sábado, maio 12, 2007

Amargo

Eu não me incomodo de escutar o seu silêncio por horas e dias seguidos. Viveria contigo como um mudo, se fosse a vontade conjunta, mas bem sei eu que você não vive sem uma querela, e creio que nem eu. Afasta o tédio. Mas não suporto a falta de sorriso dos teus olhos diante dos meus. Essa aparência de indiferença acaba tendo um sabor amargo. Meus olhos marejam enquanto os teus parecem secos. Por que? Por que?

Frio vs. Frieza

Por que gosto tanto do frio? Certamente a minha natureza calorenta contribui para esse apreço. Mas a verdade é que eu busco com o frio da natureza camuflar a frieza humana, como se o primeiro me fizesse esquecer a segunda. Tocado e arrepiado pela massa polar, centrado no seu existir, desapercebo a insensibilidade glacial dos que me cercam. A natureza sabe proteger os filhos que tem.

segunda-feira, maio 07, 2007

Violeta

Olhando para baixo. Trilho, trilho, verde grama. Trilho, trilho. Uma violeta ao lado do trilho. Barulho do trem, longe ainda. Trilho, trilho, verde grama. Outra violeta. Lindas violetas contrastando com o trilho desgastado e a grama desigual. Esporádicas e esparsas, no entanto. Ando, ando, ando. Mais uma aqui e outra ali. Barulho mais intenso. Olhando para frente. Visão. Estupefato. Visão, A visão. Vestido curto, pernas alvas e cristalinas, camisa xadrez. E o cabelo, surpresa, violeta como a violeta das violetas.
Sorriso meu na boca.

sexta-feira, maio 04, 2007

Oi

Sei que você é vigiada, repreendida e tolhida por olhares nem tão importantes assim, mas que, no entanto, são olhares próximos dos olhos que te importam. De outro modo, não aceitaria a sua ausência. Ah não, de modo algum. Longe de querer lhe trazer aborrecimentos. Mas eu não me furto a sentir, nem a lembrar e muito menos a dizer aqui o que me vem na veneta. O que eu tenho para lhe dizer hoje? Nada. Só queria que me ouvisse.

terça-feira, maio 01, 2007

Estender

Não era necessário tocá-la. Mas quando vi sua mão se aproximando da minha, não pensei duas vezes. Deixei que meus dedos pousassem levemente sobre os teus, por uma fração de segundo, breve o bastante para que você não percebesse a minha intenção, mas suficientemente duradouro para estender a experiência do tempo, enquanto fechava meus olhos e focava toda a atenção nas minhas sensações táteis, provocando, assim, a sensação de um longo contato contigo.

sábado, abril 28, 2007

Dualidade

E, no entanto, ela chorava por imaginá-lo sofrendo. Não havia culpa em suas lágrimas. Apenas dor, dor por não conseguir corresponder o amor tão perene que ele lhe tinha; ele, o seu amigo, ele, que desde sempre esteve ao seu lado, ele, que estava diariamente atento ao seu bem-estar, ele, que trazia consigo a compreensão dos seus anseios e medos, enfim, ele que, pela lógica da razão, ela deveria amar. Mas não é assim que raciocina o coração. E ele calado sofria. Para ela, externava sempre o seu resíduo de alegria, sem nunca fraquejar. Seu amor a ela nunca impôs. Mas ela sabia, assim como todos da cidade. Por mais que um sorriso ou um abraço da amada pudesse lhe provocar euforia, não há alegria em amar sozinho. Era a ferida que carregava sempre consigo. Havia nos olhos dela muito cansaço. Por anos tentou se vencer pela vontade. Quis muito amá-lo, mas nunca logrou. Entristecia-se ao sentir tão duramente essa limitação. Ela se questionava: "como pode haver algo em mim que não consigo vencer?". E quanto mais ela se perguntava e se esforçava, mais sólida lhe parecia essa resistência, esse atrevimento de um quinhão do seu Eu, que era, ao mesmo tempo, à luz da razão, o seu não-Eu. Mas pode o coração ser menos Eu que a Razão? Claro que não. E para ela não era menos doloroso que para ele. Então ela chorava, enquanto ele sorria em falso.

terça-feira, abril 24, 2007

Cegueira

Sabe, se esse rapaz não for capaz de notar o sol que brilha em teu coração, então ele é cego. Mas sou obrigado a te alertar: algumas pessoas nascem cegas para o amor, outras acabam ficando ao longo da vida.

domingo, abril 22, 2007

Despair

I fall in love
for a moment
before I hit despair
I turn around to see you
another one is there
how the bells of the clock
how the bell do chime
that awful reminder
"you never will be mine"
(Death in June)

quarta-feira, abril 18, 2007

Alfredo

Alfredo se entedia com tudo. Ele se apaixona com a mesma velocidade com que se esquece dos
seus amores antigos. O entediado é movido pela novidade. Outro dia, no ponto de ônibus, Alfredo cresceu os olhos para tentar ver o título do livro que a moça ruiva ao seu lado lia. ``Notas do Subterrâneo''. Humm, pensou. Ainda não tinha reparado em seu rosto. Quando o viu, se sentiu atraído. Ela tinha entre 20 e 24 anos, um nariz pequeno e arredondado, cabelos curtos, acentuando a sua jovialidade e sardas, sardas que desde pequeno Alfredo sempre almejou. Quando o ônibus chegou, esperou que ela fosse na frente, para ter uma visão completa do seu andar. Chamou-lhe a atenção a mochila da faculdade. Nela leu ``Administração''. Ah, pensou desapontado. Então olhou para suas mãos e viu unhas enormes que ele já não gostava tanto. Depois reparou no celular que ela ostentava, pendurado no bolso da calça. Sentou logo atrás dela.
Se sentasse ao lado, teria a chance de lhe falar, mas agora ele só queria observá-la. Alguns minutos depois, ela atendeu o celular. Quem ali estivesse, poderia assistir a mudança gradual da expressão facial de Alfredo de interessado para completamete desinteressado, quando, por fim, ele deixou de reparar na moça para contemplar a paisagem que a janela do ônibus lhe oferecia. Palavras como ``balada'', ``tipo'' foram lhe assassinado o interesse. O novo tornou-se velho. Tédio. Assim segue Alfredo se apaixonando e se desinteressando todos os dias várias vezes ao dia.

terça-feira, abril 10, 2007

Amada

Não seja tímida. Vim de longe para me entregar completamente a ti, para sentir teu sopro gélido sobre a minha nuca. Acorde, já é hora de despertar! Mostre-me do que és capaz. Não suporto mais te ver assim tão aprisionada, temerosa, refém das ações humanas, quando és capaz de sobrepujá-las todas. Solte teu bafo esbranquiçado enquanto inspiro, deixe-me levar-te aos meus pulmões! Tenho um sangue demasiado latino que tu precisas arrefecer. Há semanas que sonho com o teu abraço cristal. Ouso dizer que sou o primeiro a te amar verdadeiramente. Todos aqueles a quem deste a luz se protegem com grossas mantas quando tu te aproximas. Covardes, se refugiam. Não te sentem, não te encaram. Negam a própria mãe. Ainda bem que não nasci de ti. Estou livre para amá-la sem complexos. Diferente dos teus filhos, saio correndo de braços abertos ao teu encontro sempre que tu te mostras. Não fosse o olhar impuro dos homens e o seu poder insano, iria nú te receber. Deixaria que me tocasses por completo. Ah, Curitiba minha, tu és a gaia que eu, investido de eros, vim fecundar. Acorde, já é hora de me receberes.

terça-feira, abril 03, 2007

Jornada

Esse vento forte que me corta a cara e me faz cerrar os olhos, como ele me arde. Só vejo um palmo diante dos olhos. Essas pernas trêmulas que já não me fixam direito no chão. Cansado, envelhecido e com sede neste deserto. Fecho os olhos e sinto sua mão tocando a minha face, deslizando suave sobre os meus lábios. Mordisco-a. Alívio em forma de delírio. Até a lembrança envelhece. Em vão me esforço. O chão me chama, quero deitar, dormir, descansar.

domingo, março 25, 2007

Abraço

Abraço somado. Abraço que eterniza em mim a sensação da sua presença constante. Teu jeito de encantar e produzir sorrisos. Como não lembrar? Foi preciso represar a vontade de hábitos antigos.

