-a comigo no eterno, dormindo ao meu lado. Sou leve, uma pluma, quando acordo com a minha mão sobre tua. Ah, querida, contigo presente, meu encontro comigo mesmo é sempre sereno. Vamos passear, vamos errar, quero que você me leve para conhecer o mundo. A porta está aberta, vamos!
segunda-feira, agosto 20, 2007
Arrogância
Dou de ombros para o seu achar-me louco. Isso só mostra que a sua capacidade de compreender é mais limitada que a minha capacidade de ser. Nunca acreditei na existência da loucura. Eu acredito em deficiências e distúrbios mentais que podem ser remontados a deficiências cerebrais. Loucura em cérebro são? Conte outra piada, use outro subterfúgio para escamotear a sua ignorância. Ah, você não quer me compreender. Oh, mas eu também não faço questão de ser compreendido por você. Não mesmo, eu ficaria completamente disforme nessas caixas mal feitas que você usa para apreender o ser do ente. Quer que eu lhe traga um espelho? Venha cá, veja-se. Passaste a vida numa lama de conceitos e crenças, sem nunca lhes dispensar nenhuma atenção organizadora, nenhum esforço higiênico para eliminar os excrementos herdados e amontoados no seu habitat. Teus pais rezavam e você gritava "amém!" mecanicamente, condicionada; até um robô mais moderninho, com fuzzy logic, entende?, seria capaz de emular um livre-arbítrio mais decente. Tua linguagem é um caos, tua rede de conceitos é vazada, não pega nem robalo, quanto mais a fineza do meu ser. Veja bem, veja bem. Deixe-me lhe explicar uma coisinha, básica até. A compreensão, a interpretação, o entendimento, a hermenêutica são completamente dependentes da arte de distinguir. Isso mesmo, a compreensão é um ofício artesanal, demanda um olhar atento e fino, uma disposição sobrehumana para rever cada grão de areia que lhe passou nas mãos, procurando erros, reclassificando peças, enfim, ela demanda um esforço e uma dedicação que só uma mente com excesso de vontade é capaz de levar adiante. Definitivamente, não. Não é com essa lama que você usa para construir castelos infantis que você vai compreender um ser humano, não mesmo. Por favor, não tente me tocar com a sua apreensão.
E ela sabiamente partiu, ao intuir, bem de longe, sem tocá-lo, o rancor do seu esperneio patético, deixando-o só, na companhia do seu amor-próprio.
E ela sabiamente partiu, ao intuir, bem de longe, sem tocá-lo, o rancor do seu esperneio patético, deixando-o só, na companhia do seu amor-próprio.
sexta-feira, agosto 17, 2007
Contradições
Sobre a mesa jaz a garrafa de vinho barato, que ele, despreocupado, bebe no gargalo. No quarto, uma única e fraca luz, que lhe exige esforço durante a leitura. Mas agora ele não lê. Está entediado, está sufocado com as contradições humanas. Ele sabe que as tem também, aos montes, mas pensa que as dele são mais compreensíveis ou, diversamente, são tão profundas que nem faria sentido lhe apontar na cara a tensão. Ele bebe rápido, quer se embriagar. Quer esquecer, quer transformar sua dor em raiva, contradizendo sua fala, seu discurso, pois sim, ontem ele acusava, diante da amiga, a covardia hodierna sentimental, os exércitos humanos que se agarram ao próprio ego, ao EU, para não sentir. Deixam de amar para não sofrer. "Medrosos!", exasperava-se ele com a amiga. E agora ele bebe para anestesiar a sua própria dor. Medo? Nem tanto, mas não quer enfrentá-la de frente, sente-se fraco para suportá-la, para vivê-la plenamente. Então ele bebe, só, na escuridão do seu quarto.
segunda-feira, agosto 13, 2007
Angústia
No dia em que senti, pela primeira vez, angústia real, sufocante, paralisante, não tive vontade de morrer, mas medo de morrer. Tive medo que o meu ateísmo se revelasse falso diante da morte. O ateu não difere em nada do cristão. Ambos são movidos pela fé, apenas que são opostas. Desejei, então, desesperadamente viver. Na finitude, a angústia é suportável.
sábado, agosto 11, 2007
Sósias
Vai aqui um relato real, um espanto. Pessoas que me conhecem apenas por foto me vêm em lugares em que não estive. Já não bastava o professor de grafos que todos os alunos do curso dizem ser eu, agora aparece uma multidão de sósias espalhada pela cidade. Em BH, eu também tinha um colega fisicamente gêmeo. Sou comum. Ponto. Sorte a minha nunca ter atrelado a minha identidade, se é que tenho uma, aos meus atributos físicos. Mas quer saber de uma coisa? O fato de "eu" estar espalhado pela Curitiba, entranhado nas suas ruas, é só mais uma confirmação do meu pertencimento ao novo lar que adotei. Já antes de vir, aqui estava. E nenhum deles tem o meu nome E é sinistro, ao mesmo tempo, e isso é o que importa ;).
sexta-feira, agosto 10, 2007
Magia
Estava andando pela rua, quando vi o menino do balão azul, ele tinha a pele manchada de sol, seca, cabelos loiros e escurecidos, caminhava olhando reto, sem expressão, como uma criança que quase nunca pôde se deixar levar pelo brincar, parecia carregar o balão por obrigação e não por diversão. Quando nos cruzamos, seu balão começou a subir e ele também, segurando sem esforço na corda, leve, planando. Foi quando o vi gargalhar e eu sorri, admirado com aquela mágica gravitacional. E ele foi subindo, subindo, suas gargalhadas cada vez mais inaudíveis, até que ele sumiu por trás de uma nuvem rosada em forma de elefante. Continuei andando com aquela imaginem na mente por alguns minutos, fazendo o meu caminho costumeiro. Observava as mesmas árvores e as mesmas casas amarelas de sempre, pois sim, em uma mesma quadra, os moradores engendraram uma admiração conjunta e pintaram suas moradas com o ouro da bandeira nacional. Passei por ali pensando nos ipês amarelos. Lembrei que na escola eu pintava os olhos humanos de amarelo, eu sempre quis ter olhos em um tom amarelo esbranquiçado, olhos que refletissem quase por completo, para servir melhor de espelho ao outro. Então cheguei em uma esquina e havia um sinal para pedestre, vermelho. Coloquei as mãos no bolsos e girei o corpo, olhando inclinado para cima, procurando o menino do balão azul. Vi dois falcões cruzando o céu e um deles segurava uma corda no bico. Ao olhar novamente para frente, franzi o rosto, tentando compreender o que se apresentava a minha frente. Parecia ser o Alfredo. Mas era o Alfredo! Mas como poderia ser ele? Ele estava no meio de duas mulheres ruivas e de mãos dadas a ambas. Pasmem. Ele me viu, mas era como se não tivesse me visto. Viu um rosto apenas, não o seu amigo de infância. O sinal abriu e ele começou a caminhar com as sua ruivas. Ele apertava a mão de uma, depois a de outra, cheirava o cabelo de uma, inclinava o rosto para se apoiar no ombro da outra e assim vinha, faceiro. Dei meus passos também, em sua direção, sempre tentando encontrar seus olhos, sua alma. Mas ele estava sintonizado em outra estação, estação do fogo. Passou por mim e foi-se. Quando terminei de atravessar a rua, voltei-me