terça-feira, março 20, 2007

Pornográfico

Cansei, cansei da minha hipocrisia. A minha capa de formalidade quando falo contigo é falsa, é ilusória, é forjada. Debaixo dela pulsa a minha vontade de conhecer teus lábios, de apertar o seu corpo contra o meu. Pensa que é fácil para mim? Não é não. Hoje resolvi mandar tudo às favas. E daí que você tem um namorado, amante ou sei lá o que? O que eu tenho a ver com isso? Nada. Eu sinto o que eu sinto. Quer mesmo saber o que eu sinto, a verdade nua e rasgada? Eu digo. Não é paixão, não é amor, mas tem carinho no meio. Só no meio, pois nas pontas tem desejo, de um lado e atração, do outro. Tem algum gostar também, sei que tem, ou eu não sentiria essa vontade louca de suprimir com todo o pudor entre quatro paredes. Você me deixa pornográfico.

terça-feira, março 13, 2007

Maroto

Instante extenso. Uma fração de segundos de uma duração penetrante. Cruzei o limiar da porta e te vi. Senti-me golpeado no estômago. Que era aquele sorriso maroto? Sim, você sabe, você nota. Baixei os olhos. Suportaria o teu olhar, mas não pude com o teu sorriso. Pensei em me derramar nos teus braços, mas você se assustaria. Continuas uma incógnita que magnetiza a minha atenção. Não sei nada sobre você além do fato de que és canhota. No entanto, já sei o bastante. Isto basta.

domingo, março 11, 2007

Filo

"Você é um homem das humanas", foi me dito outro dia, questionando minha opção mais recente pelas exatas. O que me levou e me leva às exatas é a oportunidade de me ocupar exclusiva e voluptuosamente com questões externas, questões que não me obriguem a voltar sobre mim mesmo. Embora a filosofia também dê algumas oportunidades assim, ela sempre nos força à reflexão especular. E há momentos em que simplesmente não quero ficar olhando para mim. Quero me ocupar do mundo, oras. Motivo banal e simples. Quando, ao contrário, sinto saudades de mim, vou à procura do leite materno filosofal. Aí sento, leio, penso, escrevo e me sinto aconchegado pertinho de mim.

sábado, março 10, 2007

Amizade

- Você é o meu melhor amigo.
- Por que está me dizendo isso?
- Não sei, queria que soubesse.
- Não diga algo que não possa sustentar no instante seguinte.
- Mas estou certa que posso.
- Eu não.
- Você está seco!
- Realista.
- Mas eu gosto sim de você.
- Para que dizer isso? Há centenas de formas mais interessantes de manifestar a sua estima por mim. A mais pobre delas é essa, pela fala.
- Por que?
- Porque é fácil.
- Ah, então eu teria de me sacrificar para mostrar a você alguma estima?
- Não falei de sacrifício. E se você já vê qualquer ato além da palavra como um sacrifício, então realmente não sabe o que está falando quando diz que sou o seu melhor amigo.
- Você pressupõe que sentimentos são eternos. Se digo agora que você é o meu melhor amigo é porque me sinto assim em relação a você, mas por que deveria sustentar isso para sempre? Sentimentos acabam. Você não disse que é realista?
- Sim, eu disse.
- Então...
- Então que você pode dizer que sou o teu melhor amigo sem precisar sustentar isso para sempre. Mas eu ainda não vejo sentido em que me diga tal coisa, se você não é capaz de
manifestar isso que diz por outras formas além da palavra.
- Você parece querer que as pessoas provem o tempo todo o que sentem.
- Não, não quero. Se sentem, não precisam provar. Naturalmente irão fazê-lo.
- Mas você é mais cético que o normal e o que você espera ser uma manifestação "normal" de um sentimento não é nada normal.
- Talvez você tenha razão.
- Você é o meu melhor amigo sim.
- É...acho que nunca vou saber.

sexta-feira, março 09, 2007

Orgulho

O orgulho que me afasta das pessoas é o mesmo que me mantém vivo. Não ser orgulhoso implica em aceitar safanão, em ser cristão. E eu sou um agnóstico bem resolvido. Mas tenho dúvidas, como sempre. É fraco aquele que abaixa a cabeça para pedir perdão ou, ao contrário, aquele que não consegue fazê-lo justamente por excesso de orgulho? É fraco aquele que permite sangrar o seu EU ou aquele que não consegue se vencer? Depende. Depende. Não reconhecer o erro já beira à burrice. Mas, por outro lado, erro mesmo só há quando você o reconhece como tal. Não vou pedir perdão por erros que me imputam de fora. Uma colherada de orgulho aqui. Perco sim, perco amizades e amores por orgulho. Mas sem ele, eu não iria conseguir me erguer depois de levar uma rasteira. O orgulho é a bengala dos homens-lobo.

quarta-feira, março 07, 2007

Livre

O que algumas pessoas não entendem é que o suicídio só pode ser escolhido genuinamente se o indivíduo não tiver qualquer razão para ele. Verdade, suicídio coagido por razões não é menos suicídio, mas também não é livre. Quem se mata por tristeza ou depressão reconhece que a vida é demais para ela, que a sua fraqueza não suporta as forças vitais que batem em seu peito. Suicídio motivado é uma escolha para fracos. Um suicídio livre não é motivado por razões. Ele é a própria razão, é o fundamento da não-vida, é a aceitação e a escolha da morte como modo de ser. Uma escolha não coagida não pode ser racional. Kant está errado. Ser livre não é agir sempre em conformidade com a razão. O suicida livre, ao contrário, é aquele que tem todas as razões para viver, tem diante de si o êxtase mais sublime das paixões e ainda assim escolhe abraçar a morte. "Por que? Por que?", perguntarão alguns. "Não faz sentido!", dirão outros. Mas é justamente essa questão que não faz sentido para ele. Ele não foi coagido, ele não foi motivado, ele não foi levado. Não há uma razão para ser interrogada e inquirida. Ele apenas escolheu livremente a morte. Ele apenas desnudou seu eu de toda essa casca acidental de razões que só servem, na maioria das vezes, para nos robotizar.

domingo, fevereiro 25, 2007

Alianças

Outro dia estava conversando com uma amiga sobre o uso de alianças e ela me disse que gostava delas para simbolizar o compromisso. Um rito que para ela é agradável respeitar. Esse rito em si eu não respeito, mas posso vir a entender e respeitar a vontade da outra pessoa em querer participar desse rito. Meu amor comporta alguma abnegação. Gente, é sério, eu tenho claustrofobia anular. Tenho pânico dessa coisa entrar no dedo e não sair mais. Quando coloco um anel no dedo, e isso aconteceu pouquíssimas vezes, eu fico girando o anel o tempo todo para constatar que ele não grudou. Outra: eu jamais colocaria essa coisa no meu anular para afastar a falta de confiança. O curitiboca é hilário a esse respeito. Se vangloriam de ser o povo mais familiar, mais nuclear, mais fiel e, para prová-lo, usam alianças de quase 1 cm de espessura. Não estou mentido. Cheguei a levantar a hipótese de que os joalheiros aqui fossem ruins, não soubessem fazer alianças finas e discretas. Mas não, é o curitiboca mesmo que sente prazer em arrotar os seus compromissos, expressando com este ato, ao meu ver, a falta brutal de confiança que tem uns nos outros. Aqui não estão simplesmente participando de um rito, estão sim desesperadamente externando seus medos e desconfianças. Burrice, pois a aliança é completamente ineficaz contra a infidelidade. Diria até que a estimula. O proibido seduz. Para falar a verdade, estou me lixando para a fidelidade. Pouco importa se outras mulheres estão colocando a boca no pinto do seu namorado ou se outros homens estão colocando o pinto na boca da sua namorada. Importa mesmo é se você está sendo sincero consigo mesmo e com aquele que diz amar e respeitar. Só isso.

sábado, fevereiro 24, 2007

Obrigação

Agora que eu não tenho mais compromisso algum com a filosofia, eu posso me dedicar a ela de corpo e alma. Por razão similar, muitos amantes conseguem ser companheiros melhores para as esposas que os seus próprios maridos.

domingo, fevereiro 18, 2007

Lágrima

Eu prefiro a estética da lágrima à estética do sorriso. Um rosto com choro é infinitamente mais belo que um rosto com sorriso. Obviamente, refiro-me ao choro de uma lágrima contida que salta dos olhos involuntariamente, uma lágrima irrefreável, exprimindo uma dor que o sujeito não consegue conter. O choro esganiçado de alguém que tenta multiplicar pelo comportamento uma pequena dor é feio e imoral. O primeiro choro não, ele é sublime, é a expressão de um sentimento autêntico, é a verdade em pessoa. Já o sorriso é traiçoeiro, quase sempre falso. Exprime uma mentira que você gostaria de ouvir. Seduz pela leviandade. Sim, há os verdadeiros, mas é difícil apontá-los.

sábado, fevereiro 17, 2007

PdQ

Queen na vitrola e a mão na massa para preparar aquilo que sei fazer de melhor: pão de queijo. Posso vir a esquecer tudo que aprendi em Minas, durante os 15 anos que lá passei. Posso, com o passar dos anos, deixar de lado as suas interjeições simpáticas como "uai!" e "sô!", mitigar as imagens de Belo Horizonte, que, aliás, nem é tão belo assim, mas jamais me esquecerei do seu pão de queijo. Simplesmente inigualável. Quem já comeu um lá ou um feito pelas mãos de alguém que veio de lá, sabe do que estou falando.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

dfskdjhfkdj

Pessoas que não conseguem ficar sozinhas são pessoas que têm medo de si mesmas, que não querem se encarar. Imagino que temem descobrir que não se gostam. Quem se encara e gosta não teme a solidão. Ao contrário, procura por ela. Para falar a verdade, eu morro de medo de pessoas que não conseguem ficar sozinhas. Elas te sugam demais. E são traiçoeiras também. Eu me sinto mais em paz só do que na companhia dos outros. Há exceções a isso que eu disse, obviamente. Mas é raro, pois depende de um outro que é raro.

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Sentir

Quando a porta se fechou, teve medo. Não do escuro absoluto que incidiu sobre o quarto. Medo sim de se ver forçado cada vez mais a estar apenas consigo mesmo. Sem nada para ver, acabaria se voltando para a visão interna. Tremeu ao pensar em se ver assim tão intuitivamente. No primeiro dia, rastejou pelo chão, lambendo cada centímetro do seu piso. Mergulhou em seu sabor. Por excesso, perdeu o paladar. No segundo dia, bateu palmas, cantou e gritou. Se alguma luz pudesse entrar ali, perceberia as veias saltitando em seu pescoço. Exagerou no agudo e os seus tímpanos sangraram, perdeu a audição. No terceiro dia, rolava pelo chão, esfregava-se com força nas paredes, um tato voraz que parecia querer soldá-lo no concreto. Esmagou nervos, perdeu o tato. No quarto dia, inspirava com toda a força que podia, abrindo as narinas, para captar o cheiro do chão e das paredes. Não suportou a poeira, perdeu o olfato. No quinto dia, já desesperado, forçou bem os olhos. Mas a visão sozinha é impotente sem a luz. Não teve mais como fugir. Olhou-se, enfim, com a sua intuição. Neste instante, uma lágrima cresceu no seu olho esquerdo e desceu pela face, atingindo seus lábios semi-abertos. Mas ele não pôde vê-la, nem senti-la se deslizando sobre a pele. Em sua língua, a lágrima se misturou com a sua saliva sem que ele pudesse notar qualquer diferença, nenhum sabor. Enquanto se olhava, uma vontade crescia em seu peito. Quis se tocar, cheirar seus braços, degustar a pele, ouvir o timbre da sua voz e ver as silhuetas do seu corpo. Mas nada disso era possível agora. Tentou sem resultados. Teve, então, um medo ainda mais paralisante: o de não mais poder se sentir. Compreendeu que não lhe restava mais nada a não ser essa contemplação estática e vazia de si.

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Em "Safe", a solidão se traduziu em ódio de si mesmo. Ela não conseguia mais se amar. Terminou desamparada, humilhada. Em "Seul contre Tous", a solidão se manifesta pela revolta. Ele odeia todos os outros. Não odeia a si, mas a sua condição de solitário. Como ele diz, até mesmo quando estamos fazendo amor, estamos sós, completamente sós, imersos em nossos cheiros, tatos e paladares, aprisionados em nossas sensações e pensamentos. A existência é uma puta de uma prisão onde um só pode entrar e da qual jamais sairá vivo, nem morto. Um enamorado contestará: "eu não me sinto só!". "Não precisa sentir para estar", rebateria o personagem. Da mesma forma como há ilusões perceptivas, não poderíamos falar de uma ilusão emotiva? Não estou certo. Aqui parece que a distinção entre ser e sentir desaparece. Sentir-se só implica em estar só e estar só implicar em sentir-se só. Ser e sentir são o mesmo quando se trata da existência. Há o eremita tranqüilo que jamais se sente só na sua companhia. Há também aquele imerso em uma multidão, amado por muitos, nem sabe contá-los todos e, no entanto, está só, sente-se só, não se compreende e não imagina como outros poderiam compreendê-lo. Na base, há o amor. O eremita se divide em eus que podem se amar mesmo na solidão, uma multidão amorosa em um; enquanto o outro, mesmo sendo amado por muitos, por não amar ele mesmo ninguém, não consegue perceber e muito menos sentir o amor de alguém. Sente-se, portanto, só e está, de fato, só.

Para quem se sente só, a vida se torna um grande teste de resistência e paciência.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Match Point

Match Point, do Woody Allen, explora a idéia de que a sorte desempenha um papel fundamental em nossas vidas. A metáfora da rede de tênis usada no início do filme é espetacular. Às vezes, a bola bate no topo da rede e, por um instante, fica suspensa. Ela pode cair do seu lado e você perde ou ela pode cair no campo do seu adversário e você ganha. E a vida é assim cheia de eventos de sorte ou azar. Isso soa como um atentado àqueles que gostariam que a vida estivesse completamente sob o seu controle. Mas é claro que a gente não tem completo controle sobre a vida, a não ser que você e o mundo fossem um só. Não é por outro motivo que temos tanta vontade de poder...O Deus teísta se torna o próprio mundo através da sua masturbação onipotente. Mas aqui neste mundo que não é nosso, que não dominamos, com esses recursos precários e limitados que a natureza nos deu, podemos fazer escolhas de efeito marginal. O grosso da vida, e o que ainda a torna bela, misteriosa e mesmo desejável, é de uma contingência absoluta aos nossos olhos finitos.

Quando eu tinha uns 13 ou 14 anos, uma colega de classe me enviou um bilhete perguntando se eu gostava da M. M era uma sardenta bombardeada pelo foco da minha atenção, objeto de sonhos e desejos que começavam a nascer. Eu respondi, no verso do bilhete, que sim. Essa colega não me viu escrevendo e, quando pegou o bilhete de volta, olhou apenas a parte frontal e fez uma cara de reprovação, tomando o meu suposto silêncio como um não. Depois jogou o bilhete fora. Eu não disse nada. Quando a aula acabou, eu a vi indo na outra sala falar com M. E M nunca veio até a mim e eu nunca fui até a M. Depois eu fui embora daquela cidade e nunca mais vi M.

domingo, janeiro 07, 2007

Pés

Gosto de pés, mas não sou um podófilo pronto para lamber e chupar dedos do pé como se fosse um sorvete. Pés macios e delicados eu beijo, contemplo e massageio. Quando a paixão da carne queima dentro de mim e penso no gozo de uma mulher, não imagino seus seios, pernas, órgãos sexuais ou contorcionismos faciais, mas sim a curva orgástica do seu pé. Imagino eles lutando contra paredes, colchas, travesseiros, pernas ou qualquer coisa que sirva de obstáculo a sua expressão. É através do pé que a mulher manifesta melhor a intensidade do seu gozo ou, pelo menos, é assim que eu gosto de ver. Jamais esqueci o pé de uma paixão.