para trás para observá-los. Uma das ruivas era magrela, esquia, bem mais alta que Alfredo, mesmo se estivesse sem o salto alto, que usava com classe. A outra tinha ares de adolescente, mais carnuda, coxas bem brancas, exibidas pela sua saia rodada curta, quadril largo, andava rebolando, esbarrando em Alfredo e chamando a atenção dos homens que lhe cruzavam o caminho. Segui em frente, andei por mais quinze minutos até chegar em meu destino, o parque da grama estrelada. Sim, a grama do parque possui desenhos de estrelas em relevo. Eles deixam a grama crescer em alguns pontos e depois podam no formato estrelar. Gosto de uma em especial. Ela fica quase no topo de uma pequena elevação e suas pontas são levemente avermelhadas. Não sei se plantaram ali um tipo especial de grama ou se o sol que bate forte naquele ponto a queimou e deu aquele aspecto à estrela. Mas é ali que me sento, ao lado da minha Estrela da Tarde, onde posso ver o sol se pôr entre os prédios da cidade. Vi mais nuvens rosadas de elefante. Hoje seria mais belo que o habitual, pensei. Ainda faltava uma hora para o sol cruzar a linha do horizonte. Resolvi me deitar um pouco para descansar, usei a ponta da estrela como travesseiro. Estava gostoso assim, os fios de grama se moviam em um vai-vem carinhoso, alisando a minha nuca. Fechei os meus olhos, sentindo o calor do sol queimando meu rosto rosado por completo. Algo começou a tocar a mina mão, senti uma pressão leve seguindo suavemente as minhas linhas da vida. A textura era um pouco diferente da pele humana, mais macia e aveludada. Morno. Abri os olhos e não vi nada, embora continuasse sentindo o contato. Logo percebi que era a Venusiana que estava ali do meu lado, invisível na sua presença. Viera assistir o pôr do sol comigo. Voltei à escuridão para melhor conversar com ela, usando a linguagem das mãos, do toque. A Venusiana sempre entendeu a minha necessidade, e acredito que ela também a tenha, de conversar através do silêncio, de recusar o imperativo da palavra, de explorar a linguagem do corpo, do contexto, da situação; há muito o que falar pela alteridade. Uma vez ela me disse que as palavras são como caixas onde guardamos as coisas para esquecê-las. E é verdade. O substantivo concreto se desmancha na mente sob a forma de conceito. Chega um momento em que você fala "cadeira" e já não tem mais nenhuma cadeira particular em mente. Esqueceu-se dela ou delas. Triste. Então, pelas mãos, abrimos os nossos corpos e a intimidade pôde se compreender pelo toque irregular e ilógico, toque que ia fundo sem a casca da forma. Assim ligados e conectados presenciamos o pôr do sol mais sublime de nossas vidas. A bola celeste e todo o universo se transformando diante de mim pela magia humana da significação.
quarta-feira, agosto 08, 2007
Pirueta
Para que te olhar, se posso te ouvir? Para que te ouvir, se posso te cheirar? Para que te cheirar, se posso te lamber? Para que te lamber, se posso te tocar? Para que te tocar, se posso pensar em você? Ah não, sem essa. Pensar é distante, é egoísta, é masturbar-me na solidão com o que roubei de ti, é me fechar aqui dentro e sonhar com um quadro teu abstrato, simbólico, é me admirar no vazio ilusório. Nada disso, não, não e não. Quero você escorregando na minha percepção, balançando no meu paladar, dando piruetas no meu olhar. Assim eu te encontro, assim a gente se encontra.
sexta-feira, agosto 03, 2007
Locomotiva
Enquanto dormia, foi lançado na locomotiva do tempo. Ela foi levando-o velozmente para bem longe do que ele era. Via, pela janela, se afastar o cenário do seu presente, as paisagens onde ele tinha se acostumado a andar, a deitar à noite sobre a relva para ver as estrelas. Já não sentia mais as cócegas das formigas que subiam em suas pernas e se entrelaçavam em seus pelos. Olhou para elas e viu-as límpidas, brancas, sem marcas de picadas, como se algo as tivesse apagado. Olhou fixo, pela última vez, enquanto ainda era possível, para a casa onde, até então, havia morado. Lembrou-se do seu primeiro tombo de bicicleta e sentiu leve, já bem fraca, a ardência do joelho ralado. Tudo ia se apagando enquanto a locomotiva seguida o seu caminho, indiferente a ele, sem lhe dar qualquer chance de reação. Na verdade, não havia um caminho, ela apenas ia, se afastava, sem prestar contas, sem anunciar destinos, sem padecer pelo que causava aos outros, fosse alegria ou tristeza. A locomotiva do tempo é completamente impessoal. E ele estava ali sentado no banco tentando segurar, com todas as suas forças, tudo o que ele era, tudo o que ele foi. Quando mais se esforçava para continuar sendo, menos ele era, mais deixava de ser, mais se perdia em lembranças que se apagavam, em imagens que criava como se algum dia elas tivessem lhe pertencido. Via, aos poucos, meio confuso, partes de si ficando para trás e começou a sentir um medo queimando a boca do estômago, uma angústia que lhe dava um nó na garganta. Pensou na sua extinção, na sua ausência completa e isso lhe pareceu aterrador. Mas depois percebeu que, por mais que se mutilasse, por mais que seus fragmentos se dispersassem pelo cosmos, ele ainda estava ali, assistindo e padecendo o horror deste acontecimento. Ele estaria consigo ainda que não houvesse mais nada com que estar. O medo passou, mas no lugar ficou a tristeza, ficou a nostalgia do belo que ele havia perdido, que ele deixara escapar quando a locomotiva começou a andar. Embora ele não se lembrasse de mais nada concretamente, havia em si a semente mnemônica, o pensamento de algo perdido, a presença da ausência, a vivência do vazio. Ele sabia que algo lhe faltava, mas não tinha idéia do que poderia ser e de como poderia resgatá-lo. A locomotiva parou e a porta se abriu. Uma luz se irradiou para dentro da cabine, era muito forte. Ele não pôde ver o que havia lá fora. Resolveu ficar. Fechou os olhos e se encolheu. A locomotiva partiu novamente e ele com a esperança de que ela agora lhe levasse também a sua tristeza. Escolhas, sempre elas...
terça-feira, julho 31, 2007
Pedra
Havia um pedra
em meu jardim
e eu pensei
ser essa pedra
Mas a terra
a engoliu
com a ajuda
da chuva
Então me vi
deslizando
nas curvas
da pétala anil
Caí no chão
orvalhado
e a lágrima
banhou-me a face
em meu jardim
e eu pensei
ser essa pedra
Mas a terra
a engoliu
com a ajuda
da chuva
Então me vi
deslizando
nas curvas
da pétala anil
Caí no chão
orvalhado
e a lágrima
banhou-me a face
sábado, julho 28, 2007
Lúdico
Eu digo que sou uma eterna criança lúdica porque acredito na magia do amor e vivo, ainda que ilusoriamente, a graça dessa magia, em toda a sua plenitude, recebendo a esperança e o otimismo que ela produz. E sorrio muito ao senti-la na minha pele, florindo cada emoção que me é possível ter. Como hoje...O problema são os seres humanos, jovens velhos que, na sua inquisição laica, guilhotinam a minha crença.
Angústia
O amor dormiu enquanto falava comigo. Eu o abraçava fortemente, cravando minhas unhas em teu corpo, envolvendo nele as minhas pernas, sussurando em seu ouvido as minhas questões. Mas ele dormiu antes que pudesse escutar a minha angústia. Melhor assim, pois que bem faria eu ao amor se lhe pintasse não a minha beleza, mas a minha feiúra? O que há de pior em cada um de nós a gente só olha na completa solidão, à luz de vela, até para não ver demais os detalhes do horror, tal como fazia Dorian Gray.
quinta-feira, julho 05, 2007
...
- Por que você fica aí calado?
- O que queria que eu dissesse?
- Sei lá, qualquer coisa.
- Qualquer coisa.
- Você é mesmo um chato!
- Não sou eu que sou chato, é o meu silêncio que te chateia.
- Para mim, dá no mesmo.
- Não dá. A chatice está no efeito ou na causa? O chato é aquele que, por ser chato, produz a chatice ou aquele que, por produzir a chatice, é chato?
- Que diferença faz? Você está me aborrecendo. Odeio quando você começa com esses papos.
- Entendo. Calado, te chateio. Falando, te aborreço. Faz muito sentido isso.
- Está vendo, você não me entende, não percebe o que eu realmente quero.
- O que você quer?
- Você.
...
- O que queria que eu dissesse?
- Sei lá, qualquer coisa.
- Qualquer coisa.
- Você é mesmo um chato!
- Não sou eu que sou chato, é o meu silêncio que te chateia.
- Para mim, dá no mesmo.
- Não dá. A chatice está no efeito ou na causa? O chato é aquele que, por ser chato, produz a chatice ou aquele que, por produzir a chatice, é chato?
- Que diferença faz? Você está me aborrecendo. Odeio quando você começa com esses papos.
- Entendo. Calado, te chateio. Falando, te aborreço. Faz muito sentido isso.
- Está vendo, você não me entende, não percebe o que eu realmente quero.
- O que você quer?
- Você.
...
domingo, julho 01, 2007
Existência
Você existe mesmo? Como sabe? O prêmio de consolação cartesiano embutido no penso, logo existo é, na verdade, um escárnio, uma ironia, uma trombeta a lhe gozar, a lhe espetar o dedo na cara apontando o seu nada. Para chegar à brilhante conclusão do cogito, você precisa suspender todo o universo, seu corpo, sua história e até as suas memórias. No final desse processo de suspensão, resta apenas um ser amorfo que tem a singular propriedade de pensar. Ele pensa e pronto, nada mais. Termina aí. Mas ele não tem personalidade, não tem rosto, não tem nome, não tem memória, não tem quem se lembre dele, nem quem o toque, pois isso já seria pedir demais. E assim fica claro que podemos existir sem, no fundo, realmente existir. Um eu que perdeu todas as suas relações com outros eus deixou também de ser. Existe apenas como essa coisa amorfa pensante, destituída de qualquer significado.
quinta-feira, junho 28, 2007
Pernas
Pernas grossas e roliças, de uma brancura noturna, cruzadas bem na minha frente, evidenciando ainda mais a sua exuberância. Realmente lindas, perfeitas no branco para aquele horário e ambiente. Estava só, não apenas no sentido físico da palavra, mas principalmente no psíquico. Olhar distante, voltada para si mesma, olhos consternados, quase ouvi um choro. Completamente absorvida em si que nem me percebeu dissecá-la. Nunca imaginei que no meio de pernas tão perfeitas pudesse encontrar um sofrimento tão visível. Então o frenesi da gravação voltou a tomar conta do local e ela foi chamada a assumir a sua posição de dançarina figurante. Guardou na pequena bolsa preta os óculos que afundavam ainda mais o seu olhar. Levantou no seu salto preto exibindo as pernas mais vistosas do recinto, não minto, acho que nunca esquecerei aquelas pernas, arrumou um sorriso falso na boca e dirigiu-se para o meio da pista. Livre do pensar, do pesar, voltou a dançar.
segunda-feira, junho 25, 2007
Erro
Reconheço que errei, que falei além da evidência, do permitido pelos fatos. Inventei calcado na emoção. Enganei a ti e a mim mesmo. Pincelei com o exagero uma generalidade que não existiu nem no particular.
domingo, junho 24, 2007
Ilusão
Você está tão longe, tão do outro lado do mundo, mas ao mesmo tempo, tão perto, tão dentro de mim. Te apalpo com a sobrancelha do peito. Li ontem, em algum lugar, que somente através do amor e das amizades criamos a ilusão efêmera de que não estamos sozinhos. A frase era para ser pessimista, mas eu a incorporo com otimismo. Ilusão tem ser, tem cor, tem impacto sobre a minha sensação. Ela está viva na minha experiência. E depois, o Berkeley me ensinou que esse est percipi. Sendo assim, deixe-me em paz na ilusão diária de tê-la por perto, ouvinte dos meus ecos.
sexta-feira, junho 22, 2007
Fraquejo
Adianta dizer a verdade a quem não está preparado para ouvi-la? Esmaga meus ossos essa pressão para não fraquejar. A mulher, em nossa sociedade (ou seria ainda mais radical, a fêmea, em nossa espécie?), pode se dar ao luxo de declarar publicamente a sua auto-estima em baixa. O homem será punido se o fizer, mesmo pelos mais sensíveis. Sua virilidade percebida, em especial pelas mulheres, decai na mesma medida da sua perda de auto-confiança, gerando um ciclo vicioso direto para o abismo. Já recebi em meus braços o choro da mulher esquartejada, dilacerada pela existência. Quando, no entanto, fui buscar o apoio compreensivo no abraço dessa mesma mulher, nem tão assim lamurioso, nem tão assim lacrimoso e queixoso, recebi em retorno um tapa nas costas, aveludado por: "cuide-se, amigo". Uma preocupação a falsear um quase desprezo. É por isso que eu estou sempre muito bem, muito bem mesmo, obrigado.
terça-feira, junho 19, 2007
Ruivas
Alfedro tem fixação pelas ruivas. Foi assim que ele se apaixonou através da visão instantânea pela L, K, N e W. Em tempos diferentes, é claro, pois Alfredo é o tipo de cara que prefere ataques concentrados ao invés de suportar grandes flancos. Diz ele que o risco de sucumbir no seio inimigo é maior, mas também são maiores as chances de chegar ao seu centro fatal. Não sei de onde vem essa atração irrefreável, mas é incontestável o abalo emocional de Alfredo diante de uma ruiva. Outro dia caminhávamos pelas ruas do centro, discutindo sobre um texto da faculdade, e repentinamente ele me deixa sozinho, seguindo por uma outra rua atrás de uma ruiva que ele tinha visto passar. Não o vi mais nesse dia. No ônibus, ele simplesmente fica imóvel, ouso dizer que nem pisca, encarando a primeira infeliz ruiva que ele encontra. Nem preciso lhes dizer que esse comportamento de psicopata não deu nenhum fruto. Duvido que dê. Já vi Alfredo com japas, negras, morenas, altas, baixas, gordas, magras, mas nunca com uma ruiva. Um dia resolvi lhe perguntar se sua fixação tinha alguma razão. Ele me respondeu assim: "Não tem não, meu amigo, eu simplesmente me sinto queimar por dentro quando vejo uma ruiva. Elas despertam o meu demônio. Sabe, quando você não consegue pensar em mais nada, sentindo o ser que se apresenta como senhor absoluto da sua atenção? É assim que me sinto, sem controle, sem opção, sem livre-arbítrio. Mas você quer uma razão? Quer? Não sei o que você faz com tantas razões, realmente não sei. Mas vá lá. Se quer...dou-lhe uma, essa aqui, ó: tenho medo de escuro, verdade, mesmo já estando assim quase adulto, não durmo de luz apagada e sempre imaginei que se me casasse com uma ruiva, teria um fogo incandescente a me iluminar e aquecer no próprio leito. Entende?. Não sou muito diferente dos outros homens nas associações".
terça-feira, junho 12, 2007
Delonga
Queria que saísse perfeito, apesar do meu timbre canhestro e dissonante. Longamente treinei. Mas no dia que lhe resolvi recitar essa música, ela me disse adeus. Abafou-me o sentimento antes mesmo que ele pudesse vibrar em tua alma pelas minhas cordas vocais.