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Cabelos Azuis

Fiquei completamente hipnotizado pelo seu cabelo azul celeste. Fosse verde ou laranja, eu nem a teria notado. Minto. Minto. As palavras pontuadas, a dor expressada, o grito inaudível, incompreensível e a paradoxal vontade de viver mesmo diante da desesperança de ser, todos estes sintomas magnetizam a minha atenção. Por que? Não sei. Mas posso confessar uma razão: a semelhança com aquela que, dez anos atrás, erotizou o meu corpo pela primeira vez, com aquela que pulsou violentamente vida em meu coração quando só havia morte no meu olhar. Lhe tenho olhos ternos e distantes. É por isso que eu digo que amor não acaba, mesmo que o relacionamento termine. Esta moça que eu nem conheço recebe agora um pedacinho desse amor em razão do bem transbordante que outra pessoa me fez no passado. Eu a tocaria com lágrimas se pudesse.

Lá e cá.

Ela nasceu aqui e foi para lá. Eu nasci lá e vim para cá. Eu não sei o que ela foi fazer lá. Eu vim para fugir do calor e do passado. Seria irônico se ela viesse para cá justamente quando eu fosse lá. Por poucos dias isso não acontece. Seja por sorte, destino ou mero acaso, o fato é que a geografia nos permitirá agora um esbarrão. É o lá e o cá se mesclando.

terça-feira, dezembro 05, 2006

Opção

Sinto angústia em ter que escolher, pensando em tudo que terei de deixar para trás, sentindo nostalgia dos passados futuros que nunca foram. Optar nunca é leve. Mas não ter o que escolher é muito mais pesado. É o peso de não ter um Eu para negar, é o peso de não ter uma pausa de si. É um excesso e uma falta de Eu ao mesmo tempo.

sábado, dezembro 02, 2006

Novo morador.

(No elevador)
- Você mora aqui faz tempo?
- Sim, desde o início do ano.
- É tranqüilo aqui?
- É sim.
- Mora sozinho?
- Sim.
- Tem muita mulher também? Morando sozinha? (coçando o saco)
- Tem.
- Assim que é bom, né?
- Pois é.

Apesar dos pesares, não notei malícia ou canalhice no seu olhar. Apenas que é homem e é muito jovem.

terça-feira, novembro 28, 2006

Dark Moor

Escutando incessante e repetidamente há dois dias. Passado terno que me abraça na voz doce da vocalista. Estarei sim do seu lado até os últimos dias. Amor verdadeiro é eterno, mesmo que ele mude a sua forma ao longo do tempo.

Your Simphony

I know that you need me
To survive in this world
world of empty words
take my hand and feel me
i i'll be your friend...
forever be

[Bridge:]
In the dephts of wind
could be playing with me
your symphony
Playing on and on
never be alone
sing my song

I stay bu your side, girl,
through the endless hate, my dear,
The rain dissapears
the poison of your life
fills my glass and I...
I drink, I die

[Bridge]

[Chorus:]
You give me the light
all my cold nights
Your fantasy
will me my shymphony

sábado, novembro 25, 2006

Endorfina

Descobri o que estava faltando: endorfina. Correr é algo imponente. Devido ao trabalho realizado, você impacta a terra com alguns quilos a mais, sente-se agente. Devido à inércia, você continua adiante quando nada mais parece fazer sentido, sente-se leve. Devido à endorfina, você seduz e se deixa seduzir, sente-se encantador. Vida desabrochada e relaxada.

sábado, novembro 18, 2006

Safe

Fui dormir com a última cena de Safe (direção de Todd Haynes, para quem se interessar) no peito, engasgando uma angústia na garganta. Buscando desesperadamente sobreviver, ela se olha no espelho e repete várias vezes: "eu me amo, eu me amo, eu me amo...". Neste momento, ela já tinha perdido a compreensão das suas amigas, do seu marido e de todos que estavam a sua volta. Só, completamente só, fechada hermeticamente em um iglu espartano no meio de um deserto. Ali a verdade revelou-se nua e crua: uma pessoa precisa existencialmente do amor próprio quando não recebe nenhum de fora. A luta pela sobrevivência é desesperada, humilhante.

sexta-feira, novembro 17, 2006

Mentira

Não há nada que eu odeie mais que mentiras escarradas na cara. Não é pela mentira, que pode-se até perdoar, afinal, quem não mente? Mas sim por me julgar idiota o suficiente para acreditar nela.

quarta-feira, novembro 15, 2006

Filosofia.

"A filosofia nunca me dará aquilo de que mais sinto falta. (01/02/98)". Continua sendo verdade em (15/11/2006).

sábado, novembro 11, 2006

Palavra

Rousseau era belo, garboso, por isso, sim não há uma seqüência lógica aqui, dotou a natureza humana de bondade. Quem sorri sempre vê o lingínquo ideal como próximo. Hobbes era feio, ressentido, viveu trancafiado em uma masmorra por mais de década e só pôde olhar gelidamente para a parca humanidade que via em seu espelho. Olhos frios que apalpam a realidade áspera. Há dias em que acordo hobbesiano, com um gosto amargo na boca, achando que as pessoas só falam para magoar e exercer o sadismo. Escavam a alma com gargalhadas diabólicas. Sabe, palavras são armas letais e poucos se dão conta disso. Nem todos estão aptos a usá-las. Nem todos deveriam usá-las.

sexta-feira, novembro 03, 2006

I

Infinito
ilimitado
iluminado
intrépido
ímpeto
imortal
incoerência

iso
i igualdade
in
i irreverente


i individual
i isolado
i interrogador
i invertido
!

Belo i que me dá as mãos, que me olha sorrindo com sua lágrima flutuante. I que flecha o peito.
Ininteligível!

sábado, outubro 28, 2006

Superfantástico

Superfantástico amigo!
Que bom estar contigo
No nosso balão!
Vamos voar novamente
Cantar alegremente
Mais uma canção

Tantas crianças já sabem
Que todas elas cabem
No nosso balão
Até quem tem mais idade
Mas tem felicidade
No seu coração

Sou feliz, por isso estou aqui
Também quero viajar nesse balão!!

Superfantástico!
No balão mágico,
O mundo fica bem mais divertido!!

Superfantásticamente!
As músicas são asas da imaginação
É como a flor e a semente
Cantar que faz a gente
Viver a emoção

Vamos fazer a cidade
Virar felicidade
Com a nossa canção

Vamos fazer essa gente
Voar alegremente
No nosso balão!

Sou feliz, por isso estou aqui
Também quero viajar nesse balão!!

Superfantástico!


Lembro da minha emoção ao entrar no estádio para ver a turma do balão mágico. Eu, então, com 7 ou 8 anos. Emoção sim, taquicardia, pernas trêmulas, olhar compenetrado e sonhos infantis de um encontro que nunca aconteceu. Eu estava apaixonado e não era pela Symony. Sempre achei ela sem graça, patricinha, esnobe. Eu gostava era da Luciana, com seus cabelos cor de mel, meiga e doce. Poucos se lembram dela. Sua participação era míngua e eu sofria muito com isso. Aliás, hoje ela consegue ser mais anônima do que eu no Google. Incrível. Podem pesquisar, Luciana Benelli, três ou quatro entradas no máximo. Mas era dela que eu gostava e são delas os movimentos sobre o palco que me lembro agora ao escutar Superfantástico.

domingo, outubro 15, 2006

Vizinha

A minha vizinha trocou de roupa. Ontem ela vestia um gordinho simpático, porém ciumento. Era visível pelo modo como a agarrava quando nos encontrávamos no elevador. Ele tinha um carro branco. Hoje ela veste um lutador de jiu jitsu, magro, másculo, óculos escuros, sabe, desses com cara de pegador. Carro preto e esportista. Eu levei um susto quando, ao sair para o trabalho, topei com a leve notável mudança. Ela era tão apaixonada, sempre roçando o gordinho...havia, ainda há, uma placa na sua porta: "aqui mora uma família feliz". Uma família cambiante, é verdade.