Guardei esse segredo por muitos anos. Hoje a cafonice o liberta.
It's only time.
Why would I stop loving you
a hundred years from now?
It's only time.
It's only time.
What could stop this beating heart
once it's made a vow?
It's only time.
It's only time.
If rain won't change your mind,
let it fall.
The rain won't change my heart
at all.
Lock this chain
around my hand,
throw away the key.
It's only time.
It's only time.
Years falling
like grains of sand
mean nothing to me.
It's only time.
It's only time.
If snow won't change your mind
let it fall.
The snow won't change my heart,
not at all.
(I'll walk your lands)
I'll walk your lands
(And swim your sea)
And swim your sea
Marry me.
Marry me.
(Then in your hands)
Then in your hands
(I will be free)
I will be free
Marry me.
Marry me.
Why would I stop loving you
a hundred years from now?
(Magnetic Fields)
Guardei esse segredo por muitos anos. Hoje a cafonice o liberta.
It's only time.
Why would I stop loving you
a hundred years from now?
It's only time.
It's only time.
What could stop this beating heart
once it's made a vow?
It's only time.
It's only time.
If rain won't change your mind,
let it fall.
The rain won't change my heart
at all.
Lock this chain
around my hand,
throw away the key.
It's only time.
It's only time.
Years falling
like grains of sand
mean nothing to me.
It's only time.
It's only time.
If snow won't change your mind
let it fall.
The snow won't change my heart,
not at all.
(I'll walk your lands)
I'll walk your lands
(And swim your sea)
And swim your sea
Marry me.
Marry me.
(Then in your hands)
Then in your hands
(I will be free)
I will be free
Marry me.
Marry me.
Why would I stop loving you
a hundred years from now?
(Magnetic Fields)
Ponto.
Amor é amor e ponto final. Quando ela me fala do seu "amor" pragmático, do seu estar ao lado por força do hábito, do seu gostar de por ser assim mais adequado, mais confortável, gostar adquirido pelo costume, eu emudeço na incompreensão. Não tenho o que lhe dizer. Penso que ela se relaciona com o mundo primordialmente através das mãos, acentuando a sua textura áspera, segurando com força o presente, enquanto que eu me relaciono pela visão, deixando-me encantar pelas ilusões que vejo longe, contemplando o futuro que ali vem. Não sei, realmente não entendo.
quinta-feira, junho 07, 2007
Pueril
Pés diminutos sobre o terreiro, ligeiros e descalços, para ali bem sentir os grãos de areia. Na mão esquerda, segurando com firmeza, o fio do seu balão azul de hidrogênio. Corre solto e livre. Na boca, um sorriso pueril de quem ainda não precisou se encontrar com a esperança.
segunda-feira, junho 04, 2007
Exatamente assim
-Como você definiria Curitiba?
-Eu a definiria como a cidade das aparências. Aqui o essencial é o inessencial.
-Por que veio para cá? Outro dia mesmo você me disse que busca o que há de mais profundo nas coisas.
-Ainda penso assim.
-Não entendo.
-É simples. Se eu estivesse em um lugar onde o essencial estivesse sobre as aparências, eu o encontraria com facilidade.
-Não seria melhor?
-Evidente que não.
-Por que?
-Uma vez que o encontrasse, iria me entediar.
-Então, por que busca?
-Ué, se não buscar, também vou me entediar.
-Deixe-me ver se entendi. Precisa buscar algo que nunca gostaria de encontrar?
-Exatamente assim.
-Eu a definiria como a cidade das aparências. Aqui o essencial é o inessencial.
-Por que veio para cá? Outro dia mesmo você me disse que busca o que há de mais profundo nas coisas.
-Ainda penso assim.
-Não entendo.
-É simples. Se eu estivesse em um lugar onde o essencial estivesse sobre as aparências, eu o encontraria com facilidade.
-Não seria melhor?
-Evidente que não.
-Por que?
-Uma vez que o encontrasse, iria me entediar.
-Então, por que busca?
-Ué, se não buscar, também vou me entediar.
-Deixe-me ver se entendi. Precisa buscar algo que nunca gostaria de encontrar?
-Exatamente assim.
sexta-feira, maio 25, 2007
Convicção
Arriscar, sonhar, esperar e ansiar? Que nada! Isso é coisa de quem dormiu com um cético. Hoje, neste instante-segundo, tenho a desarrazoada convicção da minha primavera invernal. Venha cá colher a flor nascente. Leve-a contigo, pois nos primeiros segundos da alvorada ela irá desabrochar, lançando a minha essência no ar. Inspire tão fundo quanto possa, e para sempre ficarei em teus pulmões.
terça-feira, maio 22, 2007
Heráclito
Banho-me todos os dias nas águas de Heráclito. Tudo muda, saio renovado, acordo com os interesses mais diversos. Mas sabe, queria lhe dizer isso, segurando tuas mãos, tamborilando o seu anular com o meu polegar: algo não tem mudado ultimamente. Minha vontade de estar com você.
sábado, maio 19, 2007
Eterno
Angústia por não encontrar
a certeza.
Tédio
por tê-la encontrado.
Nenhuma direção a tomar
todos os caminhos iguais.
Só uma cega sensação
a seguir.
Crença espúria
que habita o peito.
Eterna ela
sem nada eternizar.
Esperança
que prolonga o dia.
Em seu seio encontro
a eternidade do sentimento.
a certeza.
Tédio
por tê-la encontrado.
Nenhuma direção a tomar
todos os caminhos iguais.
Só uma cega sensação
a seguir.
Crença espúria
que habita o peito.
Eterna ela
sem nada eternizar.
Esperança
que prolonga o dia.