A vida é um amontoado de flashes. Deus parece que se esqueceu de contratar alguém para juntar essas fotos esparsas em um filme com movimento. Ou ele existe, mas passa numa velocidade muito rápida ou muito devagar para percebermos.

sábado, outubro 14, 2006

Bred


Pertencia ao meu irmão, mas era mais amado pelo meu pai. Sim, ele morreu, já faz algumas semanas. Gosto de lembrar da sua alegria em brincar de pega-pega ou do modo faceiro com que ele vinha pedir um pão de queijo. Por essa iguaria, ele sorria. Triste cão. Teve uma vida solitária como a de todos da minha família. E ontem eu me debulhava em lágrimas no cinema assistindo Valentin, vendo uma criança dando tanto amor, quando não lhe davam nenhum. E hoje fiquei pensando em quão distantes estão as pessoas que eu mais gostaria de abraçar. Venha, venha Bred lamber meu rosto!

sábado, outubro 07, 2006

Coincidências

Uma coincidência é uma coincidência. Duas coincidências são duas coincidências. Mas três ou mais coincidências não são três ou mais coincidências; são um sinal do destino, ao menos na perspectiva do esperançoso. É quando o mundo deixa de ser, aos seus olhos, apenas mundo e passa a ser também vida vivida. Mas sem esperança, infinitas coincidências serão sempre infinitas coincidências e o mundo, sem sinais e magia, se enche de vidas mortas, de eus que se esbarram mecanicamente sem qualquer propósito.

segunda-feira, outubro 02, 2006

Trampolim

Eu gosto deste, escrevi para uma pessoa que amei muito, anos atrás.

O beijo trampolim

Amar também é beijar
Um beijo sem fim
Um beijo que não quer terminar
Um beijo trampolim

Saltita daqui
Saltita dali
Vai pulando o beijo
De beijo em beijo

Um nasce do outro
Um pede o outro
Num desejo transfim
Eis o beijo trampolim!

Gosto dele por me fazer lembrar da alegria transbordante de um amor genuíno. Por me fazer pensar também em quão especial deve ser uma pessoa para que ela mereça o meu amor. É verdade, posso não escolher quem eu amo, mas posso escolher a quem dou o meu amor. E eu só vou dá-lo novamente a uma pessoa que, como na época em que escrevi esse poema, me faça sentir pleno. Menos que isso eu dispenso.

sábado, setembro 30, 2006

Sonho

Tema e Variações

Sonhei ter sonhado
Que havia sonhado.

Em sonho lembrei-me
De um sonho passado:
O de ter sonhado
Que estava sonhando.

Sonhei ter sonhado...
Ter sonhado o que?
Que havia sonhado
Estar com você.
Estar? Ter estado,
Que é tempo passado.

Um sonho presente
Um dia sonhei
Chorei de repente,
Pois vi, despertado,
Que tinha sonhado.
(Bandeira).

Um dia sonhei despertado. De repente, chorei. Pois vi, lúcido, que não estava dormindo.

domingo, setembro 24, 2006

Eterno

Tenho memórias de amor que nem deus seria capaz de me tirar. Elas estão tão presentes no meu fluxo consciente que só fabricando um outro completamente diverso do que sou se poderia eliminá-las. O paradoxal delas é que, às vezes, me arrancam sorrisos, noutras, lágrimas. É a diferença entre lembrança e nostalgia, entre lembrar e querer viver a lembrança. E, por favor, querer viver a lembrança não tem nada a ver com querer reviver a lembrança, é a diferença entre nostalgia e saudades.

sábado, setembro 23, 2006

Primavera

Tem gente que aniversareia e fica mais velho. Eu não; eu fico mais novo. Meu corpo pode putrefar, mas minha alma só rejuvenesce. Não é por outro motivo que nasci junto com o desabrochar da primavera. Todo ano ela vem até a mim com o seu beijo vital, enlaçando a criança que pulula em meu peito. Durmo com ela e acordo com o desejo infantil de viver.

quinta-feira, setembro 21, 2006

Livro

E teve a experiência do deja vu. Por alguns instantes, eu tive a certeza de que o livro que eu ganhei hoje eu havia dado de presente para uma pessoa especial no passado. Era como se a natureza estivesse a me retribuir de volta o carinho de outrora em igual medida. Todavia, eu me enganei, cheguei a pegar o livro azul na livraria, mas acabei dando outro.

Livro

um livro azul veio parar hoje em minhas mãos, ganhado de maneira azulada. Abro ele, folheio, escolho uma página aleatoriamente, e invariavelmente encontro uma sensação azul. Hoje tudo é azul, inclusive o meu sorriso.

quarta-feira, setembro 20, 2006

Melancia

Ficar duas semanas sem falar com o próprio pai, e quando, por alguns instantes, sua voz aparece, ela é mesclada com o barulho de uma melancia degustada; boca que mastiga e balbucia, um diálogo de jornal recortado, nonsense. Quando a atenção finalmente se manifesta, é para exaltar os ganhos financeiros de outro filho. A vida é assim, há dias em que o ar é leve, noutros, pesado, como se estivesse a respirar chumbo.

quarta-feira, setembro 13, 2006

Tempo

Quando estava ocioso, o tempo não passava e, nesses momentos de tédio, era como se a vida estivesse congelada. O nó na garganta que chamamos de "angústia" é, em alguns casos, causado por essa paralisia vivencial, por essa percepção de que só a identidade reina absoluta no mundo, livre de qualquer mudança. Agora, atarefado, o tempo passa ligeiro. Mas, de maneira semelhante, às vezes também dá sensação de uma vida congelada. É tanta coisa para se fazer que a vida mesmo parece ficar em modo stand by, como se, de fora para dentro, nos colocassem no piloto automático. Então eu me pergunto. Quando é que realmente vivemos o tempo? Quando o ócio é criativo e quando o amor toca no peito. Só então somos livres para voar.

sábado, setembro 09, 2006

Escolhida



Eu a escolhi e, em retribuição, ela me descortinou um horizonte de possibilidades. Foi amor à primeira vista. Vida que se desdobra a cada metro percorrido. Enfim uma terra onde vejo espelhada a minha alma. É como se eu tivesse nascido aqui.

domingo, setembro 03, 2006

Gavetas

Algumas gavetas mnemônicas são trancadas por chaves musicais. Elas se abrem ao toque da melodia correta e jorram o seu conteúdo como se fossem caixas de pandora. Depois de muitos anos, escutei hoje It's a hard life, do Queen, e logo na minha frente apareceu vivamente a sardentinha que ocupou, lá no início da adolescência, dois anos das minhas batidas cardíacas. E ainda me lembro como se fosse agora seu toque em meu braço enquanto desenhava o seu nome sobre ele. Azar o meu que isso tenha acontecido no último dia de aula. Quando voltamos das férias, meu nome já não era mais uma melodia para ela. Ainda assim, sem qualquer esperança concreta (a razão naturalista para sermos capazes de sonhar é justamente essa, possibilitar a esperança, ainda que ilusória), eu desejei ser aquele que contaria as suas sardas a noite inteira, aquele que tocaria seus lábios. It's a hard Life, oh yes.

domingo, agosto 27, 2006

Ventos

Os ventos hoje me trouxeram a boa notícia de uma amiga que está a amar e ser amada. É um ar fresco que infla meus brônquios enchendo meu peito de esperença e sorriso. É um cheiro que afaga o meu rosto e me faz voltar a face para o futuro. É um tato que me empurra para frente. E eles balançam meus cachos com doçura.

quarta-feira, agosto 23, 2006

Seleção

Um pingo de imagem sobre a retina, e os olhos brilham, acordam; um toque suave sobre a pele, e um arrepio sobe pela coluna; uma onda sonora esbarrando nos tímpanos, e uma paz dançando pelo corpo; um odor entrando pelas narinas, e lembranças pipocando na tela mental; um sabor deslizando pela língua, e um formigamento pelo corpo, pelo sexo. A maravilha da seleção natural ao nos dotar de sentidos não foi tanto nos propiciar um meio de obter informações sobre o meio circundante, foi antes a de nos dar essa ponte mágica que nos leva do eu ao outro e do outro ao eu e do eu ao eu. Sem isso, jamais nos adaptaríamos ao mundo das relações.

segunda-feira, agosto 21, 2006

Psique

"A energia de Psique se perde sem a luz do encontro com Eros" (Algum poeta).