Em seu seio encontro
a eternidade do sentimento.
quinta-feira, maio 17, 2007
Graus
Um dia Alfredo me procurou chorando com uma pergunta no peito. Queria saber porque as mulheres rejeitavam o amor que ele lhes dava gratuitamente. Ao natural, respondi que era para não lhe implantar uma falsa esperança no coração. Alfredo apertou minhas mãos e retrucou em desespero: "Mas eu não espero nada! Minha única espera é que aceitem o que lhes dou, nem um centavo quero em troca". Apesar de não acreditar muito nessa absoluta abnegação de expectativas, percebi, enquanto olhava para o sofrimento de Alfredo, que há diferentes graus de rejeição. Não dar nada a quem te quer é irrisório perto de nem receber o que ela lhe dá.
terça-feira, maio 15, 2007
AMIGO
Foda de viver numa sociedade machista é que se você dá atenção a uma mulher e lhe faz uns agrados, ela já começa a achar que você está no chaveco e se ela não te vê como um potencial amante/namorado, já vai logo gritando em letras garrafais e piscantes e um sorrio meia boca quando te encontra: "oi AMIGO". Meninas, aprendam: nem todo homem é cavalo de padreação.
sábado, maio 12, 2007
Amargo
Eu não me incomodo de escutar o seu silêncio por horas e dias seguidos. Viveria contigo como um mudo, se fosse a vontade conjunta, mas bem sei eu que você não vive sem uma querela, e creio que nem eu. Afasta o tédio. Mas não suporto a falta de sorriso dos teus olhos diante dos meus. Essa aparência de indiferença acaba tendo um sabor amargo. Meus olhos marejam enquanto os teus parecem secos. Por que? Por que?
Frio vs. Frieza
Por que gosto tanto do frio? Certamente a minha natureza calorenta contribui para esse apreço. Mas a verdade é que eu busco com o frio da natureza camuflar a frieza humana, como se o primeiro me fizesse esquecer a segunda. Tocado e arrepiado pela massa polar, centrado no seu existir, desapercebo a insensibilidade glacial dos que me cercam. A natureza sabe proteger os filhos que tem.
segunda-feira, maio 07, 2007
Violeta
Olhando para baixo. Trilho, trilho, verde grama. Trilho, trilho. Uma violeta ao lado do trilho. Barulho do trem, longe ainda. Trilho, trilho, verde grama. Outra violeta. Lindas violetas contrastando com o trilho desgastado e a grama desigual. Esporádicas e esparsas, no entanto. Ando, ando, ando. Mais uma aqui e outra ali. Barulho mais intenso. Olhando para frente. Visão. Estupefato. Visão, A visão. Vestido curto, pernas alvas e cristalinas, camisa xadrez. E o cabelo, surpresa, violeta como a violeta das violetas.
Sorriso meu na boca.
Sorriso meu na boca.
sexta-feira, maio 04, 2007
Oi
Sei que você é vigiada, repreendida e tolhida por olhares nem tão importantes assim, mas que, no entanto, são olhares próximos dos olhos que te importam. De outro modo, não aceitaria a sua ausência. Ah não, de modo algum. Longe de querer lhe trazer aborrecimentos. Mas eu não me furto a sentir, nem a lembrar e muito menos a dizer aqui o que me vem na veneta. O que eu tenho para lhe dizer hoje? Nada. Só queria que me ouvisse.
terça-feira, maio 01, 2007
Estender
Não era necessário tocá-la. Mas quando vi sua mão se aproximando da minha, não pensei duas vezes. Deixei que meus dedos pousassem levemente sobre os teus, por uma fração de segundo, breve o bastante para que você não percebesse a minha intenção, mas suficientemente duradouro para estender a experiência do tempo, enquanto fechava meus olhos e focava toda a atenção nas minhas sensações táteis, provocando, assim, a sensação de um longo contato contigo.
sábado, abril 28, 2007
Dualidade
E, no entanto, ela chorava por imaginá-lo sofrendo. Não havia culpa em suas lágrimas. Apenas dor, dor por não conseguir corresponder o amor tão perene que ele lhe tinha; ele, o seu amigo, ele, que desde sempre esteve ao seu lado, ele, que estava diariamente atento ao seu bem-estar, ele, que trazia consigo a compreensão dos seus anseios e medos, enfim, ele que, pela lógica da razão, ela deveria amar. Mas não é assim que raciocina o coração. E ele calado sofria. Para ela, externava sempre o seu resíduo de alegria, sem nunca fraquejar. Seu amor a ela nunca impôs. Mas ela sabia, assim como todos da cidade. Por mais que um sorriso ou um abraço da amada pudesse lhe provocar euforia, não há alegria em amar sozinho. Era a ferida que carregava sempre consigo. Havia nos olhos dela muito cansaço. Por anos tentou se vencer pela vontade. Quis muito amá-lo, mas nunca logrou. Entristecia-se ao sentir tão duramente essa limitação. Ela se questionava: "como pode haver algo em mim que não consigo vencer?". E quanto mais ela se perguntava e se esforçava, mais sólida lhe parecia essa resistência, esse atrevimento de um quinhão do seu Eu, que era, ao mesmo tempo, à luz da razão, o seu não-Eu. Mas pode o coração ser menos Eu que a Razão? Claro que não. E para ela não era menos doloroso que para ele. Então ela chorava, enquanto ele sorria em falso.
terça-feira, abril 24, 2007
Cegueira
Sabe, se esse rapaz não for capaz de notar o sol que brilha em teu coração, então ele é cego. Mas sou obrigado a te alertar: algumas pessoas nascem cegas para o amor, outras acabam ficando ao longo da vida.
domingo, abril 22, 2007
Despair
I fall in love
for a moment
before I hit despair
I turn around to see you
another one is there
how the bells of the clock
how the bell do chime
that awful reminder
"you never will be mine"
(Death in June)
for a moment
before I hit despair
I turn around to see you
another one is there
how the bells of the clock
how the bell do chime
that awful reminder
"you never will be mine"
(Death in June)
quarta-feira, abril 18, 2007
Alfredo
Alfredo se entedia com tudo. Ele se apaixona com a mesma velocidade com que se esquece dos
seus amores antigos. O entediado é movido pela novidade. Outro dia, no ponto de ônibus, Alfredo cresceu os olhos para tentar ver o título do livro que a moça ruiva ao seu lado lia. ``Notas do Subterrâneo''. Humm, pensou. Ainda não tinha reparado em seu rosto. Quando o viu, se sentiu atraído. Ela tinha entre 20 e 24 anos, um nariz pequeno e arredondado, cabelos curtos, acentuando a sua jovialidade e sardas, sardas que desde pequeno Alfredo sempre almejou. Quando o ônibus chegou, esperou que ela fosse na frente, para ter uma visão completa do seu andar. Chamou-lhe a atenção a mochila da faculdade. Nela leu ``Administração''. Ah, pensou desapontado. Então olhou para suas mãos e viu unhas enormes que ele já não gostava tanto. Depois reparou no celular que ela ostentava, pendurado no bolso da calça. Sentou logo atrás dela.
Se sentasse ao lado, teria a chance de lhe falar, mas agora ele só queria observá-la. Alguns minutos depois, ela atendeu o celular. Quem ali estivesse, poderia assistir a mudança gradual da expressão facial de Alfredo de interessado para completamete desinteressado, quando, por fim, ele deixou de reparar na moça para contemplar a paisagem que a janela do ônibus lhe oferecia. Palavras como ``balada'', ``tipo'' foram lhe assassinado o interesse. O novo tornou-se velho. Tédio. Assim segue Alfredo se apaixonando e se desinteressando todos os dias várias vezes ao dia.
seus amores antigos. O entediado é movido pela novidade. Outro dia, no ponto de ônibus, Alfredo cresceu os olhos para tentar ver o título do livro que a moça ruiva ao seu lado lia. ``Notas do Subterrâneo''. Humm, pensou. Ainda não tinha reparado em seu rosto. Quando o viu, se sentiu atraído. Ela tinha entre 20 e 24 anos, um nariz pequeno e arredondado, cabelos curtos, acentuando a sua jovialidade e sardas, sardas que desde pequeno Alfredo sempre almejou. Quando o ônibus chegou, esperou que ela fosse na frente, para ter uma visão completa do seu andar. Chamou-lhe a atenção a mochila da faculdade. Nela leu ``Administração''. Ah, pensou desapontado. Então olhou para suas mãos e viu unhas enormes que ele já não gostava tanto. Depois reparou no celular que ela ostentava, pendurado no bolso da calça. Sentou logo atrás dela.