É por isso que eu corro ao seu encontro, no tempo e no espaço, para lhe salvar a vida, e a minha também.

sexta-feira, agosto 18, 2006

Venusiana

Outro dia olhava para as estrelas quando vi que uma delas piscava. Mas não era bem uma estrela e sim Vênus. Fiquei intrigado, pois ele piscava de maneiria incomum, com regularidade. Passei a observá-lo noites seguidas, até perceber que os intervalos luminosos seguiam o padrão do código morse. Qual não foi, então, a minha surpresa quando li, no céu estrelado, o chamado, "Eros, estou observando você". Esfreguei os olhos, mas quando os abri, percorri outra seqüência luminosa, que dizia, "Não se assuste, Eros, já faz tempo que eu o acompanho". Pensei que estivesse ficando doido. No entanto, depois de mais algumas interações, notei que os seres de Vênus podiam ler meus pensamentos. E assim passei a dialogar com o planeta todas as noites. Na verdade, não era com o planeta, mas com uma venusiana. Fiquei encantando com as coisas que ela falava sobre mim, vendo-me lá de cima. Certa vez, ela me disse que sempre sonhara em me dar as mãos nas minhas caminhadas solitárias e que um dia desejou ser a luz para se projetar sobre mim, quando me viu pensativo sobre as gramas do Botânico. Outro dia eu perguntei a ela se a distância não era um empecilho para o nosso amor e ela me respondeu mais ou menos assim: "Tolinho, pense bem. A distância pode até diminuir a força gravitacional, mas é impotente para aniquilar com ela. E olha que, entre as forças físicas, ela é a mais fraca, a menos significante. Acha então que a distância poderia fazer algo contra a mais intensa das forças metafísicas?". Mesmo assim eu chorava por não poder abraçá-la e ela me consolava dizendo para eu jamais deixar de sonhar, que, se eu o fizesse, aí sim deixaria de ser possível o que desejava. E como sonhei e como ainda sonho ser resgatado pela minha namorada venusiana.

quinta-feira, agosto 17, 2006

Sou um ateu que acredita fervorosamente na possibilidade do amor. Eu não preciso ter vivido um amor de cem anos, nem estar amando para acreditar que posso vivenciar um encontro efetivo, assim como um cristão não precisa de qualquer evidência para abrir o seu peito à graça divina. Eu simplesmente abraço o mundo com essa vontade transcendente de amar, mesmo que ele jamais venha a me corresponder.

Natureza

Quando ele acordou do seu sonho azul, entristeceu-se com a possibilidade de a realidade ser cinza. Mas depois pensou que poderia acordar deste pesadelo. Por fim, percebeu que não importa se está em vigília ou dormindo. Em suas veias, flui a esperança, em seu peito, bate a força aliterativa do t, e o vento que lhe penteia os cachos vai lhe abrindo o caminho para o futuro. A natureza há de levá-lo para um bom lugar.

quarta-feira, agosto 16, 2006

Azul

Apesar de o céu ter amanhecido acinzentado, o que, nestes tempos de estiagem e racionamento, é extremamente desejável, eu estampei no peito, em franca rebeldia, um azul celeste. Não precisei da luz solar para me iluminar, todo o eu já estava radiante.

terça-feira, agosto 15, 2006

Homeoteleutos

Homeoteleutos, eu já vos conhecia, mas não com este nome. Agora que vos vejo, meus olhos matam a fome.
Quero para mim a força aliterativa do t esbravejada no "Eu te amo".
Quero agradecer às palavras fônicas o conhecimento que me sibilaram

Amar

Dormir e acordar com um brilho nos olhos, por ter em quem pensar, cumprimentar o mundo, por saber que ela o habita, envolver-se com os braços, para sentir a sua pele, andar correndo, por estar sempre indo ao seu encontro, abrir os olhos para vê-la, fechar os olhos para vê-la novamente, sorrir muito, transbordar amor, por saber que ela existe, respirar sempre fundo, para inspirar a sua presença. No mundo que vislumbro, faremos assim. Em meu mundo, eu sou assim.

segunda-feira, agosto 14, 2006

Abundante

O amor universal cristão era possível para Cristo, pois, por suposição, ele era/é onipotente. Com uma atenção ilimitada, ele podia/pode amar a todos igualmente. Mas a mensagem que ele nos deixa ao morrer na cruz, por amor a nós humanos, é clara: não deixe a sua atenção ociosa e nem a desperdice em vão. Como seres finitos, temos uma obrigação ainda maior de gerir os nossos recursos amorosos com maior preocupação e diligência. A vontade de amar jorra abundante no mundo que vislumbro.

sexta-feira, agosto 11, 2006

Pães

Simplicidade. Gosto de ir comprar pães na padaria. Ver o sorriso de olhos esverdeados da atendente. Ela retribui em igual media o cumprimento aberto que lhe dou.

quarta-feira, agosto 09, 2006

Curitiba

Quando a minha mãe disse que achava muito difícil andar pelas ruas de Curitiba como pedestre, em virtude da falta de sinalização, o que eu concordo, o escroque do seu primo carioca, que aqui mora há mais de dez anos, disse: "sim, é verdade, mas só esse povo pobre, humilde anda à pé.". Essa resposta ele já não deu mais como carioca e sim como curitibano. Eu sinto um cheiro de esnobsimo no ar desta cidade. Evidentemente, não falo da totalidade, falo do típico, que nem precisa ser a maioria, basta que seja representativo.

domingo, agosto 06, 2006

Sorriso

Algumas experiências são impagáveis e indeléveis. O sorriso feliz de alguém que mata as saudades ao lhe ver é uma delas. Nove anos atrás eu desembarcava em Brasília para receber um sorriso assim, contagiante, envolvente, que tinha a capacidade de me fazer sentir completamente vivo, conectato ao mundo. São alguns poucos segundos de existência física que se prolongam por uma eternidade, que transbordam em sentido. Eu me sinto agraciado por ter visto um dia os olhos de um ser humano brilhar.

sábado, agosto 05, 2006

Espera

Nunca espere absolutamente nada de outro ser humano. Deixe-o completamente livre. Se, ainda assim, ele lhe der algo, será genuíno. Espere menos para sofrer menos também.

sexta-feira, agosto 04, 2006

Amor

Eu nunca disse que era cristão. Amor e afeto devemos dar e eu procuro dar, mas amor e afeto eu não distribuo universalmente. Quem a todos ama, em verdade, não ama ninguém. Sem diferenciação, o amor é tão vazio quanto a palavra "ser". O motivo é simples. Não existe amor sem atenção e a atenção, entre humanos, é um recurso finito e escasso. Se você diz que ama a todos, então doa uma atenção que tende a zero, isto é, não dá atenção alguma. Se isto é amor, é um bem vazio. Amor genuíno requer atenção e, uma vez que você a distribui, limita a quantidade de pessoas que pode amar. Eu dispenso o amor de uma pessoa que não pode me dar atenção alguma. Não, definitivamente, isso não é amor.

domingo, julho 30, 2006

Valor

O valor de uma pessoa é medido pela quantidade de memórias que existem atualmente dela. Não me refiro às memórias históricas, mas às memórias emotivas, presentes nas mentes das pessoas. Por isso, cuide para que você mesmo esteja sempre em seu coração. Se não estiver impresso no coração de mais ninguém e nem no teu, então não tens valor; é como se não existisse. Exerça a bondade, ame-se, pois só assim poderá amar o outro. Se você se abandonar, perderá a chance de ter algum valor.

sexta-feira, julho 28, 2006

Avante

A verdade é que eu sou um futurista otimista e um contemporâneo pessimista. Miro o futuro com olhos esperançosos e interpreto o presente com lentes turvas.

quinta-feira, julho 27, 2006

Esperança

Uma vez eu disse que, sem esperanças, nos tornamos bestas. Mas talvez não seja assim tão ruim ser uma besta. Muito pelo contrário. Quem não espera, não se frustra, não sente dor, não sofre. Não falo evidentemente da dor física. A vida bestial é infinitamente mais suportável. Observem. Alguém já viu um animal não-humano arquear a coluna por causa do peso de seu futuro? Não! Mas entre nós, simetria perfeita não há. Todos nós temos algum problema de coluna, por menor que seja. Ao que acham que isso se deve? Sabe, tenho medo que a minha musculatura fique exageradamente enrijecida com todos esses chutes que me dão ou que eu sinto estarem a me dar sem parar, dia após dia. Não faz muita diferença se dão ou não. Esse est percipi, já dizia o filósofo. Como, como então arrancar do peito toda essa esperança que transborda em mim e que me pune e me fustiga diariamente?

quarta-feira, julho 26, 2006

Morte

Algumas pessoas morrem para doar a própria vida, outras pessoas doam a própria vida para morrer.