Se sentasse ao lado, teria a chance de lhe falar, mas agora ele só queria observá-la. Alguns minutos depois, ela atendeu o celular. Quem ali estivesse, poderia assistir a mudança gradual da expressão facial de Alfredo de interessado para completamete desinteressado, quando, por fim, ele deixou de reparar na moça para contemplar a paisagem que a janela do ônibus lhe oferecia. Palavras como ``balada'', ``tipo'' foram lhe assassinado o interesse. O novo tornou-se velho. Tédio. Assim segue Alfredo se apaixonando e se desinteressando todos os dias várias vezes ao dia.
terça-feira, abril 10, 2007
Amada
Não seja tímida. Vim de longe para me entregar completamente a ti, para sentir teu sopro gélido sobre a minha nuca. Acorde, já é hora de despertar! Mostre-me do que és capaz. Não suporto mais te ver assim tão aprisionada, temerosa, refém das ações humanas, quando és capaz de sobrepujá-las todas. Solte teu bafo esbranquiçado enquanto inspiro, deixe-me levar-te aos meus pulmões! Tenho um sangue demasiado latino que tu precisas arrefecer. Há semanas que sonho com o teu abraço cristal. Ouso dizer que sou o primeiro a te amar verdadeiramente. Todos aqueles a quem deste a luz se protegem com grossas mantas quando tu te aproximas. Covardes, se refugiam. Não te sentem, não te encaram. Negam a própria mãe. Ainda bem que não nasci de ti. Estou livre para amá-la sem complexos. Diferente dos teus filhos, saio correndo de braços abertos ao teu encontro sempre que tu te mostras. Não fosse o olhar impuro dos homens e o seu poder insano, iria nú te receber. Deixaria que me tocasses por completo. Ah, Curitiba minha, tu és a gaia que eu, investido de eros, vim fecundar. Acorde, já é hora de me receberes.
terça-feira, abril 03, 2007
Jornada
Esse vento forte que me corta a cara e me faz cerrar os olhos, como ele me arde. Só vejo um palmo diante dos olhos. Essas pernas trêmulas que já não me fixam direito no chão. Cansado, envelhecido e com sede neste deserto. Fecho os olhos e sinto sua mão tocando a minha face, deslizando suave sobre os meus lábios. Mordisco-a. Alívio em forma de delírio. Até a lembrança envelhece. Em vão me esforço. O chão me chama, quero deitar, dormir, descansar.
domingo, março 25, 2007
Abraço
Abraço somado. Abraço que eterniza em mim a sensação da sua presença constante. Teu jeito de encantar e produzir sorrisos. Como não lembrar? Foi preciso represar a vontade de hábitos antigos.
terça-feira, março 20, 2007
Pornográfico
Cansei, cansei da minha hipocrisia. A minha capa de formalidade quando falo contigo é falsa, é ilusória, é forjada. Debaixo dela pulsa a minha vontade de conhecer teus lábios, de apertar o seu corpo contra o meu. Pensa que é fácil para mim? Não é não. Hoje resolvi mandar tudo às favas. E daí que você tem um namorado, amante ou sei lá o que? O que eu tenho a ver com isso? Nada. Eu sinto o que eu sinto. Quer mesmo saber o que eu sinto, a verdade nua e rasgada? Eu digo. Não é paixão, não é amor, mas tem carinho no meio. Só no meio, pois nas pontas tem desejo, de um lado e atração, do outro. Tem algum gostar também, sei que tem, ou eu não sentiria essa vontade louca de suprimir com todo o pudor entre quatro paredes. Você me deixa pornográfico.
terça-feira, março 13, 2007
Maroto
Instante extenso. Uma fração de segundos de uma duração penetrante. Cruzei o limiar da porta e te vi. Senti-me golpeado no estômago. Que era aquele sorriso maroto? Sim, você sabe, você nota. Baixei os olhos. Suportaria o teu olhar, mas não pude com o teu sorriso. Pensei em me derramar nos teus braços, mas você se assustaria. Continuas uma incógnita que magnetiza a minha atenção. Não sei nada sobre você além do fato de que és canhota. No entanto, já sei o bastante. Isto basta.
domingo, março 11, 2007
Filo
"Você é um homem das humanas", foi me dito outro dia, questionando minha opção mais recente pelas exatas. O que me levou e me leva às exatas é a oportunidade de me ocupar exclusiva e voluptuosamente com questões externas, questões que não me obriguem a voltar sobre mim mesmo. Embora a filosofia também dê algumas oportunidades assim, ela sempre nos força à reflexão especular. E há momentos em que simplesmente não quero ficar olhando para mim. Quero me ocupar do mundo, oras. Motivo banal e simples. Quando, ao contrário, sinto saudades de mim, vou à procura do leite materno filosofal. Aí sento, leio, penso, escrevo e me sinto aconchegado pertinho de mim.
sábado, março 10, 2007
Amizade
- Você é o meu melhor amigo.
- Por que está me dizendo isso?
- Não sei, queria que soubesse.
- Não diga algo que não possa sustentar no instante seguinte.
- Mas estou certa que posso.
- Eu não.
- Você está seco!
- Realista.
- Mas eu gosto sim de você.
- Para que dizer isso? Há centenas de formas mais interessantes de manifestar a sua estima por mim. A mais pobre delas é essa, pela fala.
- Por que?
- Porque é fácil.
- Ah, então eu teria de me sacrificar para mostrar a você alguma estima?
- Não falei de sacrifício. E se você já vê qualquer ato além da palavra como um sacrifício, então realmente não sabe o que está falando quando diz que sou o seu melhor amigo.
- Você pressupõe que sentimentos são eternos. Se digo agora que você é o meu melhor amigo é porque me sinto assim em relação a você, mas por que deveria sustentar isso para sempre? Sentimentos acabam. Você não disse que é realista?
- Sim, eu disse.
- Então...
- Então que você pode dizer que sou o teu melhor amigo sem precisar sustentar isso para sempre. Mas eu ainda não vejo sentido em que me diga tal coisa, se você não é capaz de
manifestar isso que diz por outras formas além da palavra.
- Você parece querer que as pessoas provem o tempo todo o que sentem.
- Não, não quero. Se sentem, não precisam provar. Naturalmente irão fazê-lo.
- Mas você é mais cético que o normal e o que você espera ser uma manifestação "normal" de um sentimento não é nada normal.
- Talvez você tenha razão.
- Você é o meu melhor amigo sim.
- É...acho que nunca vou saber.
- Por que está me dizendo isso?
- Não sei, queria que soubesse.
- Não diga algo que não possa sustentar no instante seguinte.
- Mas estou certa que posso.
- Eu não.
- Você está seco!
- Realista.
- Mas eu gosto sim de você.
- Para que dizer isso? Há centenas de formas mais interessantes de manifestar a sua estima por mim. A mais pobre delas é essa, pela fala.
- Por que?
- Porque é fácil.
- Ah, então eu teria de me sacrificar para mostrar a você alguma estima?
- Não falei de sacrifício. E se você já vê qualquer ato além da palavra como um sacrifício, então realmente não sabe o que está falando quando diz que sou o seu melhor amigo.
- Você pressupõe que sentimentos são eternos. Se digo agora que você é o meu melhor amigo é porque me sinto assim em relação a você, mas por que deveria sustentar isso para sempre? Sentimentos acabam. Você não disse que é realista?
- Sim, eu disse.
- Então...
- Então que você pode dizer que sou o teu melhor amigo sem precisar sustentar isso para sempre. Mas eu ainda não vejo sentido em que me diga tal coisa, se você não é capaz de
manifestar isso que diz por outras formas além da palavra.
- Você parece querer que as pessoas provem o tempo todo o que sentem.
- Não, não quero. Se sentem, não precisam provar. Naturalmente irão fazê-lo.
- Mas você é mais cético que o normal e o que você espera ser uma manifestação "normal" de um sentimento não é nada normal.
- Talvez você tenha razão.
- Você é o meu melhor amigo sim.
- É...acho que nunca vou saber.
sexta-feira, março 09, 2007
Orgulho
O orgulho que me afasta das pessoas é o mesmo que me mantém vivo. Não ser orgulhoso implica em aceitar safanão, em ser cristão. E eu sou um agnóstico bem resolvido. Mas tenho dúvidas, como sempre. É fraco aquele que abaixa a cabeça para pedir perdão ou, ao contrário, aquele que não consegue fazê-lo justamente por excesso de orgulho? É fraco aquele que permite sangrar o seu EU ou aquele que não consegue se vencer? Depende. Depende. Não reconhecer o erro já beira à burrice. Mas, por outro lado, erro mesmo só há quando você o reconhece como tal. Não vou pedir perdão por erros que me imputam de fora. Uma colherada de orgulho aqui. Perco sim, perco amizades e amores por orgulho. Mas sem ele, eu não iria conseguir me erguer depois de levar uma rasteira. O orgulho é a bengala dos homens-lobo.
quarta-feira, março 07, 2007
Livre
O que algumas pessoas não entendem é que o suicídio só pode ser escolhido genuinamente se o indivíduo não tiver qualquer razão para ele. Verdade, suicídio coagido por razões não é menos suicídio, mas também não é livre. Quem se mata por tristeza ou depressão reconhece que a vida é demais para ela, que a sua fraqueza não suporta as forças vitais que batem em seu peito. Suicídio motivado é uma escolha para fracos. Um suicídio livre não é motivado por razões. Ele é a própria razão, é o fundamento da não-vida, é a aceitação e a escolha da morte como modo de ser. Uma escolha não coagida não pode ser racional. Kant está errado. Ser livre não é agir sempre em conformidade com a razão. O suicida livre, ao contrário, é aquele que tem todas as razões para viver, tem diante de si o êxtase mais sublime das paixões e ainda assim escolhe abraçar a morte. "Por que? Por que?", perguntarão alguns. "Não faz sentido!", dirão outros. Mas é justamente essa questão que não faz sentido para ele. Ele não foi coagido, ele não foi motivado, ele não foi levado. Não há uma razão para ser interrogada e inquirida. Ele apenas escolheu livremente a morte. Ele apenas desnudou seu eu de toda essa casca acidental de razões que só servem, na maioria das vezes, para nos robotizar.
domingo, fevereiro 25, 2007
Alianças
Outro dia estava conversando com uma amiga sobre o uso de alianças e ela me disse que gostava delas para simbolizar o compromisso. Um rito que para ela é agradável respeitar. Esse rito em si eu não respeito, mas posso vir a entender e respeitar a vontade da outra pessoa em querer participar desse rito. Meu amor comporta alguma abnegação. Gente, é sério, eu tenho claustrofobia anular. Tenho pânico dessa coisa entrar no dedo e não sair mais. Quando coloco um anel no dedo, e isso aconteceu pouquíssimas vezes, eu fico girando o anel o tempo todo para constatar que ele não grudou. Outra: eu jamais colocaria essa coisa no meu anular para afastar a falta de confiança. O curitiboca é hilário a esse respeito. Se vangloriam de ser o povo mais familiar, mais nuclear, mais fiel e, para prová-lo, usam alianças de quase 1 cm de espessura. Não estou mentido. Cheguei a levantar a hipótese de que os joalheiros aqui fossem ruins, não soubessem fazer alianças finas e discretas. Mas não, é o curitiboca mesmo que sente prazer em arrotar os seus compromissos, expressando com este ato, ao meu ver, a falta brutal de confiança que tem uns nos outros. Aqui não estão simplesmente participando de um rito, estão sim desesperadamente externando seus medos e desconfianças. Burrice, pois a aliança é completamente ineficaz contra a infidelidade. Diria até que a estimula. O proibido seduz. Para falar a verdade, estou me lixando para a fidelidade. Pouco importa se outras mulheres estão colocando a boca no pinto do seu namorado ou se outros homens estão colocando o pinto na boca da sua namorada. Importa mesmo é se você está sendo sincero consigo mesmo e com aquele que diz amar e respeitar. Só isso.
sábado, fevereiro 24, 2007
Obrigação
Agora que eu não tenho mais compromisso algum com a filosofia, eu posso me dedicar a ela de corpo e alma. Por razão similar, muitos amantes conseguem ser companheiros melhores para as esposas que os seus próprios maridos.
domingo, fevereiro 18, 2007
Lágrima
Eu prefiro a estética da lágrima à estética do sorriso. Um rosto com choro é infinitamente mais belo que um rosto com sorriso. Obviamente, refiro-me ao choro de uma lágrima contida que salta dos olhos involuntariamente, uma lágrima irrefreável, exprimindo uma dor que o sujeito não consegue conter. O choro esganiçado de alguém que tenta multiplicar pelo comportamento uma pequena dor é feio e imoral. O primeiro choro não, ele é sublime, é a expressão de um sentimento autêntico, é a verdade em pessoa. Já o sorriso é traiçoeiro, quase sempre falso. Exprime uma mentira que você gostaria de ouvir. Seduz pela leviandade. Sim, há os verdadeiros, mas é difícil apontá-los.
sábado, fevereiro 17, 2007
PdQ
Queen na vitrola e a mão na massa para preparar aquilo que sei fazer de melhor: pão de queijo. Posso vir a esquecer tudo que aprendi em Minas, durante os 15 anos que lá passei. Posso, com o passar dos anos, deixar de lado as suas interjeições simpáticas como "uai!" e "sô!", mitigar as imagens de Belo Horizonte, que, aliás, nem é tão belo assim, mas jamais me esquecerei do seu pão de queijo. Simplesmente inigualável. Quem já comeu um lá ou um feito pelas mãos de alguém que veio de lá, sabe do que estou falando.