segunda-feira, julho 10, 2006

Vento

Eu corro para sentir o toque suave e gelado do vendo sobre a minha face. Depois de avaliar bem o caminho, fecho os olhos, por alguns poucos segundos, para me concentrar nesta sensação. É como uma mão doce a me acariciar. Não é quente como a humana, mas é terna e envolvente. É o afago da mãe natureza.

domingo, julho 09, 2006

Culpa

É preciso muita força de vontade para expurgar-se de todos os pensamentos ruins. A natureza humana falhada é um golpe natural contra a virtude. O caminho que preciso percorrer ainda é muito longo. Mesmo não vendo, no horizonte, qualquer chegada, continuarei firme. Mas hoje senti que me desviei um pouco da rota. Angustiei-me. Ouço os violoncelos de Bach e é como se eles não estivessem contentes comigo. O som está áspero, corta-me a carne, a alma.

sábado, julho 08, 2006

Só se sente só quem alimenta a sua própria solidão. Só se sente só quem espera que alguém venha assisti-lo. Ora, mas se você já tem um espectador fiel, disponível 24 horas do dia, compreensivo e íntimo, por que depositar tanta ansiedade em uma assistência externa inconstante, ausente, estranha e truculenta? Rodopeie os ouvidos e os olhos em 180 graus e assista o seu próprio espetáculo. Dê-se o alento, o carinho e a atenção de que precisa. Sim, reuna forças, pois é mais fácil lamentar e se ruir sobre a fraqueza. Não seja um fraco tentando conquistar a atenção alheia pela compaixão. Não se humilhe. Simplesmente seja, exista para si e em si.

Sentido

Ontem me perguntaram o que eu fiz ao longo da minha vida toda. Essa é uma pergunta que atordoa, pois inicialmente ficamos tentados a buscar na memória grandes feitos e, não os encontrando, corremos o risco de julgar a própria vida sem sentido. Resolvi, então, indagar o que são grandes feitos. Realizações que, por um motivo ou outro, são elegíveis ao registro histórico? Três ou dois mil anos atrás, atos heróicos em uma batalha eram elegíveis ao registro histórico. Alexandre, Cézar e Átila são por isso lembrados. Hoje tais atos não são mais elegíveis, muito embora, em qualquer batalha moderna, ainda haja um ou outro a agir brava e heroicamente. Em uma sociedade centrada no conhecimento, descobertas científicas são mais elegíveis ao registro histórico. Sim, hodiernamente, um grande feito seria descobrir uma vacina para a AIDS, unificar a física quântica e a da relatividade ou solucionar alguns dos problemas matemáticos formulados por Hilbert no século passado. Não há, assim, grandes feitos em absoluto. Natural que seja assim. Feitos há aos montes e qualquer vida terrena realiza vários deles. "Grande", "pequeno" ou "insignificante" são adjetivos que lhes iremos aplicar conforme a nossa ordem de valores. Minha vida é insignificante se procurar nela realizações científicas de grande feitura. Nem eu busco engrandecê-la com tais realizações. Por outro lado, minha vida está longe de ser insignificante aos meus olhos se a julgo como uma busca por humanização. A busca por um sentido é incessante, mas há tantos recortes possíveis que encontrar um sentido único e preciso é tão difícil quanto não encontrar nenhum. Com olhos bem abertos, cada um pode encontrar o seu caminho. E eu não preciso de holofotes sobre mim para merecer a luz do sol.

sábado, julho 01, 2006

Atenção

Todos estão cansados de saber o quanto essa cena é freqüente, essa que narrarei logo em seguida. Mas saber é uma coisa, perceber o seu impacto emocional, é outra. Quem a vê, sente melhor o quanto essa situação é ruim. Lá estavam eles desfrutando o almoço. Ela tinha olhos meigos e carentes. Olhos de quem se sentia constrangida. Olhava para o prato, comia, olhava para o marido, mas, como este não a olhava, ela procurava, ao redor, pessoas que estivesse percebendo a sua falta de atenção. Assim ela me viu algumas vezes. Este ciclo repetiu-se durante uns quarenta minutos. O tempo inteiro permaneceram calados. Mas ele não falava por ter o silêncio como hábito. A razão do seu silêncio era uma atenção muito bem dirigida. Logo acima dele, havia uma televisão, onde passava um jogo de futebol. Não, não era um jogo do Brasil e, se fosse, também não justificaria o seu comportamento. Ele impassível, ela envergonhada. E eu me perguntava, como, como não dar atenção gratuitamente, sem esforço, mas com prazer, a quem lhe quer e que supostamente você ama?

sábado, junho 24, 2006

Virtual

Cansei de ser um nick, um contato, um e-mail, um endereço, um blog, uma página, um link, uma mensagem, um amontoado de palavras em uma tela, um par de olhos em uma outra. Ser apenas tudo isso é muito pouco. No entanto, é mais fácil lidar com um ser que é apenas tudo isso. É mais domésticável, é mais olvidável, é mais guardável, é mais postergável, é, enfim, mais apagável. Nunca a existência foi ao mesmo tempo tão múltipla e efêmera.

quinta-feira, junho 22, 2006

Eco

Pensava que a maior bairreira entre mim e as pessoas fosse a timidez. Mas não é. Embora eu a tenha em grande medida, consigo enfrentá-la. Domino-a, quando necessário. Mesmo tremendo por dentro, arrisco-me, ofereço a face para que a vida a esbofeteie, se lhe aprouver. A maior barreira é o meu silêncio. E a sua causa não é a timidez. Não, há coragem suficiente para me pôr a falar. A causa do meu silêncio externo é o meu silêncio interno. Simples falta do que dizer. Sou, por isso, um excelente ouvinte.

domingo, junho 18, 2006

Nascimento

Minha mãe diz que praticamente não chorei ao nascer. A verdade é que eu estava ansioso para observar o mundo e meus berros seriam um obstáculo. Fiquei ali, em silêncio, observando aqueles que me observavam, buscando absorver ao máximo a nova realidade que me impactava; sintonizava cada um dos meus canais perceptivos no que tinham para me ofertar. Deslumbrei-me com o mundo. Mas esta escolha fundamental que eu fiz, ao nascer, teve conseqüências. Naquele instante, fixei a minha atitude mais de observador e menos de agente diante do mundo. Escolhi a percepção em detrimento da ação. Sim, é verdade, preciso agir para potencializar a minha percepção. Mas o seu máximo demanda apenas um mínimo de ação. Tivesse eu urrado ao nascer, tivesse eu me deslumbrado não com o mundo, mas com a minha força, com a minha vontade, eu seria hoje uma pessoa completamente diferente. Eu não lamento. Os dois modos de ser, quando vividos intensamente, são autênticos. Mas eu me escolhi, ali, naquele instante em que nasci.

sábado, junho 17, 2006

Separação

Discussões não combinam com parques. Mas eles discutiam. Preocupado com a resposta que ela lhe daria até segunda-feira, ele fazia visível resistência para acompanhá-la. Ela, por outro lado, não queria perder o ritmo da sua caminhada. A resistência dele foi o sinal que ela precisava para perceber que ele já não mais a acompanhava em nada, muito menos em uma simples caminhada. Naquele instante, ela se decidiu e resolveu lhe antecipar a resposta: estava tudo terminado. Ele tentou protestar, mas já era tarde. A vida é assim, cheia de situações com pequenas causas que se transformam em grandes efeitos.

terça-feira, junho 13, 2006

Humanidade

Pessoas vivendo próximas umas das outras, atadas por laços de sangue, às vezes se cuidam menos que pessoas distantes sem parentescos. Meu tio mora em uma cidade habitata por pelo menos mais dois de seus irmãos e alguns sobrinhos. Mas ninguém percebeu a gravidade do seu quadro, a sua provável demência. Em seu quarto, foram encontrados vários ratos mortos em estado de putrefação, com os quais ele convivia. Doces espalhados por todo lado. Ele era diabético. Mas ninguém viu, ninguém viu... Não falo isso para culpar alguém. Falo isso apenas para me lembrar que posso frequentemente ser uma dessas pessoas que não vê o que se passa ao redor, que devo tentar ser mais humano.

domingo, junho 11, 2006

Sonho

Às vezes, o passado brota do nada. Desta vez, ele veio na forma de um sonho. Estávamos juntos novamente. Ela parecia feliz, eu também. Nossos corpos estavam sedentos, se enlaçavam e se sorviam. Mas havia em seu rosto uma indecisão, como se tudo aquilo fôsse efêmero. Eu olhava fundo em seus olhos, mas não conseguia obter resposta alguma. Então nos afundávamos na sensação. E, por mais prazeroso que fosse, me angustiava. Acordado, passei o resto do dia olhando para trás.

Vocês

Onde quer que vocês estejam, eu penso em cada um de vocês, desejando-lhes o melhor. Sim, vocês que eu mantenho vivos em minhas memórias, vocês que estarão sempre comigo, vocês que, em algum momento, deram-me uma fração de sua existência, de seu olhar, de sua atenção. Com cada um de vocês pude sentir o que é saborear a vida. Por mais longe que estejam no tempo e no espaço, estarão sempre em mim, vivos através da minha vivência. Esquecer de vocês equivaleria a esquecer-me, a esquecer de todas as vezes em que pude me ver pelo reflexo ocular. Ter um passado é uma dádiva.

quarta-feira, junho 07, 2006

Tio

Enquanto o meu pai relatava o estado deplorável em que ele foi encontrado, eu fazia um esforço enorme para evocar as melhores lembranças que tenho dele. Eis que me vejo, então, com a cabeça para o lado de fora da sua Brasília, tomando vento na cara e rindo grande. Aquele teto solar era o deleite dos seus sobrinhos. Ele sempre sorrindo e fazendo graças. Endurecia a barriga e pedia para que o socássemos o mais forte possível. "Nem Hulk pode comigo!", dizia ele. Impossível chupar uma bala de mel e não lembrar das que ele nos dava. Sempre tinha uma no bolso. Nunca vi um átomo de maldade em seu coração.

sábado, junho 03, 2006

Jonathan

Jonathan, Jonathan que foi abusado e abandonado na infância, Jonathan que teve uma mãe esquizofrênica; mãe que se tornou esquizofrênica em um longo tratamento a base de choques. Jonathan, Jonathan que era gay, que me faz lembrar do meu irmão: bonito, inteligente e exageradamente sensível. Sensibilidade que os deixa sempre oscilando entre o desespero profundo e a criatividade explosiva. Assistam Tarnation.

quinta-feira, junho 01, 2006

Carência

Jamais esquecerei o retrado da carência humana no rosto daquela dona de casa. Suas palavras foram mais ou menos assim: "Tudo que eu idealizava, mas nunca encontrava no mundo e pensava que não poderia existir, eu encontrei aqui, na herbalife. Hoje eu sou uma pessoa completa.". Completa na ilusão.

terça-feira, maio 30, 2006

Olhos

Hoje um vizinho com o qual falei apenas duas vezes veio me pedir para acompanhá-lo amanhã num jantar de formatura de um curso. Disse-me que pediu à irmã e ela negou, pediu a um amigo e ele negou. Pediu a outros vizinhos e eles negaram. Ele não precisava ter me falado de todas essas negativas, eu já tinha visto em seus olhos que era importante para ele não ir sozinho. Mas ninguém se dignou a olhar para os seus olhos. Eu olhei, então eu vou.

sábado, maio 27, 2006

Decisão

A decisão tem uma face, um rosto? Tem si, eu a vi ontem. Não era a minha, mas a de outrem. Ela veio ao meu encontro vagarosamente. A decisão transformadora é lenta. Ela carece deste tempo para solidificar a sua firmeza. A decisão é também completamente interna. Eu vi isso enquanto olhava para ela, indiferente ao mundo. Ou melhor, indiferente ao mundo físico, mas intensamente imersa no seu mundo vivido. Era um olhar cego para fora e vivo para dentro. Por que olhar para si, ao decidir? Ora, para se sentir através do que vê. A decisão é emocional. No rosto daquela mulher eu pude ver que a sua vida estava sendo assistida. Como se assim ela pudesse sentir como retomá-la em suas mãos. Não decide quem não se escuta.

quarta-feira, maio 24, 2006

Menino

Durmo olhando para o menino que ainda sou. Sempre achei difícil me desgarrar do passado e, quando posso, tento resgatá-lo para o presente. É o medo da perda. Mas é pelo medo da perda que acabo me perdendo. É no presente, no espelho que devo me encontrar.

segunda-feira, maio 22, 2006

Espelho

Sou um espelho que não se vê, mas por meio do qual outros podem se ver.

Outros

Outros aparecem em cena e eu submerjo novamente no limbo. Por que agimos de modo tão egoísta? Os outros pela indiferença, eu por reclamar da indiferença.

Barco

Um barco que navega sozinho e se conserta sozinho, mesmo em alto-mar. Ele não precisa de uma direção, já que não carece de porto algum. Seu único destino é navegar. Vasculhar os mares que o mundo lhe oferece. Talvez ele os percorra todos, talvez não. Enfrentará tempestadas e aprenderá a suportá-las. É possível que venha a desejar desafiá-las. Sente melhor o seu casco quando a água bravia tenta cortá-lo ao meio. A sombra da destruição é o meio pelo qual ele ascende à vida. Passará por mares calmos e aprenderá também a suportá-los. Ali, quase sem vento, correrá o risco de se esquecer. A sombra da permanência é o meio pelo qual ele ascende ao esquecimento e à morte. Para sair daí só remando com a sua própria força. E assim navegará, sempre. Devo me satisfazer com esta imagem?

quarta-feira, maio 17, 2006

Fluxo

Pode-se viver uma vida inteira em alguns poucos instantes. É desumano. É humano. Pode-se passar uma vida inteira sem viver um instante sequer. É humano, é desumano.

terça-feira, maio 16, 2006

Certeza

Certezas são como represas que por mais bem reforçadas que estejam jamais poderão imepedir a força explosiva de águas incertas. Medos minam a mais bela das certezas. Tenho visto isto e sentido o seu efeito.

segunda-feira, maio 15, 2006

Presença

Não consigo me libertar dessa imagem que consome todos os meus pensamentos, todas as minhas sensações. Há uma outra presença em mim que não sou eu. Não se trata agora de algo que vi ou observei. É mais forte, é mais intenso, é mais real. Não posso dizer que a percebi, pois está além dos meus cinco sentidos, mas sim, eu a sinto. Está bem aqui dentro de mim.

domingo, maio 14, 2006

Surpreso

Uma imagem sem imagem. Não a via, para dizer a verdade, mas podia sentir seus dedos e seu olhar curioso sobre o que há de mais etéreo e verdadeiro sobre mim. Eu lhe respondia com sorrisos que ela também não podia ver, embora estivesse em posição vantajosa. Quando nos despedimos, fui embora ainda surpreso, sem encontrar uma razão para aquelas pupilas tão penetrantes. O que ela teria visto e como o teria visto? De qual ângulo me percebe? Senti-me como um quadro mais belo do que seria capaz de pintar.

quarta-feira, abril 26, 2006

Mary Jane

Sim, era uma Mary Jane embrutecida. Os traços não eram tão delicados, mas tinham a mesma forma. Era o tipo de mulher que trocaria o namorado de dois anos por uma paixão de fim de semana sem qualquer remorso ou sofrimento. Mulher de desejos e interesses, desumana e maligna. Percebi isso enquanto a via comendo impassível. Ainda assim, cativou os meus olhos com a sua lembrança externa de Mary Jane.

segunda-feira, abril 10, 2006

Nojo

Aquele nariz empinado só servia para exibir a sua frescura. A abrobinha era meticulosamente raspada, repelindo, em seguida, a sua casca. Olhos indignados, ofendidos. Como ela, uma princesa, ogra, para falar a verdade, poderia estar sendo submetida àquela refeição? Indignado fiquei eu.

quarta-feira, abril 05, 2006

Rostos

No meio daquela balburdia, entre rostos que não são vistos, saltaram diante de mim aqueles olhos ternos. Desta vez, estavam com uma moldura preta, mais grossa, mas, nem por isso, menos delicada. Foram breves segundos, mas suficientes para que o seu rosto se destacasse da multidão e eu pudesse mirar em teus olhos e ela nos meus.

sábado, abril 01, 2006

Passadas

Rápidas passadas, toda de preto, balzaquiana. Suprimia as baforadas do cansaço com um semi-sorriso. Seus óculos escuros me impediram de perceber onde seus olhos pousavam. A música no seu fone de ouvido era alta, pude ouvi-la, mas não identificá-la. Sempre rápida, decidida.