segunda-feira, fevereiro 12, 2007
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Pessoas que não conseguem ficar sozinhas são pessoas que têm medo de si mesmas, que não querem se encarar. Imagino que temem descobrir que não se gostam. Quem se encara e gosta não teme a solidão. Ao contrário, procura por ela. Para falar a verdade, eu morro de medo de pessoas que não conseguem ficar sozinhas. Elas te sugam demais. E são traiçoeiras também. Eu me sinto mais em paz só do que na companhia dos outros. Há exceções a isso que eu disse, obviamente. Mas é raro, pois depende de um outro que é raro.
sexta-feira, fevereiro 09, 2007
Sentir
Quando a porta se fechou, teve medo. Não do escuro absoluto que incidiu sobre o quarto. Medo sim de se ver forçado cada vez mais a estar apenas consigo mesmo. Sem nada para ver, acabaria se voltando para a visão interna. Tremeu ao pensar em se ver assim tão intuitivamente. No primeiro dia, rastejou pelo chão, lambendo cada centímetro do seu piso. Mergulhou em seu sabor. Por excesso, perdeu o paladar. No segundo dia, bateu palmas, cantou e gritou. Se alguma luz pudesse entrar ali, perceberia as veias saltitando em seu pescoço. Exagerou no agudo e os seus tímpanos sangraram, perdeu a audição. No terceiro dia, rolava pelo chão, esfregava-se com força nas paredes, um tato voraz que parecia querer soldá-lo no concreto. Esmagou nervos, perdeu o tato. No quarto dia, inspirava com toda a força que podia, abrindo as narinas, para captar o cheiro do chão e das paredes. Não suportou a poeira, perdeu o olfato. No quinto dia, já desesperado, forçou bem os olhos. Mas a visão sozinha é impotente sem a luz. Não teve mais como fugir. Olhou-se, enfim, com a sua intuição. Neste instante, uma lágrima cresceu no seu olho esquerdo e desceu pela face, atingindo seus lábios semi-abertos. Mas ele não pôde vê-la, nem senti-la se deslizando sobre a pele. Em sua língua, a lágrima se misturou com a sua saliva sem que ele pudesse notar qualquer diferença, nenhum sabor. Enquanto se olhava, uma vontade crescia em seu peito. Quis se tocar, cheirar seus braços, degustar a pele, ouvir o timbre da sua voz e ver as silhuetas do seu corpo. Mas nada disso era possível agora. Tentou sem resultados. Teve, então, um medo ainda mais paralisante: o de não mais poder se sentir. Compreendeu que não lhe restava mais nada a não ser essa contemplação estática e vazia de si.
segunda-feira, janeiro 29, 2007
Só
Em "Safe", a solidão se traduziu em ódio de si mesmo. Ela não conseguia mais se amar. Terminou desamparada, humilhada. Em "Seul contre Tous", a solidão se manifesta pela revolta. Ele odeia todos os outros. Não odeia a si, mas a sua condição de solitário. Como ele diz, até mesmo quando estamos fazendo amor, estamos sós, completamente sós, imersos em nossos cheiros, tatos e paladares, aprisionados em nossas sensações e pensamentos. A existência é uma puta de uma prisão onde um só pode entrar e da qual jamais sairá vivo, nem morto. Um enamorado contestará: "eu não me sinto só!". "Não precisa sentir para estar", rebateria o personagem. Da mesma forma como há ilusões perceptivas, não poderíamos falar de uma ilusão emotiva? Não estou certo. Aqui parece que a distinção entre ser e sentir desaparece. Sentir-se só implica em estar só e estar só implicar em sentir-se só. Ser e sentir são o mesmo quando se trata da existência. Há o eremita tranqüilo que jamais se sente só na sua companhia. Há também aquele imerso em uma multidão, amado por muitos, nem sabe contá-los todos e, no entanto, está só, sente-se só, não se compreende e não imagina como outros poderiam compreendê-lo. Na base, há o amor. O eremita se divide em eus que podem se amar mesmo na solidão, uma multidão amorosa em um; enquanto o outro, mesmo sendo amado por muitos, por não amar ele mesmo ninguém, não consegue perceber e muito menos sentir o amor de alguém. Sente-se, portanto, só e está, de fato, só.
Para quem se sente só, a vida se torna um grande teste de resistência e paciência.
Para quem se sente só, a vida se torna um grande teste de resistência e paciência.
quarta-feira, janeiro 17, 2007
Match Point
Match Point, do Woody Allen, explora a idéia de que a sorte desempenha um papel fundamental em nossas vidas. A metáfora da rede de tênis usada no início do filme é espetacular. Às vezes, a bola bate no topo da rede e, por um instante, fica suspensa. Ela pode cair do seu lado e você perde ou ela pode cair no campo do seu adversário e você ganha. E a vida é assim cheia de eventos de sorte ou azar. Isso soa como um atentado àqueles que gostariam que a vida estivesse completamente sob o seu controle. Mas é claro que a gente não tem completo controle sobre a vida, a não ser que você e o mundo fossem um só. Não é por outro motivo que temos tanta vontade de poder...O Deus teísta se torna o próprio mundo através da sua masturbação onipotente. Mas aqui neste mundo que não é nosso, que não dominamos, com esses recursos precários e limitados que a natureza nos deu, podemos fazer escolhas de efeito marginal. O grosso da vida, e o que ainda a torna bela, misteriosa e mesmo desejável, é de uma contingência absoluta aos nossos olhos finitos.
Quando eu tinha uns 13 ou 14 anos, uma colega de classe me enviou um bilhete perguntando se eu gostava da M. M era uma sardenta bombardeada pelo foco da minha atenção, objeto de sonhos e desejos que começavam a nascer. Eu respondi, no verso do bilhete, que sim. Essa colega não me viu escrevendo e, quando pegou o bilhete de volta, olhou apenas a parte frontal e fez uma cara de reprovação, tomando o meu suposto silêncio como um não. Depois jogou o bilhete fora. Eu não disse nada. Quando a aula acabou, eu a vi indo na outra sala falar com M. E M nunca veio até a mim e eu nunca fui até a M. Depois eu fui embora daquela cidade e nunca mais vi M.
Quando eu tinha uns 13 ou 14 anos, uma colega de classe me enviou um bilhete perguntando se eu gostava da M. M era uma sardenta bombardeada pelo foco da minha atenção, objeto de sonhos e desejos que começavam a nascer. Eu respondi, no verso do bilhete, que sim. Essa colega não me viu escrevendo e, quando pegou o bilhete de volta, olhou apenas a parte frontal e fez uma cara de reprovação, tomando o meu suposto silêncio como um não. Depois jogou o bilhete fora. Eu não disse nada. Quando a aula acabou, eu a vi indo na outra sala falar com M. E M nunca veio até a mim e eu nunca fui até a M. Depois eu fui embora daquela cidade e nunca mais vi M.
domingo, janeiro 07, 2007
Pés
Gosto de pés, mas não sou um podófilo pronto para lamber e chupar dedos do pé como se fosse um sorvete. Pés macios e delicados eu beijo, contemplo e massageio. Quando a paixão da carne queima dentro de mim e penso no gozo de uma mulher, não imagino seus seios, pernas, órgãos sexuais ou contorcionismos faciais, mas sim a curva orgástica do seu pé. Imagino eles lutando contra paredes, colchas, travesseiros, pernas ou qualquer coisa que sirva de obstáculo a sua expressão. É através do pé que a mulher manifesta melhor a intensidade do seu gozo ou, pelo menos, é assim que eu gosto de ver. Jamais esqueci o pé de uma paixão.
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